Se me pudesses ver agora
Capítulo 25
—Passa-te algo mau? —perguntou uma voz da porta do pátio traseiro.
Elizabeth estava sentada à mesa da cozinha com a cabeça nas mãos e tão quieta como o lago Muckross em um dia de calma.
—Jesus —disse Elizabeth entre dentes sem levantar a vista e perguntando-se como era que Ivan sempre as arrumava para aparecer quando menos o esperava e mais lhe necessitava.
—Jesus? Está-te ele mortificando?
Ivan entrou na cozinha. Elizabeth levantou a cara das mãos.
—Em realidade é com seu pai com quem realmente tenho um conflito.
Ivan deu outro passo para ela; tinha a habilidade de transpassar os limites, mas nunca de uma maneira ameaçadora ou entremetida.
—Isso está acostumado a ocorrer.
Elizabeth se enxugou os olhos com um lenço de papel enrugado e manchado de rimel.
—Não trabalha alguma vez?
—Trabalho sem parar. Posso? —disse assinalando a cadeira em frente da sua. Elizabeth assentiu com a cabeça.
—Sem parar? Então isto é trabalho para ti? Não sou mais que outro caso perdido a quem te toca atender hoje? —perguntou Elizabeth com sarcasmo, apanhando uma lágrima a meia bochecha com o lenço de papel.
—De perdida não tem nada, Elizabeth. Não obstante, é um caso; já lhe hei isso dito —disse Ivan seriamente.
Elizabeth se pôs-se a rir.
—Uma louca.
Ivan se mostrou triste. Incomprendido outra vez.
—Este é sua uniforme? —perguntou Elizabeth indicando seu traje. Ivan se olhou a si mesmo um pouco surpreso—. Sempre te vi com essa mesma roupa —prosseguiu ela sonriendo—, ou seja que ou é um uniforme ou não é muito higiênico e te falta imaginação.
Ivan abriu muito os olhos.
—Vamos, Elizabeth, imaginação tenho de sobra. —Sem dar-se conta do que tinha dado a entender, adicionou—: Quer que falemos de por que está tão triste?
—Não, sempre falamos de mim e de meus problemas —replicou Elizabeth— Falemos de ti, um pouco para variar. O que tem feito hoje? —perguntou tratando de animar-se. Parecia que tivesse transcorrido muito tempo desde que tinha beijado ao Ivan na rua maior aquela manhã. Levava todo o dia pensando nisso e lhe preocupava quem os teria visto, mas assombrosamente, tratando-se de um povo que se inteirava de tudo antes que o programa Sky News, ninguém havia dito nem pio sobre o homem misterioso.
Desejosa de voltar a beijar ao Ivan e temerosa desse desejo, tinha tentado adormecer em seu coração qualquer sentimento para ele, mas não o tinha conseguido. Havia no Ivan algo puro e sem mancha e, não obstante, era um homem de caráter e bom conhecedor da vida. Era como uma droga que ela sabia que não devia tomar mas que a fazia retornar uma e outra vez a nutrir seu vício. Quando a fadiga se apoderou dela ao final do dia, a lembrança do beijo se converteu em um consolo e seu desgosto se esfumou. Quão único queria agora era repetir aquele momento durante o que seus problemas tinham desaparecido.
—O que tenho feito hoje? —Ivan fez girar os polegares e pensou em voz alta—. Bom, hoje dei um bom toque de alvo a tudo Dance na gGroíthe, beijei a uma mulher preciosa e logo me passei o resto do dia sem conseguir fazer outra coisa que pensar nela.
O rosto da Elizabeth se iluminou e os penetrantes olhos azuis do Ivan lhe esquentaram o coração.
—E como não podia deixar de pensar —prosseguiu Ivan—, pois me passei o dia sentado pensando.
—Sobre o que?
—Além da mulher preciosa?
—Além dela. —Elizabeth desdobrou um amplo sorriso.
—Melhor não lhe o conto.
—Poderei suportá-lo.
Ivan não as tinha todas consigo.
—Vale, se de verdade quer sabê-lo —suspirou profundamente—, estive pensando nos Borrowers.
Elizabeth franziu o cenho.
—O que?
—Os Borrowers —repetiu Ivan com ar pensativo.
—O programa de televisão? —exclamou Elizabeth, irada. dispôs-se para ouvir doces sussurros sobre naderías como faziam nos filmes, não aquela improvisada conversação falta de amor.
—Sim—Ivan pôs os olhos em branco sem reparar no tom da Elizabeth—, se quer te referir a esse aspecto comercial de sua carreira. —Parecia zangado—. Mas depois de pensar comprido e tendido a respeito deles cheguei à conclusão de que não tomavam emprestado.*
O que faziam era roubar. Roubavam descaradamente, e todo mundo sabe, mas ninguém diz nada a respeito. Tomar emprestado significa fazer uso de algo que pertence a outro e logo devolver-lhe vamos ver, quando lhes viu devolver algo? Não recordo que Pálido devolvesse nada aos Prestamistas. Sobre tudo a comida. Como vais pedir que lhe emprestem comida? Come-lhe isso e desaparece; não se pode devolver. Ao menos quando toma o jantar sabe aonde vai. —apoiou-se no respaldo e cruzou os braços com ar zangado—. E conseguem que façam um filme sobre eles, um atalho de ladrões, enquanto que nós... Não fazemos mais que o bem, mas nos etiquetam como produto da imaginação da gente e ainda somos —fez uma careta e indicou as aspas com os dedos — «invisíveis». Por favor...
Elizabeth o contemplou com a boca aberta.
Houve um comprido silencio enquanto Ivan percorria com a vista a cozinha meneando com aborrecimento a cabeça. Logo voltou sua atenção para a Elizabeth.
—O que te parece?
Silêncio.
—Bom, não importa —comentou ele agitando a mão para desprezar o assunto—. Já te disse que era melhor que não lhe contasse isso. Deixemos, pois, meus problemas. me diga, o que é o que ocorreu?
Elizabeth fez uma profunda inspiração. A questão do Saoirse lhe fez esquecer o bate-papo desconcertante sobre os Borrowers.
—Saoirse desapareceu. Joe, o homem que sabe tudo o que acontece em Dance na gCroíthe, há-me dito que se partiu com o grupo com o que se juntava. Ele o soube através de um parente do tipo que era o casal de minha irmã. Mas ela leva três dias sem aparecer e ninguém sabe aonde se foram.
—OH! —exclamou surpreso Ivan—. E eu venha a te dar a lata com meus problemas. O comunicaste ao gardaí?
—Tive que fazê-lo —respondeu Elizabeth com tristeza—. Me senti como uma mexeriqueira, mas a polícia deve sabê-lo no caso de Saoirse não se apresenta à vista que terá lugar dentro de umas semanas, coisa da que não me cabe a menor duvida. Terei que contratar a um advogado que a represente, e isso a vai prejudicar. —esfregou-se a cara com ar cansado.
Ivan tomou as mãos entre as suas.
—Voltará —lhe disse em tom convencido—. Possivelmente não chegue a tempo para a vista, mas voltará. me acredite. Não deve preocupar-se. —Sua voz suave soava muito firme.
Elizabeth lhe olhou ao fundo dos olhos, procurando saber se dizia a verdade.
—Acredito-te —disse. Mas no mais fundo de seu coração tinha medo. Medo de acreditar no Ivan, mas também medo de acreditar em secas, pois cada vez que o fazia suas esperanças eram tão visíveis como uma bandeirola que ondeasse no alto de um mastro, de um modo bem visível para todo mundo. Ali acima suportava os ventos e as tormentas, só para acabar sendo arriado, descolorido e feito farrapos.
Além disso, Elizabeth não se via capaz de passar mais anos esquadrinhando o caminho através da janela de sua habitação, esperando a volta de uma segunda pessoa. Estava exausta e tinha necessidade de fechar os olhos.