Sobrevivi para Contar
Parte I - A tempestade em formação
Parte I - A tem pestade em form ação
PARTE I
TEMPESTADE EM FORMAÇÃO
Capítulo 1 - A Eterna Prim avera
CAPÍTULO 1
A Eterna Prim avera
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Nasci no paraíso.
Pelo m enos era assim que m e sentia a respeito da m inha terra natal durante m eus prim eiros anos de vida.
Ruanda é um país pequenino, engastado com o um a j óia na África Central. Sua beleza é tanta que é im possível não ver a m ão de Deus no ondular de suas luxuriantes colinas, m ontanhas envoltas em névoa, vales verdej antes e lagos que cintilam . A brisa suave que desce das m ontanhas, por entre florestas de pinheiros e cedros, traz consigo o doce perfum e dos lírios e dos crisântem os. E o clim a é tão am eno o ano todo que os alem ães, chegados no final da década de 1830, cham avam -na “terra da eterna prim avera”.
Durante a infância, j am ais m e falaram sobre a existência das correntes do m al que um dia dariam origem ao holocausto que inundou m eu país num banho de sangue. A m enina que eu era só conhecia do m undo a encantadora paisagem ao seu redor, a gentileza dos vizinhos e o am or profundo de m eus pais e irm ãos. Em nossa casa, racism o e preconceito eram totalm ente desconhecidos. Eu não tinha consciência de que as pessoas pertenciam a tribos e raças diferentes e, até entrar para a escola, j am ais havia escutado palavras com o tútsi ou hútu.
Em m inha aldeia, crianças cam inhavam m ais de 12 quilôm etros, por trechos desertos de estrada, para ir e voltar da escola, m as seus pais não se preocupavam com a possibilidade de serem raptadas ou de algum a form a m altratadas. Meu m aior m edo nessa época era o de ficar sozinha no escuro — a não ser por isso, eu era um a m enininha m uito feliz, em um a fam ília feliz, habitante do que m e parecia ser um a aldeia feliz, onde as pessoas se respeitavam e eram am igas um as das outras.
Nasci em Kibuy e, um a província de Ruanda Ocidental, na aldeia de Mataba. Nossa casa se erguia sobre o topo de um a colina, com vista para o lago Kivu, que parecia estender-se até o infinito diante de nós. Em m anhãs claras eu podia avistar as m ontanhas na outra m argem do lago, no vizinho Zaire, hoj e República Dem ocrática do Congo. Entre as cenas indelevelm ente gravadas em m inha m em ória está a arriscada descida da encosta íngrem e que ia da nossa casa até o lago. Assim que os raios do sol dissipavam os derradeiros vestígios da neblina da m adrugada, eu ia nadar com m eu pai e irm ãos. A tem peratura da água era cálida, o ar que tocava nossa pele era fresco, e avistar nossa casa, m uito acim a da m argem do lago, sem pre m e em ocionava.
O cam inho de volta era um a verdadeira aventura, porque a colina era m uito íngrem e, e a terra sob nossos pés, instável e traiçoeira. Eu m uitas vezes escorregava e sentia m edo de rolar ladeira abaixo até cair no lago. Meu pai sem pre percebia quando eu estava com m edo e m e carregava em seus braços até em casa. Era um hom em grande e forte, e, aconchegada naqueles braços vigorosos, eu m e sentia am ada e protegida. Causava-m e grande em oção ser levada assim , de form a tão carinhosa, j á que m eu pai era antiquadam ente reservado e raram ente dem onstrava em oção ou falava de seu am or por m im ou por m eus irm ãos — em bora tivéssem os certeza desse am or.
Ao chegarm os da natação, encontrávam os m inha linda m ãe ocupada na cozinha, preparando o prato quente de arroz com feij ão que costum ava nos servir diariam ente antes de nos despachar para a escola. Sua energia j am ais cessava de m e surpreender. Mam ãe era sem pre a prim eira a acordar e a últim a a se deitar — levantava-se m uito antes de todos para conferir se a casa estava em ordem , nossas roupas estendidas, nossos livros e lições separados, e os papéis do trabalho de papai organizados. Confeccionava todas as nossas roupas, cortava nossos cabelos e enfeitava a casa com obj etos feitos à m ão por ela m esm a.
Os feij ões servidos em nosso desj ej um eram cultivados em nossas terras, que m am ãe supervisionava todas as m anhãs enquanto ainda estávam os dorm indo. Inspecionava a lavoura, distribuía as ferram entas aos trabalhadores tem porários e verificava se nossas vacas e dem ais anim ais estavam alim entados e com os bebedouros cheios. Então, findas as tarefas m atinais e tendo nos m andado para a escola, se encam inhava para a escola prim ária local onde trabalhava com o professora em tem po integral.
Meus pais eram am bos professores e acreditavam firm em ente em um a boa educação com o única defesa contra a pobreza e a fom e. Apesar de ser um dos m enores países da África, Ruanda — que tem aproxim adam ente a m esm a extensão que o estado brasileiro de Alagoas — é um dos m ais densam ente povoados do continente e um dos m ais pobres do m undo. Papai e m am ãe foram os prim eiros de suas fam ílias a obter um diplom a de segundo grau e estavam decididos a fazer com que seus filhos fossem m ais além . Papai ensinava pelo exem plo, trabalhou duro e estudou m uito a vida toda. Recebeu m uitas honrarias e prom oções em sua carreira e ascendeu continuam ente os degraus que o levaram de professor prim ário até o posto de diretor da escola secundária e, por fim , adm inistrador-chefe de todas as escolas católicas em nosso distrito.
Em Ruanda, cada m em bro de um a m esm a fam ília tem sobrenom e diferente. Quando os filhos nascem , seus pais lhes dão um sobrenom e, que reflete os sentim entos do pai e da m ãe ao ver pela prim eira vez o bebê. Em kiny arwanda, língua nativa de Ruanda, m eu nom e (Ilibagiza) significa “bela e brilhante de corpo e alm a”. O nom e foi escolhido por papai, o que sem pre m e faz lem brar o quanto ele m e am ou desde o m om ento em que nasci.
O nom e de m eu pai era Leonard Ukulikiy inkindi, e o de m inha m ãe, Marie Rose Kankindi, m as seus am igos a cham avam de Rose. Eles haviam se conhecido na casa de um de m eus prim os, no verão de 1963, a cam inho das bodas de um am igo em com um . Ao serem apresentados, m am ãe exam inou papai e estalou a língua diante do seu cabelo crescido.
— Você vai a um casam ento com esse cabelo?
Meu pai deu de om bros e argum entou que não conseguia encontrar um barbeiro. Mam ãe arranj ou um par de tesouras, m andou-o sentar-se e se pôs a trabalhar ali m esm o. Ela deve ter se saído bem na tarefa, pois se tornaram inseparáveis. Casaram -se dentro de um ano, e papai nunca m ais perm itiu que alguém cortasse seus cabelos, a não ser m am ãe.
Meus pais conseguiram j untar algum as econom ias trabalhando com o professores e cultivando as terras que m eu avô lhes havia doado (cultivavam e com ercializavam feij ão, banana e café). Papai proj etou e construiu nossa casa, a qual, m uito m odesta pelos padrões ocidentais, era considerada luxuosa em nossa aldeia. Tínham os um a cozinha, um a sala de j antar e outra para visitas, nossos quartos e um quarto de hóspedes, e papai possuía até um escritório. Um pátio, fechado por um portão, dava para um pequeno anexo em que os trabalhadores tem porários se aloj avam , e — graças a Deus — tínham os um galpão reservado para os anim ais, de m odo que as vacas não dorm iam dentro de casa conosco. Papai colocou um a caixa d’água no telhado para captar água da chuva e não term os que buscar água no lago Kivu, e os painéis solares que instalou nos forneciam luz elétrica por cerca de um a hora nos dias ensolarados.
Possuíam os dois veículos, o que era inaudito na parte de Ruanda que habitávam os: um a m otocicleta cross-country am arela, que papai usava para visitar escolas em vilarej os rem otos na m ontanha, e tam bém um carrinho para ir à igrej a aos dom ingos e para visitar os parentes. Alguns m oradores da aldeia nos consideravam ricos, o que não era verdade, e cham avam m eu pai de Muzungu, que significa “hom em branco”, ou “gente rica”, o que, para m uitos ruandeses, dava no m esm o.
Ninguém m ais na aldeia possuía um a m oto, e m am ãe sem pre se preocupava com a possibilidade de papai ser assaltado por bandidos em algum desfiladeiro solitário das m ontanhas. Preocupar-se com a fam ília era um a constante com m am ãe, a ponto de, sem pre que algum de nós passava m ais de um a noite fora de casa, escutar os óbitos divulgados toda tarde pelo rádio.
— Mam ãe, pense em todas as coisas boas que poderiam nos acontecer, em vez de se concentrar no que pode dar errado — eu insistia em vão.
— Oh, Im m aculée, eu não resistiria se alguém batesse em m inha porta com m ás notícias sobre um dos m eus filhos ou sobre seu pai. Eu rezo para m orrer antes de vocês todos. Ela rezava incessantem ente por nossa saúde, segurança e bem -estar.
Meus pais eram católicos fervorosos e nos transm itiram suas crenças. A m issa aos dom ingos era obrigatória, assim com o as orações da noite, com toda a fam ília reunida. Eu tam bém gostava de orar, de ir à igrej a e de tudo m ais que se referia a Deus. Am ava particularm ente a Virgem Maria, convicta de que era m inha segunda m am ãe, que m e protegia lá do céu. Não sei explicar o m otivo, m as rezar fazia-m e sentir contente e feliz. Tão feliz que um dia, aos 10 anos de idade, escapuli do colégio com m inha am iga Jeanette para visitar o padre Clem ent, um padre sábio e idoso, m uito am igo da fam ília e que eu considerava com o um a espécie de avô.
Jeanette e eu cam inham os por cerca de 11 quilôm etros, através de cam pos e florestas, e atravessam os um rio a pé para encontrar padre Clem ent. Ele nos recebeu calorosam ente, m as ficou preocupado porque chegam os à sua capela exaustas, ofegantes, encharcadas e pra lá de suj as. Sua aparência era a de um santo, m ais alto do que nós, com sua batina branca folgada, braços abertos em boas-vindas e um lindo rosário pendurado ao pescoço.
— O que é isso, m eninas? Em que posso aj udá-las? — perguntou.
— Padre, querem os dedicar nossas vidas a Deus — disse Jeanette em tom solene.
— É isso m esm o, padre — concordei. — Pensam os m uito e querem os ser freiras.
— Freiras? Entendi — disse ele, balançando a cabeça afirm ativam ente e com seriedade, m as acho que provavelm ente disfarçava um sorriso. Com as m ãos pousadas sobre nossas cabeças, deu-nos um a bênção especial. — Que Deus abençoe essas queridas m eninas, defenda-as do m al e protej a-as por toda a vida. — Então olhou para nós e ordenou: — Agora vão para casa, todas duas. Voltem quando tiverem com pletado 18 anos, e então, se ainda desej arem ser freiras, tornarem os a conversar.
SE MEUS PAIS ERAM CATÓLICOS FERVOROSOS, eram cristãos no sentido
m ais am plo da palavra. Acreditavam na Lei de Ouro 2 e nos ensinaram a tratar o próxim o com bondade e respeito. Sentiam -se fortem ente ligados a sua aldeia e se dedicavam à criação de um a com unidade próspera e harm oniosa. Papai passava m uitos fins de sem ana ocupado em trabalhos voluntários, tais com o a construção de um a capela ecum ênica, e pagou do próprio bolso boa parte dos custos. Além disso, criou um fundo escolar que concedia bolsas de estudo às crianças carentes, fundou com essa finalidade um a das poucas cooperativas cafeeiras de Ruanda e perm itiu que um a dúzia de cafeicultores plantasse em suas terras sem lhes cobrar arrendam ento, se prom etessem doar parte dos lucros ao fundo. O program a foi tão bem -sucedido que sobrou dinheiro para a construção de um centro com unitário, um cam po de futebol para os adolescentes e um telhado novo para a escola.
Mam ãe tam bém era conhecida por suas obras beneficentes. Era incapaz de dar as costas a um necessitado, e freqüentem ente tínham os outra fam ília m orando conosco porque estava em dificuldades e precisava de um teto até se recuperar.
Depois do trabalho, m inha m ãe m uitas vezes se oferecia com o voluntária para dar aulas particulares a estudantes, e vivia com prando tecido para fazer os uniform es das alunas da escola local. Um a vez eu a entreouvi quando conversava com um a vizinha que estava m uito triste porque não podia com prar um vestido de noiva para a filha.
— Rose, que espécie de m ãe sou eu, que m ando m inha filha para sua nova vida usando roupas velhas? — perguntou a m ulher. — Se ao m enos eu tivesse um a cabra para vender, poderia vesti-la corretam ente no dia do seu casam ento.
Minha m ãe disse-lhe para não se preocupar — Deus havia de prover, era preciso ter fé. No dia seguinte vi m am ãe contando o dinheiro que havia econom izado do salário de professora. Em seguida dirigiu-se à aldeia e voltou para casa com os braços carregados de tecidos de cores variadas. E passou a noite acordada, costurando vestidos para a noiva e as dam as de honra.
Papai e m am ãe consideravam a aldeia com o um a extensão de nossa fam ília, e os aldeões freqüentem ente os tratavam com o pais substitutos. Papai gozava em toda a região da reputação de hom em culto, esclarecido e j usto. Conseqüentem ente, vinha gente de longe em busca de seus conselhos quanto a problem as de fam ília, dificuldades financeiras e investim entos em algum negócio. Era cham ado m uitas vezes para arbitrar discussões locais e incutir disciplina em j ovens rebeldes.
Crises na aldeia eram geralm ente seguidas de batidas em nossa porta e do pedido:
— Leonard, você pode nos aj udar? O que devem os fazer, Leonard?
Papai, fosse a hora que fosse, m andava-os entrar e discutia seus problem as até chegarem a um a solução. Era bom diplom ata e sem pre fazia as pessoas pensarem que elas próprias haviam solucionado suas dificuldades.
Mam ãe tam bém era requisitada com o conselheira, principalm ente por m ulheres j ovens que passavam por problem as com os m aridos. Ao longo dos anos, tantos dos nossos vizinhos haviam sido seus alunos que m uitos aldeões a cham avam sim plesm ente Professora.
Mas, apesar de m uito dedicados à aldeia, eram pais extrem osos e passavam conosco o m aior tem po que podiam .
De vez em quando, depois de trabalhar até tarde e sair para tom ar um a cervej a com os am igos, papai chegava em casa m uito tem po depois de estarm os na cam a.
— Onde estão os m eus pequenos? Onde estão m eus filhos queridos? — perguntava, um pouco “alto”, m as cheio de afeição.
Mam ãe ralhava com ele:
— Estão dorm indo, Leonard, com o deveriam estar. Se quiser vê-los, trate de chegar em casa m ais cedo.
— Acontece que eu não gosto de j antar sozinho — dizia ele, e nos tirava da cam a carinhosam ente. Nós nos sentávam os de pij am a em torno da m esa, enquanto ele j antava e contava com o tinha passado o dia. Nós adorávam os esses m om entos.
Term inado o j antar, papai nos m andava aj oelhar na sala de visitas e recitar a oração noturna.
— Mas eles j á rezaram , Leonard. E eles têm escola am anhã!
— Tudo bem , Rose, eu tam bém tenho trabalho am anhã, e orações nunca são dem ais. Não concorda, Im m aculée?
— Sim , papai — eu respondia tim idam ente. Eu adorava m eu pai e ficava radiante por ele m e fazer um a pergunta tão séria.
Eram m om entos m ágicos esses — quando papai deixava de lado sua aparência severa —, e seu am or por nós era visível.
ÉRAMOS QUATRO CRIANÇAS NA FAMÍLIA: eu e m eus três irm ãos. O m ais velho era Aim able Ntukany agwe, nascido em 1965, um ano depois do casam ento de m eus pais. Mesm o quando pequeno, era o m ais sério de todos. Tão quieto e introspectivo que dizíam os que era o padre da fam ília. Mam ãe o adorava, seu prim ogênito e favorito, m as Aim able era hum ilde, tím ido e sentia-se constrangido pelo excesso de atenção que ela lhe dispensava. Além disso, era gentil e detestava violência. Sem pre que os outros m eninos brigavam ou se entregavam a provocações, ele os afastava e os fazia reconciliarem -se.
Nas ausências de papai, Aim able ocupava seu lugar. Tom ava conta de tudo: se havíam os term inado os deveres de casa, feito nossas orações antes de dorm ir, e nos m andava para a cam a na hora certa. Era o últim o a se recolher, m as antes verificava se as portas estavam trancadas e a casa em segurança. Parecia bem m ais velho do que sua idade real, m as era um irm ão am oroso, que sem pre perguntava com o tinha sido m eu dia, com o eu estava indo nos estudos e se m eus am igos m e tratavam bem . A diferença entre nós era de cinco anos e, quando crianças, suficiente para dificultar nossa intim idade.
Eu tinha 7 anos quando ele foi para o colégio interno, e, depois disso, só nos víam os nas férias e em datas especiais. No dia em que ele partiu, tive um a terrível dor de barriga. Em bora sua escola ficasse num a cidade próxim a, para m im era com o se m eu irm ão estivesse indo para a Lua. Foi a prim eira vez que senti a dor física de perder alguém que se am a. Dias depois, quando m eu pai nos fez sentar para escreverm os cartas para Aim able, eu só conseguia pensar em duas coisas para dizer. Escrevi em letras grandes e arredondadas:
Querido Aimable.
Eu amo você, estou com saudades suas, amo você, estou com saudades
suas, amo você, estou com saudades suas, amo você, estou com saudades suas, amo você, estou com saudades suas, amo você, estou com saudades suas, amo você, estou com saudades suas, amo você... e estou com saudades suas.
Beijos.
Immaculée.
P.S.: Estou com saudades suas.
Meu pai riu ao ler a carta.
— Im m aculée, você não contou a visita à casa da vovó, nem disse com o estão passando seus irm ãos. Tente escrever de novo, com m ais notícias e m enos “eu am o você” e “estou com saudades suas”.
— Mas é assim que eu m e sinto, papai.
Eu não entendia por que ele queria que eu am asse m enos m eu irm ão — m as papai nunca se cansou de im plicar com igo por causa dessa carta.
Dois anos depois do nascim ento de Aim able, veio ao m undo m eu segundo irm ão m ais velho. Seu nom e era Dam ascene Jean Muhirwa, e ele era brilhante, arteiro, engraçado, generoso, extrem am ente am oroso e irresistivelm ente adorável. Ele m e fazia rir diariam ente e sem pre sabia com o secar m inhas lágrim as. Dam ascene... até hoj e não consigo pronunciar seu nom e sem sorrir... ou chorar. Era três anos m ais velho do que eu, m as eu m e sentia com o se fôssem os gêm eos. Meu m aior am igo e m inha alm a gêm ea.
Quando eu estava triste, Dam ascene logo aparecia para m e consolar — com o no dia em que fiquei furiosa porque m am ãe m e m andou lim par o quintal enquanto os m eninos iam j ogar futebol. Dam ascene preferiu faltar ao j ogo, abandonar os am igos e m e aj udar — vestido com um a saia!
— Trabalho de m ulher nunca tem fim — ele cantarolou em voz fina e apanhou um ancinho, fazendo-m e m orrer de rir. E passou a tarde inteira trabalhando com igo.
Até quando se com portava m al, o que raram ente acontecia, tudo acabava dando certo. Aos 12 anos, ele secretam ente “pegou em prestado” o carro de papai e aprendeu sozinho a dirigir. Norm alm ente, m eu pai o castigaria de form a severa por essa falta, m as ele sim plesm ente abraçou Dam ascene quando descobriu o acontecido. Tudo se passou assim : papai tinha viaj ado a trabalho, e m am ãe sofreu um grave ataque de asm a. Ela caiu no chão, sem i-inconsciente, e m al conseguia respirar. Dam ascene a colocou no om bro, levou-a até o carro, sentou-a cuidadosam ente no banco de trás e dirigiu 14,5 quilôm etros até o hospital m ais próxim o. Em bora quase tenha atropelado duas vacas, três cabras e vários vizinhos pelo cam inho, chegou a tem po. O m édico disse que m am ãe teria m orrido se dem orassem m ais um pouco.
Quase todos que conheciam Dam ascene gostavam dele — seu sorriso fácil e tem peram ento j ovial eram contagiantes. Era o palhaço da classe, m as tam bém um aluno brilhante, regularm ente classificado entre os m elhores da escola — e seria o prim eiro j ovem da região a obter o m estrado. Estudava m uito, m as conseguia tem po para se dedicar ao j udô, no qual chegou à faixa m arrom , tornar-se capitão do tim e de basquete, tanto na escola secundária quanto na universidade, e servir com o o principal coroinha da igrej a. Chorei um a sem ana inteirinha quando ele foi para o colégio interno e pensei que eu nunca m ais conseguiria dar um a risada.
Dam ascene era a luz da m inha vida.
O caçula da fam ília era m eu irm ãozinho John Marie Vianney Kazeneza, três anos m ais novo do que eu. Vianney tinha um j eito inocente, com seus olhos arregalados, e, com o todo caçula, era adorável m as irritante. Ao crescer, tornou-se um rapaz m usculoso, m uito m ais alto do que eu, m as para m im seria sem pre m eu irm ãozinho caçula — nunca deixei de pensar que era m inha obrigação cuidar dele. Era um m enino encantador, que m e seguia por toda parte, com o um cachorrinho. Acostum ei-m e a tal ponto à sua presença constante que sentia sua falta quando não estava por perto im plicando com igo.
Fui a terceira entre os filhos de m eus pais, e a única m enina, o que, num a sociedade dom inada pelos hom ens, representava um a exigência m aior. Na cultura de Ruanda, ter um a “boa reputação” é tudo. E m eus pais se m antinham vigilantes para que sua filha conservasse um a reputação sem m anchas. Eram m ais severos com igo do que com m eus irm ãos, cabia-m e executar um núm ero m aior de tarefas dom ésticas, devia chegar em casa m ais cedo, m inhas roupas eram escolhidas por eles, que aprovavam ou desaprovavam m eus am igos. Meus pais m e incentivaram a ser um a boa aluna e a adquirir conhecim entos, m as, com o m ulher num a sociedade m uito conservadora, esperava-se que eu fosse vista, m as não ouvida.
É irônico que tenha sido eu a destinada a contar nossa história.
2 Não faça aos outros o que não quer que sej a feito com você.