Se me pudesses ver agora
Capítulo 15
Elizabeth tirou sua bagagem do porta-malas do táxi e o arrastou até o vestíbulo de saídas e chegadas do aeroporto do Farranfore. Suspirou aliviada. Agora sim que sentia que se ia a casa. depois de passar só um mês em Nova Iorque encontrava que ali encaixava muito mais do que jamais tinha encaixado em Dance na gCroíthe. Estava começando a fazer amigos e, mais importante ainda, estava começando a desejar fazer novos amigos.
—Ao menos o avião sairá à hora prevista —disse Mark situando-se na breve penetra de faturamento.
Elizabeth lhe sorriu e apoiou a frente contra seu peito.
—Necessitarei outras férias para me recuperar destas —brincou cansada.
Mark riu entre dentes, beijou-a no alto da cabeça e lhe acariciou os escuros cabelos.
—Chama férias a vir para casa a visitar nossas famílias? Vamos ao Hawai quando retornarmos.
Elizabeth levantou a cabeça e arqueou uma sobrancelha.
—É obvio, Mark, pode anunciar-lhe você mesmo a meu chefe. Sabe de sobra que tenho que me reincorporar a esse projeto imediatamente.
Mark estudou sua expressão decidida.
—Deveria realizá-lo por sua conta.
Elizabeth pôs os olhos em branco e voltou a apoiar a frente contra o peito do Mark.
—Não me venha outra vez com essas —disse com a voz amortecida pelo grosso casaco de lã do Mark.
—Só te peço que me escute. —Mark lhe levantou o queixo com o dedo indicador—. Trabalha de sol a sol, estranha vez toma tempo livre e sempre vai estresada. Para que?
Elizabeth abriu a boca para responder.
—Para que? —repetiu Mark sem lhe dar tempo a falar.
Elizabeth voltou a abrir a boca para responder, mas ele lhe adiantou.
—Bom, visto que é tão reacia a responder —sorriu— te direi para que. Para outras pessoas. Assim eles se levam todo o mérito. Você faz todo o trabalho, eles se levam todo o mérito.
—Perdoa —replicou Elizabeth médio em brincadeira—, mas como sabe de sobra é um trabalho extremamente bem pago e, ao passo que vou, o ano que vem por estas datas, se decidimos ficar em Nova Iorque, poderei me permitir comprar essa casa que vimos...
—Queridísima Elizabeth —interrompeu Mark—, ao passo que vai, o ano que vem por estas datas já teriam vendido essa casa e em seu lugar haverá um arranha-céu ou um bar tremendamente moderno que não servirá álcool ou um restaurante que não servirá comida «só para ser diferente» —disse indicando as aspas com os dedos, coisa que fez rir a Elizabeth—. E sem dúvida o pintará tudo de branco, porá luzes fluorescentes no chão e te negará a comprar móveis no caso de abarrotam o espaço —acrescentou tomando o cabelo—. E outras pessoas se levarão todo o mérito. —Olhou-a com fingida indignação—. te Figure. Esse tecido em branco é tua, de ninguém mais, e não lhe deveriam arrebatar isso Quero poder levar a meus amigos ali e dizer, «olhem, isto o tem feito Elizabeth. Demorou três meses em fazê-lo, não há mais que paredes brancas e nenhum assento, mas estou orgulhoso dela. Verdade que o tem feito bem?».
Elizabeth ria tanto que teve que sujeitar o estômago.
—Nunca permitirei que derrubem essa casa. Seja como for, ganho um montão de dinheiro neste trabalho —explicou.
—É a segunda vez que menciona o dinheiro. Mas, se aos dois vai bem, para que necessita todo esse dinheiro? —perguntou Mark.
—Para quando chegarem as vacas fracas —disse Elizabeth. Sua risada se foi extinguindo e seu sorriso desvanecendo enquanto seus pensamentos derivavam para o Saoirse e seu pai. Vacas muito fracas, certamente.
—Menos mal que já não vivemos aqui, então —disse Mark sem reparar em sua expressão ao estar olhando pela janela—, ou estaria arruinada.
Elizabeth olhou a sua vez pela janela o dia chuvoso e foi incapaz de reprimir a sensação de que aquela semana tinha sido uma absoluta perda de tempo. Tampouco era que tivesse esperado exatamente um comitê de bem-vinda e banderitas penduradas nas cristaleiras das lojas, mas nem Saoirse nem seu pai tinham demonstrado o mais mínimo interesse em que estivesse em casa ou deixasse de está-lo, como tampouco no que tinha feito durante sua ausência. Embora não tinha retornado para lhes referir como era sua nova vida em Nova Iorque; tinha retornado para averiguar como as arrumavam eles.
Seu pai seguia sem lhe dirigir a palavra por haver partido de casa abandonando-o. Em seu momento, trabalhar uns quantos meses seguidos em distintos condados tinha parecido o pior dos pecados, mas que agora tivesse abandonado o país já raiava em pecado mortal. antes de partir Elizabeth o tinha disposto tudo para assegurar-se de que ambos estariam atendidos. Para sua grande decepção, Saoirse tinha deixado de estudar no ano anterior e Elizabeth tinha tido que lhe buscar seu oitavo emprego em dois meses, colocando-a como responsável por repor os produtos nas prateleiras do supermercado do povo. Também tinha acordado com um vizinho que a acompanharia de carro duas vezes ao mês a ver seu conselheiro. Para a Elizabeth essa parte era muito mais importante que o trabalho, embora lhe constava que Saoirse só tinha aceito ir a essas visitas porque lhe brindavam a oportunidade de escapar de sua jaula duas vezes ao mês. Chegado o improvável caso de que Saoirse alguma vez decidisse falar sobre como se sentia, ao menos ali haveria alguém disposto a escutá-la.
Ao chegar, Elizabeth não viu nem rastro da criada que tinha contratado para seu pai. Encontrou a granja desordenada, poeirenta, fedorento e úmida, e depois de passar dois dias esfregando se deu por vencida ao dar-se conta de que nenhum produto de limpeza devolveria o brilho à casa. Quando sua mãe se foi, levou-se o brilho com ela.
Saoirse se tinha mudado da granja a uma casa com um grupo de desconhecidos com quem tinha travado amizade estando de acampada em um festival de música. Ao parecer, quão único faziam era sentar-se em corro junto à torre próxima ao povo, tombar-se na erva com suas jubas e barbas, rasguear o violão e cantar canções sobre o suicídio.
Elizabeth só tinha conseguido pescar a sua irmã duas vezes durante sua estadia. O primeiro encontro foi muito breve. O dia da chegada desta Elizabeth recebeu uma chamada da única loja de roupas feminina de Dance na gCroíthe. Tinham retida o Saoirse detrás havê-la surpreso roubando camisetas. Elizabeth se personó no estabelecimento, desfez-se em desculpas, pagou as camisetas e assim que saíram à rua Saoirse enfiou de novo para as colinas. A segunda vez que se encontraram durou só o justo para que Elizabeth emprestasse um pouco de dinheiro ao Saoirse e ficasse para almoçar com ela ao dia seguinte, almoço que Elizabeth terminou tomando sozinha. Ao menos a alegrou constatar que Saoirse por fim tinha engordado um pouco. Tinha a cara mais enche e sua roupa não parecia que pendurasse de seus ossos como antigamente. Talvez viver sozinha lhe estivesse fazendo bem.
Novembro em Dance na gCroíthe era um mês solitário. Os jovens do lugar estavam fora estudando no instituto e a universidade, os turistas estavam em sua casa ou visitando outros países, as lojas estavam vazias e silenciosas, umas fechadas e as demais fazendo o possível para ir atirando. O povo se via cinza, frio e lôbrego, pois ainda não tinham crescido as flores que alegrariam as ruas. Era como um povo fantasma. Mas Elizabeth estava contente de ter retornado. A sua reduzida família possivelmente lhe importasse um cominho que estivesse em casa ou não, mas assim soube com absoluta certeza que não podia passá-la vida preocupada com eles.
Mark e Elizabeth avançaram com a cauda. Só tinham uma pessoa diante e então já seriam livres. Livres de agarrar seu vôo ao Dublín de ali prosseguir até Nova Iorque.
O telefone da Elizabeth soou e o estômago lhe encolheu instintivamente.
Mark se voltou imediatamente.
—Não responda.
Elizabeth tirou o telefone da bolsa e olhou o número.
—Não responda, Elizabeth —insistiu ele com voz firme e séria.
—É um número irlandês.
Elizabeth se mordeu o lábio.
—Não o faça —disse Mark com ternura.
—Mas pode que tenha ocorrido ao...
O telefone deixou de sonar. Mark sorriu aliviado.
—Bem feito.
Elizabeth sorriu fracamente e Mark se voltou de cara ao mostrador de faturamento. Deu um passo à frente para aproximar-se do mostrador e ao fazê-lo voltou a soar o telefone.
Era o mesmo número.
Mark estava falando com a mulher de atrás do mostrador, tão simpático e encantador como de costume. Elizabeth espremeu o telefone com a mão olhando o número da tela até que desapareceu e o aparelho deixou de sonar; depois emitiu um par de assobios anunciando uma mensagem de voz.
—Elizabeth, esta senhorita necessita seu passaporte —disse Mark dando-a volta. Lhe mudou o semblante.
—Só estou escutando as mensagens —disse Elizabeth em seguida, e ficou a revolver a bolsa em busca de seu passaporte, com o telefone pego à orelha.
—Olá, Elizabeth, sou Mary Flaherty. Chamo da sala de maternidade do Hospital do Killerney. Sua irmã Saoirse ingressou com dores de parto. É um mês antes do previsto, como saberá, assim Saoirse quis que lhe chamássemos para fazer-lhe saber se por acaso queria estar aqui com ela...
Elizabeth não ouviu o resto. ficou ali cravada. Dolores de parto? Saoirse? Se nem sequer estava grávida. Voltou a pôr a mensagem pensando que possivelmente fosse um número equivocado, fazendo caso omisso das súplicas do Mark para que lhe desse o passaporte.
—Elizabeth —disse Mark em voz alta interrompendo seus pensamentos—, o passaporte. Está fazendo esperar a todo mundo.
Elizabeth se voltou e a saudou uma fila de rostos zangados.
—Sinto-o —sussurrou pasmada, tremendo da cabeça aos pés.
—O que ocorre? —perguntou Mark, de cujo semblante se desvanecia a irritação para dar passo à preocupação.
—Desculpe —chamou a empregada de faturamento—. vai agarrar este vôo? —perguntou com tanta educação como pôde.
—Pois... —Elizabeth, presa da confusão, esfregou-se os olhos e olhou alternativamente o cartão de embarque de cima do mostrador e o rosto do Mark—. Não, não, não posso. —Deu um passo atrás e saiu da cauda—. O sinto. —voltou-se para os poucos passageiros que formavam a cauda e estes a
olharam com menos severidade—. O sinto muito. —Olhou ao Mark, que seguia na cauda mostrando-se muito... muito decepcionado. Não decepcionado porque não fora a viajar com ele, a não ser decepcionado com ela.
—Senhor —disse a senhorita lhe entregando o cartão de embarque.
Mark a colheu com gesto distraído e saiu muito devagar da cauda.
—O que aconteceu?
—É Saoirse —disse Elizabeth com um fio de voz. Lhe fez um nó na garganta—. A levaram a hospital.
—tornou a beber mais da conta? —A preocupação se esfumou ipsofacto da voz do Mark. Elizabeth refletiu sobre aquela resposta um bom momento e a vergonha e o abafado de não estar inteirada do embaraço do Saoirse se apropriaram dela e lhe gritaram que mentisse.
—Sim, isso parece. Não estou segura.
Negou com a cabeça tratando de afastar seus pensamentos.
Mark relaxou os ombros.
—Ouça, o mais provável é que simplesmente tenham que lhe fazer uma lavagem de estômago outra vez. Não é nada novo, Elizabeth. Tiremos seu cartão de embarque e o falamos na cafeteria.
Elizabeth voltou a negar com a cabeça.
—Não, não, Mark, tenho que ir —disse com voz tremente.
—Elizabeth, certamente não será nada —sorriu—. Quantas chamadas como esta recebe ao cabo do ano e sempre acaba sendo o mesmo?
—Pode que esteja lhe ocorrendo algo, Mark.
Algo que uma irmã em seu são julgamento teria sabido, algo que teria que ter descoberto.
Mark apartou as mãos da cara da Elizabeth.
—Não deixe que te faça isto.
—Fazer o que?
—Não deixe que te obrigue a escolher sua vida por cima da tua.
—Não seja ridículo, Mark, é minha irmã, forma parte de minha vida. Tenho que cuidar dela.
—em que pese a que ela nunca cuida de ti. em que pese a que não poderia lhe importar menos que esteja aqui para apoiá-la ou não.
Foi como um murro na boca do estômago.
—Não, tenho a ti para que cuide de mim.
Tratava de pôr o de bom humor, tratava de fazer que todos fossem felizes como de costume.
—Mas não posso fazê-lo se não me deixa —protestou Mark. A pena e a irritação lhe escureceram o olhar.
—Mark —Elizabeth tentou rir sem consegui-lo—, prometo-te que agarrarei o primeiro vôo que possa. Só preciso averiguar o que aconteceu. Pensa-o. Se se tratasse de sua irmã já te teria partido deste aeroporto faz momento, estaria a seu lado enquanto falamos e não te teria detido nem um instante a pensar em ter esta estúpida conversação.
—Então que demônios faz ainda aqui? —repôs Mark com frieza.
A irritação e o pranto aninharam na Elizabeth de repente. Agarrou sua mala e se afastou dele. Saiu do aeroporto e foi a toda pressa até o hospital.
Retornou a Nova Iorque, em efeito, tal como lhe tinha prometido. Tomou o avião para ali dois dias depois que ele, recolheu seus efeitos pessoais do apartamento que compartilhavam, apresentou sua demissão no trabalho e voltou para Dance na gCroíthe com uma pena tão amarga no coração que quase lhe impedia de respirar.