Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 22 de 32

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Sobrevivi para Contar

Parte III - Um novo caminho

Parte III - Um novo cam inho

PARTE III

 

UM NOVO CAMINHO

Capítulo 17 - As Dores da Liberdade

CAPÍTULO 17

As Dores da Liberdade

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Fui invadida pelas sensações noturnas. A suavidade do ar tocando m eu corpo, o frescor em m eus pulm ões e o brilho, a beleza hipnótica dos bilhões de estrelas que dançavam diante dos m eus olhos levaram m inha alm a a entoar Deus seja louvado!

Saboreava m eu prim eiro contato com a liberdade, m as o pastor Murinzi falou im paciente:

— O que você está olhando? Vam os logo, tem os que partir im ediatam ente.

Ele e as outras m ulheres aguardavam ao lado do portão, com John, que desej ava acom panhar-nos até o acam pam ento francês. Um belo gesto, m as chegou tarde dem ais. Eu não tinha com o saber se sobreviveria ao genocídio — ou m esm o se veria o dia am anhecer —, m as tinha certeza de que nossa relação estava m orta.

O pastor abriu o portão e seus filhos (com exceção de Sem beba) saíram da casa com lanças, facas e porretes. Depois que atravessam os o portão, form aram um círculo fechado em torno de nós, criando um escudo, para nos subtrair ao olhar de em pregados desconfiados ou vizinhos m al-intencionados.

Logo estávam os em cam po aberto, na m esm a estrada de terra que m e trouxera até o banheiro, três m eses antes. À m edida que m eus olhos se acostum avam à escuridão, vi que tanto o pastor Murinzi quanto John estavam arm ados: John levava um a lança com prida, e o rifle do pastor pendia do seu om bro. Im aginei o que eles fariam se encontrássem os um bando de assassinos. E logo tive a resposta.

Não percebem os sua vinda — surgiram da noite, num a elevação da estrada. Eram talvez uns sessenta Interaham wes em fila dupla, e, m esm o sem seus uniform es assustadores, eram um a visão apavorante. Estavam bem arm ados e andavam depressa, vindo em nossa direção com facões, fuzis, granadas, lanças e grandes facas de açougueiro — havia um que usava arco-e-flecha.

Passam os tão perto deles que pude sentir o odor de seus corpos e o álcool em seus hálitos. O extraordinário é que senti m enos m edo ao andar perto deles do que quando m e escondia no banheiro. Assim m esm o pedi a Deus que nos protegesse e m e livrasse do m edo.

Minhas com panheiras e eu ficam os no centro do grupo de escolta, de cabeça baixa, na esperança de que os Interaham wes não notassem que éram os m ulheres. Passam os por eles sem incidentes — alguns assassinos chegaram a dizer alô e desej aram boa sorte ao pastor e a John. Talvez tenham pensado que tam bém éram os assassinos em um a caçada noturna, ou Deus os tinha deixado cegos... provavelm ente as duas coisas, pensei. Além disso, com o genocídio no pé em que estava, não acreditariam , nem achariam possível que houvesse tantos tútsis num só lugar. E tinham boas razões para pensar assim , pois havia cadáveres por toda parte ao longo da estrada.

Deus m e havia atendido e dissipado m eu m edo, m as, aparentem ente, não havia estendido essa bênção ao pastor e a John. Am bos ficaram visivelm ente abalados com o encontro com os Interaham wes. Mal os perdem os de vista, John e o pastor reavaliaram a situação.

— Senhoras, terão que seguir sozinhas daqui por diante — disse o pastor. — Os franceses estão próxim os... sigam em frente; ficarem os de vigia até que vocês desapareçam da nossa vista.

Apertei rapidam ente a m ão do pastor; em seguida, ele, seus filhos e John se esconderam entre a vegetação. As outras m ulheres e eu ficam os com pletam ente expostas e não podíam os perder tem po. O acam pam ento francês estava a pouco m ais de 500 m etros de distância, e correm os o m ais depressa que podiam nossas pernas enfraquecidas.

Meu coração batia descom passado ao chegarm os ao acam pam ento, arm ado em um a residência abandonada, que pertencera a religiosas protestantes. As outras m ulheres se encolheram am edrontadas, enquanto eu sacudia o portão e cham ava o m ais alto que podia:

— Por favor, aj udem -nos! Por favor, precisam os de aj uda!

Havia tanto tem po que eu não falava, a não ser em sussurros, que m inha garganta doeu com a tentativa de gritar. Minha voz estava rouca, e tão baixa que era quase inaudível. Minhas com panheiras entraram em pânico ao ver que não havia ninguém esperando para nos salvar e com eçaram a gem er. Alguns segundos depois, seis ou sete soldados surgiram , do outro lado da cerca, com m etralhadoras apontadas para nós. Mandei calar m inhas com panheiras, e, com o eu era a única que falava francês, expliquei aos soldados quem éram os e de onde vínham os.

Eles nos olharam desconfiados, com as arm as apontadas e prontas para atirar.

— É verdade! Tudo o que eu disse é verdade... Estávam os à espera de que vocês viessem nos salvar — insisti, desesperada.

O soldado m ais baixo de todos — um hom em de cara enfezada e pele clara, com a cabeça raspada — veio até o portão e apontou o facho da lanterna para nossos rostos. Ele obviam ente inspecionava o form ato de nossos narizes. Corria o m ito de que os hútus tinham narizes chatos e largos, e os dos tútsis eram finos e estreitos. Aparentem ente passam os no teste, pois ele abriu o portão e nos deixou entrar. Entretanto, não baixou o fuzil enquanto exam inava nossas carteiras de identidade.

A respiração das m ulheres se acelerou — nenhum a delas estava com a carteira, e todas pensaram que seriam im ediatam ente fuziladas pelos franceses. Por sorte, eu havia colocado a m inha no bolso ao sair de casa três m eses antes. O soldado exam inou a carteira, com a palavra Tútsi carim bada, e acenou com a cabeça aprovando. Dei m inha palavra com o garantia de que as dem ais tam bém eram tútsis, e disse a elas:

— Vai dar tudo certo para nós.

Um dique de em oções rom peu-se, liberando m edos, frustrações e ansiedade, represados durante m eses, e algum as m ulheres se puseram a soluçar descontroladam ente. A atitude dos soldados m udou instantaneam ente — baixaram as arm as e falaram com gentileza, suas vozes cheias de bondade e interesse. Deram -nos água e queij o, a prim eira com ida decente que víam os depois de tanto tem po. Com em os avidam ente, j á certas de que os franceses não nos m atariam com o tinha previsto o pastor.

— Tudo bem , senhoras, está tudo bem — disse o soldado baixinho. — Não precisam m ais se preocupar... seu pesadelo acabou. Não perm itirem os que lhes façam m al. Entendem ? Estão a salvo agora; vam os tom ar conta de vocês.

Traduzi o que ele havia dito, e logo estávam os todas chorando. Parecia im possível que tudo estivesse term inado, m as ali estávam os nós, cercadas por tropas regulares, arm adas com fuzis enorm es, que prom etiam não deixar que os assassinos voltassem a se aproxim ar de nós.

Assim que nos acalm am os, nossos salvadores explicaram que estávam os num acam pam ento avançado, portanto enviariam um a m ensagem pelo rádio solicitando o envio de um cam inhão para nos transferir para o acam pam ento base, a 16 quilôm etros dali. Aconselharam -nos a dorm ir um pouco enquanto aguardávam os.

Afastei-m e das com panheiras — sentia falta de algo de que estivera privada por tanto tem po, um m om ento de privacidade. Estendi-m e sobre o chão e absorvi tudo ao m eu redor: pedras que m achucavam m inhas costas, a terra úm ida em m eus dedos, folhas secas arranhando m inha face e o som de anim ais m ovim entando-se na escuridão. Eu estava viva, e a sensação era m aravilhosa.

De olhos fixos na noite, senti-m e novam ente em polgada pela beleza indescritível da lum inosidade esbranquiçada que em anava das m iríades de estrelas criadas por Deus. Um a luz tão intensa que m e perm itia distinguir com facilidade o cam inho que nos trouxera até ali, o m esm o que levava à m inha casa. Perguntava a m im m esm a se m inha fam ília estaria escondida nas redondezas... ou se teriam passado a um a outra vida e agora existiam som ente do outro lado, além das galáxias eternas acim a de m im .

Meu olhar concentrou-se novam ente na estrada. Lem brei-m e de com o m eus irm ãos e eu a percorríam os para ir aonde quer que fosse. Para o m ergulho m atinal de nossa infância no lago Kivu, para ir à escola cada m anhã, à igrej a aos dom ingos, em visita aos parentes e am igos, ou em busca de algum a aventura m aravilhosa nas férias de verão — aquela estrada m e havia levado a todos os lugares que eu am ava. A estrada atravessou m inha vida, m as essa vida j á não existia. Era agora um cam inho percorrido por assassinos e estupradores. Um a tristeza profunda tom ou conta de m im à m edida que m e dava conta de que, acontecesse o que acontecesse, m inha vida j am ais voltaria a ser a m esm a.

Fechei os olhos e disse a Deus que cabia-Lhe encontrar o novo cam inho que eu deveria seguir.

EU TIRITAVA. O AR FRIO ARREPIOU MINHA PELE e lem brou-m e de que j á não estava no banheiro úm ido e apertado. Levantei-m e, alonguei-m e em direção ao céu e fui dar um a volta pelo acam pam ento. Senti-m e destem ida, m esm o ao m e deparar com dois hom ens sentados na penum bra.

Assustei-os, e um deles se pôs de pé num salto. Depois de um segundo, gritou:

— Im m aculée, é você m esm a?

— Jean Paul?

— Com o você conseguiu ficar viva?

— Deus m e poupou. E você? Com o está vivo tam bém ?

— Deus me poupou.

— Que bom ver você!

— Que bom ver você!

Não sabia se ria ou chorava diante do rum o que havia tom ado a conversa, ao m esm o tem po era m aravilhoso poder voltar a falar em voz alta com um am igo. Jean Paul e m eus irm ãos eram bons cam aradas.

— Olá, Jean Baptiste, estou contente por ver você tam bém — disse ao irm ão de Jean Paul, ainda sentado. Jean Baptiste não respondeu, e só entendi por que quando m e abaixei para apertar sua m ão. Havia um a cicatriz irregular, de 2,5 centím etros de largura, em torno do seu pescoço e que desaparecia sob a cam isa. Não estava com pletam ente cicatrizada, então sua cor era de um verm elho esbranquiçado, que contrastava com sua pele escura. Havia cortes profundos em sua cabeça, um deles tão profundo que era difícil im aginar com o ele havia sobrevivido ao golpe.

— Ele não pode falar m uito por enquanto... — lam entou Jean Paul em voz baixa.

Em bora o próprio Jean Paul estivesse extrem am ente abatido, sentam o-nos para narrar nossas respectivas histórias. Contei-lhe onde eu estivera e descrevi o que se passara na casa do pastor. Ele, por sua vez, contou-m e que o genocídio estava arrefecendo no Norte, desde a queda de Kigali, m as era ainda violento ali na província de Kibuy e, onde estávam os.

— Kigali caiu? — perguntei, chocada e feliz.

— Sim , caiu, m as há m uitos assassinatos ainda — respondeu ele. — Para dizer a verdade, por aqui está ainda pior do que antes. Quanto m ais difícil é a situação deles na guerra, m ais cruéis eles se tornam . Estão frustrados tam bém — j á elim inaram tantos tútsis que j á não é fácil encontrar alguns de nós para m atar.

Surpreendi-m e por Jean Paul e o irm ão estarem no acam pam ento, pois sem pre pensei que fossem hútus. Tinham a pele bem escura, a estatura razoavelm ente baixa, e seus narizes eram chatos e largos — um a noção tipicam ente européia do que era ser um hútu. Isso j á não fazia qualquer sentido, j á que gerações de casam entos intertribais tornaram ultrapassada essa noção, que não passava de preconceito. Jean Paul disse-m e que fora sua aparência hútu que lhe perm itira m anterem -se vivos:

— Isso e a bondade de um assassino — ele com pletou, antes de narrar o que tinha acontecido a sua fam ília. — Os assassinos vieram um a sem ana após a derrubada do avião do presidente. Eu estava de visita a m eu am igo Laurent, um hútu que m orava algum as casas adiante da m inha, quando os ouvi chegarem à casa de m eus pais. Eram uns trezentos deles — em sua m aioria vizinhos e velhos am igos da fam ília. Arrom baram a porta da frente e retalharam todos os que encontraram : m eus irm ãos, m inhas quatro irm ãs, m inha m ãe e m eu pai. Mataram todo m undo... pelo m enos foi isso que pensaram . Jean Baptiste ainda estava vivo, m as sangrava tanto que m orreria.

“Arrastei-o por alguns quilôm etros através do m ato até um hospital onde os m édicos não nos conheciam . Depois, Laurent nos escondeu até a chegada dos franceses. Mas foi horrível. Ele nos escondeu e salvou, m as era doloroso estar vivo. Laurent nos desej ava bom -dia ao acordar, depois saía e passava horas caçando tútsis j unto com os que m ataram m inha fam ília. Quando voltava à noite para fazer o j antar, eu via respingos de sangue em suas m ãos e na sua roupa, que ele nem se dava o trabalho de lavar. Nossas vidas dependiam dele, então não podíam os dizer nada. Não entendo com o há pessoas capazes de ao m esm o tem po fazer o bem e o m al.”

E eu disse:

— O genocídio acontece no coração das pessoas, Jean Paul. Os assassinos são boas pessoas, m as neste m om ento o m al se apoderou de seus corações.

Prom eti a Jean Paul que rezaria por sua fam ília. Só então m e dei conta de que ele talvez soubesse o que tinha acontecido a m eus pais e irm ãos, j á que perm anecera na área durante todo o genocídio. A questão era: Será que eu queria saber o que acontecera? Estaria forte o bastante para receber a inform ação? Se eu soubesse com certeza que estavam m ortos, não haveria com o voltar a ser o m eu antigo eu, à m inha vida com o era antes.

Decidi que seria m elhor enfrentar a verdade. Eu fingiria saber que m inha fam ília m orreu, de outro m odo ele tentaria m e poupar e não diria nada. Tinha que encontrar um artifício para provocá-lo a contar o que eu precisava saber. Enfiei a m ão no bolso, segurei o rosário verm elho e branco de m eu pai e pedi a Deus que m e desse forças.

— Quanto ao m eu pai, Jean Paul... Eu sei que ele foi m orto, só não sei onde. Será que você sabe os detalhes?

— Sei sim , sei de tudo. Laurent estava presente e viu com o foi. Mataram seu pai na cidade de Kibuy e.

Suas palavras penetraram com o um a lança em m eu coração. Cobri os olhos com os punhos e virei o rosto, para esconder as lágrim as.

— Seu pai foi m orto um dia ou dois depois que m eus pais foram assassinados — prosseguiu Jean Paul. — Acho que foi no dia 14 de abril. Ele tinha ido falar com um funcionário do governo para pedir que m andassem com ida para o estádio, onde m ilhares de refugiados não com iam há dias. Foi um grande erro.

Papai, papai! Por que você tinha que ser sempre tão bom... e tão bobo? O prefeito de Kibuy e era um a espécie de governador, e tinha sido am igo de m eu pai. Mas outros hútus extrem istas, que tam bém eram seus am igos, o haviam traído. Eu não consegui entender com o papai continuou acreditando neles. Mas sabia tam bém que ele sacrificaria a própria vida para alim entar os fam intos — para ele não haveria escolha. Meus olhos ardiam e m eu estôm ago doía enquanto Jean Paul continuou.

— Laurent contou que o prefeito cham ou seu pai de idiota e m andou os soldados arrastarem -no para fora. Fuzilaram -no nos degraus da prefeitura e abandonaram seu corpo na rua.

— Entendo... Obrigada por m e contar tudo, Jean Paul. Foi m elhor eu saber — eu disse, fazendo de tudo para m anter a voz firm e. Senti-m e grata pela escuridão que escondia m eu rosto. — E m inha m ãe? Sei que ela tam bém foi m orta, m as não sei com o.

— A Rose? — ele interrom peu. — Foi um a das prim eiras da região a m orrer. Foi assassinada alguns dias antes de seu pai. Acho que Laurent foi um dos assassinos, j á que sabia de todos os detalhes. Foi assim : ela estava escondida no quintal da vizinha de sua avó. Alguém estava sendo assassinado ali perto, e ela pensou que fosse seu irm ão. Saiu para a rua gritando “não m atem m eu filho, não m atem m eu Dam ascene”.

“Não era Dam ascene, m as, assim que a viram , os assassinos perseguiram sua m ãe. Disseram que, se ela lhes desse dinheiro, a deixariam em paz. Ela concordou e foi pedir algum em prestado a sua am iga Murenge. Mas Murenge expulsou-a. ‘Saia da m inha casa — aqui não aj udam os baratas.’ E disse aos assassinos que levassem sua m ãe para m atá-la na rua, porque não queria suj eira no seu quintal. Sua pobre m ãe foi arrastada para a rua e retalhada. Vizinhos a enterraram . Ela foi das poucas a serem enterradas... Em pouco tem po havia m ortos dem ais, e sobrou pouca gente para cavar túm ulos.”

Cada palavra que ele dizia era um a tortura, m as eu era refém das inform ações. Encoraj ei-o a contar m ais.

— Você teve notícias do m eu irm ão caçula, Vianney ? — perguntei, aguilhoada pela culpa ao lem brar com o tinha m andado m eu irm ão m enor em bora da casa do pastor em plena noite.

— Mataram Vianney no estádio de Kibuy e, j unto com seu am igo Augustine. Havia m ilhares de pessoas lá, e foram todos aniquilados. Prim eiro os assassinos atiraram com m etralhadoras, depois lançaram granadas sobre eles. Acredito que não houve sobreviventes.

Minhas m ãos trem iam , era com dificuldade que respirava. Acalm ei-m e o m elhor que pude e tentei perguntar por Dam ascene, m as não conseguia pronunciar seu nom e. Agarrava-m e à esperança de que ainda estivesse vivo, à m inha espera em algum lugar. Finalm ente falei:

— Meu irm ão Aim able está no Senegal e não sabe nada disso. Nem m esm o tenho o endereço para m andar-lhe um a carta...

— Pergunte ao Bonn, am igo de Dam ascene. Sei que estão com ele todos os papéis e obj etos de Dam ascene... ou pelo m enos estavam .

— Por quê? — perguntei com o coração aos pulos.

— Porque ele escondeu seu irm ão, e, quando Dam ascene decidiu ir para o Zaire, deixou suas coisas com Bonn. Mas ele pode ter destruído tudo a essa altura... ouvi dizer que ele ficou louco depois que seu irm ão foi m orto.

Essas palavras m e atingiram com o um a bala. Por favor... não... Damascene também... não.

Não quis saber de m ais nada. Fiquei de pé, cam baleei alguns m etros à frente e desm ontei. Apertei o rosto contra o solo — queria estender-m e no chão frio, bem frio, e dorm ir com o restante da m inha fam ília. Não queria ouvir, ver, sentir coisa algum a. Tinha lágrim as dem ais para chorar e solucei de encontro à terra. Jean Paul, ao m eu lado, tentava confortar-m e. Lim pou a terra do m eu rosto e suavem ente acariciou m inha nuca, m as afastei sua m ão.

— Por favor, deixe-m e, tenho que enfrentar tudo isso. Tenho que aprender a ser só, Jean Paul. Ninguém pode m e consolar neste m om ento... Deixe-m e um pouco sozinha.

Meu am igo se retirou para o outro lado do cam po e levou com ele o irm ão silencioso.

Deitada de costas, fitei o céu e chorei. Chorei até m inhas lágrim as se esgotarem . Pensei no que Jesus prom etera em sonho e iniciei um a conversa com Ele.

— Você m e disse que estariam todos m ortos quando eu saísse do banheiro, e Você estava certo — falei. — Morreram todos. Tudo que eu am ava neste m undo m e foi tirado. Coloco m inha vida em Suas m ãos... Jesus, m antenha a prom essa e cuide de m im . Eu m anterei a minha, serei um a filha fiel.

Fechei os olhos e visualizei o rosto de cada m em bro da m inha fam ília; então rezei pedindo a Deus que os m antivesse reunidos e felizes.

O RANGIDO METÁLICO DA ENGRENAGEM DE UM CAMINHÃO SOBRESSALTOU-ME. Faltavam duas horas para o am anhecer; dois fachos de luz atravessaram o acam pam ento e proj etaram um halo incandescente sobre m inhas com panheiras, de pé, j unto ao portão, com Jean Paul e Jean Baptiste. O cam inhão gorgolej ou e parou ao lado da cerca. Era um enorm e veículo de transporte, coberto por um a lona de cam uflagem . Os soldados franceses m andaram -nos subir para a carroceria e ficar quietos.

— Há barreiras hútus por toda parte — preveniu um deles.

Mais ou m enos um quilôm etro e m eio além do acam pam ento chegam os à prim eira barreira, e podíam os ouvir as vozes dos assassinos do outro lado da lona. Tudo m uito fam iliar, m as desta vez guarda-costas arm ados nos protegiam . Mesm o assim , eram uns duzentos assassinos e apenas um punhado de soldados.

— O que vocês estão levando na carroceria? — perguntou um dos assassinos.

— Levam os com ida e água potável para os refugiados hútus que vêm de Kigali — respondeu o m otorista.

— Você é um bom hom em ! Essas serpentes tútsis estão nos m atando em Kigali... Vá em frente, pode seguir.

O m otorista engrenou a m archa, e o cam inhão partiu com um solavanco — estávam os de novo a cam inho. Adm irei a resposta inteligente que o m otorista inventou para nos fazer ultrapassar a barreira. Dezenas de m ilhares de hútus residentes em Kigali fugiam para o Sul desde que a capital havia caído em m ãos dos rebeldes. Infelizm ente, a m aioria desses refugiados vinha para Kibuy e com a intenção de instalar-se ali ou de atravessar para o Zaire, pelo lago Kivu. Havia tanto fam ílias hútus que fugiam da guerra quanto integrantes do Interaham we.

Na barreira seguinte, os assassinos sim plesm ente nos m andaram seguir em frente.

— Os franceses são gente nossa... Sigam em frente, abram cam inho para eles — disse um dos sentinelas. O m esm o se passou nas cinco barreiras seguintes.

O cam inhão avançou noite adentro em direção ao am anhecer de um novo dia — eu gostaria que continuasse avançando até atingir um outro país. Minha alm a desej ava trocar Ruanda por um novo m undo. Eu acreditava que Deus planej ava um a vida nova para m im ; só não sabia onde, ou quando teria início. Quando o cam inhão atingiu o acam pam ento base, uns trinta m inutos m ais tarde, senti-m e desapontada — sim , nós estávam os livres, m as ainda em plena Ruanda, ainda em m eio ao horror.

A PRIMEIRA COISA QUE AVISTEI AO SALTAR DO CAMINHÃO foi um a escola arruinada. Notei que a placa de m adeira pregada acim a da porta trazia escrito o nom e Rwimpili, e m e dei conta de que estávam os na escola em que m inha m ãe teve seu prim eiro em prego com o professora.

Tristeza brotou em m eu peito, e tive que m e afastar de todos para um a conversa rápida com Deus.

— Senhor, não sei por que Você m e trouxe aqui. Sei que ainda terei que lam entar a m orte de m inha fam ília, m as ainda não sou capaz... Por favor dê-m e a força necessária para sobreviver, os lam entos virão depois.

Em poucos m inutos senti-m e forte o bastante para entrar na escola e sorrir. Lem brei-m e do quanto m inha m ãe am ava essa escola dilapidada, com um a única sala, e piso de terra batida. “O im portante é o que se aprende na escola, e não a sua aparência”, ela costum ava dizer.

O dia clareava, enchendo de sol a escola, o que m e perm itiu ver, pela prim eira vez, m eus com panheiros sobreviventes. Cerca de uns vinte tútsis se acotovelavam , e percebi quão afortunadas tínham os sido, m inhas com panheiras e eu, por term os sido abrigadas no banheiro do pastor. A aparência dos dem ais refugiados era m uito pior do que a nossa. Os pobres coitados tinham vivido na floresta por três m eses, dorm indo em covas e se alim entando de capim e raízes.

O sol j á brilhava tanto que precisei proteger m eus olhos, e, sob a som bra proj etada por m eus dedos, vi um a figura fam iliar. Gritei:

— Esperance! — Era a irm ã de m inha m ãe, m as ela pareceu não m e ouvir.

— Não m e reconhece, Esperance? Sou Im m aculée! Graças a Deus alguém sobreviveu. — E dei-lhe um abraço apertado.

Esperance retribuiu debilm ente o m eu abraço e fitou-m e dem oradam ente, com olhar vago, antes de dizer algum a coisa.

— Está tudo bem — respondeu ela em voz fraca. — Estou feliz que você tenha sobrevivido. Venha ver sua outra tia. E foi se arrastando apaticam ente pelo pátio da escola até onde m inha tia Jeanne e três das m inhas prim as estavam sentadas no chão.

Parei a cerca de 10 m etros e m al pude acreditar na cena terrível diante de m eus olhos. Suas faces estavam inchadas das m ordidas de insetos; os lábios rachados sangravam ; feridas abertas, bolhas e cortes, infeccionados há várias sem anas, cobriam seus corpos. De onde estava eu podia sentir o cheiro.

Tia Jeanne, um a professora, costum ava vestir-se com apuro e era tão obcecada com lim peza que exigia que as visitas lavassem as m ãos antes de cum prim entar seus filhos. E ali estava ela, sentada na terra com as crianças, com o um grupo de seres prim itivos, e suas roupas tão esfarrapadas que era possível ver suas nádegas através do tecido.

Aj oelhei-m e e tentei abraçar Jeanne, que evitou que eu a tocasse e tentou ocultar as lágrim as.

— Desculpe-m e, Im m aculée... eu devo estar horrorosa. E m eus olhos estão escorrendo, m as não repare, acho que caiu algum a coisa neles.

Sorri ao pensar que era exatam ente o que m inha m ãe diria na m esm a situação, envergonhada por chorar.

— Jeanne, estou tão feliz por vê-la. Abracei-a de leve, e depois cada um a das m eninas. Aos poucos seus olhos se ilum inaram , e sorrisos hesitantes se desenharam em seus rostos.

Fiz um a prece m uda por todas elas, e teve início um a triste conversa, na qual cada um a contou com o cada m em bro da fam ília tinha m orrido e tudo que sofrem os. Jeanne tinha perdido três filhos e o m arido, e quase toda a fam ília de Esperance fora m orta. Meus adorados avós haviam sido assassinados, e pelo m enos sete dos m eus tios tam bém . Nos pusem os todas a chorar... Nossas lágrim as teriam fim algum dia?

Depois de m ais ou m enos um a hora de conversa, Esperance m e entregou um a carta. Não posso im aginar com o ela pôde conservá-la intacta durante tantas sem anas na floresta.

— Dam ascene m e encontrou no m eu esconderij o e m e deu esta carta para você — explicou m inha tia. — Ele estava a cam inho do Zaire... m as nunca chegou lá.

Peguei a carta de suas m ãos e olhei para o envelope m anchado de lágrim as. Dei m eia-volta e fugi correndo de m inhas tias e prim as — não suportaria ter alguém por perto. Ouvir o nom e de m eu irm ão tinha sido o suficiente para m e descontrolar, e agora eu tinha nas m ãos suas últim as palavras para m im . Ler essa carta seria com o ouvi-lo falar com igo pela últim a vez.