Se me pudesses ver agora
Capítulo 37
Em Fúcsia Lane, um aguaceiro golpeava os cristais do dormitório da Elizabeth como se chovessem calhaus. O vento começou a esquentar suas cordas vocais preparando-se para a noite e Elizabeth, agasalhada na cama, retrocedeu no tempo até a vez em que saiu à larga noite invernal em busca de sua mãe.
Tinha metido umas poucas coisas na mochila da escola; roupa interior, duas saias e dois jerséis, o livro que lhe desse de presente sua mãe e seu osito de peluche. No cofre tinha encontrado 4 libras com 42 peniques e depois de ficar o impermeável em cima de seu vestido floreado predileto e de calçar-se suas botas de água vermelhas saiu de noite fria. Saltou a mureta do jardim para evitar que o ruído da grade alertasse a seu pai, que naquela época dormia com um olho aberto, como o cão da granja. manteve-se aproximada aos sebes para não ser divisada no meio do caminho reto. O vento agitava os ramos que lhe arranhavam o rosto e as pernas, e os beijos molhados das folhas empapadas lhe roçavam a pele. Aquela noite soprava um vendaval terrível que lhe açoitava as pernas e o fazia arder as orelhas e as bochechas. Arremetia contra seu rosto com tanta fúria que lhe cortava a respiração. Em questão de minutos teve os dedos, o nariz e os lábios intumescidos e o corpo gelado até os ossos, mas a perspectiva de ver sua mãe aquela noite a fez seguir adiante. E adiante seguiu.
Vinte minutos depois chegou à ponte de Baile na gCroíthe. Nunca tinha visto o povo às onze da noite; era como um povo fantasma, escuro, vazio e silencioso, como se estivesse a ponto de ser testemunha de algo do que jamais ia dizer uma palavra, dirigiu-se muito nervosa ao Flanagan's sem sentir o ataque do frio, só pura euforia ante a emocionante perspectiva de reunir-se com sua mãe. antes de ver o pub, ouviu os sons que emergiam do local. O Flanagan's e o Camel's Hump eram as únicas casas do povo que tinham as luzes acesas. Por uma janela aberta saíam flutuando as notas do piano, o violino e o badhrán,· assim como uma melodia entoada a voz em pescoço entre as gargalhadas do público e ocasionais gritos e ovações. Elizabeth riu para seus adentros; parecia que ali todos o estavam passando em grande.
Diante do pub viu estacionado o carro da tia Kathleen e automaticamente Elizabeth apertou o passo. A porta da rua estava aberta e dava a um pequeno vestíbulo, mas a porta do pub, com cristais chumbados e tudo, estava fechada. Elizabeth se deteve sob a marquise para sacudi-la chuva do impermeável; pendurou-o junto aos guarda-chuva no perchero da parede. Tinha o negro cabelo empapado e o nariz avermelhado lhe gotejava. A chuva as tinha engenhado para meter-se o nas botas, de modo que as pernas lhe tremiam de frio e os pés, banhados em água, produziam leves lhe chape isso com cada passo que dava.
O piano se calou de repente e o folguedo dos paroquianos sobressaltou a pobre Elizabeth.
—Venha, Gránnie, canta outra —gritou um homem com voz pastosa e outros lhe aclamaram.
À menina o coração deu um tombo para ouvir o nome de sua mãe. Estava dentro! Era uma cantor maravilhosa. Sempre andava cantarolando pela casa, improvisando para si mesmo canções de ninar e canções infantis, e pelas manhãs a Elizabeth adorava ficar na cama e escutar a sua mãe cantarolar pelas habitações da casa. Mas a voz que agora rompeu o silêncio seguida pelos grosseiros vítores dos bêbados não era a doce voz de sua mãe que tão bem conhecia.
Em Fúcsia Lane Elizabeth abriu os olhos de repente e se incorporou na cama. Fora o vento uivava como um animal ferido. O coração o martilleaba no peito; tinha a boca seca e o corpo suarento, desentupiu-se de um puxão, agarrou as chaves do carro da mesita de noite, baixou a escada correndo, cobriu-se os ombros com o impermeável e saiu da casa a toda pressa em busca do carro. Ao notar as frite gotas de chuva recordou por que detestava tanto notar que a chuva lhe caísse na cara: recordava-lhe aquela noite desgraçada. Correu até o carro tremendo enquanto o vento lhe lançava o cabelo contra os olhos e as bochechas e ao sentar-se atrás do volante toda ela já estava jorrando.
Os limpador de pára-brisas se agitavam freneticamente enquanto conduzia pelas estradas escuras. Ao cruzar a ponte se encontrou frente ao povo fantasma. Todo mundo se tinha encerrado a resguardo do temporal em suas casas e albergues. Além do Flanagan's e o Camel's Hump não havia vida noturna. Elizabeth estacionou o carro e se apeou na calçada de em frente do Flanagan'S. Alheia à chuva fria ficou olhando o edifício do outro lado da rua, recordando. Recordando aquela noite.
As palavras da toada que cantava a mulher feriam a sensibilidade da Elizabeth. Era uma canção grosseira, com letra de péssimo gosto que as inflexões da cantor faziam ainda mais obscena. Tudo aqueles palavrões que seu pai lhe tinha ensinado a não dizer eram recebidas com aplausos por aquele rebanho de brutos bêbados como cubas, ficou nas pontas dos pés para olhar através do vermelho cristal de uma janela chumbada a fim de descobrir a que espantosa mulher pertencia a voz rouca que interpretava tão asquerosa canção. Estava segura de que sua mãe estaria sentada com a Kathleen, absolutamente indignada.
O coração lhe subiu à garganta e lhe cortou a respiração, pois em cima do piano de madeira estava sentada sua mãe, que abria a boca e soltava todas aquelas palavras repugnantes. Levava uma saia que Elizabeth não lhe conhecia levantada até as coxas e a seu redor um punhado de homens a animavam com lascívia, brincando e rendo enquanto ela rebolava e adotava posturas que Elizabeth nunca tinha visto em nenhuma outra mulher.
—Vamos, vamos, meninos, lhes acalme um pouco —gritou o jovem Flanagan desde detrás da barra.
Sem lhe fazer caso, os homens seguiram lançando olhadas luxuriosas à mãe da Elizabeth.
—Mamãe —choramingou Elizabeth.
Elizabeth cruzou devagar a rua para o pub Flanagan's; o coração lhe pulsava pelo agudo da lembrança. Tendeu o braço e empurrou a porta para abri-la. Atrás do mostrador, o senhor Flanagan levantou a vista e lhe dedicou um sorriso contido, como se esperasse vê-la.
A pequena Elizabeth tendeu o braço e com mão insegura empurrou a porta do bar para abri-la. O cabelo molhado lhe gotejava pela cara. O lábio inferior lhe tremia. Seus grandes olhos castanhos percorreram com pânico o local ao ver que um homem se dispunha a tocar a sua mãe.
—Deixa-a em paz! —gritou Elizabeth em voz tão alta que na sala se fez o silêncio. Sua mãe deixou de cantar e todas as cabeças se voltaram para a menina plantada junto à porta.
No rincão onde estava sua mãe os bêbados estalaram em gargalhadas. As lágrimas apareceram nos aterrados olhos da Elizabeth.
—Búa, búa, búa...! —mofou-se sua mãe fazendo-se ouvir por cima de outros—. Vão todos a salvar a mamãe, não é isso? —disse com voz pastosa. Cravou os olhos na Elizabeth. Tinha-os injetados em sangue e escuros, sem o menor parecido com os olhos que Elizabeth recordava tão bem; pertenciam a outra pessoa.
—Mierda —amaldiçoou Kathleen levantando-se de um salto no outro extremo do bar para correr junto à Elizabeth—. O que está fazendo aqui?
—Eis vê-ve-venido —gaguejou Elizabeth no local agora silencioso olhando esmagada a sua mãe —, vim a procurar mamãe para ir a viver com ela.
—Bom, pois não está aqui—chiou sua mãe—. te Largue! —Assinalou-a com um dedo acusador —. Não se permite a entrada de ratos molhados neste pub —adicionou com uma risada maliciosa, e quis apurar sua taça de um gole, mas não acertou a levar-lhe à boca e quase toda a bebida lhe caiu sobre o peito e o pescoço substituindo o aroma de seu delicado perfume pelo do uísque.
—Mas, mamãe... —choramingou Elizabeth.
—Mas, mamãe —a imitou Gránnie e uns quantos homens riram—. Não sou sua mamãe — prosseguiu com aspereza apoiando-se nas teclas do piano, que emitiram um som desagradável—. As pequenas Elis molhadas não merecem ter mamãe. Deveriam lhes envenenar a todas —espetou. —Kathleen! —gritou o senhor Flanagan—, a que esperas? Tira a daqui. Não deveria estar vendo isto.
—Não posso —respondeu Kathleen como cravada em seu sítio—. Tenho que vigiar ao Gránnie, tenho que me levar isso comigo.
O senhor Flanagan abriu a boca, escandalizado.
—Não vê como está a menina?
A pele olivácea da Elizabeth tinha empalidecido. Tinha os lábios morados de frio e lhe tocavam castanholas os dentes. A umidade lhe pegava ao corpo o vestido floreado e as pernas lhe tremiam dentro das botas de borracha.
Kathleen olhou alternativamente a Elizabeth e ao Gránnie, apanhada entre ambas.
—Não posso, Tom —disse entre dentes.
Tom a olhou zangado.
—Terei a decência de acompanhá-la a casa eu mesmo.
Agarrou um chaveiro de debaixo da barra e pôs-se a andar para reunir-se com a Elizabeth.
—Não! —gritou Elizabeth. depois de jogar uma olhada a sua mãe que, aborrecida já da cena, entregou-se aos braços de um desconhecido, a menina se voltou para a porta e saiu correndo outra vez de noite fria.
Elizabeth ficou junto à porta do bar; tinha o cabelo jorrando, as gotas de chuva lhe deslizavam pela frente até a ponta do nariz, os dentes lhe tocavam castanholas e sentia os dedos intumescidos. Os ruídos do local não eram os mesmos. Dentro não se ouvia música, nada de vítores nem ovações, nenhuma canção, só o tinido de algum copo e o murmúrio das conversações. Unicamente havia cinco clientes naquela tranqüila noite de terça-feira.
Um avejentado Tom seguia sem lhe tirar os olhos de cima.
—Minha mãe... —disse Elizabeth levantando a voz da porta. A voz infantil que lhe saiu a pilhou despreparada— era uma alcoólica.
Tom assentiu com a cabeça.
—Vinha aqui freqüentemente?
Tom assentiu de novo.
—Mas havia semanas —ela tragou saliva—, semanas seguidas nas que não se movia de casa.
A voz do Tom foi amável.
—Era o que está acostumado a chamar uma bebedora farrista.
—E meu pai... —Elizabeth fez uma pausa pensando em seu pobre pai, que aguardava noite detrás noite em casa—, meu pai sabia.
—A paciência de um santo —disse Tom.
Elizabeth passeou a vista pelo pequeno bar, o mesmo velho piano que seguia em seu rincão. Quão único tinha trocado no estabelecimento era a idade de tudo o que continha.
—Aquela noite... —disse Elizabeth e lhe arrasaram os olhos de lágrimas—, quero lhe dar as obrigado.
Tom se limitou a assentir com pesadumbre.
—tornou a vê-la após? —perguntou ela
Tom negou com a cabeça.
—E crie... acredita que a verá? —perguntou Elizabeth com a voz um pouco rota.
—Não nesta vida, Elizabeth —respondeu Tom lhe confirmando o que sempre tinha sabido no mais fundo de seu ser.
—Papai... —sussurrou Elizabeth para si e se foi do bar para retornar de noite fria.
A pequena Elizabeth se afastou correndo do pub; notava cada gota de chuva que açoitava seu corpo, a dor no peito cada vez que inalava ar frio, e a água que lhe salpicava as pernas ao pisar nos atoleiros. Corria para casa.
Elizabeth subiu ao carro dando um pequeno salto e saiu a toda velocidade do povo para o caminho reto que conduzia à morada de seu pai. Uns faróis que vinham de frente a obrigaram a dar marcha atrás e aguardar a que o carro passasse antes de continuar sua viagem.
Seu pai o tinha sabido todo este tempo e nunca lhe havia dito nada. Não tinha querido destroçar suas ilusões a respeito de sua mãe, a quem ela tinha tido sempre em um pedestal. Tinha-a considerado um espírito livre e a seu pai tinha tido por uma força opressiva, como um caçador de mariposas. Tinha que lhe ver quanto antes para desculpar-se, para pôr as coisas em seu sítio.
Enfiou de novo o caminho e se topou com um trator que avançava para ela soprando, coisa inaudita a tão altas horas. Retrocedeu uma vez mais até a entrada do caminho. Mas sua crescente impaciência a empurrou a abandonar o carro e a ficar a correr. Correu tanto como pôde pelo caminho que a levava a casa.
—Papai —soluçava a pequena Elizabeth enquanto corria pelo caminho de sua casa. Chamava-o com voz cada vez mais forte e pela primeira vez aquela noite o vento a ajudou transladando suas palavras até a moradia, acendeu-se uma luz, logo outra e viu que se abria a porta principal.
—Papai! —gritou ainda mais forte e correu ainda mais depressa.
Brendan estava sentado ante a janela do dormitório tomando a sorvos uma taça de chá com a vista perdida na noite escura, esperando com toda sua alma que a visão que estava aguardando se dignasse aparecer. Tinha-as afugentado a todas, fazia exatamente o contrário do que desejava e ele era o único culpado. Quão único podia fazer era esperar. Esperar a que uma de suas três mulheres aparecesse. Embora uma delas, o tinha sabor de ciência certa, nunca poderia nem quereria retornar.
Um movimento ao longe atraiu sua atenção e se endireitou no assento como um cão guardião. Uma mulher corria para ele, sua juba negra flutuava atrás dela, sua imagem se apagava por culpa da chuva que arremetia contra a janela e jorrava pelo cristal.
Era ela.
A taça e o pires lhe caíram ao chão e se levantou derrubando a cadeira para trás.
—Gránnie —sussurrou.
Agarrou o fortificação e se dirigiu, tão depressa como lhe permitiram as pernas, à porta principal. Abriu-a e forçou a vista na noite tormentosa para ver sua esposa.
Ouviu os longínquos ofegos da mulher que corria.
—Papai —lhe ouviu dizer.
Não, impossível que estivesse dizendo isso, seu Gránnie não diria isso.
—Papai —ouviu soluçar outra vez.
Esses sons lhe fizeram retroceder mais de vinte anos no tempo. Era sua menina, sua menina que corria outra vez para casa sob a chuva porque lhe necessitava.
—Papai! —voltou a gritar Elizabeth.
—Estou aqui —respondeu Brendan, em voz baixa ao princípio e logo a voz em pescoço—. Estou aqui!
Ouviu que sua filha chorava, viu-a abrir a grade lhe chiem, imersão até os ossos, e tal como fizesse vinte anos atrás tendeu os braços para recebê-la com um forte abraço.
—Estou aqui, não se preocupe —a tranqüilizou lhe dando tapinhas na cabeça e balançando-a—. Papai está aqui.