Se me pudesses ver agora
Capítulo 20
O tempo trocou da noite para o dia. A última semana de junho o sol tinha abrasado a erva, secado o chão e gasto chicoteia a milhares, que pululavam por toda parte incomodando a todo quisqui. A noite do sábado todo isso trocou. O céu se obscureceu dando passo às nuvens. Mas isso era típico do clima irlandês: passar sem solução de continuidade de uma onda de calor a um vendaval tormentoso. Era predeciblemente imprevisível.
Elizabeth tremia na cama e subiu o edredom até o queixo. Não tinha posto a calefação e em que pese a que a necessitasse se negava a pô-la durante os meses do verão por uma questão de princípios. Fora as grandes árvores tremiam também; o vento agitava suas folhas. Projetavam sombras fabulosas nas paredes do dormitório. As fortísimas rajadas que sopravam soavam como ondas gigantes estrelando-se contra os escarpados. Dentro, as portas vibravam. O balancim do jardim oscilava adiante e atrás chiando. Tudo se movia súbita e violentamente, sem nenhum ritmo nem coerência.
Elizabeth pensava no Ivan. perguntava-se por que se sentia atraída para ele e por que cada vez que abria a boca soltava sem disfarces os segredos melhor guardados do mundo. perguntava-se por que lhe tinha feito um sítio em sua casa e em sua cabeça. A Elizabeth adorava estar sozinha, não ansiava companhia, mas ansiava a companhia do Ivan. perguntava-se se deveria retirar-se um pouco, havida conta de que Fiona vivia a um tiro de pedra de sua casa. Acaso sua proximidade com o Ivan, embora só fossem amigos, poderia ser perturbadora para o Sam e Fiona? Elizabeth sempre tinha crédulo na Fiona para que esta cuidasse do Luke quase sem aviso prévio.
Como de costume, Elizabeth tentou fazer caso omisso de tais pensamentos. Tentou fingir que tudo seguia sendo como sempre, que nada tinha trocado em seu foro interno, que suas muralhas não se estavam desmoronando, franqueando o passo a convidados inoportunos. Não queria que isso acontecesse, não saberia enfrentar-se a uma mudança.
Finalmente se centrou em quão único permanecia constante e inalterável nas enérgicas rajadas. E em troca disso a lua não lhe tirou o olho de cima quando por fim se sumiu em um sonho intranqüilo.
—Quiquiriquí!
Elizabeth abriu um olho, confundida pelo ruído. A habitação estava cheia de luz. Pouco a pouco abriu o outro olho e viu que o sol havia tornado e se estava encarapitando em um céu azul e sem nuvens, embora as árvores seguiam dançando como possessos na discoteca improvisada do jardim traseiro.
— Quiquiriquí!
Aí estava outra vez. Atordoada pelo sonho, conseguiu levantar-se da cama e aproximar-se da janela. No meio do jardim estava Ivan fazendo buzina com as mãos ao redor da boca e gritando:
—Quiquiriquí!
Elizabeth se tampou a boca, rendo, e abriu a janela. O vento entrou no dormitório.
—Ivan! O que está fazendo?
—É hora de levantar-se! —gritou Ivan. O vento lhe arrebatou o final da frase e a levou para o norte.
—Está louco! —chiou Elizabeth.
Luke apareceu assustado à porta do dormitório.
—O que está passando?
Elizabeth fez gestos ao Luke para que se aproximasse da janela e este se tranqüilizou assim que viu o Ivan.
—Olá, Ivan! —gritou Luke.
Este levantou a vista e sorriu, e depois elevou a mão com a que se sujeitava a boina para saudar o Luke. A boina desapareceu de sua cabeça, arrebatada por uma súbita rajada fortísima. O menino e Elizabeth estiveram observando, mortos de risada, como Ivan dava caça à boina por todo o jardim, correndo daqui para lá a tenor das caprichosas mudanças de direção do vento. Finalmente se serve de um ramo rota para fazê-la cair da árvore onde ficou apanhada.
—O que faz aí fora, Ivan? —chiou Luke.
—É o dia do Jinny Joe! —anunciou Ivan estendendo os braços para indicar quanto lhe rodeava.
—E isso o que é? —perguntou Luke olhando confundido a Elizabeth.
—Não tenho nem idéia —respondeu ela encolhendo-se de ombros.
—O que é o dia do Jinny Joe, Ivan? —chiou Luke.
—Se baixarem lhes ensinarei isso aos dois! —respondeu Ivan. Sua roupa folgada ondeava e se pegava a seu corpo.
—Não vamos vestidos! Estamos em pijama! —exclamou Luke rendo.
—Pois a que esperam? lhes ponha algo, são as seis da manhã, não nos verá ninguém!
—Vamos! —exclamou Luke entusiasmado a Elizabeth ao tempo que saltava do batente da janela. Saiu correndo da habitação e retornou minutos depois com uma perna nas calças do moletom, um suéter posto do reverso e as sapatilhas trocadas de pé.
Elizabeth se pôs-se a rir.
—Venha, date pressa! —insistiu Luke respirando entre ofegos.
—te acalme, Luke.
—Não. —Luke abriu de repente o armário roupeiro da Elizabeth—. Vístete, é o dia do Jinny Joe! —gritou com um radiante sorriso desdentado.
—Mas, Luke —resmungou Elizabeth, incômoda—, aonde se supõe que vamos?
Estava procurando segurança em um menino de seis anos.
Luke se encolheu de ombros.
—A um sítio divertido? —apontou.
Elizabeth o meditou, viu o entusiasmo nos olhos do Luke, sentiu-se invadida pela curiosidade, soube que cometia um engano, mas se endossou um moletom e saiu correndo com o Luke.
Ao sair, o vento quente lhe deu de pleno e a deixou sem fôlego.
—Ao Batmóvil! —anunciou Ivan reunindo-se com eles junto à porta principal.
Luke soltou uma risita alvoroçada.
Elizabeth ficou paralisada.
—Aonde?
—Ao carro —explicou Luke.
—Aonde vamos?
—Você conduz que eu já te avisarei quando chegarmos. É uma surpresa.
—Não —repôs Elizabeth como se fosse o mais absurdo que tivesse ouvido na vida—. Nunca subo a um carro sem saber exatamente aonde vou —declarou com altivez.
—Faz-o cada manhã —observou Ivan com ternura.
Elizabeth não fez conta.
Luke sustentou a portinhola aberta para que subisse Ivan, e uma vez todos a bordo, Elizabeth empreendeu muito contra sua aquele vontade viaje para um destino desconhecido, desejosa de dar meia volta em cada curva e perguntando-se por que não o fazia.
Depois de conduzir durante vinte minutos por estradas sinuosas, uma nervosa Elizabeth obedeceu a última indicação do Ivan e deteve o carro junto a um campo que, para ela, era igual a todos outros que haviam deixando atrás pelo caminho. Só que aquele tinha vistas sobre o resplandecente oceano Atlântico. Desentendendo do panorama olhou pelo retrovisor lateral e deu um bufido ao ver o barro que salpicava o reluzente flanco do carro.
—Uau! O que são? —Luke ficou de um salto entre os dois assentos dianteiros e assinalou para o pára-brisa.
—Amigo Luke —anunciou Ivan com alegria—, são o que a gente chama Jinny Joes.
Elizabeth levantou a vista. diante dela centenas de sementes de dente de leão revoavam no ar; a luz do sol se refletia em seus suaves e esponjosos fios brancos e flutuavam como sonhos por volta dos três ocupantes do carro.
—Parecem fadas —disse atônito Luke.
Elizabeth pôs os olhos em branco.
—Fadas! —Estalou a língua em sinal de desaprovação—. Que classe de livros estiveste lendo? São sementes de dente de leão, Luke.
Ivan a olhou com expressão frustrada.
—por que sabia que diria isso? Bom, pelo menos te trouxe aqui. Algo é algo.
Elizabeth lhe olhou surpreendida. Nunca até então se dirigiu a ela com semelhante brutalidade. —Luke —Ivan se voltou para ele—, também se conhecem como a Margarida Irlandesa mas não são só sementes de dente de leão, são o que a maioria da gente normal —olhou com reprove a Elizabeth— chama Jinny Joes. encarregam-se de levar desejos no vento e a coisa está em apanhá-los com a mão, pedir um desejo e logo soltá-los para que possam entregá-los.
Elizabeth soprou.
—Seriamente? —disse sussurrando Luke—. Mas por que faz isso a gente?
Elizabeth soltou uma gargalhada.
—Este é meu menino!
Ivan fez caso omisso dela.
—Faz centenas de anos a gente comia as folhas verdes do dente de leão porque contêm muitas vitaminas —explicou—, o qual justifica seu nome em latim, que se traduz como a «padre oficial de todos os males». Por isso a gente acredita que trazem boa sorte e pedem desejos às sementes.
—E os desejos se cumprem? —perguntou Luke esperançado.
Elizabeth olhou ao Ivan, zangada ao lhe ver encher a cabeça de seu sobrinho com falsas esperanças.
—Só os que se entregam em condições, assim, quem sabe? Recorda que às vezes até o correio se perde, Luke.
Luke assentiu com a cabeça; tinha-o entendido.
—Vale. Muito bem. Pois vamos apanhar os!
—Vão vós dois. Eu esperarei no carro —disse Elizabeth com o olhar cravado à frente.
Ivan suspirou.
—Eliza...
—Esperarei aqui —repetiu com firmeza. Acendeu a rádio e se acomodou para lhes deixar claro que não ia trocar de opinião.
Luke desceu do carro e ela se voltou para o Ivan.
—Parece-me ridículo que lhe encha a cabeça com essa fileira de mentiras —lhe soltou muito zangada—. O que pensa lhe dizer quando nenhum de seus desejos se faça realidade?
—Como sabe que não se farão realidade?
—Tenho sentido comum. Algo do que pelo visto você carece.
—Tem razão, não tenho sentido comum. Não quero acreditar quão mesmo acreditam todos outros. Tenho meus próprios pensamentos, coisas que ninguém me ensinou e que tampouco tenho lido em nenhum livro. Aprendo da experiência, em troca você... te dá medo experimentar o que for e por isso sempre terá seu sentido comum e nada mais que seu sentido comum.
Elizabeth olhou pelo guichê e contou até dez para não explorar. Detestava toda aquela verborréia new age; contrariamente ao que ele dizia, estava convencida de que aquelas eram a classe de coisas que só podiam aprender-se nos livros. Livros escritos e lidos por pessoas que se passavam a vida procurando algo, algo, com tal de abstrair do aborrecimento de sua vida real. Pessoas que precisavam acreditar que sempre e para tudo existia outro motivo além disso do mais evidente.
—Sabe uma coisa, Elizabeth? O dente de leão também se conhece como filtro de amor. Há quem diz que se soprar as sementes ao estas vento levarão seu amor a seu amado. Se soprar a delicada bola branca enquanto pede um desejo e consegue arrancar todas as sementes seu desejo se fará realidade.
Elizabeth torceu o gesto, desconcertada.
—Já basta dessa gíria, Ivan.
—Muito bem. Porque hoje Luke e eu nos dispomos a apanhar Jinny Joes. Acreditava que sempre tinha sonhado em querer alcançar um desejo —disse Ivan.
Elizabeth apartou o olhar.
—Sei o que está fazendo, Ivan, e não dará resultado —disse—. Te contei coisas de minha infância na mais estrita confidencialidade. Custou-me muito dizer as coisas que pinjente. E não o fiz para que você as convertesse em uma espécie de jogo —concluiu Elizabeth entre dentes.
—Isto não é um nenhum jogo —disse Ivan em voz baixa. desembarcou do carro.
—Tudo é um jogo para ti —lhe espetou Elizabeth—. me Diga, como é que sabe tanto sobre as sementes de dente de leão? Qual é a finalidade exata de toda essa estúpida tua informação?
Ivan se inclinou para a porta aberta e falou em voz baixa.
—Bom, parece-me bastante óbvio que se for confiar em algo que vai conduzir seus desejos no vento, possivelmente também queira saber com exatidão de onde vem e aonde tem intenção de ir.
A portinhola se fechou de repente.
Elizabeth os olhou correr para o campo.
—Pois se for assim, de onde procede exatamente, Ivan? —perguntou em voz alta—. E onde e quando tem intenção de ir?