Se me pudesses ver agora

Cecelia Ahern · Capítulo 8 de 44

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Se me pudesses ver agora

Capítulo 7

 

Dance na gCroíthe se estava despertando quando Elizabeth enfiou a ponte de pedra cinza que lhe servia de porta. Dois imensos ônibus cheios de turistas avançavam muito devagar tentando cruzar-se na estreita rua sem roçar-se. Dentro, Elizabeth viu caras esmagadas contra os guichês, gente soltando exclamações, sonriendo e assinalando, câmaras levantadas até os cristais para captar em filme aquela vila como de bonecas. O condutor do ônibus que vinha por volta dela se umedeceu os lábios com cara de concentração e Elizabeth acertou a ver o suor que o perlaba a frente ao manobrar lentamente o desmedido veículo pela estreita rua que em seu dia se desenhou para cavalos e carros.

Os flancos dos ônibus quase se tocavam. Ao lado do condutor o guia turístico, microfone em mão, fazia o possível por entreter a seu público a tão temprana hora da manhã.

Elizabeth jogou o freio de mão e suspirou profundamente. Aquilo ocorria com freqüência no povo e sabia que podia durar um bom momento. Duvidava que os ônibus fossem deter se. Estranha vez o faziam a não ser que efetuassem uma breve parada para ir ao lavabo. Sempre se tinha a impressão de que o tráfico atravessava Baile na gCroíthe sem deter-se jamais. Elizabeth não os culpava; era um lugar estupendo para te ajudar a chegar a em qualquer lugar que fosse, mas não para ficar nele. Os veículos diminuíam a marcha e os visitantes tinham ocasião de ver quanto terei que ver, mas logo os condutores pisavam no acelerador e saíam zumbindo pela outra ponta.

Tampouco era que Dance na gCroíthe não fosse bonito; sem dúvida o era e muito. Seu maior motivo de orgulho foi ganhar o concurso Cidade Cuidada por terceiro ano consecutivo, e quando entrava em povo, em cima da ponte um esplendoroso acerto floral formava um rótulo de bem-vinda.

Os acertos florais se aconteciam por toda a localidade. As jardineiras adornavam as fachadas das lojas, havia cestas penduradas das luzes negras, as árvores cresciam ao longo da rua maior. Cada edifício estava pintado de uma cor diferente e a rua maior, a única rua, era um arco íris de tons bolo e cores atrevidas como verdes hortelã, rosas asalmonados, lilás, amarelos limão e azuis do mais variopinto. As calçadas reluziam sem o menor rastro de desperdícios e assim que levantava a vista por cima dos telhados cinzas de piçarra te encontrava rodeado por majestosas montanhas verdes. Era como se Baile na gCroíthe estivesse amassado, acurrucado no seio da Mãe Natureza.

Acolhedor ou asfixiante.

O escritório da Elizabeth estava se localizada entre um mensageiro de correios verde e um supermercado amarelo. O edifício era azul celeste e o local ficava justo em cima do negócio de tecidos, cortinas e tapeçaria da senhora Bracken. Anteriormente a loja tinha sido a loja de ferragens do senhor Bracken, mas quando este morreu dez anos atrás Gwen decidiu convertê-la em sua própria loja. Conforme parecia tomava decisões fundamentando-se estritamente no que seu defunto marido teria pensado. Abriu a loja «porque é o que o senhor Bracken teria querido». Não obstante, Gwen resistia a sair os fins de semana ou a participar de eventos sociais, dado que «não é o que o senhor Bracken teria querido». Em opinião da Elizabeth, o que fazia feliz ou infeliz ao senhor Bracken parecia concordar o mar de bem com a filosofia vital da senhora Gwen.

Os ônibus avançavam cruzando-se centímetro a centímetro. Dance na gCroíthe com tráfico de hora ponta: o resultado de dois ônibus excessivamente grandes tratando de compartilhar a estreita rua. Finalmente ambos conseguiram acontecer e Elizabeth contemplou com displicência como o guia turístico saltava de seu assento presa de um súbito entusiasmo, microfone em mão, conseguindo converter o que essencialmente era um aborrecido entupo em uma viagem lhe apaixonem por ônibus pelas estradas secundárias da Irlanda. Aplausos e vítores a bordo do ônibus. Uma nação em festa.

Mais flashs pelos guichês e os ocupantes de ambos os ônibus despedindo-se com gestos da mão detrás ter compartilhado a emoção daquela manhã.

Elizabeth seguiu adiante, olhou pelo retrovisor e viu fenecer o entusiasmo da celebração a bordo do ônibus quando este se encontrou de cara com outro no puentecillo que terei que cruzar para sair do povo. Os braços baixaram devagar e os flashs se extinguiram enquanto os turistas se acomodavam preparando-se para outra prolongada luta que lhes permitiria continuar a viagem.

A vila tinha tendência a fazer isso. Quase como se o fizesse a propósito. Abria-te a porta de seu coração com os braços estendidos, mostrava-te quanto tinha que oferecer, com seus flamejantes tenda multicoloridos de fachadas decoradas com flores. Era como levar a um menino a uma loja de guloseimas e lhe mostrar as prateleiras cheias de resplandecentes e açucarados caramelos que lhe faziam a boca água, e ato seguido, enquanto os contemplava com olhos como pratos e o pulso acelerado, proceder a fechar os botes apertando bem as tampas. Assim que tinha percebido a beleza do lugar, dava-te conta de que não tinha nada mais que oferecer.

Curiosamente, resultava mais fácil de cruzar a ponte de entrada que o de saída. Este riscava uma curva peculiar fazendo que o fato de abandonar o povo entranhasse certa dificuldade. Cada vez que passava por ali, Elizabeth se sentia curvada.

Acontecia o mesmo que com a estrada que partia do lar de infância da Elizabeth; resultava-lhe impossível partir depressa. Mas algo tinha aquele povo que sempre terminava por arrastar a de volta em que pese a que durante anos tinha tentado resistir. Em uma ocasião tinha conseguido mudar-se a Nova Iorque. Fez-o seguindo a seu noivo e a oportunidade de desenhar um clube noturno. adorou viver ali. adorou que ninguém conhecesse seu nome, seu rosto nem a história de sua família. Podia pedir um café, mil classes distintas de café, sem receber um olhar compassivo por qualquer drama familiar recentemente acontecido. Ninguém sabia que sua mãe a tinha abandonado sendo ela uma menina, que sua irmã era uma rebelde de conduta amalucada nem que seu pai apenas lhe dirigia a palavra. adorou estar apaixonada ali. Em Nova Iorque podia ser quem queria ser. Em Dance na gCroíthe não podia escapar de ser quem era, deu-se conta de que todo o momento tinha estado cantarolando com a boca fechada aquela estúpida canção que Luke queria lhe fazer acreditar que era invenção do Ivan». Luke a chamava «a canção do cantarolo» e resultava puñeteramente pegajosa, alegre e repetitiva. Deixou de cantar e estacionou o carro em um espaço livre que encontrou na rua maior. Jogou o assento do condutor para trás e alargou o braço para agarrar a maleta do assento traseiro do carro. O primeiro era o primeiro: café. Dance na gCroíthe ainda tinha que iniciar-se nas maravilhas do Starbucks; de fato, só fazia um mês que Joe's finalmente tinha acessado a que Elizabeth se levasse o café ao despacho, mas o proprietário estava começando a fartar-se de ter que lhe pedir que lhe devolvesse as xícaras.

Às vezes Elizabeth pensava que o povo inteiro necessitava uma boa injeção de cafeína. Em determinados dias de inverno era como se o lugar ainda tivesse os olhos fechados e andasse sonâmbulo. Necessitava uma boa sacudida. Mas nos dias do verão como aquele sempre havia bulício com tanto ônibus atravessando o povo. Entrou no estabelecimento do Joe, pintado de cor violeta, que estava virtualmente vazio, como de costume. A idéia de tomar o café da manhã fora de casa ainda não contava com adeptos entre os aldeãos.

—Homem, aqui está ela em pessoa —troou a voz do Joe, com seu deixe local. Seguro que lhe pegaram os lençóis e morre por um café.

—bom dia, Joe.

Joe fingiu que consultava a hora em seu relógio de pulso e deu uns golpecitos à esfera com gesto afetado.

—Esta manhã vamos um pouco atrasados, não? —Arqueou as sobrancelhas. Pensei que igual estava em cama doente de gripe estival. diria-se que todo mundo se contagiou esta semana. — Tentou baixar a voz, mas o único que conseguiu foi baixar a cabeça e subir a voz. Certamente Sandy Ou'Flynn a agarrou justo depois de desaparecer a outra noite do pub com o P. J. Flanagan, que a teve na semana anterior. A pobre se aconteceu todo o fim de semana na cama. —Deu um bufo. De maneira que a acompanhava a sua casa... E um ovo. Não tinha ouvido uma estupidez maior em toda minha vida.

A irritação da Elizabeth ia em aumento. Não lhe interessavam o mais mínimo as intrigas sobre pessoas que não conhecia, e menos ainda tendo sido consciente durante tantos anos de que sua própria família dava pé a toda sorte de fofocas.

—Um café, Joe, por favor —disse Elizabeth resolutamente fazendo caso omisso de suas divagações. Para levar. Com nata em vez de leite —adicionou com severidade em que pese a que tomava o mesmo cada dia, enquanto pinçava em sua bolsa procurando a carteira a fim de dar a entender ao Joe que não dispunha de tempo para praticar.

Joe foi lentamente até a cafeteira. Para major chateio da Elizabeth, Joe só despachava uma classe de café. E era café instantâneo. Elizabeth tinha saudades a variedade de sabores que podia tomar em outras cidades; tinha saudades a doce suavidade da baunilha francesa em uma cafeteria de Paris, o cremoso e intenso aroma a nata de avelã em uma buliçosa cafeteria de Nova Iorque, a substanciosa e aveludada obra professora da noz de macadamia em Melam e seu favorito, o Coco Mocha-nut, a mescla de chocolate e coco que a transportava de um banco de Central Park até uma rede no Caribe. Ali, em Dance na gCroíthe, Joe enchia a pava elétrica e lhe dava ao interruptor. Uma mísera pava em uma cafeteria e nem sequer tinha posto a água a ferver. Elizabeth pôs os olhos em branco.

Joe a olhava fixamente. Parecia estar a ponto de perguntar: —E o que te atrasou tanto, pois?

Isso.

—São só cinco minutos mais tarde que o habitual, Joe —repôs Elizabeth com ar incrédulo.

—Sei, sei, mas cinco minutos poderiam ser cinco horas para ti. Seguro que os ursos não planejam sua hibernação segundo seu relógio?

Isso fez sorrir a Elizabeth, embora fosse a seu pesar.

Joe riu entre dentes e lhe piscou os olhos o olho.

—Isso está melhor.

A pava avisou de que a água fervia e Joe se voltou para preparar o café.

—Os ônibus me atrasaram —disse Elizabeth em voz baixa agarrando o tigela de mãos do Joe.

—Ah, já os vi. —Assinalou para a janela com o queixo. Jaimsie se arrumou muito bem para sair do entupo.

—Jaimsie?

Elizabeth franziu o cenho e acrescentou uma colherada de nata. Esta se derreteu em seguida e encheu a taça até o bordo. Joe a olhou com repugnância.

—Jaimsie Ou'Connor. O filho do Jack —explicou. Jack, cuja outra filha, Mary, acaba de celebrar seu compromisso com esse moço do Dublín o passado fim de semana. Vive no Mayfair. Cinco filhos.

Ao pequeno o prenderam a semana passada por lhe arrojar uma garrafa de vinho ao Joseph.

Elizabeth ficou imóvel e o olhou sem compreender.

—Joseph McCann —repetiu Joe como se estivesse louca por não lhe conhecer— Filho do Paddy.

Vive no Newtown. A mulher morreu o ano passado; afogou-se no pântano. Sua filha Maggie disse que foi um acidente, embora esteja claro que a família resultou suspeita devido à briga que tinham tido por não deixá-la escapar com esse bagunceiro do Cahirciveen.

Elizabeth deixou o dinheiro na barra e sorriu, desejosa de não seguir tomando parte em sua singular conversação.

—Obrigado, Joe —disse dirigindo-se à porta.

—Bom —respondeu Joe para concluir sua divagação—, seja como for Jaimsie era quem conduzia o ônibus. te lembre de me devolver o tigela —acrescentou levantando a voz, e resmungou para si mesmo—: Café para levar, alguém ouviu algo mais absurdo em sua vida?

antes de sair à rua Elizabeth gritou da porta:

—Joe, não pensaste em te agenciar uma cafeteira? Assim poderia fazer cafés com leite e capuchinos e rápidos em vez desta porcaria foto instantânea.

Elevou o tigela.

Joe cruzou os braços, apoiou-se contra a barra e replicou com voz aborrecida:

—Elizabeth, se você não gostar de meu café, não lhe beba isso. Eu tomo chá. Só há uma classe de chá que eu goste. chama-se chá. Não tem nenhum nome estrambótico.

Elizabeth sorriu.

—Em realidade há muitas variedades distintas de chá. O chinês...

—Venha, comprido daqui. —Fez um gesto desdenhoso como se queria afugentá-la. Se te saísse com a tua, acabaríamos todos tomando chá com palitos e acrescentando chocolate e nata ao café como se fosse uma sobremesa. Embora já que o diz, me permita uma sugestão também : o que te parece se compras um hervidor para o escritório e deixa de me torturar?

—E você deixa de faturar?

Elizabeth sorriu e saiu à rua. O povo se havia desperezado depois de um grande bocejo e se dirigia dormitado do dormitório ao quarto de banho. Logo estaria tomado banho, vestido e completamente acordado. Como de costume ela ia um passo por diante em que pese a que aquele dia levasse certo atraso.

Elizabeth sempre era primeira em chegar; adorava o silêncio, a quietude que reinava no escritório a aquela hora do dia. Ajudava-a a concentrar-se na jornada que a aguardava antes de que seus buliçosas colegas começassem a fazer ruído e o tráfico tomasse as ruas. Elizabeth não era dada a conversar e rir bobamente. Assim como só comia para manter-se com vida, só falava para dizer o que tinha que dizer. Não era o tipo de mulher a quem ouvia de soslaio nos restaurantes e cafeterias rendo entre dentes e fofocando sobre o que alguém havia dito algum dia a respeito de algo. As conversações vões não despertavam seu interesse.

Não esmiuçava nem analisava conversações, olhadas, aparências nem situações. Dobre-os sentidos não foram com ela; sempre dizia o que queria dizer. Não desfrutava com os debates e as discussões acaloradas. Mas sentada no silêncio de seu pequeno despacho supôs que esse era o motivo pelo que não contava com um círculo de amizades. Antigamente tinha procurado ter mais trato social, sobre tudo em seus tempos de universitária, com tentativas por adaptar-se ao novo entorno, mas, tal como lhe acontecia na atualidade, em seguida se desconectava dos bate-papos intrascendentes.

Nunca tinha suspirado por fazer amigos. Da infância tinha gostado de sua própria companhia e desfrutado com seus próprios pensamentos e logo, na adolescência, teve ao Saoirse como distração.

Gostava da ordem metódica que lhe permitia depender de si mesmo e organizar seu tempo mais eficazmente que se tivesse amigos. A sua volta de Nova Iorque lhe ocorreu montar uma festa em sua casa nova com os vizinhos. Pensou que seria um bom modo de recomeçar de zero e tentar fazer amizades, tal como fazia quase todo mundo, mas como de costume Saoirse irrompeu na casa e de um solo e maligno puxão as arrumou para ofender a todos e cada um dos convidados sentados à mesa. Acusou ao Ray Collins de ter uma aventura, ao Bernie Conway de ter um trabalho estúpido e ao sexagenário Kevin Smith de olhá-la como um velho verde. O resultado das barbaridades e os desvarios do Saoirse foram o choro do Luke (que contava nove meses), umas quantas caras avermelhadas ao redor da mesa e um costillar de cordeiro queimado.

É obvio os vizinhos não foram tão curtos de idéias para pensar que Elizabeth era responsável pela conduta de sua família, mas depois daquilo ela se deu por vencida. Dado seu escasso instinto gregário preferiu evitar o abafado de ter que dar explicações e desculpar-se a três por quatro.

Para ela o silêncio valia mais que mil palavras. No silêncio achava paz e claridade. Salvo durante a noite, pois então o embrulho de seus próprios pensamentos a mantinha acordada soando como mil vozes que se pisavam e interrompiam tanto que com muita dificuldade conseguia fechar os olhos.

Agora a tinha o comportamento preocupada do Luke. O personagem do Ivan levava muito tempo rondando pela cabeça de seu sobrinho. Com o passar do fim de semana tinha observado ao Luke caminhar, falar e jogar a sós, gargalhando-se e rendo pelo bajini como se o estivesse passando em grande. Possivelmente estivesse passando por cima algo que ela devia fazer a respeito. E Edith não estava ali para presenciar aquele estranho comportamento e ocupar-se de resolvê-lo com o maravilhoso tato do que sempre fazia ornamento em seu trato com o Luke. Talvez Elizabeth devesse saber automaticamente como atuar. Uma vez mais os mistérios da maternidade levantavam sua feia cabeça e ela não tinha a quem pedir conselho. Tampouco tinha um exemplo de que aprender. Bom, isso não era verdade em sentido estrito; tinha aprendido que não fazer, lição tão boa como qualquer outra. Até então se guiou pelo instinto, tinha cometido uns quantos enganos pelo caminho, mas em términos gerais considerava que Luke se converteu em um menino educado e equilibrado. Embora possivelmente o estivesse fazendo todo mal. E se Luke terminava sendo como Saoirse? O que tinha feito ela tão mal com o Saoirse quando era menina para provocar que terminasse sendo como era?

Elizabeth grunhiu consternada e apoiou a cabeça no escritório.

Acendeu o ordenador e tomou uns sorvos de café enquanto este arrancava. Logo foi ao Google, escreveu as palavras «amigo imaginário» e pulsou «Busca». Centenas de sítios apareceram em sua tela. Meia hora mais tarde se sentia muito melhor a propósito do caso Ivan.

Para sua surpresa aprendeu que os amigos imaginários eram muito comuns e que não supunham um problema sempre e quando não interferissem na vida normal do menino. Embora o mesmo feito de ter um amigo imaginário constituía uma interferência direta na vida normal, ao parecer não supunha um problema segundo os médicos online. Sitio detrás sítio lhe disseram que perguntasse ao Luke o que pensava e fazia Ivan, já que essa seria uma forma positiva de dar a Elizabeth uma idéia do que estivesse pensando Luke. De fato, respiraram a Elizabeth a pôr a mesa contando com seu convidado fantasma e insistiram em que não era preciso que tirasse reluzir que o «amigo» do Luke só existia em sua imaginação. Aliviou-a inteirar-se de que os amigos imaginários eram um indício de criatividade e não de solidão nem de estresse.

Mesmo assim, não obstante, aquilo ia resultar difícil a Elizabeth. Atentava contra tudo no que acreditava. Seu mundo e a terra da fantasia existiam em dois planos muito diferentes e lhe custava o inexprimível fazer comédia. via-se incapaz de fazer ruiditos de bebê a um recém-nascido, de fingir que se escondia tampando-se com as mãos ou de dar vida ou voz a um urso de peluche. Nem sequer de estudante tinha conseguido fazer teatro improvisado. Tinha crescido sabendo que não devia fazer isso, que não devia parecer-se com sua mãe por medo de que seu pai se zangasse. O tinham inculcado desde pequeñita e agora os peritos lhe estavam dizendo que todo isso tinha que trocar, terminou-se o café em que pese a que já estava frio e leu a última frase da tela.

«Os amigos imaginários desaparecem transcorridos três meses, tanto se os respira como se não.» dentro de três meses estaria mais que contente de ver as costas do Ivan e retornar de novo à vida normal. Passou as páginas de seu calendário e marcou o mês de agosto com um círculo vermelho. Ivan não se partiu de sua casa para então, não duvidaria em abrir a porta e lhe mostrar o caminho de saída ela mesma.