Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 44 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 43

 

—Onde está Elizabeth? —vaiou zangado Vincent ao Benjamin tratando de que não lhe ouvisse a multidão reunida para a inauguração do hotel.

—Ainda está no quarto dos meninos.

Benjamin suspirou com a sensação de que o muro de apreensão que tinha ido crescendo durante a última semana por fim se solidificou e se assentava pesadamente sobre seus doloridos ombros.

—Ainda? —gritou Vincent, e umas quantas pessoas se voltaram deixando de escutar o discurso que alguém estava pronunciando nos jardins do hotel. Um político do município de Baile na gCroíthe tinha ido para a abertura oficial do estabelecimento e os oradores se aconteciam junto à torre que desde fazia mais de mil anos se erguia no alto da montanha. A multidão não demoraria para perambular pelo hotel inspecionando uma habitação atrás de outra para admirar o trabalho realizado, e os dois homens ainda não sabiam o que estava fazendo Elizabeth no quarto de jogar. A última vez que tanto um como outro tinham entrado nele era quatro dias atrás e então seguia sendo um tecido em branco.

Elizabeth virtualmente não tinha saído dessa habitação nos últimos dias. Benjamin lhe tinha tido bebidas e sanduíches de uma máquina vendedora. Ela os recolhia precipitadamente na porta para ato seguido fechá-la outra vez. Benjamin não tinha nem idéia de como estava ficando o interior e tinha passado uma semana infernal tratando de acalmar o nervosismo do Vincent. Fazia já tempo que a este não seduzia a extravagância da Elizabeth consistente em falar com uma pessoa invisível.

Jamais se tinha encontrado na situação de inaugurar um edifício enquanto ainda se estava trabalhando em alguma habitação, coisa que resultava ridícula e extremamente pouco profissional.

Os discursos por fim concluíram, os assistentes aplaudiram com cortesia e passaram ao interior, onde inspecionaram o novo mobiliário inalando o aroma de pintura fresca enquanto escutavam as explicações da aeromoça que guiava a visita.

Vincent não cessava de soltar palavrões em voz alta, para desgosto dos pais, que lhe lançavam olhares de irritação. Habitação detrás habitação se foram aproximando do quarto de jogar. Benjamin quase não podia suportar a incerteza e andava de lá para aqui atrás da multidão. Entre a multidão reconheceu ao pai da Elizabeth, apoiado em sua fortificação com ar aborrecido, e a seu sobrinho acompanhado da babá. Rogou a Deus que Elizabeth não os defraudasse. A julgar pela última conversação que manteve com ela no alto da colina acreditava que na hora da verdade não lhes falharia. Ao menos isso esperava. Tinha previsto tomar o avião para retornar a seu povo natal em Avermelhado a semana seguinte e não estava disposto a solucionar nenhum problema que atrasasse a obra. Por uma vez poria sua vida pessoal por diante de seu trabalho.

—Atenção, meninos e meninas —disse a aeromoça como se estivesse em um episódio do Barney o Dinossauro—, a habitação que vamos ver agora está dedicada a vós, de modo que, papais e mamães, por favor abram passo a seus filhos porque esta é uma habitação muito especial, ouviram-se exclamações extasiadas, risadas e sussurros de emoção enquanto os meninos soltavam as mãos de seus pais; uns se adiantaram com acanhamento, outros correndo com jogo em ficar em primeira fila. A aeromoça fez girar o trinco, mas a porta não se abriu.

—Deus santo —balbuciou Vincent tampando-os olhos com a mão—, estamos arruinados.

—Isto..., aguardem um instante, meninos —disse a aeromoça olhando de maneira inquisitiva ao Benjamin.

Este se encolheu de ombros e negou com a cabeça.

A aeromoça provou a porta outra vez, mas foi em vão.

—Talvez terá que chamar —gritou um menino e alguns pais riram.

—Sabem o que? É uma idéia muito boa.

A aeromoça lhes seguia o jogo, já que não sabia o que fazer.

Chamou uma vez à porta e de repente esta se abriu de dentro. Os meninos começaram a entrar arrastando os pés.

O silêncio era absoluto e Benjamin se tampou a cara com as mãos. Estavam metidos em uma boa confusão, de repente um menino soltou um «Uau!» e um por um os calados e atônitos meninos começaram a gritar-se uns aos outros com excitação: «Olhe isso!, Olhe aquilo dali!»

Os meninos não saíam de seu assombro. Seus pais os seguiram e Vincent e Benjamin se olharam surpreendidos para ouvir similares sussurros de aprovação. Poppy ficou na soleira percorrendo a habitação com o olhar, boquiaberta e absolutamente pasmada.

—me deixem ver isto —disse Vincent com grosseria abrindo-se passo entre a gente. Benjamin foi atrás dele e o que viu uma vez dentro lhe deixou sem fala.

As paredes da grande habitação estavam cobertas por enormes murais pintados com esplêndidos estalos de cor. Cada um representava uma cena distinta. Ao Benjamin uma delas em concreto lhe resultou familiar: três pessoas saltando alegremente em um prado de erva alta, com os braços estendidos, radiantes sorrisos em seus rostos e o cabelo ondeando ao vento enquanto tratavam de apanhar...

—Jinny Joes! —exclamou Luke arrebatado, comendo-as pinturas com os olhos, ao igual ao resto dos meninos. A maioria deles guardavam silêncio enquanto contemplavam os detalhes de cada mural.

—Olhe, aqui sai Ivan! —gritou Luke a Elizabeth.

Perplexo, Benjamin olhou à desalinhada Elizabeth, que estava de pé em um rincão com uma calça de peitilho manchado de pintura e marcadas olheiras. Mas apesar de seus evidentes signos de cansaço, seu rosto estava iluminado por um sorriso radiante causado pela reação dos visitantes ante a decoração da sala. Os olhos lhe brilhavam com não dissimulado orgulho enquanto todo mundo assinalava as pinturas murais.

—Elizabeth! —sussurrou Edith tampando-a boca com as mãos—. Tem feito tudo isto você sozinha?

Olhou a sua patrã com uma mescla de orgulho e confusão.

Outra cena mostrava um campo onde uma menina contemplava como um globo rosa subia flutuando para o céu; na seguinte um montão de meninos liberavam uma batalha de água, foram salpicando-se de pintura enquanto dançavam sobre a areia de uma praia; mais à frente um menina pequena sentada em um prado verde tomava um picnic com uma vaca que levava um chapéu de palha, um grupo de meninos e meninas subiam às árvores e se penduravam dos ramos. No teto Elizabeth tinha pintado um firmamento azul escuro salpicado de estrelas fugazes, cometas e planetas longínquos. Na parede do fundo tinha representado a um homem e a um menino que, com sendos bigodes negros e armados de umas lupas, inclinavam-se para estudar o rastro de umas pegadas negras que baixavam até o chão, cruzavam-no e subiam pela parede de em frente. Tinha criado um mundo novo, um país das maravilhas que era puro escapismo, diversão e aventura. Mas o que deslumbrou ao Benjamin foram a minuciosidad dos detalhes, a expressão de regozijo nas caras dos personagens e os alegres sorrisos de puro prazer infantil. Era a mesma expressão que tinha Elizabeth quando ele a surpreendeu dançando no campo e atravessando o povo com algas no cabelo. Era o rosto de alguém que se liberou de suas inibições e era verdadeiramente feliz.

Elizabeth baixou a vista por volta de uma menina de um par de anos que jogava no chão com um dos muitos brinquedos pulverizados por toda a habitação. Quando se dispunha a agachar-se para falar com a pequena, fixou-se em que esta estava falando sozinha. Mantinha uma conversação muito séria, de fato se estava apresentando a alguém invisível.

Elizabeth passeou o olhar a seu redor, inspirou profundamente e tentou captar o inconfundível aroma do Ivan.

—Obrigado —sussurrou fechando os olhos e imaginando que ele estava a seu lado.

A garotinha seguia balbuciando para si mesmo, embora se interrompia para voltar a cabeça para a direita e escutar antes de falar. E então ficou a cantarolar aquela canção que Elizabeth conhecia tão bem e tinha sido incapaz de se separar de sua mente.

Elizabeth jogou a cabeça para trás e ficou a rir.

No novo hotel, eu me mantinha de pé junto à parede do fundo do quarto de jogar com os olhos cheios de lágrimas e um nó tão grande na garganta que acreditava que nunca seria capaz de pronunciar outra palavra. Não podia deixar de olhar aqueles murais, que eram como o álbum de fotos de tudo o que tinha feito com a Elizabeth e Luke durante os últimos meses. Parecia como se alguém sentado ao longe se dedicou a nos representar à perfeição.

Olhando as paredes, as cores e os olhos dos personagens soube que Elizabeth o tinha compreendido tudo e que me recordaria sempre. A meu lado, formando uma fila no fundo da sala, meus amigos me brindavam seu apoio moral em um dia tão famoso.

Opal me pôs uma mão no braço e me apertou isso para me dar fôlego.

—Estou muito orgulhosa de ti, Ivan —sussurrou, e me plantou na bochecha um beijo que sem dúvida me deixou uma mancha de carmim na pele—. Como vê viemos todos. Sempre poderemos contar os uns com os outros.

—Obrigado, Opal. Já sei —pinjente muito emocionado vendo malmequer, que estava a minha direita, ao Tommy, que olhava fascinado as paredes, ao Jamie-Lynn, que se tinha agachado para jogar com um menino muito pequeno sentado no chão, e ao Bobby, que assinalava as cenas que tinha ante si e ria bobamente. Todos levantaram os polegares em sinal de aprovação e compreendi que nunca me sentiria sozinho, já que estava em companhia de autênticos amigos.

Amigo imaginário, amigo invisível..., nos chamem como querem. Possivelmente criam em nós, possivelmente não. O caso é que isso não importa. Como a maioria de pessoas que realizam tarefas realmente fantásticas, não existimos para que se fale de nós e nos dediquem louvores; existimos só para satisfazer as necessidades de quem nos precisa. Talvez não existamos absolutamente; talvez só sejamos produto da imaginação da gente; possivelmente seja pura coincidência que meninos de dois anos que logo que sabem falar decidam cercar amizade com pessoas que só os adultos não vêem. Acaso todos esses médicos e psicoterapeutas tenham razão ao sugerir que simplesmente essas criaturas estão desenvolvendo a imaginação.

Mas me sigam a corrente um instante. É possível que haja outra explicação que não lhes tenha ocorrido para minha história?

A possibilidade de que em efeito existamos. De que estejamos aqui para ajudar a quem necessita, a quem acredita em acreditar e por conseguinte nos vêem.

Sempre Miro o lado positivo das coisas. Sempre digo que não há mal que por bem não venha, mas, a verdade seja sorte —e acredito firmemente na verdade—, durante um tempo me custou muito encaixar minha experiência com a Elizabeth. Não conseguia entender o que tinha ganho eu, só via que sua perda era uma grande nuvem negra de tormenta. Mas logo, como no transcurso dos dias pensava nela a cada segundo e cada vez sorria, dava-me conta de que conhecê-la e, por cima de tudo, o fato de amá-la tinham sido o melhor que me tinha passado na vida.

Era melhor que a pizza, melhor que as azeitonas, melhor que as sextas-feiras e melhor que dar voltas em uma cadeira giratória, e inclusive agora que já não está entre nós, e se supõe que não deveria dizer isto, de todos meus amigos, Elizabeth Egan foi com muito meu favorita.

Indice

 

Sinopse

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Capítulo 42

Capítulo 43

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