Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 32 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 31

 

Elizabeth estava sentada ao pé da escada e olhava pela janela o jardim dianteiro. O relógio de parede marcava as sete menos dez. Ivan nunca tinha chegado tarde até então e confiou em que estivesse bem. Não obstante, nesse momento sua irritação superava em muitos graus sua preocupação por ele. A conduta do Ivan na sábado de noite lhe dava pé a pensar que sua ausência se devia mais à falta de interesse que ao jogo sujo. A véspera tinha passado o dia inteiro pensando no Ivan, em que não conhecia seus amigos, a sua família ou a seus companheiros do trabalho, pensando na ausência de contato sexual e, a altas horas da noite, enquanto pugnava por conciliar o sonho, deu-se conta do que era o que tinha estado tentando ocultar-se a si mesmo. Acreditou saber qual era o problema: ou Ivan já estava comprometido em uma relação ou não queria iniciar uma.

Ela tinha feito caso omisso das recorrentes duvida que a tinham assaltado. Resultava insólito que Elizabeth não fizesse planos, que não soubesse o futuro de uma relação. Por conseguinte, aquela mudança tão radical a curvava. lhe gostavam da estabilidade e a rotina, coisas das que Ivan carecia. Bom, agora estava segura de que o seu não sairia bem, enquanto, sentada na escada, aguardava a chegada de um espírito livre, tal como fazia seu pai. E nunca comentava seus temores com o Ivan. por que? Porque quando estava com ele até o mais pequeno temor se dissipava. Ivan aparecia de improviso, agarrava-a da mão e a conduzia a outro emocionante capítulo de sua vida, e embora em ocasiões ela se sentia relutante a segui-lo, freqüentemente apreensiva, com ele nunca estava nervosa. Era quando estava sem ele, em momentos como agora, quando o punha tudo em tecido de julgamento.

Resolveu imediatamente que ia distanciar se dele. Aquela noite falaria com ele de uma vez por todas. Eram como a água e o azeite; a vida da Elizabeth estava cheia de conflitos e, por isso ela sabia, Ivan corria como alma que leva o diabo com tal de evitá-los. Enquanto os segundos passavam assinalando que o atraso de seu amigo era já de cinqüenta e um minutos, Elizabeth se disse que depois de tudo possivelmente não precisasse ter aquela conversação com ele. Seguia sentada ao pé da escada com suas novas calças e blusa informais cor nata, um tom que nunca se teria posto antes, e se sentiu idiota. Idiota por lhe escutar, por lhe acreditar, por não interpretar os sinais corretamente e, o que era pior, por apaixonar-se por ele.

Embora a irritação tampava sua pena, quão último estava disposta a fazer era ficar só em casa e permitir que esta aflorasse. Elizabeth era perita nesses lances.

Agarrou o telefone e marcou.

—Olá, Benjamin, sou Elizabeth —disse bastante depressa, para não dar-se tempo a dar marcha atrás—. Gostaria que saíssemos esta noite a tomar esse sushi que temos pendente?

—Onde estamos? —perguntou Ivan enquanto caminhava por uma rua pavimentada e pouco iluminada de uma zona deprimida do Dublín. Os atoleiros abundavam no chão irregular de um bairro que consistia principalmente em armazéns e naves industriais. Uma casa de tijolos vermelhos se erguia solitária em meio desses edifícios.

—Essa casa se vê estranha, tão isolada —comentou Ivan—. um pouco solitária e como desconjurado.

—Aí é aonde vamos —disse Opal—. O dono dessa moradia se negou a vender sua propriedade às empresas vizinhas. ficou aqui enquanto os novos locais saíam como cogumelos.

Ivan olhou a velha casa.

—Arrumado a que lhe ofereceram um bom pico. Certamente teria podido comprar uma mansão nas colinas de Hollywood com o que lhe pagavam. —fixou-se nas salpicaduras que sua sapatilha vermelha Converse causou ao pisar em um atoleiro—. decidi que os paralelepípedos são meu pavimento favorito.

Opal sorriu e depois emitiu uma leve gargalhada.

—Ai, Ivan, é tão fácil te querer... Sabe, verdade? —Seguiu caminhando sem aguardar uma resposta. Tão melhor, já que Ivan não sabia de certo.

—O que estamos fazendo? —perguntou por enésima vez desde que tinham saído do escritório. achavam-se frente à casa, ao outro lado da rua, e Ivan reparou em que Opal observava a moradia.

—Aguardar —respondeu Opal com calma—. Que horas são?

Ivan consultou seu relógio de pulso.

—Elizabeth se zangará muito comigo. —Suspirou—. Acabam de dar as sete.

Justo então se abriu a porta principal da casa de tijolo. Um ancião se apoiou contra a ombreira da porta, como se esta fizesse as vezes de muleta. apareceu ao exterior e olhou tão ao longe que dava a impressão de estar contemplando o passado.

—Vêem comigo —disse Opal ao Ivan. Cruzou a rua e entrou na casa.

—Opal —disse Ivan entre dentes—, não posso entrar de qualquer jeito em casa de um desconhecido.

Mas Opal já tinha desaparecido no interior. Ivan se apressou a cruzar a rua e se deteve na soleira.

—Isto..., olá, sou Ivan —saudou tendendo a mão.

As mãos do ancião seguiram obstinadas a ambos os lados da porta; seus olhos chorosos olhavam fixamente à frente.

—Bem —disse Ivan com estupidez retirando a mão—. Com sua permissão, Opal me espera.

O homem não pestanejou e Ivan entrou. A casa cheirava a velho. Cheirava como se uma pessoa de idade vivesse ali com móveis velhos, uma rádio e um relógio de parede. O tictac do relógio era o mais ruidoso no edifício silencioso. O som e o aroma do tempo constituíam a essência da casa, uma larga vida vivida escutando aquele tictac.

Ivan encontrou ao Opal na sala de estar; contemplava o sem-fim de fotografias emolduradas que enchiam todas as superfícies da habitação.

—Isto está quase tão revolto como seu escritório —brincou ele—. Anda, me diga já o que está passando.

Opal se voltou para ele e sorriu com tristeza.

—Antes te hei dito que compreendia o que sentia.

—Sim.

—Hei-te dito que sabia o que se sentia ao estar apaixonado.

Ivan assentiu com a cabeça.

Opal suspirou e voltou a agarrá-las mãos, quase como se se preparasse para receber a notícia ela mesma.

—Bem, pois este é o lar do homem de quem me apaixonei.

—Vá —disse Ivan em voz baixa.

—Sigo vindo aqui diariamente —explicou Opal percorrendo a sala com a vista.

—E não lhe importa que nos entremetamos assim?

Opal esboçou um sorriso.

—É o homem de quem me apaixonei, Ivan.

Ivan ficou boquiaberto. A porta principal se fechou. O ruído de uns passos se foi aproximando deles fazendo ranger as pranchas do piso de madeira.

—Impossível! —disse Ivan em voz baixa—. O ancião? Mas se for muito velho... Deve ter pelo menos oitenta anos! —sussurrou impressionado.

O ancião entrou na sala. Uma tosse pão lhe fez parar em seco e seu minguado corpo se estremeceu. Fez uma pequena careta de dor e pouco a pouco, apoiando as mãos nos braços da poltrona, tomou assento.

Ivan olhava alternativamente ao ancião e ao Opal com uma expressão indignada que não conseguia dissimular.

—Não pode verte nem te ouvir. Somos invisíveis para ele —disse Opal em voz alta. Sua frase seguinte trocou a vida do Ivan para sempre. Dezoito simples palavras que lhe tinha ouvido pronunciar diariamente embora nunca naquela ordem. Opal se esclareceu garganta e a voz lhe tremeu levemente ao dizer por cima do tictac do relógio—: Recorda, Ivan, que faz quarenta anos, quando nos conhecemos, ele não era velho. Era como agora sou eu.

Opal observou como o rosto do Ivan mostrava muitas emoções distintas em questão de segundos. A confusão e o assombro iniciais deram passo à incredulidade e a compaixão, e a artigo seguido, assim que aplicou as palavras do Opal a sua própria situação, apareceu o desespero. Enrugou o semblante e empalideceu, e Opal correu a seu lado para lhe sustentar ao ver que se cambaleava. Ivan se agarrou a ela com força.

—Isso é o que estive tentando te dizer, Ivan —sussurrou Opal—. Você e Elizabeth podem viver juntos perfeitamente felizes em seu próprio ninho sem que ninguém se inteire, mas se esquece de que ela celebrará seu aniversário cada ano e você não.

Ivan começou a tremer e Opal estreitou seu abraço.

—Ai, Ivan, de verdade, quanto o sinto! —disse—. Quanto, quanto o sinto!

Balançou-o durante comprido momento enquanto Ivan não deixava de chorar.

—Conheci-o em circunstâncias muito semelhantes às tuas com a Elizabeth —explicou Opal ao cabo de uns minutos, quando Ivan se serenou.

Estavam sentados em umas poltronas da sala de estar do Geoffrey, o amor do Opal. Ele seguia ocupando em silêncio sua poltrona junto à janela, olhando a seu redor, e de vez em quando lhe davam uns espantosos ataques de tosse que faziam que Opal corresse a seu lado com gesto protetor.

Enquanto relatava sua história Opal retorcia um lenço entre as mãos, tinha os olhos e as bochechas úmidos e as tranças de rastafari lhe caíam sobre o rosto.

—Cometi todos e cada um dos enganos que você cometeste —disse sorvendo pelo nariz e obrigando-se a sorrir—, e inclusive cometi o que foste cometer esta noite.

Ivan tragou saliva.

—Tinha quarenta anos quando lhe conheci, Ivan, e permanecemos juntos durante vinte anos, até que a situação resultou muito complicada.

Ivan abriu os olhos e a esperança voltou a lhe encher o coração.

—Não, Ivan. —Opal negou causar pena com a cabeça, embora foi a debilidade de sua voz o que lhe convenceu. De ter falado com firmeza, Ivan teria respondido do mesmo modo, mas aquela voz pôs de relevo a dor do Opal—. Não te sairia bem.

Não precisou acrescentar nada mais.

—Parece ter viajado um montão —observou Ivan jogando uma olhada às fotos. Geoffrey diante da Torre Eiffel, Geoffrey diante da Torre Inclinada de Pisa, Geoffrey convexo na areia dourada de uma praia de um país longínquo, sorridente e transbordante de saúde e felicidade, com idades distintas em cada foto—. Ao menos conseguiu sair adiante de um modo ou outro e teve o ânimo de fazer tudas estas viagens solo —acrescentou com um sorriso alentador.

Opal lhe olhou confundida.

—Mas eu estava ali com ele, Ivan —disse Opal enrugando um pouco a frente.

—Ah, que bem. —Ivan estava surpreso—. Fez você as fotos?

—Não. —Lhe mudou o semblante—. Eu também saio nas fotos. Não pode lombriga?

Ivan negou lentamente com a cabeça.

—OH... —disse Opal as estudando e vendo uma imagem distinta ao que via Ivan.

—por que já não pode verte? —perguntou Ivan observando ao Geoffrey agarrar um punhado de pastilhas que engoliu com um grande gole de água.

—Porque já não sou a que era, coisa que provavelmente explique por que tampouco você me vê nas fotos. Está procurando uma pessoa diferente; a conexão que uma vez tivemos se desvaneceu — respondeu Opal.

Geoffrey se levantou da poltrona, esta vez apoiando-se no fortificação, e se encaminhou de novo à porta principal.

—Vamos, é hora de ir-se —disse Opal levantando-se sua vez e dirigindo-se ao vestíbulo.

Ivan a olhou com ire interrogante.

—Quando começamos a nos ver eu vinha a visitá-lo cada tarde de sete a nove —explicou Opal—, e como não posso abrir portas, ele estava acostumado a me aguardar aí. Leva fazendo o mesmo cada dia desde que nos conhecemos. Por isso se negou a vender a casa. Acredita que é o único meio que tenho para dar com ele.

Ivan observou como o velho corpo do Geoffrey se cambaleava enquanto voltava a fixar o olhar na lonjura, talvez pensando naquele dia em que tinham pulado na praia ou visitado a Torre Eiffel. Ivan não queria que acontecesse o mesmo a Elizabeth.

—Adeus, querida Opal —disse Geoffrey quedamente com voz rouca.

—boa noite, meu amor. —Opal lhe deu um beijo na bochecha e ele fechou os olhos devagar—. Até manhã.