Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 36 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 35

 

A senhora Bracken estava ante a porta de sua loja com outras duas mulheres de idade que, como ela, sustentavam nas mãos sendos partes de tecido. Ao ver a Elizabeth ficou boquiaberta e adotou uma expressão de repulsa. As três estalaram a língua com desaprovação ao contemplar o passo lento da jovem cujos cabelos, terminados com grumos de pintura, roçavam-lhe as costas criando um bonito efeito multicolorido.

—perdeu a presilha ou o que? —cochichou sem baixar a voz uma das mulheres.

—Não, mas bem ao contrário. —Elizabeth notou por sua voz que a senhora Bracken sorria—. Diría que a esteve procurando quatro patas.

As mulheres produziram com a língua novos estalos de censura e se retiraram murmurando que Elizabeth não era quão única tinha perdido a presilha.

Fazendo caso omisso do olhar fixo da Becca e do grito do Poppy «Assim eu gosto!», Elizabeth entrou decidida em seu escritório e fechou a porta com suavidade a suas costas, deixando todo o resto fora. Apoiou as costas contra a porta e tentou explicar-se por que tremia tanto. Que demônios tinha surto em seu interior? Que monstros tinham despertado de seu sonho para escapar borbulhando através de sua pele? Inalou profundamente pelo nariz e exalou devagar contando uma, duas e três vezes até que seus debilitadas joelhos deixaram de tremer.

Tudo tinha ido bem, por mais que resultasse embaraçoso, enquanto caminhava pelo povo com o aspecto de haver-se metido em um bote de pintura das cores do arco íris. Tudo tinha ido bem até que Ivan havia dito algo. O que havia dito...? Havia dito... E então o recordou e um calafrio lhe sacudiu todo o corpo.

O pub Flanagan'S. Sempre evitava o pub Flanagan's, havia-lhe dito. Não se tinha dado conta até que ele o assinalou. por que o fazia? Pelo Saoirse? Não, Saoirse bebia no pub Camel's Hump, na estrada da colina. ficou apoiada contra a porta devanándose os miolos até que começou a enjoar-se. A habitação dava voltas e decidiu que tinha que ir-se a casa. A sua casa, onde controlava o que acontecia, quem podia entrar, quem podia sair, onde cada coisa tinha seu sítio e tudas as lembranças estavam claras. Necessitava ordem.

—Onde está seu saco de feijões, Ivan? —perguntou Malmequer me olhando desde sua cadeira de madeira grafite de amarelo.

—Ora, já me cansei que isso —respondi—. Agora meu assento favorito são as cadeiras giratórias. —Que bem —assentiu Malmequer com aprovação.

—Opal se está atrasando muito —disse Tommy limpando-se com o braço o nariz que não lhe parava de escorrer.

Malmequer apartou a vista com asco, alisou seu lindo vestido amarelo, cruzou os tornozelos e balançou seus sapatos brancos de verniz e os meias três-quartos com volantes cantarolando a canção do cantarolo.

Olivia fazia ponto em sua cadeira de balanço.

—Estará ao cair —disse com aspereza.

Jamie-Lynn se aproximou da mesa de centro e agarrou um pão-doce de chocolate Frise Krispie e um grande copo de leite, mas lhe deu um ataque de tosse e se derramou o copo de leite pelo braço. Nem curta nem preguiçosa, limpou-a a lametones.

—estiveste jogando outra vez na sala de espera do médico, Jamie-Lynn? —perguntou Olivia fulminando-a com o olhar por cima da arreios de seus óculos.

Jamie-Lynn assentiu com a cabeça, voltou a tossir em cima do pão-doce e lhe deu outra dentada.

Malmequer enrugou o nariz com repugnância e seguiu desenredando o cabelo de seu Barbie com um peinecito.

—Já sabe o que te disse Opal, Jamie-Lynn. Esses sítios estão cheios de bactérias. Esses brinquedos com os que tanto você gosta de jogar são a causa de que esteja doente.

—Já sei —disse Jamie-Lynn com a boca ainda enche—, mas alguém tem que fazer companhia aos meninos enquanto esperam a visita do doutor.

Transcorreram vinte minutos e por fim Opal chegou. Todos cruzaram olhares de preocupação. Parecia como se a sombra do Opal tivesse substituído à autêntica Opal. A diferença de outras vezes, não entrou flutuando na sala como uma baforada de ar fresco; era como se a cada passo que desse levantasse com os pés pesados cubos de cimento. Outros se calaram imediatamente ao ver a nuvem de cor azul escura, quase negro, que entrou com ela.

—Boa tarde, amigos.

A voz do Opal soava diferente, como surda e retida em outra dimensão.

—Olá, Opal —bisbisearon os pressente com cautela, como se um pouco mais forte que um sussurro pudesse derrubá-la ao chão.

Opal lhes dedicou um tenro sorriso agradecendo seu apoio.

—Alguém que foi meu amigo durante muitíssimo tempo está doente. Muito doente. vai se morrer e me dá muita pena perdê-lo —explicou.

ouviram-se murmúrios compassivos. Olivia deixou de balançar-se, Bobby deixou de mover adiante e atrás seu skate, as pernas de Malmequer deixaram de balançar-se, até o Tommy deixou de sorvê-los mucos e eu deixei de dar voltas em minha cadeira. Aquilo era sério e o grupo conversou sobre o que se sente ao perder a um ser querido. Todos o entendíamos, porque isso ocorria de contínuo com os amigos íntimos, e cada vez que ocorria, a tristeza era a mesma.

Não pude participar da conversação. Todas e cada uma das emoções que alguma vez tinha sentido pela Elizabeth se juntaram e formaram um entupo em minha garganta, como um coração palpitante que, ao receber mais e mais amor a cada momento, dilata-se e se torcedor de orgulho. O nó que tinha na garganta me impedia de falar, ao igual a meu coração aceso me impedia de deixar de amar a Elizabeth.

Para o final da reunião Opal fixou a vista em mim.

—Ivan, como vão as coisas com a Elizabeth?

Todos me olhavam. Consegui encontrar em minha garganta um buraco minúsculo pelo que filtrar algum som.

—Dei-lhe tempo até manhã para que entenda uma coisa.

Pensei no semblante da Elizabeth e o coração me pulsou mais depressa e se inchou, e aquele buraco diminuto na obstrução de minha garganta se fechou.

E sem que ninguém estivesse à corrente de minha situação, todos compreenderam que minhas palavras significavam «já fica pouco». Pela urgência do Opal ao recolher suas pastas dando por concluída a reunião, supus que ocorria o mesmo em seu caso.

Elizabeth dava pesados passos sobre a cinta sem fim situada de cara ao jardim traseiro de sua casa. Contemplou as colinas, os lagos e Montes que se estendiam diante dela e ficou a andar mais depressa. Logo arrancou a correr; os cabelos lhe ondeavam à costas, a frente lhe brilhava, os braços se moviam ao compasso das pernas e se imaginava, tal como fazia cada dia, que corria além das colinas, até o outro lado do mar, longe, muito longe. Ao cabo de meia hora de estar correndo sem mover do sítio se deteve, saiu do pequeno ginásio ofegando e ato seguido ficou a limpar, esfregando furiosamente superfícies que já resplandeciam.

Assim que teve asseado a casa de cima abaixo, tirando todas as telarañas e limpando qualquer rincão escuro e escondido, começou a fazer o mesmo com os rincões lôbregos de sua mente. As telarañas e o pó se assentaram neles e à maturação já estava preparada para liberar os de impurezas. Algo tentava arrastar-se fora daquela escuridão e ela estava em disposição de ajudá-lo a aparecer. Basta de fugir, sentou-se à mesa da cozinha e contemplou a campina estendida ante sua vista, colinas retozonas, cerque e lagos unidos por um fino encaixe de fúcsia e montbretia. O céu se escurecia mais cedo com a chegada de agosto.

Pensou comprido e tendido sobre isto e aquilo, deixando que o que a inquietava tivesse ocasião de sair das sombras e mostrar-se. Era a mesma sensação tão fastidiosa da que fugia quando tombada na cama tentava dormir, a sensação que combatia limpando a casa com frenesi. Mas agora estava sentada à mesa como uma mulher que se rendesse com as mãos em alto frente a sua própria arma, permitindo que seus pensamentos a prendessem. Tinha sido como um criminoso fugitivo que levasse muito tempo fugindo.

—por que está sentada às escuras? —perguntou com doçura uma voz.

Elizabeth esboçou um sorriso.

—Só estou pensando, Luke.

—Posso me sentar contigo? —perguntou Luke, e Elizabeth se odiou por ter vontades de dizer que não—. Não direi nada nem tocarei nada, lhe prometo —acrescentou isso o menino.

Aquilo lhe partiu o coração. Tão malote era realmente? Sim, sabia que sim.

—Vêem te sentar —sorriu retirando a cadeira que tinha ao lado.

Ambos guardaram silêncio na cozinha às escuras até que Elizabeth falou.

—Luke, há certas coisas sobre as que deveria falar contigo. Coisas que deveria te haver contado antes, mas... —retorcia-se os dedos tratando de decidir com supremo cuidado de que modo se expressaria. Quando era menina quão único queria era que a gente lhe explicasse o que tinha ocorrido, aonde tinha ido sua mãe e por que. Uma simples explicação lhe teria economizado anos de atormentadoras dúvidas.

Luke a olhou com seus grandes olhos azuis de largas pestanas; tinha rosadas as bochechas gordinhas e o lábio superior brilhante pela destilação incessante do nariz. Elizabeth se pôs-se a rir e lhe aconteceu a mão pelo cabelo de um loiro quase branco e a posou na cálida nuca do menino. —O caso —prosseguiu Elizabeth— é que não sabia como lhe dizer isso —A mí sí —exclamó Luke encantado.

—É sobre minha mamãe? —perguntou Luke balançando as pernas sob a mesa de cristal.

—Sim. Faz bastante que não nos visita, embora certamente já te terá dado conta.

—foi-se à aventura —disse Luke alegremente.

—Bom, não sei se pode chamar-se assim, Luke. —Elizabeth suspirou—. Não sei aonde foi, coração. Não disse nada a ninguém antes de partir.

—A mim sim —exclamou Luke encantado.

—O que?

Elizabeth abriu muito os olhos e o pulso lhe acelerou.

—Veio para casa antes de ir-se. Disse-me que partia, mas que não sabia por quanto tempo. E eu lhe disse que isso era uma espécie de aventura e ela riu e disse que sim.

—Disse-te por que? —sussurrou Elizabeth surpreendida de que Saoirse tivesse tido a compaixão de dizer adeus a seu filho.

—Estraga —assentiu Luke chutando o ar mais depressa—. Disse que era o melhor para ela, para ti e para o avô, porque não deixava de fazer as coisas mau e fazia zangar a tudo ao mundo. Disse que ia fazer o que sempre lhe havia dito que fizesse. Disse que ia partir daqui.

Elizabeth conteve o fôlego e recordou que estava acostumado a dizer a sua irmã pequena que partisse quando as coisas ficavam um pouco feias em casa. Recordou que quando empreendeu viagem por volta da universidade contemplou a seu hermanita de seis anos e lhe repetiu uma e outra vez que partisse. Todas aquelas emoções lhe taparam a garganta.

—E você o que disse? —conseguiu articular Elizabeth acariciando o cabelo fino do Luke e sentindo, pela primeira vez em sua vida, umas entristecedoras vontades de protegê-lo a toda costa.

—Disse-lhe que certamente tinha razão —respondeu Luke com total naturalidade—. Me disse que já era um menino maior e que agora me tocava cuidar de ti e do avô.

A Elizabeth lhe saltaram as lágrimas.

—Isso disse? —perguntou afogando o pranto.

Luke levantou a mão e lhe enxugou as lágrimas com delicadeza.

—Bom, não se preocupe —acrescentou ela. Beijou a mão do Luke e o estreitou entre seus braços —, porque serei eu quem cuida de ti, de acordo?

A resposta do menino soou amortecida ao ter a cabeça apertada contra o peito de sua tia. Elizabeth o soltou em seguida para lhe deixar respirar.

—Edith estará a ponto de voltar —disse Luke emocionado depois de fazer uma profunda inspiração—. Morro de vontades de ver o que me trouxe.

Elizabeth sorriu, tentou recuperar a compostura e pigarreou para esclarecê-la voz.

—Podemos apresentar-lhe ao Ivan. Crie que lhe cairá bem?

Luke fez uma careta.

—Parece-me que não será capaz de vê-lo.

—Não podemos guardá-lo só para nós, Luke —disse Elizabeth rendo.

—Bom, pode que Ivan nem sequer siga aqui quando ela volte —comentou Luke.

O coração da Elizabeth pulsou com força.

—O que quer dizer com isso? Há-te dito algo?

Luke negou com a cabeça.

Elizabeth suspirou.

—Vamos, Luke, que esteja muito unido ao Ivan não significa forzosamente que vá abandonar te, sabe? Não quero que tenha medo de que isso ocorra. Eu estava acostumado ao ter. Estava acostumado a pensar que todas as pessoas que amava sempre acabariam partindo.

—Eu não me partirei.

Luke a olhou com afeto.

—E eu te prometo que tampouco irei a nenhuma parte. —Deu-lhe um beijo na cabeça e pigarreou —. Sabe essas coisas que você e Edith fazem juntos, como ir ao zoológico e ao cinema, coisas assim?

Luke assentiu com a cabeça.

—Você gostaria que de vez em quando lhes acompanhasse?

Luke sorriu contente.

—Sim, seria muito guay. —Refletiu um instante—. Agora somos quase iguais, verdade? Que minha mamãe parta é um pouco como quando o fez a tua, não? —perguntou. Empanou com o fôlego a mesa de cristal e escreveu seu nome com o dedo.

Elizabeth ficou geada.

—Não —respondeu secamente—, não tem nada que ver. —levantou-se da mesa, acendeu a luz e ficou a esfregar o mostrador—. São pessoas completamente distintas, não é nem muito menos o mesmo.

A voz lhe tremia enquanto esfregava freneticamente. Ao levantar a vista para ver como reagia Luke percebeu seu próprio reflexo no cristal do estufa e se parou em seco. Adeus à compostura, adeus às emoções, parecia uma mulher poseída escondendo-se da verdade, fugindo do mundo.

E então soube.

E as lembranças que espreitavam nos rincões escuros de sua mente começaram a reptar muito lentamente para a luz.