Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 23 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 22

 

Elizabeth se sentia ébria de prazer enquanto conduzia de retorno ao povo, em companhia do Luke e Ivan. Tinham passado as últimas duas horas perseguindo e apanhando o que Ivan insistia em chamar Jinny Joes. Depois, muito cansados e sem fôlego se desabaram na erva alta inspirando o fresco ar marinho de primeiras horas do dia. Elizabeth não recordava a última vez que se riu tanto. De fato, não acreditava que tivesse rido tanto em toda sua vida.

Ivan parecia ter uma energia sem limites e um apetite insaciável por todo o novo e emocionante. Fazia muitíssimo tempo que Elizabeth não se exaltava; era uma sensação que não associava com sua vida adulta. Não havia sentido o comichão da antecipação no estômago desde que era uma menina; nunca tinha desejado nada até o ponto de sentir que ia arrebentar se aquilo não ocorria aqui e agora. Mas estar com o Ivan lhe devolvia todas essas sensações. O tempo transcorria muito depressa quando estava com ele, tanto se andavam dando saltos pelo campo como se simplesmente se faziam companhia em silêncio, coisa que ocorria freqüentemente. Sempre desejava que o tempo se ralentizara quando ele estava presente e quando a abandonava sempre ficava com vontades de mais. Tinha apanhado muitas sementes de dente de leão aquela manhã e em seu foro interno muitos de seus desejos tinham sido para que o tempo que estavam acontecendo juntos esse dia se prolongasse e que o vento não amainasse para poder aferrar-se ao momento, junto com o Luke.

Elizabeth equiparou essas sensações tão fortes, quase obsessivas, às de um amor infantil, mas com mais profundidade. sentia-se atraída por tudo o do Ivan; a maneira de falar, a maneira de vestir, as palavras que empregava, sua aparente inocência em que pese a ter um fundo conhecimento de sábios pontos de vista. Sempre dizia o que terei que dizer, inclusive quando ela não tinha vontades de ouvi-lo. A escuridão desaparecia do fundo dos túneis da Elizabeth e de súbito era capaz de ver mais à frente. Quando Ivan entrava tão alegre em uma habitação trazia consigo claridade e inteligência. Era a encarnação da esperança, e então Elizabeth entendia que para ela as coisas podiam não ser fantásticas ou maravilhosas ou o cúmulo da felicidade, mas que podiam ir bem. E isso lhe bastava.

Ivan ocupava seus pensamentos em todo momento; ela repetia suas conversações uma e outra vez. O fazia uma pergunta atrás de outra e ele sempre se mostrava aberto e sincero em suas respostas, mas depois, tendida na cama, Elizabeth caía na conta de que não sabia mais que antes a respeito dele em que pese a que tivesse respondido a todas suas perguntas. Mesmo assim percebia que eram dois seres muito similares. Duas pessoas solitárias que voavam levadas pela brisa como sementes de dente de leão, portadores de seus respectivos desejos.

Por descontado, tais sentimentos a assustavam. Por descontado, atentavam contra seus princípios, mas por mais que o tentasse lhe era impossível evitar que o pulso lhe acelerasse quando a pele do Ivan roçava a sua, era-lhe impossível evitar lhe buscar quando acreditava que podia andar perto.

Era-lhe impossível evitar que invadisse seus pensamentos. Ivan se acurrucaba com naturalidade entre seus braços apesar de que estes não estivessem abertos; apresentava-se em sua casa sem estar convidado e não obstante a Elizabeth era impossível evitar lhe abrir a porta uma vez atrás de outra.

Atraía-a sua presença, o que o fazia sentir, seus silêncios e suas palavras. estava-se apaixonando por ele. na segunda-feira pela manhã Elizabeth entrou no café do Joe caminhando e cantarolando a mesma canção que tinha estado cantarolando na semana anterior e que ao parecer não conseguia tirar-se da cabeça.

Eram as oito e meia e a cafeteria estava lotada de turistas que se detiveram a tomar o café da manhã antes de retornar a seu ônibus, o qual lhes levaria até a parada seguinte de sua excursão. A cafeteria bulia de conversações em alemão. Joe se trabalhava em excesso recolhendo serviços sujos das mesas, levando-os a cozinha e retornando com pratos cheios de cafés da manhã irlandeses que sua esposa tinha preparado.

Elizabeth lhe fez gestos pedindo café e ele em seguida assentiu com a cabeça confirmando o recebimento do pedido, sem tempo para fofocar. Elizabeth procurou uma mesa e o pulso lhe acelerou ao ver o Ivan na outra ponta do estabelecimento. Incapaz de controlar a alegria que se apropriou dela sorriu de brinca a orelha. Sentiu a excitação invadir todo seu corpo enquanto se abria passo entre as mesas em direção a ele. A visão do Ivan a transtornava.

—Olá —murmurou Elizabeth odiando-se ao notar a mudança de sua voz.

—bom dia, Elizabeth—saudou Ivan sonriendo. Sua voz também era distinta.

Ambos o perceberam, perceberam algo, e ficaram olhando-se aos olhos.

—Guardei-te uma mesa.

—Obrigado.

Sorrisos.

—Tomo nota de um café da manhã? —perguntou Joe, caneta e bloco de papel em mão.

Elizabeth não estava acostumada tomar o café da manhã, mas ao ver a maneira em que Ivan estudava a carta pensou que podia chegar uns minutos mais tarde ao escritório para variar.

—Traz-me outra carta, Joe, por favor?

Joe a fulminou com o olhar.

—por que quer outra carta?

—Para poder lê-la.

—O que acontece com a que está em cima da mesa? —perguntou Joe mal-humorado.

—Vale, vale —disse Elizabeth tornando-se atrás e aproximando-se ao Ivan para compartilhar a carta.

Joe a olhou com receio.

—Parece-me que tomarei o café da manhã irlandês —disse Ivan lambendo-se.

—Para mim o mesmo —disse Elizabeth ao Joe.

—Quão mesmo o que?

—O café da manhã irlandês.

—Vale, pois um café da manhã irlandês e um café.

—Não —repôs Elizabeth enrugando a frente—, dois cafés da manhã irlandeses e dois cafés.

—Está comendo por dois? —perguntou Joe olhando-a de cima abaixo.

—Não! —exclamou Elizabeth e se voltou para o Ivan com um olhar de desculpa assim que Joe se afastou—. Sinto o do Joe; às vezes faz coisas estranhas.

Joe pôs dois cafés na mesa, voltou a olhá-la com receio e se foi apitando a servir outra mesa.

—Está muito concorrido este sítio, hoje —disse Elizabeth sem logo que apartar a vista do Ivan.

—Sério? —pergunto Ivan olhando-a fixamente aos olhos.

Um formigamento estremeceu todo o corpo da Elizabeth.

—Eu gosto quando do povo está assim. Parece que ressuscite. Não sei como será Aisatnaf, mas aqui acaba farto de ver sempre as mesmas caras. Os turistas trocam o cenário, dão-lhe algo depois do que te esconder.

—Do que tem que te esconder?

—Ivan, todos os aldeãos me conhecem. Quase sabem mais que eu mesma sobre a história de minha família.

—Eu não escuto aos aldeãos, escuto a ti.

—Sei. Durante o verão este sítio é como uma árvore grande, forte e formoso —tratou de explicar —, mas no inverno lhe arrebatam as folhas e fica nu, sem nada para te tampar ou te dar intimidade. Sempre me sinto como se estivesse exposta em uma cristaleira.

—Você não gosta de viver aqui?

—Não é isso. É só que às vezes este povo precisa animar-se um pouco, que lhe dêem uma boa patada no traseiro. Cada manhã me sinto aqui e sonho que saio à rua e derramo meu café a fim de lhe dar a injeção que necessita para despertar.

—Muito bem, e por que não o faz?

—O que quer dizer?

Ivan ficou de pé.

—Elizabeth Egan, vêem comigo e traz sua tigela de café.

—P...

—Não há peros que valham. Anda, vêem.

Dito isto saiu da cafeteria. Ela o seguiu um tanto confundida levando o tigela consigo.

—E bem? —perguntou detrás tomar um sorvo.

—Bom, acredito que já vai sendo hora de que dê a este povo uma boa injeção de cafeína — anunciou Ivan olhando a um lado e ao outro da rua deserta.

Elizabeth lhe olhou sem compreender.

—Venha. —Ivan deu um ligeiro golpe à tigela derramando café leitoso pela calçada—. Uy —disse secamente.

Elizabeth riu.

—Está como uma cabra, Ivan.

—Que eu estou como uma cabra? É você quem o sugeriu.

Voltou a golpear o tigela, mais forte esta vez, salpicando mais copiosamente o chão. Elizabeth soltou um grito e deu um salto para trás para não manchá-los sapatos.

Atraiu umas quantas olhadas do interior da cafeteria.

—Venha, Elizabeth!

Aquilo resultava absurdo, ridículo e completamente infantil. Não tinha nenhum sentido fazê-lo, mas ao recordar como se divertiu a véspera no campo, quanto tinha rido e como tinha flutuado o resto do dia desejou reviver aquela sensação. Inclinou o tigela deixando que todo o café caísse ao chão. Ao princípio formou um atoleiro e logo o observou encher as gretas das lajes e fluir lentamente para o meio-fio.

—Isso não terá despertado nem aos insetos —brincou Ivan.

—Muito bem, pois, aparta —advertiu Elizabeth arqueando uma sobrancelha.

Ivan se apartou enquanto Elizabeth estendia o braço e girava sobre si mesmo. O café saiu despedido como de uma fonte.

Joe apareceu a cabeça pela porta.

—O que está fazendo, Elizabeth? Não te preparei um bom café? —Parecia preocupado—. Me está fazendo ficar mal diante desta gente.

Assinalou com a cabeça ao grupo de turistas que se estava congregando na janela, observando-a. Ivan se pôs-se a rir.

—Parece-me que isto requer outro tigela de café —anunciou.

—Outro café? —perguntou Elizabeth assustada.

—De acordo —disse Joe retrocedendo devagar.

—Perdoe, o que está passando? —perguntou um turista ao Joe, que se dispunha a voltar dentro.

—Ah, isto é, né... —Joe ficou sem saber o que dizer—. É um costume que temos aqui, em Dance na gGroíthe. As segundas-feiras pela manhã, isto, né... —voltou-se para a Elizabeth que girava sobre si mesmo rendo e pulverizando café pela calçada—. Como vê, nós gostamos de salpicá-lo tudo de café. É bom para, né... —observou como Elizabeth derramava o líquido nas jardineiras das janelas—, para as flores.

Tragou saliva. O turista arqueou as sobrancelhas com interesse e sorriu divertido.

—Nesse caso, outras cinco taças de café para meus muito queridos amigos.

Depois de vacilar um momento, Joe desdobrou um amplo sorriso ao ver uma ocasião de ganhar dinheiro.

—Partindo cinco taças.

Ao cabo de seu momento somaram a Elizabeth cinco estrangeiros que começaram a dançar girando sobre si mesmos, rendo e chiando enquanto derramavam café pela calçada. Isto fez que ela e Ivan rieran ainda com mais ganha até que se escabulleron dos turistas. Estes, embora em segredo intercambiavam olhares de perplexidade em relação a aquele tolo costume irlandesa de derramar café pelo chão, diziam-se que a fim de contas proporcionava uma sã diversão.

Elizabeth contemplava o povo com assombro. Os lojistas tinham saído à porta e observavam o alvoroço que se armou diante do Joe'S. Os vizinhos abriam as janelas e apareciam a cabeça. Os carros diminuíam a marcha para jogar uma olhada, provocando que os condutores que os seguiam tocassem contrariados a buzina. Em questão de instantes a entorpecida localidade se despertou.

—O que ocorre? —perguntou Ivan secando-as lágrimas de risada dos olhos—. por que deixaste que rir?

—É que para ti não existem os sonhos, Ivan? Não pode fazer que certas coisas permaneçam só em sua cabeça?

Que ela soubesse, Ivan era capaz de fazer que algo ocorresse. Bom, quase algo. Levantou a vista a seus olhos azuis e lhe disparou o coração.

Ivan lhe devolveu o olhar e se aproximou um passo mais. Parecia muito sério e major do que até então se mostrou, como se acabasse de ver e aprender algo novo poucos segundos antes. Tocou brandamente a bochecha da Elizabeth e adiantou a cabeça devagar para seu rosto.

—Não —sussurrou, e a beijou na boca com tanta ternura que faltou pouco para que a Elizabeth falhassem as pernas—, tudo deve fazer-se realidade.

Joe olhou pela janela e riu ao ver os turistas dançando e derramando café diante de seu local. Entreviu a Elizabeth ao outro lado da rua e se aproximou da janela para vê-la melhor. Tinha a cabeça levantada e os olhos fechados com uma expressão de perfeita sorte. O cabelo, de ordinário recolhido na nuca, levava-o solto e ondeava na ligeira brisa matutina. Parecia deleitar-se com o brilho do sol que lhe banhava a cara.

Joe teria jurado que o rosto da Elizabeth era o vivo retrato do de sua fogosa mãe.