Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 3 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 2

 

O coração da Elizabeth pulsava ruidosamente em seu peito enquanto, meio-fio com outro par de sapatos, percorria de ponta a ponta o parquet de arce do alargado vestíbulo de seu lar. Com o telefone bem apertado entre a orelha e o ombro, sua mente era um redemoinho de pensamentos enquanto ouvia o estridente tom de chamada.

Deixou de caminhar o momento suficiente para contemplar seu reflexo no espelho. Seus olhos castanhos se abriram horrorizados. Estranha vez se permitia apresentar um aspecto tão desalinhado.

Tão descontrolado. uns quantos mechas de cabelo cor chocolate se escaparam do apertado coque francês, de tal modo que parecia que tivesse metido os dedos em uma tomada. O rimel se alojou nas rugas de debaixo dos olhos; o pintalabios se desvaneceu deixando só o risco do perfilador cor ameixa a modo de marco, e a base de maquiagem se pegava às partes secas de sua pele olivácea. O que tinha sido de seu impecável aspecto habitual? Isso fez que o coração lhe pulsasse ainda mais depressa e que seu pânico se fizesse maior.

«Respira, Elizabeth, te concentre em respirar», disse-se a si mesmo. aparou-se o cabelo alvoroçado com mão tremente, colocando em seu sítio as mechas rebeldes. limpou-se os restos de rimel com um dedo molhado, apertou os lábios, alisou-se a jaqueta do traje e pigarreou. Só se tratava de uma momentânea perda de concentração por sua parte, isso era tudo. Não voltaria a ocorrer.

passou-se o telefone à orelha esquerda e reparou na marca que o pendente Claddagh lhe tinha deixado no pescoço.

Por fim respondeu alguém e Elizabeth deu as costas ao espelho e se endireitou. Volta ao trabalho.

—Delegacia de polícia da Garda de Baile na gCroíthe, me diga.

Elizabeth fez uma careta ao reconhecer a voz do telefone.

—Olá, Enjoe, sou Elizabeth... outra vez. Saoirse se levou o carro... fez uma pausa— outra vez.

ouviu-se um suspiro amável ao outro lado da linha.

—Quanto faz disso, Elizabeth?

Elizabeth se sentou no primeiro degrau e se dispôs a responder as perguntas de costume. Fechou os olhos só para descansar a vista um momento, mas o alívio de se separar de si todo o resto a incitou a mantê-los fechados.

—Apenas cinco minutos.

—Bem. Disse aonde ia?

—À lua —respondeu Elizabeth com toda naturalidade.

—Como diz? —perguntou Enjoe.

—Ouviste-o bem. Há dito que se ia à lua —adicionou Elizabeth com firmeza. Pelo visto a gente dali a entenderá.

—A lua —repetiu Enjoe.

—Sim —respondeu Elizabeth um tanto irritada. Possivelmente poderiam começar a procurar pela auto-estrada. Figuro-me que se me dirigisse à lua pensaria que é o caminho mais rápido para chegar lá, você não? Embora não estou do todo segura de que saída tomaria. A que fique mais ao norte, digo eu. Talvez se esteja dirigindo para o nordeste, para o Dublín, ou, quem sabe, o mesmo vai caminho do Cork; talvez têm um avião preparado para levar-se a deste planeta. Em qualquer caso, eu avisaria às patrulhas da autop...

—Se acalme, Elizabeth; sabe de sobra que tenho que te fazer estas perguntas.

—É verdade.

Elizabeth procurou voltar a serenar-se. Naquele preciso instante deveria estar na importante reunião que tinha programada; era importante para ela, importante para seu negócio de desenho de interiores. A canguru do Luke cuidava dele em substituição de sua anterior babá, Edith. Esta tinha empreendido poucas semanas atrás a viagem de três meses ao redor do mundo com o que vinha ameaçando a Elizabeth desde fazia seis anos, deixando a jovem e inexperiente canguru exposta à inconstância e as mudanças de humor do Saoirse. Saoirse tinha chamado a sua irmã ao trabalho, presa do pânico... outra vez. E Elizabeth tinha tido que deixar de fazer tudo o que estava fazendo... outra vez. E sair apitando para casa... outra vez. Embora não deveria lhe surpreender que aquilo tivesse ocorrido... outra vez. Não obstante, surpreendia-lhe que Edith, antes de realizar esse viaje a Austrália, tivesse seguido acudindo pontual ao trabalho cada dia. Durante seis anos Edith tinha ajudado a Elizabeth a cuidar do Luke, seis anos de drama, e mesmo assim, depois de tantos anos de lealdade, Elizabeth esperava diariamente uma chamada dela ou uma carta de demissão. Ser a babá do Luke trazia aparelhado um montão de problemas. Embora não muitos mais que o fato de ser sua mãe adotiva.

—Elizabeth, está aí?

—Sim. —Abriu os olhos de repente. estava-se desconcentrando. Perdoa, o que dizia?

—Perguntei-te que carro se levou.

—O mesmo de sempre, Enjoe. O mesmo puñetero carro que a semana passada e que na semana anterior e a anterior a essa —espetou Elizabeth.

Enjoe se manteve firme.

—De que marca...?

—BMW —soltou Elizabeth. O mesmo puñetero BMW 330 Cabriolet negro. Quatro rodas, duas portas, um volante, dois retrovisores, luz Y...

—Não enjoe a perdiz —interrompeu Enjoe. No que estado se encontrava?

—Reluzente. Acabava de lavá-lo —replicou com descaramento Elizabeth.

—Estupendo, e no que estado ia Saoirse?

—No de costume.

—Bêbada.

—Exato.

Elizabeth se levantou e cruzou o vestíbulo para a cozinha, seu refúgio sempre ensolarado. Os saltos ressonavam com força contra o chão de mármore naquela habitação nua de teto alto. Tudo estava em seu sítio. O resplendor do sol através dos cristais do estufa temperava o ambiente.

Elizabeth entreabriu os olhos cansados ante tanto brilho. A cozinha imaculada reluzia, as encimeras de granito negro cintilavam, o conjunto de torneiras e outros acessórios cromados refletiam o dia radiante. Um paraíso de aço inoxidável e nogueira. Foi direta à máquina de café rápido. Sua salvadora. Necessitada de uma injeção de vida em seu corpo esgotado, abriu o aparador da cozinha e tirou uma tacita beis de café. antes de fechar o armário girou um tigela para que a asa ficasse para o lado correto, igual a todas as demais. Abriu a gaveta larga do faqueiro de aço, viu uma faca no compartimento dos garfos, pô-lo em seu sítio, agarrou uma colher e voltou a fechar a gaveta.

Pela extremidade do olho percebeu o pano de cozinha pendurado de qualquer maneira no atirador do forno. Jogou no Office o pano enrugado, tirou um limpo do pulcro montão que guardava no armário, dobrou-o exatamente pela metade e o dispôs com primor no atirador do forno. Cada coisa tinha seu sítio.

—Bom, não troquei a matrícula durante a última semana, ou seja que sim, sigo tendo o mesmo número —respondeu com aborrecimento a outra das absurdas perguntas de Enjoe. Pôs a taça fumegante de rápido em cima de um posavasos para proteger a mesa de cristal da cozinha. alisou-se as calças, tirou-se um penugem da jaqueta, sentou-se no estufa e contemplou seu jardim comprido e estreito e as ondulantes colinas de mais à frente que se perdiam no infinito. Quarenta tons de verde, dourado e marrom.

Inspirou o rico aroma de seu expresso fumegante e se tranqüilizou imediatamente. Imaginou a sua irmã percorrendo a toda velocidade as colinas com a capota do conversível baixada, os braços em alto, os olhos fechados, a juba chamejante ao vento, acreditando-se livre. Saoirse significava liberdade em irlandês. O nome o tinha eleito sua mãe em um último intento desesperado para que os deveres maternos que tanto aborrecia parecessem menos um castigo. Seu desejo foi que sua segunda filha a liberasse das ataduras do matrimônio, a maternidade, a responsabilidade..., a realidade.

Sua mãe contava só dezesseis anos quando conheceu seu pai. Ela estava de passagem no povo, viajando com um grupo de poetas, músicos e sonhadores, e cercou conversação com o Brendan Egan, um granjeiro, no pub. Este lhe levava doze anos e ficou prendado de sua misteriosa personalidade e seu caráter desenvolvido. Ela se sentiu adulada. De modo que se casaram. Aos dois anos de matrimônio tiveram sua primeira filha, Elizabeth. Mas resultou que sua mãe era indomável e se foi apropriando dela uma crescente frustração por saber-se retida em um povo entorpecido, rodeado dos Montes, que em um principio ela só tinha querido atravessar. Um bebê chorão e as noites em vela a foram alienando de seu entorno. Os sonhos de liberdade pessoal se confundiam com a realidade e começou a ausentar-se durante vários dias seguidos. Saía de exploração para descobrir sítios novos e conhecer outras pessoas.

Aos doze anos de idade Elizabeth cuidava de si mesmo e de seu silencioso e amargurado pai, e não perguntava quando voltaria para casa sua mãe porque no fundo de seu coração sabia que cedo ou tarde retornaria com as bochechas acesas e os olhos brilhantes, falando sem trégua sobre o mundo e tudo o que este tinha que oferecer. Entraria flutuando em suas vidas como uma brisa fresca no verão, trazendo consigo entusiasmo e esperança. Elizabeth se sentaria aos pés da cama de sua mãe para escutar deslumbrada o relato de suas aventuras. Este ambiente só se prolongaria uns poucos dias até que sua mãe de súbito se cansasse de referir histórias em vez das viver.

Freqüentemente trazia lembranças como conchas, pedras, folhas. Elizabeth recordava um vaso de ervas recém cortadas que estava acostumado a ocupar o centro da mesa do comilão como se fossem as novelo mais exóticas de toda a criação. Se perguntava a sua mãe sobre o campo de onde tinham sido arrancadas, sua mãe lhe piscava os olhos o olho e lhe dava um toque na ponta do nariz prometendo a Elizabeth que algum dia o entenderia. Seu pai guardava silêncio em sua poltrona junto à chaminé, lendo o periódico, mas sem passar nunca a página. Estava tão perdido como sua esposa no mundo das palavras desta.

Quando Elizabeth contava doze anos sua mãe voltou a ficar grávida e, em que pese a lhe pôr o nome do Saoirse a recém-nascida, aquela criatura não lhe brindou a liberdade que ela tanto ansiava.

Por isso empreendeu outra expedição. E não retornou. Seu pai, Brendan, não manifestou o menor interesse pela vida em florações que lhe tinha arrebatado a sua esposa, de modo que aguardou sua mulher em silêncio sentado em sua poltrona junta ao fogo, lendo o periódico sem passar nunca a página. Durante anos. para sempre. O coração da Elizabeth não demorou para cansar-se de esperar a volta de sua mãe e assim foi como Saoirse passou a ser responsabilidade de sua irmã maior.

Saoirse tinha herdado os rasgos celtas de seu pai, cabelo loiro avermelhado e pele clara, enquanto que Elizabeth era o vivo retrato de sua mãe. Pele olivácea, cabelos marrom chocolate, olhos quase negros; rasgos que ambas levavam no sangue da influência espanhola de centenas de anos atrás. Elizabeth cada dia se parecia mais a sua mãe e era consciente do desgosto que isso causava em seu pai. Chegou a odiar-se a si mesmo por isso, e além de esforçar-se por cercar conversação com seu pai, ainda pôs maior afinco em lhe demonstrar a ele e também a si mesmo que não tinha nada que ver com sua mãe: que sabia o que era a lealdade.

Quando Elizabeth terminou a escola aos dezoito anos se enfrentou com o dilema de ficar em casa ou mudar-se ao Cork para ir à universidade, decisão esta que tomou fazendo provisão de toda sua coragem. Seu pai considerou que o escolher essa alternativa equivalia a abandono; também era abandono que ela travasse amizade com quem quer que fosse. Ele tinha ânsias de atenção, sempre exigia ser a única pessoa na vida de suas filhas, como se isso fora a impedir que um bom dia se emancipassem. Bom, faltou pouco para que o conseguisse e certamente era um dos motivos pelos que Elizabeth carecia de vida social e de um círculo de amizades. via-se obrigada a partir assim que começava o intercâmbio de frases corteses, sabedora do preço que lhe tocaria pagar pelo tempo desnecessário passado fora da granja, um preço consistente em suportar palavras carregadas de ressentimento e fulminantes olhares desaprobadoras. Em qualquer caso, cuidar do Saoirse e ir ao instituto constituía um trabalho a jornada completa. Brendan a acusava de ser como sua mãe, de pensar que estava por cima dele e que era superior ao comum da gente de Baile na gCroíthe.

Elizabeth encontrava claustrofóbico o povo e tinha a impressão de que aquela casa de campo tão feia estava afundada na escuridão, alheia ao passado do tempo. Era como se o relógio do avô estivesse aguardando a volta de sua mãe na entrada.

—E Luke? Onde está? —perguntou Enjoe por telefone, devolvendo a Elizabeth à presente de repente.

Elizabeth replicou com amargura:

—De verdade crie que Saoirse o levaria com ela?

Silêncio.

Elizabeth suspirou.

—Está aqui.

O nome do Saoirse havia trazido consigo algo mais que uma maneira de chamar à irmã da Elizabeth. Tinha-lhe outorgado uma identidade, um estilo de vida. Tudo que representava esse nome transmitiu ao sangue. Era fogosa, independente, amalucada e livre. Seguia o patrão de conduta de uma mãe a quem não recordava, e até tal ponto o fazia que Elizabeth às vezes tinha a impressão de estar vendo sua mãe. Mas a três por quatro se perdia de vista. Saoirse ficou grávida aos dezesseis sem que ninguém soubesse quem era o pai, começando pela própria Saoirse. Uma vez que teve o bebê não lhe preocupou grande coisa lhe pôr nomeie, mas com o tempo começou a chamá-lo Lucky, quer dizer «afortunado». Outro capricho. Assim Elizabeth lhe pôs Luke de nome. E uma vez mais, aos vinte e oito anos de idade, Elizabeth assumiu a responsabilidade de criar a um menino.

Nunca aparecia uma faísca de afeto nos olhos do Saoirse quando olhava ao Luke. A Elizabeth a assombrava que não existisse entre eles nenhum vínculo, nenhuma classe de conexão. Elizabeth não tinha planejado ter filhos; em realidade tinha combinado consigo mesma não os ter jamais. criou-se a si mesmo e tinha criado a sua irmã; não tinha nenhuma vontades de criar a ninguém mais. Por fim chegava a hora de cuidar de si mesmo. Aos vinte e oito anos, depois de ter vivido escravizada pelo colégio e a universidade, tinha aberto com êxito sua própria empresa de desenho de interiores. A circunstância de trabalhar de firme a convertia no único membro da família capaz de proporcionar uma boa vida ao Luke. Tinha alcançado suas metas levando sempre o controle, mantendo a ordem, sem tirar o olho de cima, sendo sempre realista, acreditando em feitos, não em sonhos e, por cima de tudo, aplicando-se e trabalhando duro. Sua mãe e sua irmã lhe tinham ensinado que não chegaria a nenhuma parte perseguindo sonhos nostálgicos e abrigando esperanças pouco realistas.

Por isso agora tinha trinta e quatro anos e vivia sozinha com o Luke em uma casa que adorava.

Uma casa que tinha comprado e ainda pagava ela sólita. Uma casa que tinha convertido em seu céu particular, o lugar ao que retirar-se e sentir-se a salvo. Sozinha, porque o amor figurava na lista de sentimentos que uma nunca controlava. E precisava controlar. Já tinha amado e tinha sido amada, conhecia o sabor dos sonhos e sabia o que se sentia ao não ter os pés sobre a terra. Também tinha aprendido o que era aterrissar dando um doloroso pancada. Ter que fazer-se carrego do filho de sua irmã tinha afugentado a seu amado e após ninguém o tinha substituído. Elizabeth resolveu não voltar a perder o controle de seus sentimentos nunca mais.

A porta principal deu uma portada e ato seguido ouviu a correria de uns pés pequenos pelo vestíbulo.

—Luke! —chamou Elizabeth tampando o auricular com a mão.

—See? —respondeu Luke inocentemente, olhos azuis e cabelo loiro aparecendo na ombreira da porta.

—diz-se sim, não see —lhe corrigiu Elizabeth com severidade. Sua voz estava carregada de uma autoridade digna da profissional em que se converteu com o passo dos anos.

—Sim —repetiu o menino.

—O que está fazendo?

Luke entrou em vestíbulo e os olhos da Elizabeth baixaram ao ato aos joelhos manchados de erva.

—Eu e Ivan estamos jogando com o ordenador —explicou Luke.

—Ivan e eu —lhe corrigiu Elizabeth, e seguiu escutando a Enjoe ao outro lado do telefone organizando a saída de um carro da Garda.

Luke olhou a sua tia e retornou ao quarto de jogar.

—Espera um momento —gritou Elizabeth ao telefone quando por fim se deu conta do que Luke acabava de lhe dizer. levantou-se de um salto golpeando-se com a pata da mesa e derramando o expresso sobre o cristal. Soltou um taco. As patas de ferro forjado negro da cadeira chiaram contra o mármore. Sustentando o telefone contra o peito, correu pelo vestíbulo até o quarto de jogar. Apareceu a cabeça e viu o Luke sentado no chão com os olhos pegos à tela de televisão. Aquele quarto e seu dormitório eram as únicas habitações da casa onde Elizabeth permitia que tivesse seus brinquedos.

Ocupar-se de um menino não a tinha feito trocar, como muitos tinham pensado; não havia relativizado suas opiniões no mais mínimo. Tinha visitado as casas de vários amigos do Luke ao ir recolhê-lo ou acompanhá-lo, tão cheias de brinquedos por toda parte que faziam tropeçar a qualquer que ousasse cruzar-se em seu caminho. Muito a seu pesar, tinha aceito taças de café oferecidas por suas mães, sentada em cima de peluches, rodeada de mamadeiras, leite em pó e fraldas. Mas em sua casa nem pensar. Ao Edith tinha explicado as regras ao princípio de sua relação trabalhista e esta as tinha obedecido com convicção. À medida que foi crescendo e compreendendo a sua tia, Luke respeitou obedientemente seus desejos e só jogava na habitação que Elizabeth tinha dedicado às necessidades lúdicas do sobrinho.

—Luke, quem é Ivan? —perguntou Elizabeth varrendo a habitação com a vista. Já sabe que não deve trazer desconhecidos a casa —adicionou preocupada.

—É meu novo amigo —respondeu Luke como um zombi, sem apartar os olhos do lutador forçudo que dava uma surra a seu oponente na tela.

—Tenho-te dito que quero conhecer seus amigos antes de que os convide a casa. Onde está? — inquiriu Elizabeth terminando de abrir a porta e penetrando no espaço do Luke. Pediu a Deus que aquele amigo fosse melhor que o último monstro que resolveu pintar na parede com rotuladores mágicos um retrato de sua família feliz ao completo, o qual a obrigou a fazer pintar a habitação de novo.

—Aí —disse Luke assinalando com a cabeça em direção à janela, ainda sem mover os olhos.

Elizabeth andou até a janela e olhou o jardim dianteiro.

Cruzou os braços.

—Está escondido?

Luke pulsou «Pausa» no teclado do ordenador e por fim apartou os olhos dos dois lutadores da tela. A confusão lhe enrugou o rosto.

—Está justo aí! —exclamou assinalando o assento consistente em um enorme e brando saco cheio chamado também «saco de feijões».

Elizabeth abriu os olhos como pratos e olhou fixamente o saco de feijões.

—Onde?

—Justo aí —repetiu Luke.

Elizabeth olhou pestanejando a seu sobrinho. Levantou os braços com gesto de interrogação.

—A seu lado, no saco de feijões —explicou Luke elevando a voz com nervosismo. Olhava fixamente a capa de veludo cotelê amarelo do saco de feijões como se respirasse a seu amigo a aparecer.

Elizabeth seguiu seu olhar.

—Vê-lhe? —Luke deixou cair o mando e ficou de pé de um salto.

Seguiu um tenso silêncio no que Elizabeth percebeu o ódio contra ela que emanava de todos os poros do corpo do Luke. Sabia de sobra o que estava pensando seu sobrinho: por que não lhe via sem mais, por que não lhe seguia o jogo embora só fosse aquela vez, por que era incapaz de fingir?

tragou-se o nó da garganta e jogou uma olhada mais ao quarto se por acaso em efeito lhe tinha passado por cima a presença de seu amigo. Nada.

Ao agachar-se para ficar ao mesmo nível que o menino lhe rangeram os joelhos.

—Nesta habitação só estamos você e eu —lhe sussurrou baixinho. Parecia mais fácil dizê-lo em voz baixa. Agora bem, o que já não sabia era se resultava mais fácil para o Luke ou para ela.

As bochechas do Luke ficaram tintas e sua respiração se fez mais agitada. Estava de pé no meio do quarto, rodeado de cabos de console de ordenador, com as manitas deixadas cair aos lados e aquele ar de desamparo. Elizabeth tinha palpitações enquanto suplicava para si «por favor, não seja como sua mãe, por favor, não seja como sua mãe, por favor, não seja como sua mãe». Sabia muito bem a capacidade de absorção que tinham os mundos de fantasia.

Finalmente Luke não pôde seguir calado e, olhando para o saco de feijões, ordenou: —Ivan, lhe diga algo!

Reinou o silêncio enquanto Luke aguardava até que soltou uma risita histérica. voltou-se por volta da Elizabeth e seu sorriso se esfumou em seguida ao comprovar que esta não reagia.

—Não lhe vê? —chiou nervosamente. Então, mais zangado, repetiu—: por que não lhe vê?

—Vale, vale! —Elizabeth procurou dominar o pânico. endireitou-se e recuperou sua altura normal.

Nesse nível tinha controle. Não podia ver o tal Ivan e sua consciência se negava a deixá-la fingir.

Vieram-lhe vontades de sair da habitação quanto antes. Levantou a perna para ir passar por cima do saco de feijões, mas se deteve, optando por rodeá-lo. Uma vez na porta jogou uma última olhada se por acaso localizava ao misterioso Ivan. Nem rastro.

Luke se encolheu de ombros, sentou-se e seguiu jogando com o jogo de luta livre.

—vou preparar um pouco de pizza, Luke.

Silêncio. Que mais devia dizer? Em momentos como aquele era quando se dava conta de quão inúteis resultavam todos os manuais do mundo sobre como ser mãe. A boa maternidade te saía do coração, era instintiva, e não por primeira vez lhe preocupou estar defraudando ao Luke.

—Estará lista dentro de vinte minutos —acrescentou com estupidez.

—O que? —Luke pulsou «Pausa» de novo e olhou pela janela.

—Hei dito que estará lista dentro de vein...

—Não é isso —disse Luke mergulhando-se de novo no mundo dos videojuegos. Ivan também tomaria um pouco. Há-me dito que a pizza é seu prato favorito.

—Vá.

Elizabeth tragou saliva com impotência.

—Com azeitonas —prosseguiu Luke.

—Mas, Luke, se você odiar as azeitonas.

—See, mas ao Ivan adora. Voltam-lhe louco.

—Caramba...

—Obrigado —disse Luke a sua tia. Olhou o saco de feijões, fez-lhe um sinal de vitória, sorriu e voltou a apartar a vista.

Elizabeth se bateu em lenta retirada do quarto de jogar. Reparou em que ainda levava o telefone sujeito contra o peito.

—Segue aí, Enjoe?

Mordeu-se uma unha e olhou fixamente a porta fechada do quarto de jogar perguntando-se o que devia fazer.

—Começava a pensar que você também te tinha largado à lua —respondeu Enjoe rendo entre dentes. Mas, tomando por irritação o silêncio da Elizabeth, desculpou-se em seguida. De todos os modos levava razão, Saoirse ia caminho da lua, mas por sorte decidiu deter-se para repor combustível. Embora foi mas bem ela quem repôs. Seu carro foi localizado bloqueando a rua maior com o motor ainda em marcha e a porta do condutor completamente aberta. Tem sorte de que Paddy o tenha encontrado antes de que alguém o levasse.

—A ver se o adivinho. O carro estava diante do pub.

—Correto. —Enjoe fez uma pausa. Quer pôr uma denúncia?

Elizabeth suspirou.

—Não. Obrigado, Enjoe.

—De nada. Faremos que alguém te leve o carro a casa.

—O que acontece Saoirse? —Elizabeth ia de um lado a outro do vestíbulo. Onde está?

—Nos ficaremos aqui um momento, Elizabeth.

—Vou buscá-la —disse Elizabeth em seguida.

—Não —insistiu Enjoe. Te chamarei mais tarde e falaremos disso. É preciso que sua irmã se tranqüilize antes de ir aonde seja.

Elizabeth ouviu o Luke rir e falar em voz alta dentro do quarto de jogar.

—A verdade, Enjoe —adicionou com uma ameaça de sorriso—, antes de pendurar me entravam vontades de te pedir que os que me levem o carro a casa tragam um psiquiatra com eles. Conforme parece com o Luke agora lhe deu pelos amigos imaginários...

Dentro do quarto de jogar Ivan pôs os olhos em branco e rebolou afundando-se ainda mais no saco de feijões. Tinha ouvido as palavras da Elizabeth ao telefone. Desde seus começos naquele trabalho os pais lhe tinham chamado assim e isso estava começando a lhe preocupar. Não havia absolutamente nada imaginário nele.