Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 34 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 33

 

—Teríamos que retornar a casa—disse Elizabeth levantando do banco de um salto.

—por que?

—Porque está começando a chover.

Olhou ao Ivan como se fosse um cão verde e pestanejou ao cair outra gota de chuva na cara.

—O que passa contigo? —Ivan se pôs-se a rir e se acomodou no banco dando a entender que não tinha intenção de mover-se—. por que sempre entra e sai disparada dos carros e as casas quando chove?

—Porque não quero me molhar. Vamos! —Olhou com anseia para a relativa proteção que ofereciam as árvores.

—por que você não gosta de te molhar? Logo te seca.

—Porque não.

Agarrou-o pela mão e atirou para tentar levantá-lo do banco. Contrariada ao não consegui-lo, deu uma patada no chão como um menino que não se saiu com a sua.

—Porque não o que?

—Não sei. —Tragou saliva—. Nunca me gostou da chuva. Tem que inteirar-se de todos os motivos de meus pequenos problemas?

protegeu-se a cabeça com as mãos para deixar de notar como lhe caía a chuva em cima.

—Há um motivo para tudo, Elizabeth —disse Ivan estendendo as Palmas para apanhar as gotas de chuva.

—Bom, tenho um motivo bastante simples. Retomando o fio de nossa recente conversação, a chuva complica as coisas. Molha-te a roupa, resulta incômoda e ao final te produz um resfriado.

Ivan emitiu o assobio que em um programa concurso assinala uma resposta errônea.

—A chuva não te produz um resfriado, produz-lhe isso o frio. Isto só é um toró e é temperado. — Jogou a cabeça atrás, abriu a boca e deixou que as gotas caíssem dentro—. Sim, temperada e muito bom. E não me estiveste dizendo a verdade, por certo.

—O que? —disse Elizabeth com estridência.

—Leio entre linhas, ouço entre palavras e sei quando um ponto e à parte não é um ponto e à parte mas sim mas bem um mas —cantarolou Ivan.

Elizabeth resmungou e se abraçou a si mesmo com gesto protetor como se lhe estivessem arrojando porcaria em cima.

—Só é chuva, Elizabeth. Olhe a seu redor —assinalou freneticamente com as mãos—. Vê alguém mais correndo por aqui?

—Aqui não há ninguém mais!

—Au contraire! O lago, as árvores, a garça e o salmão, todos empapando-se.

Voltou a jogar a cabeça atrás e seguiu saboreando a chuva.

antes de enfiar para a arvoredo, Elizabeth lhe largou um último sermão.

—Tome cuidado com esta chuva, Ivan. Não é boa idéia beber-lhe Ivan hundió la mano en el lago.

—por que?

—Porque poderia ser perigosa. Sabe que efeito sorte o monóxido de carbono no ar e a chuva? Poderia ser azeda.

Ivan se escorreu no banco agarrando-a garganta e fingiu que se asfixiava. Foi engatinhando até a borda do lago. Elizabeth lhe seguiu com o olhar sem deixar de lhe exortar.

Ivan afundou a mão no lago.

—Bom, aqui dentro não haverá nenhum tipo de poluente mortal, não?

Recolheu água com a mão e a atirou.

Elizabeth ficou com a boca aberta e os olhos como pratos enquanto a água lhe gotejava do nariz. Tendeu o braço e empurrou bruscamente ao Ivan ao lago, tornando-se a rir ao lhe ver desaparecer sob a água.

Deixou de rir ao ver que não reaparecia.

Começou a inquietar-se e se aproximou da borda. O único movimento eram as ondas causadas pelos pesados goterones que caíam sobre o lago em calma. As gotas frite na cara deixaram de incomodá-la. Transcorreu um minuto.

—Ivan? —Tremia-lhe a voz—. Ivan, deixa de jogar. Sal imediatamente. Aproximou-se mais e alargou o pescoço para tratar de vê-lo. Cantarolou nervosa para seus adentros e contou até dez. Ninguém podia agüentar a respiração tanto momento.

A superfície vítrea se quebrou e um foguete saiu disparado da água.

—Guerra de água! —chiou a criatura aquática. Agarrou-a pelas mãos e a atirou de cabeça ao lago. Elizabeth estava tão aliviada por não haver quão matado nem sequer lhe importou quando a água fria lhe golpeou o rosto e a engoliu.

—bom dia, senhor Ou'Callaghan; bom dia, Maureen; olá, Fidelma; olá, Connor; pai Murphy...

Saudava com severidade a seus vizinhos ao cruzar o povo entorpecido. Silenciosos olhares de assombro a seguiam enquanto suas sapatilhas faziam um ruído como de sucção e a roupa lhe jorrava.

—Sinta-te muito bem esse aspecto —riu Benjamin levantando um tigela de café para ela desde detrás de um pequeno grupo de turistas que dançavam, riam e pulverizavam café pela calçada do Joe'S.

—Obrigado, Benjamin —respondeu Elizabeth muito séria seguindo seu caminho através do povo com os olhos faiscantes.

O sol banhava a rua onde ainda não tinha chovido uma gota essa manhã e cujos habitantes observavam, cochichavam e riam ao passo da Elizabeth Egan, que caminhava com a cabeça bem alta, balançando os braços e com uma parte de alga pego a seu cabelo enredado.

Elizabeth atirou outro lápis de colorir ao chão, espremeu a folha em que tinha estado trabalhando e a lançou através do despacho. Não encestou no cesto de papéis, mas lhe deu igual; que ficasse onde estava, com as outras dez bolas de papel. Fez uma careta a seu calendário. Uma X vermelha que originalmente assinalava a data tope para o Ivan, o amigo invisível do Luke que fazia muito que se partiu, agora assinalava o final de sua própria carreira. Bom, possivelmente se estava pondo melodramática: o hotel se inauguraria em setembro e tudo partia segundo o previsto. Todos os materiais tinham chegado a tempo com apenas os desastres menores de uns poucos pedidos equivocados. A senhora Bracken tinha a sua equipe fazendo horas extraordinárias para confeccionar almofadões, cortinas e colchas, mas, coisa estranha nela, era a mesma Elizabeth quem estava ralentizando as coisas. Não conseguia dar com um desenho para o quarto de jogar dos meninos e estava começando a detestar-se por ter mencionado sequer a idéia ao Vincent. Andava muito distraída ultimamente, sentou-se em seu sítio favorito da mesa da cozinha e riu para si ao recordar o «banho» que se deu umas horas antes.

Entre ela e Ivan as coisas eram mais insólitas que nunca. Hoje Elizabeth tinha posto ponto final a sua relação e lhe tinha partido o coração ao fazê-lo, mas aí estava ele, ainda com ela em sua casa, fazendo-a rir como se não tivesse acontecido nada. Mas algo tinha trocado, algo imenso, e notava seu efeito justo no meio do peito. À medida que transcorria o dia se foi dando conta de que nunca se sentou a gosto com um homem ao que tinha dado a demissão no plano amoroso, e entretanto, agora lhe ocorria. Nenhum dos dois estava preparado para mais, ainda não, ao menos, embora Elizabeth desejava com toda sua alma que Ivan o estivesse.

O jantar com o Benjamin a noite anterior tinha resultado agradável. sobrepôs-se à aversão que lhe inspiravam os jantares em restaurantes, a comida em geral e o bate-papo fútil, e embora as arrumava para agüentar essas coisas com o Ivan —às vezes chegavam inclusive a lhe gostar de—, seguia as considerando uma pesadez. Por mais costure que tivesse em comum com o Benjamin, a Elizabeth não gostava de fazer vida social. Conversaram com fluidez e jantaram muito bem, mas Elizabeth não se desgostou quando tudo teve terminado e llegón a hora de ir-se a casa. Estava totalmente abstraída perguntando-se sobre seu futuro com o Ivan.

As gargalhadas do Luke a tiraram de seu ensoñación.

Ivan saudou:

—Bonjour, madame.

Elizabeth levantou a vista e viu que Ivan e Luke entravam em estufa do jardim. Ambos sustentavam caminhos lupas diante do respectivo olho direito, que através da lente se via gigantesco. Luziam bigodes pintados com rotulador negro no lábio superior. Ela rompeu a rir sem remédio.

—Ah, pejo isto não é coisa de jisa, madame. Tse cometeu um cjimen.

—Um assassinato —traduziu Luke.

—O que?

Elizabeth abriu muito os olhos.

—Estamos procurando pistas, madame —explicou Luke movendo seu torcido bigode ao falar.

—Tse cometeu um cjimen ojendo em seu chardán —acrescentou Ivan passando a lupa pela superfície da mesa da cozinha em busca de rastros.

—É jardim em francês —esclareceu Luke.

Elizabeth cabeceou em sinal de compreensão agüentando-a risada.

—Pejdone que hajamos ijumpido assim em sua casa. nos permita pjesentajnos. Eu sou o señoj Monsieur e este é meu companheiro louco, monsieur Rotcudart.

Ao Luke lhe escapou a risada.

—É tradutor ao reverso.

—Vá. —Elizabeth assentiu com a cabeça—. Bem, é um prazer lhes conhecer, mas me temo que estou muito ocupada, assim se não lhes importa...

Olhou ao Ivan arqueando as sobrancelhas.

—Se nos impojta? Clajo que nos impojta. Estamos em plena investigasión de um assassinato, e você o que está hasiendo? —Olhou em redor, seus olhos tropeçaram com as bolas de papel enrugado junto ao cesto de papéis. Ivan agarrou uma e a estudou com sua lupa—. Está hasiendo bolas de neve, poj o visto.

Elizabeth fez uma careta e Luke riu.

—Temos que intejogajla. Tem alguma luz potente palha que a ponhamos na cara? —Ivan jogou uma olhada pela cozinha e retirou a pergunta ao ver de reojo o rosto da Elizabeth—. Muito bem, madame.

—A quem assassinaram? —perguntou Elizabeth.

—Ah, justo o que imaginava, monsieur Rotcudart. —Os investigadores percorreram a cozinha em direções opostas com a lupa ainda ante o olho—. Finge não sabê-lo para que não dela suspeitemos. Inteligente.

—Acredita que o fez ela? —perguntou Luke.

—Já o veremos. Madame, esta manhã apareceu um verme morto por aplastamiento no atalho que vai de sua estufa até o tendedor. Sua desconsolada família nos há dito que saiu de casa quando deixou de chover com intenção de cruzar o atalho até o outro lado do jardim. desconhecem-se os motivos que pudesse ter para querer ir ali, mas isso é o que fazem os vermes.

Luke e Elizabeth se olharam e romperam a rir.

—A chuva cessou às seis e meia da tarde, que é quando o verme saiu de casa para cruzar o atalho. Pode me dizer onde se encontrava você, madame?

—Acaso sou suspeita? —disse Elizabeth rendo.

—Nesta fase da investigasión, todo mundo é suspeito.

—Bem, retornei de trabalhar às seis e quinze e pus o jantar a esquentar. Então fui ao Office e tirei a roupa úmida da máquina de lavar roupa e a coloquei em uma cesta.

—E o que fez a continuasión? —Ivan lhe estabeleceu a lupa na cara e foi movendo em círculos, examinando-a—. Comprovo se houver provas —disse ao Luke.

—A seguir aguardei a que deixasse de chover e logo fui tender a penetrada.

Ivan afogou um grito de maneira teatral.

—Monsieur Rotcudart, ouviu isso?

Luke ria mostrando as gengivas; lhe tinha cansado outro dente.

—Pois então isto significa que você é a jiminal!

—A assassina —traduziu Luke.

Ambos se voltaram para ela com as lupas diante dos olhos.

Ivan disse:

—Por ter tentado me ocultar que a semana que vem é seu aniversário, seu castigo será celebrar uma festa no chardán posterior em memória do recentemente defunto monsieur Sinuoso, o verme.

Elizabeth gemeu.

—Nem pensar.

—Que bem te compreendo, Elizabeth —disse Ivan adotando o acento da classe alta britânica—. Ter que alternar com a gente do povo plano resulta terrivelmente espantoso.

—Que gente? —inquiriu Elizabeth entrecerrando os olhos.

—Ora, umas poucas pessoas que havemos convidado —respondeu Ivan encolhendo-se de ombros —. Luke jogou os convites ao correio esta manhã, não é genial? —Assinalou com o queixo a um orgulhoso e sorridente Luke—. Na próxima semana será a anfitriã de uma festa no jardim. Gente que não conhece muito bem acampará a suas largas por sua casa, certamente sujando-a. Crie que poderá suportá-lo?