Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 7 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 6

 

O sol que entrava em torrentes pela janela do dormitório despertou a Elizabeth às seis e oito minutos da manhã. Sempre dormia com as cortinas abertas, costume que tinha adquirido ao criar-se em uma granja, onde tendida na cama via pela janela o atalho que cruzava o jardim até a grade. Ao outro lado começava uma estrada rural que se estendia em linha reta um par de quilômetros da granja. Quando sua mãe retornava de suas correrias, Elizabeth a via caminhar pela estrada não menos de vinte minutos antes de que chegasse a casa. Reconhecia seus andar assim que aparecia ao longe. Aqueles vinte minutos sempre faziam eternos a Elizabeth. A larga estrada tinha um modo particular de aumentar a excitação da Elizabeth, quase como se se burlasse dela.

Até que finalmente ouvia aquele ruído que conhecia tão bem, o chiado da grade dianteira. As dobradiças oxidadas faziam as vezes de banda de bem-vinda para o espírito livre. Elizabeth tinha uma relação de amor e ódio com aquela grade. burlava-se dela igual ao lance reto de estrada e alguns dias para ouvir o chiado corria a ver quem havia na porta e lhe caía a alma aos pés ao encontrar só ao carteiro.

Elizabeth tinha vexado a suas companheiras de quarto na universidade e a seus amantes com a mania de deixar as cortinas abertas.

Não sabia por que tinha posto tanto empenho em conservar aquele costume; certamente não era porque seguisse esperando. Mas agora que era uma mulher adulta as cortinas abertas faziam as vezes de despertador; as deixando abertas sabia que a luz lhe impediria de voltar a sumir-se em um sonho profundo. Até dormindo mantinha alerta e com o guarda bem alta. Elizabeth se deitava para descansar, não para sonhar.

A luz que alagava o dormitório lhe fez entrecerrar os olhos. A cabeça lhe ia estalar. Necessitava café, em seguida. Ao outro lado da janela o canto de um pássaro ressonava na quietude do campo. ao longe uma vaca respondeu a sua chamada. Mas apesar da idília manhã, aquela manhã de segunda-feira não augurava nada que Elizabeth aguardasse com ilusão. Teria que tratar de fixar uma nova entrevista para a reunião com os construtores do hotel, coisa que não resultaria singela, porque depois do ardil publicitário publicado nos periódicos sobre o novo ninho de amor no alto da montanha estavam chegando desenhistas de todos os rincões do mundo desejosos de dar a conhecer suas idéias. Elizabeth estava molesta; aquele era seu território. Mas esse não era seu único problema.

Luke estava convidado a passar o dia com seu avô na granja. Para a Elizabeth até aí tudo ia bem.

O que não a satisfazia tanto, até o ponto de preocupá-la, era que o avô também esperasse a outro menino de seis anos que se chamava Ivan. Deveria falar seriamente com o Luke a respeito disso, pois lhe dava medo imaginar o que ocorreria se se mencionasse a existência de um amigo invisível a seu pai.

Brendan era um homem de sessenta e cinco anos, corpulento, largo de costas, silencioso e um tanto anti-social. A idade não lhe tinha suavizado o caráter, mas sim mas bem tinha acrescentado sua amargura e seu ressentimento, inclusive sua confusão. Era curto de idéias e não estava absolutamente disposto a abrir-se ou trocar. Elizabeth tentava pelo menos compreender sua difícil personalidade se ser assim o fazia feliz, mas que ela soubesse as opiniões de seu pai o frustravam e faziam mais desventurada sua vida. Sempre se mostrava sério, estranha vez falava exceto com as vacas ou as hortaliças, jamais ria e nas contadas ocasiões em que decidia que alguém era digno de que lhe dirigisse a palavra, soltava-lhe uma conferência ou um sermão. Não era preciso lhe responder.

Não falava para conversar. Falava para sentar cadeira. Passava muito pouco tempo com o Luke, dado que não tinha paciência para as pouco realistas idéias dos meninos, para seus tolos jogos e suas estupidezes. A olhos da Elizabeth quão único a seu pai gostava do Luke era que o menino era como um livro em branco preparado para ser cheio de informação e sem o suficiente conhecimento para pôr em tecido de julgamento ou criticar o que nele se vertia. Os contos de fadas e demais fantasias não tinham capacidade para seu pai. Elizabeth suspeitava que naquela realidade era a única crença que ambos compartilhavam.

Bocejou, estirou-se e, ainda incapaz de abrir os olhos a brilhante luz, procurou provas o despertador na mesita de noite. Embora cada manhã despertava à mesma hora, nunca se esquecia de pôr em hora o despertador. O braço topou com algo frio e duro que caiu com estrépito ao chão.

Seu dormitado coração lhe deu um tombo assustado.

Aparecendo a cabeça pelo bordo da cama viu o atiçador de ferro em cima do carpete branco. Sua «arma» também lhe recordou que tinha que chamar o Rentokil para que a liberassem dos ratos. Tinha notado sua presença na casa ao longo de todo o fim de semana e o pensar que podiam ter acontecido as últimas noites dentro do dormitório a tinha posto tão paranóica que logo que tinha dormido, embora isso não era particularmente incomum em seu caso.

Lavada e vestida, depois de despertar ao Luke baixou à cozinha. Minutos depois, provida da sabida taça de rápido, marcou o número do Rentokil. Luke entrou dormitado à cozinha com o cabelo loiro revolto e uma camiseta laranja médio remetida nas calças curtas vermelhas, traje que completavam uns meias três-quartos desemparelhados e sapatilhas de esporte providas de luzes que se acendiam a cada passo.

—Onde está Ivan? —perguntou médio grogue, e percorreu a cozinha com a vista como se fosse a primeira vez que a via em sua vida. Cada manhã fazia o mesmo; demorava ao menos uma hora em despertar inclusive depois de haver-se levantado e vestido. Durante as escuras manhãs de inverno ainda demorava mais. Elizabeth supunha que em algum momento dado de suas classes matutinas na escola finalmente cobrava consciência do que estava fazendo.

—Onde está Ivan? —repetiu o menino.

Elizabeth lhe fez calar levando um dedo aos lábios e lhe lançando um olhar iracundo enquanto escutava à empregada do Rentokil. Luke sabia de sobra que não devia interromper a sua tia quando esta falava por telefone.

—Bom, dei-me conta este fim de semana. na sexta-feira à hora do almoço, em realidade, por isso me pregunt...

—Ivan! —chiou Luke, e começou a procurar debaixo da mesa da cozinha, detrás das cortinas, detrás das portas. Elizabeth elevou os olhos ao teto. Já estávamos outra vez.

—Não, em realidade não cheguei a ver nenhum...

—IVAAAAAAN?

—... ainda, mas noto sem lugar a dúvidas que estão aqui—terminou Elizabeth, e tratou de captar a atenção do Luke para poder lhe lançar o olhar iracundo outra vez.

—Ivan! Onde te colocaste? —gritava Luke.

—Cagarrutas? Não, nenhuma cagarruta —disse Elizabeth começando a irritar-se.

Luke deixou de gritar e aguçou o ouvido.

—O que? Não te ouço bem—disse.

—Não, não tenho ratoeiras. Ouça, estou muito ocupada, não tenho tempo para responder tantas perguntas. Não pode enviar a alguém para que o comprove por si mesmo? —espetou Elizabeth.

De repente Luke saiu correndo da cozinha para o vestíbulo. Elizabeth lhe ouviu golpear a porta da sala de estar.

—O que está fazendo aí dentro, Ivan? —perguntou Luke atirando do trinco.

Finalmente Elizabeth terminou sua conversação e pendurou o telefone com fúria. Luke estava gritando a pleno pulmão através da porta da sala. A Elizabeth lhe alterou o sangue.

—Luke! Vêem aqui agora mesmo!

Os golpes contra a porta do salão cessaram imediatamente. Luke entrou na cozinha arrastando os pés.

—Não arraste os pés! —chiou Elizabeth.

Luke obedeceu e as luzes das reveste de suas sapatilhas se acenderam a cada passo. plantou-se diante dela e falou em voz baixa e com toda a inocência que lhe permitia sua voz aguda.

—por que encerrou ao Ivan no salão ontem à noite?

Silêncio.

Ela tinha que pôr fim a aquilo em seguida. Aproveitaria o momento para sentar-se e falar do assunto com o Luke e depois este respeitaria seus desejos. Ajudaria-lhe a entrar em razão e já não se falaria mais de nenhum amigo invisível.

—Ivan me perguntou por que te levou o atiçador da chaminé à cama —adicionou Luke sentindo-se mais crédulo ao ver que Elizabeth tinha deixado de lhe chiar.

Elizabeth explorou.

—Não quero ouvir nenhuma palavra mais a respeito desse tal Ivan, entendido?

Luke ficou pálido.

—Ouviste-me? —gritou Elizabeth. Não lhe deu oportunidade de responder. Sabe tão bem como eu que não há ninguém que se chame Ivan. Não joga a te perseguir, não come pizza, não está no salão e não é seu amigo porque não existe.

Luke enrugou a frente como se fora a tornar-se a chorar. Elizabeth prosseguiu: —Hoje vai a casa de seu avô e se me disser que mencionaste ao Ivan terá que as verta comigo.

Entendido?

Luke ficou a chorar em silêncio.

—Entendido? —repetiu Elizabeth.

Seu sobrinho assentiu lentamente com a cabeça enquanto as lágrimas lhe escorregavam pelas bochechas.

O sangue da Elizabeth deixou de alterar-se e começou a lhe doer a garganta de tanto gritar.

—Agora sente-se à mesa e te servirei os cereais —adicionou em voz baixa.

Tirou a caixa de Coco Pops. Normalmente não lhe permitia tomar cafés da manhã tão açucarados, mas tampouco podia dizer-se que tivesse falado com o Luke a respeito do Ivan tal como tinha planejado. Constava-lhe que perdia os estribos com muita facilidade. sentou-se à mesa e olhou como Luke enchia de Coco Pops sua terrina de cereais e como tremiam suas mãos de menino com o peso do cartão de leite. Luke derramou um pouco de leite em cima da mesa. Elizabeth se absteve de voltar a lhe gritar, embora a tinha limpo a noite anterior até deixá-la resplandecente. Inquietava-lhe algo do que havia dito Luke, mas não conseguia recordar do que se tratava. Apoiou o queixo na mão e lhe observou comer.

Luke mastigava devagar. Com tristeza. Além do rangido que emitia ao mascar, na cozinha reinava um silêncio sepulcral. Finalmente, transcorridos uns minutos, falou.

—Onde está a chave do salão? —perguntou evitando o olhar da Elizabeth.

—Luke, não fale com a boca enche —disse Elizabeth em voz baixa. Tirou do bolso a chave da sala de estar, saiu ao vestíbulo e fez girar a chave na fechadura da porta da sala. Muito bem, agora Ivan é livre para partir de casa —brincou para ato seguido arrepender-se do dito.

—Pois não —disse Luke causar pena da mesa da cozinha. Não pode abrir portas por si mesmo.

Silêncio.

—Não pode? —repetiu Elizabeth.

Luke negou com a cabeça como se o que acabasse de dizer fosse o mais normal do mundo. Era o mais absurdo que Elizabeth tinha ouvido em sua vida. Que classe de amigo imaginário era Ivan se não podia atravessar paredes e portas? Bem, pois ela não ia abrir lhe a porta, bastante estúpido tinha sido já lhe haver aberto o ferrolho. Retornou à cozinha a recolher as coisas que necessitava para trabalhar. Luke terminou seus cereais, colocou a terrina na lava-louça, lavou-se as mãos, as secou e se dirigiu à porta da sala de estar. Girou o trinco, abriu a porta empurrando, fez-se a um lado, sorriu de brinca a brinca ao vazio, apoiou um dedo nos lábios, assinalou a Elizabeth com a outra mão e sufocou uma risita. Elizabeth lhe olhava horrorizada; depois cruzou o vestíbulo e se plantou ante a porta ao lado do Luke. apareceu à sala de estar.

Vazia.

A moça do Rentokil havia dito que era estranho que houvesse ratos na casa em pleno mês de junho, e enquanto Elizabeth olhava a sala de estar com receio, perguntou-se que diabos estaria fazendo todos aqueles ruídos.

A risita do Luke a tirou de repente de seu transe e, olhando através do vestíbulo, viu-lhe sentado à mesa balançando as pernas o mar de contente e lhe fazendo caretas ao ar. Ao outro lado da mesa havia um sítio adicional disposto com uma terrina recém servida de Coco Pops.

—Menino, que severo é! —sussurrei ao Luke enquanto tomava Coco Pops a colheradas procurando que ela não se desse conta. Normalmente não estou acostumado a sussurrar em presença dos pais, mas como ela já me tinha ouvido um par de vezes nos últimos dias, preferi não correr nenhum risco.

Luke soltou uma risita e assentiu com a cabeça.

—Sempre está assim?

Assentiu de novo.

—Alguma vez joga contigo nem te abraça? —perguntei observando como Elizabeth limpava até o último rincão de uns tabuleiros de cozinha que já refulgiam, e deslocava objetos um centímetro para a direita e um centímetro para a esquerda.

Luke refletiu um momento e disse:

—Mas bem não.

—Mas isso é horrível! E não te importa?

—Edith diz que no mundo há algumas pessoas que não lhe abraçam sem parar nem jogam contigo, mas que mesmo assim lhe querem. É só que não sabem como dizê-lo —respondeu sussurrando.

Elizabeth jogou uma olhada com inquietação.

—Quem é Edith?

—Minha babá.

—Onde está?

—De férias.

—E quem te cuidará enquanto esteja de férias?

—Você. —Luke sorriu.

—Choca-a—pinjente tendendo a mão. Luke a estreitou. Se faz assim —expliquei, sacudindo a cabeça e o corpo inteiro como se tivesse convulsões. Luke se pôs-se a rir e me imitou. Rimos ainda com mais ganha e Elizabeth deixou de limpar para nos olhar fixamente. Abriu uns olhos como pratos.

—Faz muitas perguntas —sussurrou Luke.

—E você responde muitas —repliquei, e ambos nos rimos.

O BMW da Elizabeth estralava com o passar do caminho cheio de buracos que conduzia à granja de seu pai. Agarrava o volante com força, exasperada pelo pó que levantava seu passo e se pegava aos flancos do carro recém lavado. Como tinha podido viver naquela granja durante dezoito anos era algo que escapava a sua compreensão. Não havia maneira de manter nada limpo. As fúcsias silvestres dançavam balançadas pela brisa lhes dando a bem-vinda dos márgenes da estrada.

Flanqueavam os quase dois quilômetros de reta como se fossem as balizas de uma pista de aterrissagem e roçavam os guichês do carro aparecendo seus rostos para ver quem ia dentro. Luke baixou seu guichê e deixou que lhe fizessem cócegas na mão com seus beijos.

Elizabeth rezou para que não viesse tráfico em direção contrária, pois a estrada resultava já estreita para um só carro e não deixava sítio para que passasse outro veículo. Se queria lhe ceder o passo a outro teria que retroceder mais do meio quilômetro por onde tinha vindo. Às vezes lhe dava a impressão de que era o caminho mais comprido do mundo. Embora via o lugar ao que tentava chegar, não obstante teria que dar marcha atrás uma e outra vez para consegui-lo.

Dois passos adiante e um passo atrás.

Era como quando de menina divisava a sua mãe ao longe mas se via obrigada a aguardar os vinte minutos que ela demorava para percorrer o caminho até ouvir o sabido chiado da grade.

Entretanto, graças a Deus havida conta do atraso que já levavam, esta vez não veio ninguém em sentido oposto. Obviamente as palavras da Elizabeth tinham cansado em saco quebrado, posto que Luke se negou a sair de casa até que Ivan se terminou os cereais. Então insistiu em jogar para diante o assento do co-piloto para que Ivan pudesse subir ao assento traseiro.

Elizabeth olhou de esguelha ao Luke. Ia sentado junto a ela com o cinto de segurança grampeado e tirava o braço pelo guichê enquanto cantarolava a mesma canção que tinha estado cantando todo o fim de semana. Parecia contente. Esperou que não seguisse representando aquela comédia, ao menos enquanto estivesse em casa de seu avô.

Viu seu pai aguardando junto à grade. Uma visão conhecida. Uma ação conhecida. Aguardar era seu forte. Levava as mesmas calças de veludo cotelê marrom que Elizabeth teria jurado que gastava quando ela era menina. Tinha-os metidos nas enlameadas botas de borracha verdes que estava acostumado a ficar na casa. O suéter cinza de algodão, bordado com um descolorido desenho de rombos verdes e azuis, tinha um buraco no centro por onde aparecia o pólo verde de debaixo.

Completavam seu traje uma boina de tweed encasquetada, e na mão direita empunhava um fortificação de endrino se por acaso perdia o equilíbrio. Uma barba cã de três dias lhe decorava o rosto e o queixo. Tinha as sobrancelhas muito povoadas e quando franzia o cenho pareciam lhe tampar por completo os olhos cinzas. O nariz de largos guichês cheias de cabelos cinzas ressaltava em seu semblante. Profundas rugas lhe sulcavam a cara, tinha as mãos grandes como pás, os ombros largos como o Vale do Dunloe. Fazia que a casa que tinha detrás parecesse pequena.

Luke deixou de cantarolar assim que viu seu avô e voltou a colocar o braço no carro. Elizabeth freou, apagou o motor e se apeou. Tinha um plano. Assim que Luke desceu do carro fechou a porta e jogou o seguro sem lhe dar tempo a apartar o respaldo do assento para que saísse Ivan. Luke voltou a enrugar o rosto enquanto olhava alternativamente a Elizabeth e o carro.

A grade da casa chiou.

A Elizabeth lhe fez um nó no estômago.

—bom dia —disse uma voz grave e ressonante. Não foi uma saudação. Foi uma asseveração.

Com o lábio inferior tremente Luke pegou a cara e as mãos ao cristal do assento traseiro do carro.

Elizabeth esperou que não agarrasse um manha de criança.

—Não vai lhe dar os bom dia ao avô, Luke? —perguntou Elizabeth com severidade, plenamente consciente de que ela ainda não o tinha saudado.

—Olá, avô —disse Luke com voz entrecortada sem separar a cara do cristal.

Elizabeth considerou a possibilidade de lhe abrir a porta do carro tão somente para evitar uma cena, mas o pensou melhor. Era preciso que Luke superasse aquela etapa.

—Onde está o outro? —troou o vozeirão do Brendan.

—O outro o que?

Elizabeth tomou ao Luke da mão e tentou separá-lo do carro. Os olhos azuis do Luke se fixaram suplicantes nos seus. A ela lhe encolheu o coração. Luke sabia muito bem que não devia provocar uma cena.

—O guri que entende de verduras estrangeiras.

—Ivan —disse Luke tristemente com os olhos arrasados em lágrimas.

Elizabeth interveio em seguida.

—Ivan não pôde vir hoje, verdade, Luke? Talvez outro dia —atravessou com urgência, e antes de que se complicassem as coisas adicionou—: Bom, melhor será que me vá trabalhar se não querer chegar tarde. Luke, passa um bom dia com o avô, vale?

Luke a olhou com ar vacilante e assentiu.

Elizabeth se odiou a si mesmo, mas lhe constava que fazia bem pondo freio a aquele ridículo comportamento.

—Pois vete já —espetou Brendan assinalando-a com o fortificação de endrino como se a afugentasse, e se voltou para a casa. Quão último ouviu Elizabeth antes de fechar o carro com uma portada foi o chiado da grade. No caminho teve que dar marcha atrás duas vezes para deixar passar a outros tantos tratores. Pelo espelho retrovisor via o Luke e a seu pai, tão distintos de estatura, no jardim dianteiro. Não conseguia partir da casa suficientemente depressa; dava a impressão de que o fluxo do tráfico se empenhasse em empurrar a de volta como se de uma maré se tratasse.

Elizabeth recordou o momento de seus dezoito anos em que lhe sentou de maravilha liberar-se daquela visão. Pela primeira vez em sua vida se ia da casa carregada de bagagem e com a intenção de não retornar até Natal. partia à Universidade do Cork depois de ter ganho a batalha contra seu pai, embora a costa de ter perdido todo o respeito que este tivesse sentido por ela alguma vez. Em lugar de compartilhar o entusiasmo de sua filha se negou a despedir-se dela em seu grande dia. A única figura que Elizabeth viu aquela radiante manhã de agosto ao afastar-se foi a do Saoirse a seus seis anos, de pé ante a casa, com dois desalinhadas acréscimos ruivos e um sorriso de orelha a orelha que revelava os dentes que lhe faltavam, lhe dizendo adeus com a mão freneticamente, cheia de orgulho por sua irmã maior.

Em lugar do alívio e a excitação que sempre tinha sonhado sentir quando o táxi por fim a levasse de sua casa rompendo o cordão umbilical que a amarrava ali, sentiu pavor e preocupação. Não pelo que a aguardava diante, mas sim pelo que estava deixando atrás.

Não lhe correspondia exercer de mãe do Saoirse para sempre, era uma moça que tinha que ser livre, que tinha que encontrar seu próprio lugar no mundo. Seu pai devia assumir a paternidade que lhe correspondia, cargo que tinha desprezado anos atrás e que se negava a admitir. Agora Elizabeth só esperava que ao estar os dois solos Brendan reconhecesse seus deveres e desse à menina todo o amor que ficasse.

Mas e se não o fazia? Seguiu observando a sua irmã pelo guichê traseiro sentindo-se como se não fora a vê-la nunca mais, e lhe disse adeus com a mão tão depressa e freneticamente como pôde enquanto os olhos lhe enchiam de lágrimas pela pequena vida e o punhado de energia que estava abandonando. Os acréscimos ruivos alvoroçados seguiam sendo visíveis a mais de um quilômetro, de modo que ambas seguiram dizendo-se adeus com a mão. O que faria seu hermanita quando a diversão de despedi-la terminasse e caísse na conta de que estava a sós com o homem que alguma vez falava, alguma vez ajudava e alguma vez dava amostras de amor? Faltou pouco para que Elizabeth pedisse ao condutor que detivera o carro ali mesmo, mas em seguida se disse que devia seguir adiante. Tinha que viver.

«Algum dia fará quão mesmo eu, pequena Saoirse —diziam seus olhos à diminuta figura enquanto se afastava dali. me Prometa que fará o mesmo, que te partirá daqui.»

Com os olhos cheios de lágrimas Elizabeth olhava como a casa se ia fazendo pequena no retrovisor até que por último desapareceu ao chegar ao final do lance reto da estrada. Ato seguido lhe relaxaram os ombros e se deu conta de que tinha contido a respiração todo o momento.

—Bom, Ivan —disse olhando pelo retrovisor o assento traseiro vazio—, suponho que te vem comigo ao trabalho.

Então fez algo muito estranho.

Riu bobamente como um menino.