Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 37 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 36

 

—Opal —avisei sem levantar a voz da soleira de seu escritório. Parecia tão frágil que me dava medo que qualquer ruído a fizesse pedacinhos.

—Ivan.

Opal sorriu cansada e se apartou as tranças de rastafari da cara as prendendo com um passador.

Vi-me em seus olhos brilhantes ao entrar na habitação.

—Estamos muito preocupados com ti. Há algo que possamos fazer para te dar uma mão?

—Obrigado, Ivan, mas além de vigiar que tudo vá bem por aqui, a verdade é que ninguém pode fazer nada. Estou tremendamente cansada. passei as últimas noites no hospital me obrigando a não dormir. Só ficam uns poucos dias, agora; quero estar a seu lado quando... —Apartou a vista do Ivan e a dirigiu à foto emoldurada que tinha no escritório, e quando ao pouco voltou a falar o fez com voz tremente—. Oxalá existisse uma maneira de me despedir dele, de lhe fazer saber que não está sozinho, que estou a seu lado.

Lhe saltaram as lágrimas. Fui junto a ela e a consolei em que pese a me sentir impotente e saber que por uma vez não cabia fazer absolutamente nada para ajudar a aquela amiga. Ou acaso sim?

—Espera um momento, Opal. Possivelmente haja uma maneira de fazê-lo. Tenho uma idéia.

E dito isto saí correndo.

Elizabeth tinha organizado a última hora que Luke ficasse a dormir em casa do Sam. Sabia que precisava estar a sós aquela noite. Percebia que se estava operando uma mudança em seu foro interno; o frio se apropriou de seu corpo e resistia a partir. Estava acurrucada na cama com um pulôver que ia grande e uma manta, tratando desesperadamente de entrar em calor.

A lua ao outro lado da janela reparou em que algo ia mau e a resguardou protegendo a da escuridão. A idéia do que lhe esperava dava a Elizabeth retortijones no estômago. As coisas que Ivan e Luke haviam dito hoje tinham feito girar uma chave em sua mente abrindo um baú de lembranças tão aterradoras que Elizabeth tinha medo de fechar os olhos.

Olhou a lua através das cortinas abertas da janela e ao cabo se deixou levar a deriva...

Tinha doze anos. Fazia duas semanas que sua mãe a tinha levado de picnic ao campo, duas semanas desde que lhe dissesse que ia partir; e a menina levava duas semanas aguardando sua volta. Fora do dormitório da Elizabeth seu pai embalava em seus braços a uma gritã Saoirse de um mês tratando de consolá-la e acalmá-la.

—Ea, ea, pequena, não chore mais...

Às vezes dizia essas tenras palavras em tom mais alto e logo baixava a voz enquanto caminhava de um lado ao outro da casa na noite avançada. No exterior o vento uivava e penetrava assobiando pelas frestas das janelas e as fechaduras das portas. Uma vez dentro, corria e dançava pelas habitações mofando-se da Elizabeth, chateando-a e lhe fazendo cócegas sem ter em conta que estava tombada na cama com as mãos nos ouvidos e as bochechas cobertas de lágrimas.

Os choros do Saoirse se fizeram mais agudos, as súplicas do Brendan mais apuradas e Elizabeth se tampou a cabeça com o travesseiro.

—Por favor, Saoirse, deixa já de chorar—rogou seu pai, que tratou de entoar a canção de ninar que a mãe da Elizabeth sempre cantava a suas filhas. Elizabeth se apertou mais as orelhas com as mãos, mas mesmo assim seguiu ouvindo os chiados do Saoirse e a desafinada melodia que cantava seu pai.

—Quer uma mamadeira? —perguntou seu pai com ternura ao bebê que não deixava de chiar—. Não? me diga, carinho, o que te passa? —perguntou com voz causar pena—. Eu também a estranho, carinho, eu também a estranho. —E ele também pôs-se a chorar.

Saoirse, Brendan e Elizabeth choraram juntos pelo Gránnie, mas os três se sentiam muito solos na casa açoitada pelo vento.

De repente uns faróis surgiram ao final do caminho. Elizabeth se desentupiu e se sentou no bordo da cama, tremente de emoção. Era sua mãe. Tinha que sê-lo. Quem mais ia até ali às dez da noite? Elizabeth ficou a saltar na cama presa de uma imensa alegria.

O carro se deteve diante da casa, a portinhola se abriu e Elizabeth viu baixar a Kathleen, a irmã do Gránnie. Deixando a portinhola aberta, os faróis acesos e os limpador de pára-brisas em marcha, Kathleen se dirigiu com passo decidido à grade, abriu-a fazendo-a chiar e chamou esmurrando a porta.

Brendan a acolheu na soleira com a chorosa Saoirse em seus braços. Elizabeth correu à porta de sua habitação e pelo olho da fechadura espiou o que ocorria na entrada.

—Está aqui? —inquiriu Kathleen a bocajarro sem saudar.

—Chisss —disse Brendan—, vais despertar a Elizabeth.

—Como se não estivesse acordada com estes berros. O que lhe tem feito a esta pobre criatura? — perguntou com incredulidade.

—A menina sente falta da sua mãe —respondeu Brendan levantando a voz—. Como todos nós — adicionou em um tom mais amável.

—Dêem me ordenou isso Kathleen.

—Está empapada —resmungou Brendan apartando-se e estreitando com mais força a sua filhinha.

—Está aqui? —perguntou de novo Kathleen com voz ainda zangada. Seguia plantada na soleira da porta principal. Não tinha pedida permissão para entrar nem a tinham convidado a fazê-lo.

—Claro que não está aqui. —Brendan embalava ao Saoirse procurando acalmar—. Acreditava que lhe tinha levado isso a esse sítio mágico onde a foram curar para sempre —disse com amargura.

—supunha-se que era um dos melhores sítios, Brendan, melhor que os outros, ao menos. —E acrescentou entre dentes—: O caso é que se foi.

—Ido? O que significa que se foi?

—Esta manhã não estava em sua habitação. Ninguém a viu partir.

—Sua mãe tem o cacoete de desaparecer de noite —disse Brendan zangado arrulhando ao Saoirse —. Bom, se não estar onde a enviou, não terá que procurar muito longe daqui. Seguro que não está no Flanagan's?

Elizabeth abriu muito os olhos e afogou um grito. Sua mãe estava ali, em Dance na gCroíthe; não se tinha partido depois de tudo.

Em meio da breve pausa que seguiu ao amargo diálogo, Saoirse reatou seus choros.

—Por todos os Santos, Brendan, quer fazê-la calar? —queixou-se Kathleen—. Sabe que posso ficar com as meninas. Poderiam viver comigo e com o Alan em...

—São minhas filhas e não me vais tirar isso como fez com o Gránnie —bramou Brendan. Saoirse deixou de chorar.

fez-se um prolongado silêncio.

—te largue daqui—disse Brendan fracamente, como se seu anterior arrebatamento lhe tivesse quebrado a voz.

A porta principal se fechou e Elizabeth olhou pela janela e viu como Kathleen fechava a grade de uma portada e subia ao carro. Este saiu disparado e os faróis se desvaneceram ao longe junto com as esperanças da Elizabeth de ir-se com ela a ver sua mãe.

Embora conservou um raio de esperança. Seu pai tinha mencionado Flanagan'S. Elizabeth sabia onde estava, já que passava por diante cada dia caminho da escola. Faria a mala, encontraria a sua mãe e viveria com ela longe de seu pai e seu hermanita gritalhã, e juntas sairiam diariamente em busca de aventuras.

O trinco de sua porta girou e Elizabeth se mergulhou na cama e fingiu estar dormida. Mantendo os olhos bem fechados decidiu que assim que seu pai se fora à cama, ela se iria ao Flanagan'S.

Sairia às escondidas de noite, igual a sua mãe.

—Seguro que isto vai dar resultado?

Apoiada contra a parede da sala do hospital, Opal juntava e separava as trementes mãos com que se oprimia o estômago, cheia de inquietação. Ivan a olhou com incerteza.

—Merece a pena tentá-lo —disse.

Através do cristal do corredor viam o Geoffrey em sua habitação individual. Estava conectado a um respirador artificial, com a boca tampada por uma máscara de oxigênio, rodeado de artefatos que apitavam e de cabos que lhe saíam do corpo e que se uniam a umas máquinas. Em meio de todo aquele agitação seu corpo jazia quieto e em calma enquanto o peito lhe subia e baixava ritmicamente. Opal e Ivan estavam imersos nesse som estranho e inquietante que só se ouvia nos hospitais, o som da espera, de estar entre dois lugares fora do tempo.

Assim que as enfermeiras que atendiam ao Geoffrey abriram a porta para partir, Opal e Ivan entraram na habitação.

—Já a tem aqui —disse Olivia do flanco da cama do Geoffrey ao ver entrar no Opal.

Os olhos do Geoffrey se abriram em seguida e começaram a olhar em redor com frenesi por toda a habitação.

—Está a sua esquerda, querido, sustenta-te a mão —disse Olivia com ternura.

Geoffrey tentou falar, mas a máscara lhe amortecia e deformava a voz. Opal se tampou a boca com a mão, os olhos lhe arrasaram de lágrimas e a contração de sua garganta se fez visível. Só Olivia podia entender aquela linguagem, as palavras de um homem agonizante.

Olivia assentia com a cabeça enquanto lhe falava. Quando Geoffrey se deteve, lhe saltaram as lágrimas e se dispôs a transladar sua mensagem. Então Ivan se viu incapaz de permanecer na habitação.

—Há-me dito que te dissesse que o coração lhe doeu cada momento que estivestes separados, querida Opal —anunciou Olivia.

Ivan saiu da habitação pela porta aberta e caminhou tão depressa como pôde pelo corredor em direção à rua.