Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 7 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 2 - Todos de Pé

CAPÍTULO 2

Todos de Pé

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– De pé, tútsis!

Cadeiras se arrastaram sobre o chão, e seis alunos da quarta-série em que eu estudava se puseram de pé im ediatam ente. Eu não entendi o que estava acontecendo, j á que até então freqüentara a escola de m inha m ãe. Agora, aos 10 anos, era m eu prim eiro dia na escola para os m ais velhos, e m e senti confusa com a m ovim entação. Eu nunca havia visto um professor fazer a cham ada baseando-se na etnia.

— De pé, todos os tútsis — berrou o professor Buhoro. E foi m arcando os nom es a lápis num a lista, a seguir parou diante de m im e m e encarou.

— Im m aculée Ilibagiza, você não se levantou quando cham ei os hútus, não se levantou quando cham ei os twas, e continua sentada depois que cham ei os tútsis. Por quê? — Buhoro sorria, m as sua voz soava dura e m á.

— Não sei, professor.

— A qual tribo você pertence?

— Não sei, professor.

— Você é um a tútsi ou hútu?

— E... eu não sei, professor.

— Saia! Saia da classe e não volte até saber quem é.

Recolhi m eus livros e saí da sala, envergonhada e de cabeça baixa. Em bora ainda não o soubesse, eu acabava de receber m inha prim eira aula sobre as diferenças étnicas em Ruanda, e foi um despertar doloroso.

Corri para o pátio e m e escondi atrás de uns arbustos, à espera de que m eu irm ão Dam ascene acabasse sua aula. Até então eu conseguira evitar as lágrim as, m as agora chorei até ensopar m eu uniform e azul. Eu não entendia o que tinha acabado de acontecer, queria voltar para a classe e pedir um a explicação a m inha m elhor am iga, Janet. Ela havia se levantado quando o professor cham ou os hútus — talvez ela pudesse m e dizer por que o professor havia m e tratado tão m al. Mas continuei ali, encolhida entre os arbustos, até ser encontrada, ainda choram ingando, por Dam ascene.

— Quem brigou com você, Im m aculée? — perguntou m eu irm ão, com a autoridade dos seus 13 anos. Dam ascene sem pre foi m eu principal defensor, pronto a iniciar um a guerra se alguém m e tratasse m al, e eu lhe contei o que Buhoro tinha dito.

— Buhoro é um hom em desagradável — com entou m eu irm ão —, m as não se preocupe com isso. Na próxim a vez que ele fizer a cham ada, faça com o eu, levante-se j unto com seus am igos. Fique de pé ao m esm o tem po que Janet.

— Janet ficou de pé quando ele cham ou os hútus.

— Então fique de pé quando cham arem os hútus. Se nossos am igos são hútus, isso quer dizer que nós tam bém som os. Som os todos iguais, não som os?

Eu não tinha com o saber, m as Dam ascene devia ser tão ignorante quanto eu em m atéria de tribalism o em Ruanda... e isso era estranho, j á que estávam os entre os j ovens m ais instruídos da vizinhança. Todos os dias, depois das aulas, m eus irm ãos e eu tínham os direito a noventa m inutos de tem po livre até serm os cham ados à sala de visitas, para fazer nossos deveres sob a supervisão de m am ãe. Quando faltava um a hora para o j antar, papai a substituía e arm ava, no m eio da sala, um quadro-negro com o o da escola. Distribuía giz e nos passava exercícios de m atem ática, gram ática e geografia.

Mas nossos pais não nos ensinaram nossa própria História. Não sabíam os que Ruanda era povoada por três tribos: um a m aioria hútu, um a m inoria tútsi e um núm ero insignificante de twas, povo sem elhante a pigm eus, que vivia nas florestas. Não nos ensinaram que os colonizadores alem ães, e depois os belgas que os substituíram , tinham convertido a estrutura social então reinante em Ruanda — um a m onarquia, sob reis tútsis, que, por séculos, m anteve Ruanda em paz e harm onia — em um sistem a discrim inatório de classes, tendo por base a raça dos indivíduos. Os belgas apoiavam a aristocrática m inoria tútsi e os colocaram à testa do governo; assim sendo, os tútsis recebiam um a educação superior para m elhor dirigir o país e gerar m aiores lucros para seus senhores belgas. Estes instituíram um a carteira de identidade étnica para m ais facilm ente distinguir quem pertencia a qual tribo, aprofundando o fosso que cavaram entre tútsis e hútus. Esses erros im prudentes criaram um duradouro ressentim ento da parte dos hútus, base para o futuro genocídio.

Quando os tútsis reivindicaram m ais independência, os belgas se voltaram contra eles e, em 1959, encoraj aram um a sangrenta revolta dos hútus, que depuseram a m onarquia. Mais de 100 m il tútsis foram assassinados. Quando os belgas abandonaram Ruanda, em 1962, o governo hútu estava consolidado, e os tútsis foram relegados a cidadãos de segunda classe, suj eitos a perseguições, violência e m orte pelas m ãos dos hútus extrem istas. Por décadas, m assacres, nos quais m orreram dezenas de m ilhares, foram com uns. Em bora a violência fosse cíclica, a discrim inação estava sem pre presente. As carteiras de identidade étnica, que os hútus haviam adotado dos belgas, tornavam a discrim inação m ais ostensiva, e m ais fácil de ser posta em prática.

Mas essas eram lições de história que nossos pais não queriam que m eus irm ãos e eu aprendêssem os, pelo m enos enquanto éram os ainda m uito novos. Jam ais nos falaram sobre discrim inação, ciclos de exterm ínio, lim peza étnica ou carteiras de identidade racial — esses assuntos não fizeram parte da m inha form ação.

Qualquer um era bem -vindo em nossa casa, independente de raça, religião ou tribo. Para m eus pais, o fato de ser tútsi ou hútu não tinha a ver com o tipo de pessoa que se era. Bom caráter e bondade eram o requisito para ser recebido de braços abertos. Mas eles m esm os tiveram algum as experiências horripilantes nas m ãos dos hútus extrem istas... quando penso no passado, consigo até m e lem brar vagam ente de um a.

Eu tinha apenas 3 anos de idade e não entendi o que se passava, m as m e recordo do fogo ilum inando o céu noturno, enquanto m inha m ãe m e apertava em seus braços e fugíam os de casa. Foi por ocasião do golpe de 1973, quando m uitos tútsis foram perseguidos, expulsos de suas casas e assassinados na rua. Na região que habitávam os, os hútus incendiaram os lares tútsi, um após o outro. Víam os o lago Kivu aos nossos pés, enquanto as labaredas subiam colina acim a em nossa direção. Nos refugiam os na casa de um vizinho, um hútu am igo nosso cham ado Rutakam ize. Ele nos abrigou até que a m atança e os incêndios term inassem . Quando voltam os para casa, tudo que encontram os foram ruínas fum egantes.

Meus pais reconstruíram a casa e j am ais com entaram o acontecido, pelo m enos não com os filhos. E, m esm o depois que foram alvo de outro surto de violência antitútsi em 1959, j am ais os ouvi falar depreciativam ente contra os hútus. Não eram preconceituosos, acreditavam que é o m al que encoraj a as pessoas a com eterem m aldades, independente de sua raça ou tribo. Papai e m am ãe não levavam em consideração as circunstâncias políticas e sociais em que viviam e, pelo contrário, nos ensinavam que todos nascem iguais. Não queriam que crescêssem os paranóicos, ou com sentim entos de inferioridade por term os nascido tútsis.

ASSIM É FÁCIL COMPREENDER POR QUE FIQUEI TÃO CONFUSA quando o professor Buhoro se enfureceu com igo por eu não saber qual era m inha tribo.

Naquele dia, Dam ascene passou o braço sobre m eu om bro e m e acom panhou até em casa. Am bos percebíam os que entráram os em contato com algo ruim , m as não sabíam os o quê. À hora do j antar, contei a papai o que havia acontecido. Ele ficou calado, logo a seguir m e perguntou por quanto tem po eu havia chorado entre os arbustos depois de ser expulsa de sala.

— Quase o dia inteiro, papai.

Ele colocou o garfo sobre a m esa e parou de com er — sinal certo de que estava zangado.

— Vou falar com Buhoro am anhã — prom eteu.

— Mas, papai, qual é a m inha tribo?

— Não se preocupe com isso agora. Podem os discutir esse assunto am anhã, depois que eu falar com seu professor.

Meu desej o era perguntar por que ele não m e dizia logo a qual tribo eu pertencia, m as não era bem -educado questionar os m ais velhos. Ele era m eu pai e, se preferia ser evasivo, devia ter suas razões, im aginei. Mas senti-m e frustrada — não entendia por que todo m undo se perturbava tanto quando o assunto eram as tribos!

No dia seguinte papai falou com o professor, m as não m e contou sobre o que conversaram , nem m e disse qual era a m inha tribo, com o prom etera. Só fiquei sabendo na sem ana seguinte, quando Buhoro fez nova cham ada por tribo. Meu pai deve tê-lo repreendido, pois desta vez cham ou-m e até sua m esa antes da cham ada e disse num tom m uito m ais brando.

— Im m aculée, levante-se quando eu cham ar os tútsis.

Eu sorria a cam inho da m inha carteira, pensando Então eu sou uma tútsi! Ótimo! Eu não tinha idéia do que era ser um a tútsi, m as, de todo m odo, m e sentia orgulhosa por ser um a deles. Éram os tão poucos na turm a que im aginei que devíam os ser especiais — além disso a palavra tinha um som bonito e era agradável de dizer. Mas eu continuava sem perceber qualquer diferença entre tútsis e hútus. Os twas eram pigm eus, assim era fácil reconhecê-los por sua baixa estatura. Mas, com o poucos twas freqüentavam a escola, eu quase não os via.

Diferenças entre tútsis e hútus eram m ais difíceis de notar. Diziam que os tútsis eram m ais altos, de pele m ais clara e narizes m ais afilados. Mas isso não era verdade, j á que tútsis e hútus casaram entre si durante séculos, portanto nossas cadeias de genes se haviam m isturado. Hútus e tútsis falavam o m esm o idiom a — kiny arwanda — e tinham um a história com um . Nossas culturas eram praticam ente iguais: cantávam os as m esm as canções, cultivávam os a m esm a terra, freqüentávam os as m esm as igrej as e cultuávam os o m esm o Deus. Vivíam os nas m esm as aldeias, nas m esm as ruas e, ocasionalm ente, nas m esm as casas.

Aos olhos de um a criança (ou, pelo m enos, aos meus olhos), nos dávam os m uito bem . Vezes incontáveis m inha am iga Janet e eu j antávam os na casa um a da outra. Durante m eus tem pos de m enina, as únicas ocasiões em que fui lem brada de que Ruanda era habitada por tribos diferentes foi durante a cham ada étnica sem anal. Aquilo m e aborrecia, m as não m e causava m uitas preocupações, porque eu ainda não havia descoberto o significado de preconceito.

Até que decidi entrar para a escola secundária.

Aos 15 anos de idade, term inei em segundo lugar, num a classe de sessenta alunos, a oitava série. A m édia de m inhas notas era 94, apenas dois pontos abaixo do m elhor aluno — um rapaz tútsi —, m uito m ais adiantado que todo m undo. Resultado m ais que suficiente para m e garantir um a bolsa e um a vaga num a das m elhores escolas secundárias públicas da região. No final do sem estre fui para casa sonhando com m eu novo uniform e escolar e tentando im aginar com o seria m orar longe de casa, num a bonita escola na qual as aulas eram dadas em francês.

Eu tinha planos de m e m atricular na universidade quando term inasse o segundo grau, e, depois, quem sabe? Talvez eu m e tornasse piloto, professora, ou m esm o um a psicóloga (a essa altura, andavam esquecidos m eus planos infantis de ser freira). Meus pais haviam m e ensinado que, com trabalho e determ inação, até um a j ovem de um a aldeiazinha com o Mataba podia ser alguém im portante.

Com o poderia eu saber que m inhas am bições não passavam de um sonho bobo de m enina? Eu não sabia que aquelas cham adas étnicas sem anais serviam para um fim sinistro: segregar as crianças tútsis com o parte de um plano discrim inatório conhecido com o “equilíbrio étnico”.

Tratava-se de um plano engendrado por Juvenal Haby arim ana, o presidente hútu que havia tom ado o poder durante o golpe de 1973. Segundo proclam ou, o governo deveria “equilibrar” as vagas escolares e os m elhores cargos do funcionalism o de m aneira a refletir a com posição étnica do país. Com o aproxim adam ente 85% da população de Ruanda era com posta de hútus, 14% de tútsis e 1% de twas, a m aioria das vagas escolares e cargos públicos ia para os hútus. A finalidade real do plano era barrar os tútsis das escolas secundárias, das universidades e dos cargos m ais bem pagos, e m antê-los com o cidadãos de segunda classe.

Com preendi o verdadeiro significado do equilíbrio étnico algum as sem anas antes da data em que supostam ente ingressaria na escola secundária. Um vizinho passou na nossa casa à hora do j antar e avisou que m eu nom e não estava na lista dos estudantes contem plados com as bolsas de estudo, que acabavam de afixar no salão com unitário. Apesar de m inhas notas excelentes, eu fora preterida por ser um a tútsi — todas as vagas disponíveis haviam sido destinadas a hútus com notas bem inferiores. O garoto tútsi que tivera as m elhores notas da turm a tam bém foi preterido por causa de sua tribo.

Papai em purrou sua cadeira para longe da m esa e ficou um tem pão com os olhos fechados. Eu sabia que m eus pais não podiam pagar um a escola particular, que custava dez vezes m ais do que a pública. Meus dois irm ãos estudavam fora, e o dinheiro estava apertado. Além disso, em Ruanda, as escolas particulares eram ruins em com paração com as bem -dotadas escolas governam entais. Os professores eram m enos qualificados, o currículo inferior, e os prédios feios e desconfortáveis.

— Não se preocupe, Im m aculée. Encontrarem os um j eito de você estudar.

Foi o que m eu pai conseguiu dizer. Pediu licença para se retirar da m esa e foi para o quarto sem term inar a refeição.

— Não perca as esperanças — disse m am ãe abraçando-m e. — Nós vam os rezar por isso. Agora com a seu j antar.

Depois do j antar, tranquei-m e no escritório de papai e chorei. Eu havia m e esforçado tanto na escola e agora via destruído m eu sonho de conseguir um a educação superior. Trem i ao pensar no que o futuro m e reservava. Sabia com o as m ulheres solteiras sem instrução eram tratadas em nossa sociedade. Praticam ente não tinham direitos, nenhum a perspectiva de vida ou respeito. Sem ter ao m enos um a educação secundária, m inha única opção seria ficar em casa, à espera de que algum hom em m e quisesse por esposa. Eu ainda tinha 15 anos, e m eu futuro j á era desanim ador.

Na m anhã seguinte, papai não apareceu à m esa do café-da-m anhã.

— Ele está tentando realizar um m ilagre — explicou m am ãe. — Foi se inform ar sobre algum as escolas particulares para m atricular você.

— Isso é m uito caro, m am ãe, e nós não podem os...

— Shhhh — ela interrom peu. — Eu não lhe disse para não perder as esperanças?

O que aconteceu foi que papai havia saído antes do sol nascer para vender duas de nossas vacas e poder m e m atricular em um a escola secundária particular. Vacas são sím bolo de status na cultura de Ruanda e extrem am ente valiosas — vender um a era um a extravagância, vender duas era um convite à ruína. Mas papai estava determ inado a m e proporcionar um a boa educação. Pegou o dinheiro da venda das vacas, dirigiu por três horas até um a escola particular recém -construída e pagou em dinheiro vivo as m ensalidades do prim eiro ano. Meu pai tinha dificuldade em dem onstrar em oção, m as era-lhe im possível disfarçar seu am or por m im .

Poucas sem anas depois, m inhas m alas estavam arrum adas, e chegou a hora de partir. Janet m e abraçou, nós duas choram os e prom etem os escrever m uitas cartas um a para a outra. Mam ãe m e cobriu de beij os, tentando reter as lágrim as. Vianney, agora o único filho em casa, correu para o quarto e não quis se despedir. Muitos vizinhos saíram de suas casas e acenaram seu adeus quando papai e eu partim os de carro. Havia em m im um sentim ento de perda ao deixar Mataba, m as estava ansiosa por com eçar m inha nova vida.

MINHA NOVA ESCOLA DEIXAVA MUITO A DESEJAR. O dorm itório era acanhado, com piso de cim ento e paredes ásperas feitas com blocos de concreto e cinza, que im ploravam por um a m ão de tinta de cores alegres. Eu dorm ia com outras dez m eninas, em colchões tão próxim os entre si que m al deixavam livre um trecho do piso. Não havia água corrente, então, todas as m anhãs, tínham os que pegar baldes e andar pouco m ais de 2 quilôm etros até o riacho m ais próxim o para buscar a água necessária para nossa higiene e para cozinhar. Eu sentia falta da m inha cam a e do arroz com feij ão de m am ãe.

Entretanto, por m ais difícil que fosse enfrentar essas dificuldades, eu não pretendia abandonar a escola e im plorar a m eus pais que m e levassem para casa. Pelo contrário, quando chegou a hora de escolherm os as m atérias que estudaríam os naquele ano, optei pelas m ais desafiadoras: m atem ática e física. Eu não só queria que papai e m am ãe se orgulhassem de m im , com o tam bém queria provar algo a m eus irm ãos. Com o hom ens típicos de Ruanda, eles im plicavam com igo dizendo que lugar de m ulher é na cozinha, e não na sala de aula. Pois eu ia m ostrar a eles!

Dois anos se passaram , e eu era um a das m elhores alunas da escola. Quando o governo anunciou que haveria um exam e especial para escolher, entre os m elhores estudantes, os que entrariam para a escola pública, decidi m e candidatar. No fundo eu acreditava que de nada adiantaria ter as m elhores notas do país — eu seria certam ente preterida por ser tútsi. Apesar disso, estudei m uito e estava certa de ter feito ótim as provas, m as as sem anas se passavam , os resultados não chegavam , e deixei o assunto de lado.

Meses depois, quando eu passava as férias de verão com a fam ília, Dam ascene entrou em casa aos pulos, berrando o m ais alto que podia.

— Im m aculée! Im m aculée Ilibagiza! Acabei de ver a lista: você passou no exam e! Foi aceita no Ly cée de Notre Dam e d’Afrique. É um a das m elhores escolas de Ruanda, e pertinho da m inha!

Estávam os reunidos na sala de visitas, e todo m undo perdeu a cabeça. Eu saltei da cadeira e exclam ei:

— Graças a Deus, graças a Deus! — fazendo o sinal-da-cruz e ao m esm o tem po um a dança de vitória pela sala. Mam ãe ficou com os olhos cheios de lágrim as, e papai gritava:

— Esta é a m aior alegria da m inha vida! Nos últim os dois anos rezei todos os dias para que você entrasse para aquela escola. Deus atendeu às m inhas preces!

— Parece que você é m esm o inteligente, apesar de ser um a m enina.

Aim able ria, m as dava para perceber o quanto estava feliz por m im .

Dam ascene sorria seu sorriso lindo, tão orgulhoso que parecia a ponto de explodir.

Dem os um a festa para a fam ília naquela noite, a com em oração m ais alegre dos últim os tem pos. O Ly cée era um a escola excelente, onde haviam estudado m uitas filhas dos políticos m ais im portantes do país. Eu não só receberia a m elhor educação disponível em Ruanda, com o m eus pais não m ais teriam que se esforçar para pagar as m ensalidades da escola particular. O único inconveniente era o fato de a escola ficar distante, na província de Giseny i, a quatro horas de carro de Mataba, por estradas perigosas, e m eus pais não poderiam fazer visitas freqüentes. E era um a área habitada predom inantem ente por hútus, conhecida por sua hostilidade aos tútsis.

— Não tenha m edo, é um a escola de m eninas — disse Dam ascene. — Há um a cerca e m uitos guardas para protegê-las. E m inha escola fica tão perto que poderei visitá-la pelo m enos um a vez por m ês.

ADOREI O LYCÉE À PRIMEIRA VISTA. Os prédios eram espaçosos, bonitos e brilhavam de tão lim pos. As salas de aula eram pintadas em tons alegres e havia flores de todas as cores no cam pus. Um a alta cerca protetora circundava o com plexo, fazendo-m e sentir segura e protegida. Considerava-m e feliz e sabia que m inha fam ília pensaria do m esm o m odo, especialm ente quando ouvi as freiras dizerem que devíam os rezar em conj unto antes e depois das refeições.

Um a das prim eiras am izades que fiz foi com um a m enina hútu cham ada Sarah. Nos tornam os íntim as com o irm ãs, e fui convidada para conhecer sua fam ília em Kigali, capital de Ruanda. Para um a sim ples habitante de aldeia com o eu, essa visita à cidade grande foi um a revelação — especialm ente quando vi aviões de perto pela prim eira vez. Sarah e eu fom os ao aeroporto à noite, quando a pista de pouso cintilava com um brilho fluorescente, e as luzes de sinalização piscavam em verm elho, branco e azul, enquanto aviões enorm es baixavam do céu. Fiquei de queixo caído ao ouvir o ronco dessas m áquinas gigantescas.

— Olhe só para eles! — exclam ei, enquanto Sarah m orria de rir. — Agora eu acho que j á vi tudo.

Outra am iga m inha, que conheci no prim eiro dia, era Clem entine, um a linda j ovem de pele lisa e belos olhos que a faziam parecer um a m odelo de revista am ericana. Ao m e ver entre o bando de novatas, veio logo falar com igo. Eu era m ais alta que a m aioria, m as ela devia m edir pelo m enos um m etro e oitenta. Pela altura nos reconhecem os com o tútsis.

— Com o será que um a m enina tútsi bonita com o você vai se virar aqui no Norte, tão longe e cercada por tantos rostos hútus inam istosos do outro lado da cerca? — brincou Clem entine. — Tem os que nos unir e cuidar um a da outra. — Ficam os am igas im ediatam ente.

Clem entine tinha razão quanto aos rostos inam istosos. Era difícil nos aventurarm os além dos m uros do cam pus — sem pre que o fiz, sentia os olhares dos habitantes locais fixados em m im e ouvia-os m urm urar “tútsi” em tom am eaçador. Os padres e freiras que dirigiam a escola evitavam que as alunas e os residentes da cidade assistissem à m esm a m issa na igrej a local. Éram os term inantem ente proibidas de deixar a área do colégio sem a proteção de algum funcionário. Lá fora era tudo assustador, m as dentro dos m uros escolares nunca percebi qualquer discrim inação. Os professores j am ais faziam a cham ada étnica, e, em bora a m aioria das alunas pertencesse à tribo hútu, nos queríam os bem com o um a fam ília.

Eu não deixava os lim ites do cam pus, estudava m uito e tentava não sentir tantas saudades de casa. Sentia a falta de m eus pais e irm ãos, e até das im plicâncias de Vianney. Por falar em m eu irm ãozinho, alguns m eses depois que saí de casa ele m e m andou um a carta que m e preocupou e deixou em ocionada. Dizia que sentia m uitíssim o a m inha ausência, não conseguia dorm ir desde a m inha partida e que às vezes, à noite, via fantasm as passeando pelos quartos. Nessas ocasiões, fugia de casa aterrorizado. A carta m e partiu o coração — sim , Vianney e eu brigávam os m uito, e só agora eu percebia o quanto significava para ele. Senti-m e culpada por deixá-lo sozinho e prom eti a m im m esm a que seria um a irm ã m elhor.

Dam ascene cum priu a palavra e m e visitava um a vez por m ês. Ficávam os sentados no gram ado e conversávam os horas a fio. Ele sem pre m e dava bons conselhos, especialm ente no que se referia aos estudos.

— Reze, Im m aculée. Reze antes de fazer os deveres e sem pre que estiver se preparando para um teste ou exam e. Então estude o m áxim o que puder.

Segui o que ele aconselhava, e rezava m ais ainda antes das provas de m atem ática, e continuei a m e destacar na escola.

Sem pre que ele m e visitava, m inhas am igas queriam saber quem era o rapaz bonito com quem eu conversava tanto.

— É m eu irm ão Dam ascene — eu respondia toda orgulhosa.

— Não, não pode ser. Ninguém se dá tão bem assim com um irm ão. Você parecia feliz por estar com ele.

Que sorte a m inha ter um irm ão com o Dam ascene.