Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 28 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 27

 

Elizabeth olhava fixamente a parede nua, sem estucar e com salpicaduras de cimento seco. sentia-se perdida. A parede não lhe estava dizendo nada. Eram as nove da manhã, e a obra já estava invadida por homens com casco, jeans cansados, camisas a quadros e botas de montanha. Pareciam um exército de formigas enquanto foram daqui para lá carregando a ombros toda classe de materiais. Suas exclamações, risadas, canções e assobios ressonavam no armação de cimento que era o hotel vazio do alto da colina, ainda pendente de ser cheio com idéias surtas da cabeça da Elizabeth. Os ruídos retumbavam como trovões pelos corredores até chegar ao que seria a zona reservada para os meninos.

No momento só era uma pálida lona branqueada que ao cabo de umas poucas semanas estaria cheia de meninos pulando na sala recreativa, enquanto que fora de seus limites haveria um remanso de paz. Elizabeth se disse que possivelmente teria que ter tirado o som as paredes. Não tinha nem idéia do que deveria acrescentar a aquelas paredes para que as caritas dos meninos se iluminassem com um sorriso quando entrassem ali nervosos e desgostados ao ver-se separados de seus pais. Sabia quanto terei que saber sobre canapés, telas de plasma, chãos de mármore e madeiras de qualquer classe. Lhe dava bem o chique, o funky e o sofisticado e também tinha mão com os salões que irradiavam esplendor e grandeza. Mas nenhuma dessas coisas emocionaria a um menino, e ela se sabia capaz de contribuir algo mais que os sabidos jogos de construção, quebra-cabeças e sacos de feijões.

Era consciente de que tinha todo o direito de contratar a um muralista, pedir aos pintores da obra que se ocupassem das paredes e até de solicitar um pequeno conselho ao Poppy, mas Elizabeth desfrutava fazendo as coisas pessoalmente. Gostava de abstrair-se em seu trabalho e não queria ter que pedir ajuda a ninguém. Desde seu ponto de vista, lhe passar o pincel a outro constituía um sinal de derrota.

Elizabeth alinhou dez botes de cores primárias no chão, abriu as tampas e deixou junto a eles os pincéis. Estendeu um lençol branco sobre o chão e, depois de assegurar-se de que os jeans que só ficava como roupa de trabalho não tocariam em nenhum momento o chão, sentou-se com as pernas cruzadas em meio da habitação e ficou a olhar a parede. Mas tudo o que lhe ocorria era que não podia pensar em outra coisa que não fora Saoirse. Saoirse, que ocupava em sua mente cada segundo de cada dia.

Ao cabo se perguntou quanto tempo levava sentada ali. Recordava vagamente ter visto uma série de operários que entravam e saíam da habitação, recolhiam suas ferramentas, e observavam desconcertados como olhava a parede nua. Teve a sensação de estar padecendo um bloqueio de escritor em versão desenhista de interiores. Não lhe acudiriam idéias, não poderia criar imagens e, assim como a tinta se seca na pluma, a pintura não fluiria de seus pincéis. Tinha a cabeça cheia de... nada. Era como se seus pensamentos se refletissem naquela insípida parede recém engessada que provavelmente estivesse pensando as mesmas coisas que ela.

Notou uma presença a suas costas e se deu meia volta. Benjamim estava na soleira.

—Perdão, teria chamado, mas —levantou as mãos— não há porta.

Elizabeth lhe dedicou um sorriso de bem-vinda.

—Admirando meu trabalho?

—Você tem feito isto? —Elizabeth se voltou de novo de cara à parede.

—Acredito que é meu melhor trabalho —afirmou Benjamin. E ambos a contemplaram em silêncio.

Elizabeth suspirou.

—Não me está dizendo nada.

—Ah. —Benjamin deu um passo para o interior da habitação—. Não se figura quão difícil resulta criar uma obra de arte que não diga nada de nada. Sempre há alguém que tem alguma aula de interpretação, mas com isto... —encolheu-se de ombros—, nada. Sem comentários.

—Um signo de verdadeiro gênio, senhor West.

—Benjamin —lhe piscou os olhos o olho—. Não paro de lhe pedir por favor que me chame Benjamin; faz que pareça meu professor de matemática.

—De acordo, você pode seguir me chamando senhorita Egan.

Quando Elizabeth se voltou de novo para a parede, ele alcançou a ver de soslaio, pela contração de sua bochecha, que a jovem sorria.

—Acredita que existe alguma possibilidade de que aos meninos goste desta habitação tal como está? —perguntou esperançada.

—Hummm —pensou Benjamin em voz alta—, possivelmente lhes divertiria jogar com os pregos que se sobressaem do rodapé. Não sei —admitiu—. Se equivocou ao me perguntar a mim sobre meninos. São como outra espécie para mim. Não tenho com eles uma relação muito estreita.

—Eu tampouco —disse Elizabeth entre dentes com ar de culpabilidade, pensando em sua incapacidade para conectar com o Luke como o fazia Edith. Embora desde que conhecia o Ivan tinha descoberto que lhe dedicava mais tempo a seu sobrinho. Aquela manhã passada no campo com o Ivan e Luke tinha marcado o começo de uma nova etapa para ela, embora quando estava a sós com o Luke ainda não conseguia soltar-se. Era Ivan quem obtinha que saísse à luz a parte infantil de si mesmo.

Benjamin ficou em cuclillas e apoiou uma mão no chão poeirento para equilibrar-se.

—Vá, isso não me acredito nem em brincadeira. Você tem um filho, não?

—Não, não, o que vai... —começou a dizer Elizabeth e logo se calou—. É meu sobrinho. Adotei-o, é verdade, mas se houver algo que não entendo neste mundo são os meninos.

Hoje em dia soltava algo cada vez que abria a boca.

Sentiu falta de à a Elizabeth que sabia manter uma conversação sem desvelar o menor detalhe sobre si mesmo, mas ao parecer de um tempo a esta parte tinham aberto as comportas do coração e as coisas saíam correndo dali com impulso próprio.

—Vá, pois parecia ter uma idéia bastante aproximada do que queria seu sobrinho no domingo pela manhã —disse Benjamim em voz baixa, olhando a de outra maneira—. Passei de carro perto de vocês enquanto brincavam de correr por aquele campo.

Elizabeth pôs os olhos em branco e sua pele cítrica se sonrosó.

—Você e o resto do povo, conforme parece. Mas isso foi idéia do Ivan —se apressou a acrescentar.

Benjamim riu.

—Sempre dá todo o mérito ao Ivan?

Elizabeth ficou a pensá-lo, mas Benjamin não aguardou sua resposta.

—Suponho que nesse caso terá que ficar aqui sentada tal como está e colocar-se no lugar dos meninos. Saque partido para essa imaginação sua tão prodigiosa. Se fosse um menino, o que gostaria de fazer nesta habitação?

—Além de sair e me fazer major em seguida?

Benjamin voltou a ficar de pé.

—Quanto tempo tem previsto ficar na grande urbe de Baile na gGroíthe? —perguntou Elizabeth em seguida. Calculou que enquanto ele ficasse ali conversando, ela não teria que reconhecer ante si mesmo que pela primeira vez em sua vida não sabia o que fazer com uma habitação.

Benjamin, percebendo as vontades que tinha de conversar, sentou-se no chão imundo e Elizabeth teve que se separar de sua mente a imagem de milhões de ácaros do pó arrastando-se sobre seu corpo.

—Meu plano é partir assim que se deu a última mão de pintura nas paredes e o último prego tenha sido parecido.

—Salta à vista que está perdidamente apaixonado por este lugar—disse Elizabeth com sarcasmo—. Não lhe impressionam as espantosas vista panorâmicas do Ferry?

—Sim, as vistas estão bem, mas já levo seis meses vendo formosas paisagens e o certo é que me conformaria podendo tomar uma taça de café aceitável, poder escolher entre mais de uma loja de roupas e poder andar pela rua sem que todos me olhem fixamente como se me tivesse escapado de um zoológico.

Elizabeth se pôs-se a rir. Benjamin levantou as mãos.

—Não é com ânimo de ofender nem nada, Irlanda é fantástica, mas não me entusiasmam os povos pequenos.

—A mim tampouco... —O sorriso da Elizabeth se desvaneceu ao pensá-lo—. Então, de onde escapou você?

—De Nova Iorque.

Elizabeth sacudiu a cabeça.

—Não é acento de Nova Iorque o que ouvem meus ouvidos.

—Não, pilhou-me; sou de um lugar que se chama Haxtun, em Avermelhado, seguro que o ouviu mencionar. É muito conhecido por um montão de coisas.

—Por exemplo?

Benjamin arqueou as sobrancelhas.

—Absolutamente nada. É um villorrio em um terreno semidesértico exposto à erosão do vento, um assentamento estável de bons granjeiros com uma população de mil almas.

—Não gostava daquilo?

—Não, eu não gostava de nada —disse ele com firmeza—. Poderia dizer-se que sofria claustrofobia —adicionou com um sorriso.

—Sei o que se sente —disse Elizabeth assentindo com a cabeça—. Se parece com o daqui.

—É um pouco como aqui, sim. —Benjamim olhou pela janela. Então se relaxou—. Todo mundo te saúda o passar. Não têm a mais remota idéia de quem é, mas lhe saúdam.

Elizabeth não se deu conta disso até então. Imaginou a seu pai no campo, com a boina lhe sombreando a cara, levantando o braço em forma de L aos carros que passavam.

—Saúdam nos campos e pela rua —prosseguiu Benjamin—, granjeiros, anciãs, meninos, adolescentes, recém-nascidos e assassinos em série. E estudei esse costume até elevar a à categoria de arte. —Os olhos lhe faiscaram ao olhá-la-os condutores ainda lhe saúdam elevando o índice por cima do volante ao te cruzar com seu carro. Caray, acabaria saudando as vacas se não fosse com cuidado.

—E as vacas provavelmente lhe saudariam sua vez.

Benjamin riu a gargalhadas.

—Alguma vez pensou em partir? —perguntou.

—Fiz algo mais que pensá-lo. —O sorriso da Elizabeth se esfumou—. Eu também fui a Nova Iorque, mas tenho compromissos aqui —disse apartando a vista com rapidez.

—Seu sobrinho, verdade?

—Sim —respondeu Elizabeth em voz baixa.

—Bom, o de viver em um povo pequeno tem uma coisa boa. Todos sentem saudades quando não está. Todos se dão conta, olharam-se de marco em marco.

—Suponho que tem razão —disse Elizabeth—. Embora não deixa de ser irônico que, com a intenção de nos isolar, ambos mudássemos a uma grande cidade onde estávamos rodeados por mais gente e mais edifícios dos que tínhamos visto jamais.

—Estraga. —Benjamin a olhava sem pestanejar. Elizabeth foi consciente de que ele não via sua cara; estava absorto em seu próprio mundo. E por um momento pareceu estar em efeito perdido—. Enfim —espetou saindo do transe—, foi um prazer voltar a conversar com você, senhorita Egan. Elizabeth se sorriu por sua maneira de dirigir-se a ela.

—Melhor será que vá e a deixe olhando a parede um momento mais. —Ao chegar à soleira se deteve e se voltou—. Ah, por certo —a Elizabeth lhe encolheu o estômago—, sem a menor intenção de incomodá-la, digo-lhe isto do modo mais inocente possível. Gostaria que ficássemos fora do trabalho? Resultaria agradável conversar com uma pessoa de idéias afins para variar.

—É obvio.

Gostou daquele convite informal. Nada de expectativas.

—Seguro que conhece os melhores sítios do lugar. Seis meses atrás, estando recém-chegado, cometi o engano de perguntar ao Joe onde estava o bar de sushi mais próximo. Tive que lhe explicar que era pescado cru, e me indicou o modo de chegar a um lago que fica como a uma hora daqui em carro e me aconselhou que perguntasse por um tipo que se chama Tom.

Elizabeth se pôs-se a rir. O som de sua risada, que ultimamente estava começando a lhe resultar familiar, levantou um eco na habitação.

—É seu irmão, o pescador.

—Pois isso, adeus.

A habitação ficou vazia outra vez e Elizabeth se enfrentou ao mesmo dilema. Pensou no que Benjamin havia dito a propósito de que usasse sua imaginação e ficasse no lugar de um menino. Fechou os olhos e imaginou o alvoroço de meninos chiando, rendo, chorando e brigando. O ruído dos brinquedos ao chocar, o agito dos piececitos no chão durante as infantis carreirinhas, os golpes surdos dos corpos ao cair, um silêncio pasmado e logo soluços. viu-se si mesmo como uma menina sentada só em uma habitação, sem conhecer ninguém, e de repente lhe ocorreu o que teria desejado.

Um amigo.

Abriu os olhos e viu um cartão no chão a seu lado, embora a habitação estava vazia e silenciosa. Alguém tinha que ter entrado subrepticiamente enquanto tinha os olhos fechados e a tinha deixado ali. Recolheu o cartão, que apresentava o rastro digital negra de um polegar. Não lhe fez falta lê-la para saber que era o novo cartão de visita do Benjamin.

Possivelmente esse exercício de imaginação tinha dado resultado depois de tudo. Ao parecer, acabava de fazer um amigo no quarto de jogar.

Assim que se teve metido o cartão em um bolso traseiro, esqueceu-se do Benjamin e seguiu contemplando as quatro paredes.

Nem por essas. Ainda não lhe ocorria nada.