Sobrevivi para Contar
Capítulo 3 - Estudos Secundários
CAPÍTULO 3
Estudos Secundários
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Avida no Ly cée era boa até que, quando eu estava no terceiro e últim o ano, a guerra estourou.
Era um a bela tarde de verão, no prim eiro dia de outubro de 1990. Minhas colegas de classe e eu estávam os à espera do professor de educação cívica e estranhávam os seu atraso. O Sr. Gahigi era um hom em pacato, sim pático, talvez a pessoa m ais calm a que j á conheci. Portanto, quando ele finalm ente apareceu, torcendo os dedos e andando de um lado para outro diante da sala de aula, soubem os que havia algo de errado. Um a aluna perguntou-lhe qual era o problem a, m as ele continuou agitado e não quis olhar para nós.
Tentei im aginar quais eram as m ás notícias que o professor não nos queria dar, talvez que as freiras tivessem cancelado o cinem a daquela noite. Mas era algo m uito m ais sério. Na escola não nos perm itiam ouvir os noticiários, portanto, tal com o em m inha casa, eu vivia isolada dos acontecim entos do m undo real.
— Acabo de saber que o país foi atacado — disse-nos o Sr. Gahigi lugubrem ente. — Creio que foi m uito sério, e terá um im pacto sobre todos nós por m uitos anos.
A classe se calou — então com eçaram a falar todas ao m esm o tem po, fazendo perguntas em voz alta, querendo saber quem estava atacando Ruanda, e por quê.
— Um grupo de soldados tútsis rebeldes, residentes em Uganda, cruzou a fronteira — respondeu o professor. — São, em sua m aioria, filhos de refugiados ruandeses que se agruparam e lutam para reentrar no país. Há com bates no Norte, entre os rebeldes e as tropas do governo de Ruanda.
O Sr. Gahigi foi bom bardeado com um a saraivada de perguntas indignadas e assustadas.
— O que é que esses tútsis estão querendo? Por que nos atacaram ? O que eles vão fazer conosco se ocuparem a escola?
Fiquei rubra de vergonha e tive vontade de m e esconder em baixo da carteira. Éram os cinqüenta alunas na classe, e 47 delas eram hútus. Senti-m e tão nervosa e em baraçada que não conseguia olhar para as outras tútsis. Pela prim eira vez eu sentia vergonha de ser tútsi, e pela prim eira vez m e sentia diferente das outras no Ly cée.
— Os rebeldes são soldados que lutam ao lado da Frente Patriótica de Ruanda. Trata-se de um a associação política com posta por tútsis que deixaram o país há oito anos e tiveram sua volta proibida pelo governo. Eles são, a bem dizer, estrangeiros, e m ovem esta guerra com a intenção de voltar a Ruanda e tom ar o governo.
Eu j á tinha ouvido falar a respeito da Frente Patriótica de Ruanda, ou FPR, e sabia que seus m em bros não lutavam apenas para derrubar o governo hútu; desej avam viver num país livre e igualitário. A m aioria dos soldados da FPR — os rebeldes — eram exilados tútsis ou filhos de exilados.
Centenas de m ilhares de tútsis haviam fugido de Ruanda durante os distúrbios de 1959 e 1973, assim com o em outras ocasiões em que os hútus haviam prom ovido tem poradas de caça aos tútsis. Tinham se auto-exilado para salvar suas vidas e suas fam ílias. Mas o Sr. Gahigi os cham ava “estrangeiros” porque m uitos deles foram criados em outros países, com o Uganda e o Zaire — m as isso porque fazia parte da política do presidente Haby arim ana im pedi-los, para sem pre, de retornar a Ruanda, o que provocara um a diáspora tútsi, e gerações de tútsis ruandeses tinham crescido sem colocar um a única vez os pés em sua pátria.
O Sr. Gahigi não m encionou nada disso, m as ele sabia m uito bem o que acontecia todas as vezes que os tútsis resistiam aos hútus extrem istas. Ele estava preocupado conosco e disse:
— Isso pode trazer graves conseqüências aos tútsis. Ações com o esta podem provocar m uitas m ortes, então rezem os para que o governo e os rebeldes cheguem pacificam ente a um acordo e evitem o derram am ento de sangue.
A aula estava praticam ente suspensa. As alunas só falavam sobre o ataque e o que fariam se soldados tútsis entrassem na escola. Fiquei calada, j unto com m inhas duas colegas tútsis, fazendo o possível para passar despercebida. Minha vergonha aos poucos foi se transform ando em raiva, ao pensar na inj ustiça do tratam ento dispensado aos tútsis. No m eu íntim o, torci pela FPR e para que os rebeldes derrotassem o exército governam ental e pusessem fim à discrim inação. Lá pelo final do dia, m inha raiva foi substituída pelo m edo, pois fiquei preocupada com m inha aldeia e m inha fam ília. Fechei os olhos e rezei, pedindo a Deus que m antivesse m inha fam ília a salvo, pois eu não conseguiria viver sem eles.
Muitas estudantes tinham fam ília no Norte, onde a luta era m ais acirrada, então a diretora nos perm itiu ouvir os noticiários radiofônicos para ficarm os a par dos acontecim entos. Mas, na m aior parte do tem po, o que a rádio governam ental fazia era apenas difundir o ódio. Os locutores alegavam que os soldados rebeldes viviam na floresta com o anim ais, com iam carne hum ana e se relacionavam com m acacos. Diziam que os rebeldes eram tão cruéis que chifres brotavam de suas cabeças. Aconselhavam os ruandeses a ficarem atentos, porque as “baratas tútsis” eram ardilosas e podiam atacar a qualquer hora e em qualquer lugar. Esses com unicados inflam avam a im aginação hiperativa das colegiais, j á m ortas de m edo. Um a delas ficou tão nervosa que quase provocou m inha m orte.
Danida, m inha com panheira de dorm itório, acreditava em todas as horríveis descrições dos soldados rebeldes. Um a noite eu devo tê-la acordado ao sair da cam a para ir ao banheiro. Fazia frio e, para m e aquecer, vesti um pij am a com prido e am arrei um lenço enorm e em volta da cabeça. Minha aparência devia ser um tanto assustadora, e, quando tentei entrar novam ente no dorm itório, Danida bateu a porta na m inha cara e a trancou. Logo seus gritos de terror ecoavam por todo o cam pus.
— Socorro! Socorro! Socorro pelo am or de Deus! Há um soldado da FPR que veio m atar e com er todas nós... ele tem chifres na cabeça.
Reconheci a voz de Danida e disse-lhe com toda calm a:
— Danida, sou eu, Im m aculée. Não sou soldado. Eu não tenho chifres... É só um lenço que estou usando.
Ouvi o som pesado de passos sobre o cascalho e m e virei. O m aior guarda de segurança da escola vinha correndo no escuro para m e enfrentar, com um a lança apontada diretam ente para o m eu coração. Meus j oelhos vacilaram e caí ao chão. Ele se deteve a alguns centím etros de onde eu estava.
— Meu Jesus, eu quase m atei você, Im m aculée! Que diabos, quem está berrando desse j eito?
A essa altura, todas as m eninas do dorm itório berravam , e com tam anha algazarra precisei gritar para que ele m e ouvisse. Vários guardas levaram pelo m enos m eia hora tentando convencer as alunas de que podiam abrir a porta em segurança, m as elas se recusaram . Foi preciso cham ar a diretora com a chave m estra; lá dentro, ela fez um a preleção sobre o perigo de nos deixarm os levar pela im aginação.
Mas nem todas as tensões eram fruto de nossa im aginação. Um a tarde saím os para um piquenique e cruzam os com um grupo de hútus. Um dos hom ens carregava um a faca, que brandiu na m inha direção.
— Vej am com o ela é alta — ele rosnou. — Será a prim eira a ser m orta. Você vai pagar por tudo o que seus irm ãos rebeldes estão fazendo.
Senti m eu estôm ago revirar-se e achei que ia vom itar. Era a prim eira vez que m e am eaçavam com violência, e eu não soube com o reagir. Corri de volta ao dorm itório e j urei que nunca m ais participaria de um passeio da escola. Maldisse m inha altura e m e perguntava por que o fato de ser alta podia ser m alvisto em qualquer país. O que eu podia fazer a respeito? Eu não podia deixar de ser alta nem podia deixar de ser um a tútsi.
No dia seguinte, Clem entine m e cham ou durante um intervalo entre as aulas e sussurrou no m eu ouvido.
— Venha com igo, Im m aculée. Quero lhe m ostrar o que devem os fazer quando gente com o aquele hom em da faca vier atrás de nós.
Ela m e levou até um galpão num a área restrita e abriu um a caixa de força de alta voltagem .
— Há m ais de 1.500 volts de eletricidade aqui — explicou. — Se os hútus extrem istas invadirem a escola e não tiverm os com o escapar, podem os vir aqui, puxar essa alavanca e pôr as m ãos lá dentro. Nós m orreríam os im ediatam ente — é m elhor ser eletrocutada do que torturada, estuprada e m orta. Não vou perm itir que selvagens se aproveitem do m eu corpo antes de m e m atar. Não faça essa cara de surpresa... Já ouvi histórias dem ais de m ulheres tútsis que foram estupradas e brutalizadas em tem po de guerra para não ter um plano de fuga.
Concordei com a cabeça. Era estranho falar em acabar com nossas vidas aos 19 anos de idade apenas, m as essa parecia um a saída m elhor do que a outra alternativa. Clem entine e eu fizem os um pacto e j uram os não dizer nada a ninguém , para que as autoridades escolares não ficassem sabendo e trancassem a caixa de força.
CONTINUAMOS OUVINDO O RÁDIO, À ESPERA DE NOTÍCIAS, m as a estação oficial era notória por suas inform ações incorretas. Ouvim os que a FPR tinha aberto cam inho até Kigali e atacado o palácio presidencial. O presidente falou em cadeia de rádio e recom endou que todos perm anecessem em suas casas até que o exército m atasse todas as “baratas” invasoras. Ficam os sabendo m ais tarde, através da BBC, que não havia com batentes da FPR num raio de m uitos quilôm etros em torno da capital — o presidente Haby arim ana inventara o ataque com o pretexto para prender m ilhares de tútsis, pelo sim ples fato de terem parentes que residiam fora do país. O presidente agia com o paranóico, convencido de que um tútsi com um prim o em Uganda certam ente haveria de colaborar com os rebeldes.
A BBC noticiou que tantos tútsis inocentes foram presos que todas as prisões em Ruanda estavam superlotadas, e j á não havia lugar para os crim inosos. Dizia-se tam bém que m uitos prisioneiros tútsis eram reduzidos à fom e e subm etidos a torturas, e alguns tinham sido m ortos.
Quando fui passar o Natal em casa, fiquei sabendo que m eu próprio pai tinha sido um dos presos. Ao descer do ônibus em Mataba, esbarrei em m adam e Sirake, um a de nossas m ais antigas vizinhas e conhecida com o fofoqueira.
— Venha m e dar um abraço, m enina — ela exclam ou. — Com o é bom ver você! Em bora você estej a que é só pele e osso... Essas freiras não lhe dão com ida?
— Que nada, elas nos alim entam m uito bem . Mas estou louca por um j antar em fam ília.
— Tenho certeza de que seu pai vai ficar m uito contente em vê-la, especialm ente depois de tudo que aconteceu a ele.
— O que a senhora quer dizer com isso?
— Você não soube de nada?
Meu coração disparou. Eu não via m eus pais desde o início da guerra e não recebia notícias de casa havia várias sem anas.
— Eu pensei que você soubesse — disse m adam e Sirake. — Seu pai esteve preso.
Sentei-m e sobre um tronco de árvore. Não conseguia im aginar o que m eu pai poderia ter feito para ir parar num a cadeia... a não ser o fato de ser tútsi. Preocupei-m e com o estado de saúde de m inha m ãe, pois o estresse provocado pela prisão de papai poderia ter provocado outro ataque sério de asm a. Fiz em tem po recorde a cam inhada de trinta m inutos que m e separava de casa e encontrei m inha m ãe na porta à m inha espera.
— Com o você está, querida? — ela perguntou, e m e deu um abraço apertado. Não falou na prisão do m eu pai; procurava, com o sem pre, proteger-nos das coisas desagradáveis, e nisso ela nunca m udaria.
— Você deve estar com fom e, Im m aculée. Por que não entra no chuveiro enquanto preparo algum a coisa para você? Dam ascene e Vianney deram um a saída, e Aim able ainda não voltou da universidade. Seu pai está no trabalho, m as aposto que está doido para ver você.
— Está todo m undo bem ? Aconteceu algum a coisa a algum deles?
— Todos estão m uito bem .
— Pelo am or de Deus, m am ãe! Eu j á soube que papai foi preso, portanto deixe de fingir e m e conte o que houve.
Minha m ãe sentiu-se tão aliviada por não ter que m e dar ela m esm a as m ás notícias que se sentou im ediatam ente e m e contou a história toda.
Assim que a guerra com eçou, quatro soldados do governo invadiram o local de trabalho de papai, am arraram seus braços atrás das costas e o levaram para a cadeia m unicipal de Kibuy e, onde o trancaram com m eia dúzia de am igos tútsis. Por vários dias os guardas receberam ordens para não lhes fornecer água ou com ida. Finalm ente papai conseguiu subornar o guarda hútu para levar um recado a m inha tia Cecile, que m orava ali perto. Cecile trouxe com ida e pagou ao guarda para passá-la ao m eu pai e seus am igos.
Duas sem anas depois, papai descobriu que sua prisão fora ordenada por seu velho am igo Kabay i, um hútu que se tornara burgom estre (espécie de “superprefeito” regional, politicam ente poderoso). Kabay i e m eu pai tinham sido colegas de escola e grandes am igos de infância. Mas só depois que o presidente Haby arim ana cedeu à pressão internacional e concordou em libertar os m ilhares inj ustam ente presos Kabay i foi à cadeia e m andou libertar papai e seus com panheiros. Kabay i tinha dito aos guardas para não alim entarem papai e ficou chocado ao ver que ele ainda estava vivo. Mas se fingiu de preocupado, pediu m il desculpas e alegou que tudo não passara de um engano.
Mais tarde, à noite, em torno da m esa, após o j antar, tentei conversar sobre o que tinha acontecido com papai, que disse:
— Foi só um engano. Kabay i apenas cum priu ordens, não foi nada pessoal. São assuntos políticos, é m elhor que vocês crianças não se envolvam . Melhor esquecer tudo.
Meus irm ãos não conseguiam acreditar que m eu pai fosse tão capaz de perdoar. Haviam conhecido Kabay i a vida toda e estavam indignados por ele ter perseguido papai.
— Kabay i era seu am igo, papai. Im agine se fosse seu inim igo! Por que você o defende? Você defende os que querem m atá-lo! Acho m elhor deixarm os o país até a guerra acabar. Pelo m enos m andar m am ãe e Im m aculée para fora. Estou preocupado com elas — disse Aim able.
— Não, nada disso, você está exagerando... Está tudo tranqüilo. Já está m elhorando, tudo não passa de política. Não se preocupem , crianças. Vai dar tudo certo, vocês vão ver — afirm ou papai.
Mam ãe im plorou a m eus irm ãos que não fossem se j untar aos rebeldes da FPR com o faziam tantos rapazes tútsis.
— Se vocês aderirem aos rebeldes, saibam que isso seria a morte para m im . Se vocês não se im portam de m atar a própria m ãe, vão em frente, j untem -se aos rebeldes. Mas se vocês m e am am , prom etam -m e agorinha m esm o que não vão desaparecer e m e deixar sofrendo. Vam os, prom etam .
Mam ãe estava tão agitada que m eus irm ãos repetiram m il vezes a prom essa de que não se j untariam aos rebeldes.
Voltei para o Ly cée, com pletei os m eses que faltavam para term inar o secundário e fiz m inha prova para entrar na universidade. Mais um a vez m inhas notas foram excelentes e passei, m as tinha poucas esperanças de entrar. Por causa do equilíbrio étnico que a FPR com batia, parecia que m inha carreira acadêm ica se encerraria.
Despedi-m e das boas am igas do Ly cée e fui para casa passar as férias de verão e esperar para ver aonde m e levariam o futuro e o destino. A guerra se intensificava; os rebeldes venciam m uitas batalhas e faziam pressão para que o governo perm itisse o retorno de ruandeses exilados, para dividir o poder com os hútus.
Minha m ãe, cada vez m ais traum atizada pelos acontecim entos, com eçou a consultar videntes. Lem bro-m e de um a, em nossa casa, sentada na cozinha com m am ãe, que lhe perguntou se a guerra term inaria e se voltaríam os a ter paz.
— Vej o tem pestades à nossa volta, m as são apenas pequenas tem pestades — inform ou a vidente. — A m ãe de todas as tem pestades ainda está por vir. Seus raios haverão de queim ar a terra, seu trovão será ensurdecedor, e serem os todos afogados por pesadas chuvas. A torm enta vai durar três m eses, e m uitos serão os m ortos. Os sobreviventes não terão um am igo a quem recorrer... Todos os rostos am igos terão perecido.