Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 2 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 1

Fiz-me amigo íntimo do Luke uma sexta-feira pela manhã. Eram as nove e quinze, para ser exatos, e se souber com exatidão que hora era é porque o comprovei em meu relógio de pulso. Ignoro por que o fiz já que não tinha que estar em nenhuma parte para uma hora concreta. Mas acredito que existe um motivo para tudo o que ocorre, assim possivelmente só comprovei que hora era para poder lhes contar minha história como é devido. Os detalhes são importantes nas narrações, não?

Alegrou-me conhecer o Luke essa manhã porque estava um pouco abatido depois de ter tido que me separar de meu antigo melhor amigo, Barry. Já não podia seguir me vendo. Embora em realidade não importa porque agora está mais contente e isso é o que conta, figuro-me. Ter que esquecer a meus amigos íntimos forma parte de meu trabalho. Não se trata da melhor parte, mas sou dos que acreditam que tudo tem um lado positivo, de modo que, tal como o vejo, se não tivesse que abandonar a meus amigos íntimos não poderia fazer novos amigos. E fazer amigos novos é, com muito, minha parte favorita. Certamente por isso me deram este trabalho.

Em seguida falaremos sobre meu trabalho, mas antes eu gostaria de lhes contar como foi a manhã em que conheci meu amigo íntimo Luke.

Fechei a grade do jardim dianteiro do Barry a minhas costas e comecei a caminhar, e sem nenhum motivo concreto tomei a primeira à esquerda, logo à direita, de novo à esquerda, segui reto um momento, voltei a girar à direita e terminei junto a uma urbanização de moradias de aluguel subvencionadas pela prefeitura que se chama Fúcsia Lane. Deveram lhe pôr esse nomeie pelas fúcsias que crescem em qualquer parte. Crescem silvestres, aqui. Perdão, quando digo «aqui» refiro a uma população que se chama Baile na gCroíthe sita no condado do Kerry. Isso está na Irlanda.

Em um momento dado Baile na gCroíthe passou a conhecer-se em inglês como Hartstown, mas traduzido literalmente do irlandês significa Cidade dos Corações. O qual me soa muito melhor.

Alegrou-me me encontrar de novo no mesmo lugar; fiz uns quantos trabalhos por aqui quando comecei nisto mas não tinha retornado em anos. Meu trabalho me leva por todo o país, às vezes inclusive ao estrangeiro quando meus amigos me levam fora de férias, coisa que demonstra uma vez mais que, esteja onde esteja, a gente sempre precisa ter um amigo íntimo.

A passagem de Fúcsia Lane tinha doze casas, seis a cada lado, e todas eram distintas. Essa cale sem saída era um hervidero de febril atividade. Era sexta-feira pela manhã, lembrança, corria o mês de junho, fazia um sol radiante e todo mundo estava de bom humor. Bom, todo mundo não.

Havia um montão de meninos pela rua, uns indo em bicicleta, outros perseguindo-se, jogando disco, a rayuela e a muitas outras coisas. ouviam-se seus chiados de alegria e suas risadas. Suponho que além lhes alegrava estar de férias. Mas, por mais que parecessem verdadeiramente simpáticos e tal, não me sentia atraído por eles. O caso é que não posso me fazer amigo de qualquer. Não é isso no que consiste meu trabalho.

Um homem segava a grama em seu jardim dianteiro e uma mulher que levava umas luvas imundas e enormes se ocupava de um canteiro. Havia um delicioso aroma a erva recém atalho e o ruído que fazia a mulher ao cortar com as tesouras, limpando e podando, era como música que flutuasse no ar. No jardim seguinte um homem assobiava uma canção para mim desconhecida enquanto apontava a mangueira do jardim para seu carro e observava como a espuma de sabão se deslizava pelo flanco revelando o novo brilho da carroceria. de vez em quando se dava a volta de repente e lançava o jorro de água por volta de duas meninas vestidas com trajes de banho a raias amarelas e negras. Pareciam dois besouros. eu adorava as ouvir rir tão a gosto.

No jardim seguinte um menino e uma menina jogavam a rayuela. Observei-os um momento, mas nenhum dos dois respondeu a minha amostra de interesse, de modo que segui adiante. Passei frente aos meninos que jogavam nos distintos jardins, mas nenhum deles me viu nem me convidou a jogar.

Junto a mim passavam zumbindo meninos montados em bicicleta e skate, e também cochecitos de controle remoto, todos alheios a minha presença. Estava começando a me perguntar se não teria sido um engano ir a Fúcsia Lane, coisa que resultava bastante desconcertante posto que pelo general me dava muito bem escolher lugares e ali havia um montão de meninos. Sentei-me na perto da última casa e me pus a pensar em que cruzamento podia me haver confundido.

Ao cabo de uns minutos cheguei à conclusão de que apesar de tudo estava na zona indicada.

Estranha vez giro por onde não toca. Dava-me a volta para me pôr de cara à casa que tinha a minhas costas. Não havia atividade naquele jardim, de modo que me acomodei e estudei o edifício. Tinha dois novelo e uma garagem com um carro caro estacionado fora que reluzia ao sol. Uma placa na perto justo debaixo de mim dizia «Casa Fúcsia», e o endoideci tinha uma fúcsia em flor que subia pela parede, aferrava-se aos tijolos pardos de em cima da porta principal e chegava até o muito mesmo telhado. Fazia muito bonito. Partes da casa eram de tijolo pardo e outras tinham sido pintadas de cor mel. Tinha janelas quadradas e também redondas. Certamente, era um edifício fora do comum. A porta principal era de cor fúcsia e tinha dois montantes alargados de vidro esmerilhado na parte superior, uma enorme aldaba de latão e uma rolha na parte baixa; pareciam dois olhos, um nariz e uma boca que me estivessem sonriendo. Saudei com a mão e sorri no caso de. Bom, a gente não pode estar seguro de nada nos tempos atuais.

Enquanto estudava o rosto da porta principal, um menino saiu correndo por ela e a fechou com uma soberana portada. Levava um grande carro vermelho de bombeiros na mão direita e um carro patrulha na mão esquerda. eu adoro os carros vermelhos de bombeiros; são meus favoritos. O menino saltou o degrau da entrada e correu à grama, onde aterrissou patinando sobre os joelhos. manchou-se de erva as pernas das calças das calças do moletom negro, coisa que me fez rir. As manchas de erva são muito divertidas porque não se vão por mais que se lavem. Meu antigo amigo Barry e eu patinávamos nos prados sempre que tínhamos ocasião. Bom, o menino ficou a fazer bater o carro de bombeiros contra o de polícia emitindo ruídos com a boca. Lhe davam bem os ruídos. Barry e eu também estávamos acostumados a fazer isso. Resulta divertido fingir que faz coisas que normalmente não ocorrem na vida real.

O menino estrelou o carro de bombeiros contra o patrulheiro, e o chefe de bombeiros, que ia enganchado à escada a um lado do caminhão, saiu despedido. Ri a gargalhadas e o menino levantou a vista.

Em realidade me olhou. Justo aos olhos.

—Olá —pinjente e pigarreei nervoso trocando o peso de um pé ao outro. Levava minhas sapatilhas Converse azuis favoritas, que ainda tinham manchas de erva nas ponteiras brancas de borracha de quando Barry e eu fomos patinar. Comecei a esfregar uma ponteira de borracha contra a cerca de tijolos do jardim tratando de limpá-la enquanto pensava o que ia dizer a seguir. Embora fazer amigos é o que mais eu gosto de do mundo, isso não tira que me ponha um pouco nervoso. Sempre cabe a espantosa possibilidade de que não lhe caia bem às pessoas e isso me dá um canguelo que para que. até agora tive sorte, mas seria de parvos supor que sempre vai ser assim.

—Olá —respondeu o menino pondo ao bombeiro de novo na escada.

—Como te chama? —perguntei golpeando com o pé a parede que tinha diante e esfregando a ponteira de borracha. As manchas de erva resistiam a desaparecer.

O menino me estudou um momento, olhou-me de cima abaixo como se tratasse de decidir se era digno de que me dissesse seu nome ou não. Essa é a parte de meu trabalho que mais aborreço. É um mau gole querer te fazer amigo de alguém que não quer ser teu amigo. Às vezes ocorre, embora ao final sempre trocam de parecer porque, saibam ou não, desejam minha companhia.

O menino tinha o cabelo de um loiro quase branco e grandes olhos azuis. Sua cara me soava por havê-la visto em alguma parte, mas não recordava onde.

Por fim falou.

—Meu nome é Luke. E você?

Afundei as mãos nos bolsos e me concentrei em chutar a perto do jardim com o pé direito. Estava conseguindo que umas partes de tijolo se desprendessem e caíssem ao chão. Sem lhe olhar disse: —Ivan.

—Olá, Ivan —sorriu. Faltavam-lhe os dentes de diante.

—Olá, Luke —sorri a minha vez. Eu conservava todos meus dentes. Eu gosto de seu carro de bombeiros. Meu mej... meu antigo melhor amigo Barry tinha um igual a este e jogávamos com ele sem parar. Embora não acredito que os carros de bombeiros sirvam para grande coisa porque este ao passar pelo fogo se derrete —expliquei sem me tirar as mãos dos bolsos, com o qual os ombros me subiram até as orelhas. Assim curvado se amortecia o som, de modo que tirei as mãos dos bolsos para ouvir o que Luke estava dizendo.

Luke se derrubava pela erva, morto de risada.

—Fez que seu carro de bombeiros atravessasse um perigoso fogo?—chiou.

—Bom, os carros de bombeiros estão feitos para o fogo, não? —repus à defensiva.

Luke se tombou de barriga para cima, chutou o ar desternillándose de risada e gritou: —Não, tontina! Os carros de bombeiros servem para apagar o fogo!

Refleti um momento sobre isso.

—Hummm. Olhe, vou dizer te o que apaga os fogos, Luke, expliquei com total naturalidade: a água.

Luke se deu uns golpecitos na têmpora, exclamou «Aí vai!», fez girar os olhos e voltou a desabar-se sobre a erva.

Pus-se a rir. Luke era o mar de divertido.

—Quer jogar comigo? —Luke arqueou as sobrancelhas para sublinhar a pergunta.

Sorri de brinca a orelha.

—Pois claro, Luke. Jogar é o que mais eu gosto! —E saltei a cerca do jardim para me reunir com ele na grama.

—Que idade tem? —Olhou-me com receio. Parece da mesma idade que minha tia —franziu o cenho. E a minha tia não gosta de jogar com o carro de bombeiros.

Encolhi-me de ombros.

—Bom, pois será que sua tia é uma asos velha e aborrecida.

—Uma asos! —chiou Luke com regozijo. O que é uma asos?

—Alguém que é insípida —pinjente enrugando o nariz e dizendo a palavra como se fora uma enfermidade.

Eu gostava de dizer as palavras ao reverso; era como inventar minha própria linguagem.

—Insípida —repetiu Luke comigo e enrugou o nariz—, eeecs.

—Quantos anos tem você? —perguntei ao Luke enquanto estrelava o carro patrulha contra o dos bombeiros. O bombeiro chefe voltou a cair da escadaVocê sim que te parece com minha tia —lhe acusei, e Luke se retorceu de risada. Ria muito alto.

—Só tenho seis anos, Ivan! E não sou uma menina!

—Vá. —Em realidade não tenho nenhuma tia, mas me ocorreu dizê-lo para lhe fazer rir.Não vejo que seis anos sejam poucos anos.

Justo quando me dispunha a lhe perguntar quais eram seus desenhos animados favoritos se abriu a porta principal e ouvi um berro. Luke empalideceu e olhei para onde ele olhava.

—Saoirse, me devolva as chaves!! —chiava uma voz se desesperada. Uma mulher confundida, com as bochechas acesas e os olhos exagerados, cuja larga e suja juba ruiva pendurava em mechas ao redor de sua cara, saiu correndo da casa. Outro berro procedente do interior a fez trastabillar sobre seus sapatos de plataforma no degrau do alpendre dianteiro. Soltou um taco e se apoiou na parede exterior para não perder o equilíbrio. Ao levantar a vista olhou para o extremo do jardim onde estávamos sentados Luke e eu. Quando abriu a boca para sorrir mostrou uns dentes torcidos e amarelados. Retrocedi um pouco sem me levantar. Vi que Luke fazia o mesmo. A mulher saudou o Luke elevando o polegar e grasnou:

—Adeus, guri.

Deixou de apoiar-se na parede, cambaleou-se um pouco e se encaminhou com passo decidido ao carro estacionado no caminho de entrada.

—Saoirse!! —A voz da pessoa que seguia dentro da casa voltou a soar.Como põe um só pé nesse carro chamarei à a Garda!!

A ruiva deu um bufo, pulsou um botão do chaveiro do carro e as luzes emitiram um brilho e se ouviu um assobio. Abriu a porta, subiu dando um golpe na cabeça e fechou com uma sonora portada.

Da outra ponta da grama ouvi o clique do seguro das portas. uns quantos meninos deixaram de jogar na rua para contemplar a cena que se desenvolvia diante deles.

Finalmente a proprietária da voz misteriosa saiu correndo ao jardim com um telefone na mão. Era muito distinta da outra senhora. Levava o cabelo recolhido em um coque impecável e um elegante traje alfaiate cinza que não pegava com a voz aguda e destemperada que parecia ter. Também estava congestionada e lhe faltava o fôlego. O peito lhe subia e baixava depressa enquanto corria quanto lhe permitiam os saltos para o carro. ficou a dar saltos ao redor do carro; primeiro provou o ponteiro de relógio da porta e ao encontrá-la fechada ameaçou chamando o 999.

—vou chamar à a Garda, Saoirse —advertiu agitando o telefone para o guichê do condutor.

Saoirse se limitou a lhe sorrir de dentro do carro e pôs o motor em marcha. À senhora que tinha ameaçado telefonando à polícia lhe quebrou a voz enquanto lhe suplicava que descesse do carro.

Saltava sobre um e outro pé dando a impressão de que dentro de seu corpo houvesse alguém que se agitasse tentando sair, como o Incrível Hulk.

Saoirse saiu disparada pela larga rampa pavimentada. A meio caminho diminuiu a marcha. A mulher do telefone baixou os ombros e se mostrou aliviada. Mas, em lugar de deter-se por completo, o carro avançou a passo de tartaruga enquanto o guichê do lado do condutor se baixava e por seu oco apareciam dois dedos levantados em alto com orgulho para que todo mundo o visse.

—Ora, voltará dentro de dois minutos —disse ao Luke, que me olhou de uma maneira estranha.

A mulher do telefone observou aterrada como o carro voltava a acelerar e quase atropelava a um menino ao enfiar o meio-fio. Ante esse espetáculo umas mechas de cabelo lhe soltaram do apertado coque como se queriam dar caça ao carro por sua conta.

Luke baixou a cabeça e pôs ao bombeiro outra vez na escada sem dizer esta boca é minha. A mulher soltou um chiado de exasperação, levantou os braços e girou em redondo. ouviu-se um rangido quando um salto se cravou entre os paralelepípedos da rampa. A mulher agitou a perna como uma louca, cada vez mais frustrada, até que ao final o sapato saiu voando, embora, isso sim, deixando o salto bem fincado na greta.

—Mieeeeeeeeeerda!! —gritou. Mancando com um sapato de salto e o que se converteu em uma sapatilha, empreendeu a volta ao alpendre. A porta fúcsia se fechou de um golpe e ela desapareceu dentro da casa. Os montantes, o pomo e a rolha voltaram a me sorrir e eu sorri a minha vez.

—A quem está sonriendo? —perguntou Luke torcendo o gesto.

—À porta —respondi considerando-o uma resposta óbvia. ficou me olhando sem deixar de franzir o cenho, com a mente claramente perdida em muito ideia sobre o que acabava de ver e quão estranho era lhe sorrir a uma porta.

Alcançávamos a ver a mulher do telefone através dos cristais da porta principal: caminhava de um lado a outro do vestíbulo.

—Quem é? —perguntei me voltando para o Luke. ficou pasmado.

—Essa é minha tia —disse quase em um sussurro.Vivo com ela.

—OH —disse.Quem era a do carro?

Luke empurrou lentamente o carro de bombeiros entre a erva, esmagando as fibras ao avançar de joelhos.

—Ah, ela. É Saoirse —disse em voz baixa. É minha mamãe.

—OH. —fez-se o silêncio e me dava conta de que estava triste. Saoirse —repeti o nome e eu gostei do que senti ao pronunciá-lo; como uma rajada de vento me saindo da boca, ou como o rumor das árvores quando falam entre si os dias de vento.

—Seeeeer-ssshaaaaa...

De repente Luke me olhou de um modo estranho e me calei. Arranquei um ranúnculo do chão e o sustentei sob o queixo do Luke. Um resplendor amarelo acendeu sua pálida pele.

—É de manteiga —sentenciei. Então Saoirse não é sua noiva?

Ao Luke lhe iluminou o rosto de repente e riu. Embora não tanto como antes.

—Quem é Barry, esse amigo teu que comentava? —perguntou Luke estrelando seu carro contra o meu ainda com muita mais força.

—chama-se Barry McDonald —respondi sonriendo ao recordar quão divertido era jogar com o Barry.

Os olhos do Luke faiscaram.

—Barry McDonald vai a meu curso no colégio!

Então caí na conta.

—Estava convencido de que sua cara me soava de algo, Luke. Via-te diariamente quando ia ao colégio com o Barry.

—Foi ao colégio com o Barry? —perguntou surpreso.

—Sim, o colégio era a exumação com o Barry —sorri.

Luke entrecerró os olhos.

—Pois eu não te vi nunca por ali.

Comecei a rir.

—Homem, pois claro que não me via, cabeça oca —disse como se tal coisa.