Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 18 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 13 - Uma Reunião de Órfãos

Capítulo 13 - Um a Reunião de Órfãos

CAPÍTULO 13

Um a Reunião de Órfãos

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Mais de um m ês se passou, e pensávam os que j am ais voltaríam os a avistar o céu. Os assassinos iam e vinham à vontade; chegavam à casa do pastor sem aviso, a qualquer hora do dia ou da noite. Às vezes dezenas deles, ou algum as centenas — vinham quando lhes davam ordens para isso, quando recebiam algum a denúncia ou quando estavam entediados e com vontade de caçar alguns tútsis para torturar ou m atar. Mas não deixavam de vir, e sabíam os que continuariam vindo, até nos encontrarem ou até perderem a guerra.

As notícias transm itidas pelo rádio do pastor eram desalentadoras: líderes do governo haviam convertido todas as em issoras de rádio ruandesas em um a m ortífera m áquina de propaganda. Por toda parte, locutores pregavam aos hútus que era seu dever m atar qualquer tútsi avistado, sem fazer perguntas. Nada funcionava no país, para que o trabalho não interferisse com a tarefa de m atar. Quando fazendeiros se queixaram de que suas lavouras m orriam , um funcionário aconselhou que se alguém tivesse que tirar uns dias de folga para cuidar do cam po, deveriam trabalhar arm ados.

— Não baixem a guarda! Essas serpentes tútsis se ocultam no capim e nos bosques — dizia um deles. — Tratem , pois, de ter à m ão seus facões, prontos para cortá-las ao m eio. Melhor ainda, levem seus fuzis e atirem . Se não possuírem fuzil, o governo lhes fornecerá um . Se ao lavrar o cam po avistarem um a tútsi am am entando seu bebê, não percam essa oportunidade de ouro. Peguem o fuzil e atirem nela para depois voltar ao trabalho. Mas não se esqueçam de m atar o bebê — um filhote de serpente tam bém é serpente, tratem de m atá-lo.

Os funcionários locais distribuíam facões na aldeia, e a m ilícia ia de porta em porta entregando fuzis e granadas. Até o pastor Murinzi, quando veio nos trazer com ida um a noite, levava um fuzil pendurado ao om bro.

— Não se assustem , não tenho a intenção de m atar vocês — explicou, brandindo o fuzil. — Funcionários do governo vieram aqui hoj e e m e deram isto. Se eu recusasse, seria acusado de ser um m oderado, e m e fuzilariam . Girou o fuzil e o pendurou novam ente ao om bro. — Não vou usá-lo a não ser que sej a absolutam ente necessário.

Ao que parecia, cada hútu de Ruanda possuía um fuzil ou facão, com instruções para usá-los contra os tútsis — e ninguém neste m undo m exia um dedo para im pedi-los. Pelos noticiários, sabíam os que não havia socorro algum a cam inho e não com preendíam os com o os dem ais países, especialm ente os cham ados “países civilizados do Ocidente”, nos voltavam assim as costas. Estavam a par de que éram os m assacrados, entretanto nada faziam .

A ONU havia retirado sua força de paz assim que com eçou o m assacre. Porém , Rom éo Dallaire, general canadense responsável pelas tropas de paz da ONU, recusou-se a obedecer à ordem de retirada e continuou no país, com duzentos soldados. Era um hom em íntegro e coraj oso, m as apenas um em m eio a um m ar de assassinos. Ocasionalm ente o ouvíam os pedir pelo rádio que alguém , qualquer um, enviasse tropas a Ruanda para pôr fim ao m orticínio, m as ninguém lhe deu ouvidos. Os belgas, nossos antigos colonizadores, haviam sido os prim eiros a rem over suas tropas; quanto aos Estados Unidos, nem ao m enos reconheciam que havia um genocídio em curso! Não era possível que não soubessem que nossos políticos não dariam o m orticínio por encerrado enquanto todos os tútsis, hom ens, m ulheres e crianças, não tivessem sido executados. Para saber o que pretendiam fazer — o que eles estavam fazendo —, bastava a qualquer um sintonizar o rádio.

Algum as vezes o pastor contava detalhes dos planos oficiais não m encionados nas transm issões:

— Quando todos os tútsis estiverem m ortos, vai ser com o se nunca tivessem existido. Todos os vestígios de sua existência serão apagados — disse, com o se com entasse um assunto corriqueiro. — Conheço alguns funcionários do governo que m oram na cidade; eles disseram que têm ordens para destruir todos os docum entos referentes aos tútsis. Já queim aram a m aior parte dos registros escolares e profissionais, agora partiram para a destruição das certidões de nascim ento e casam ento, e os atestados de óbito. O m esm o acontece em todas as cidades e aldeias. Não deve restar em solo ruandês qualquer vestígio da existência dos tútsis.

As únicas notícias boas que ouvíam os se referiam à guerra. O governo hútu insistia em afirm ar que estava m atando todos os soldados rebeldes da FPR, m as escutam os, na BBC e em outras rádios estrangeiras, que a FPR tinha vencido em algum as partes do país. Às vezes ouvíam os o líder da FPR, Paul Kagam e, encoraj ar os tútsis a não perderem a esperança, pois os rebeldes lutavam para salvá-los. Para nós ele era um herói, em bora soubéssem os que lutava em torno de Kigali e m ais ao Norte — m uito longe de Mataba. Os pronunciam entos de Kagam e não alteravam nossa situação, m as nos davam esperanças de serm os resgatadas um dia.

À MEDIDA QUE A GUERRA SEGUIA SEU CURSO, O PASTOR SE MOSTRAVA cada vez m ais preocupado com o que fazer conosco.

— Se a luta durar m uitos m eses m ais, não haverá com ida para alim entá-las. Não terei com o m antê-las aqui.

Lem brei-m e do fuzil em seu om bro e fiquei im aginando com o agiria o pastor quando a com ida com eçasse a faltar. Não acreditava que ele nos entregaria — não depois de ter arriscado a própria vida para nos salvar. Mas estava certa de que seria capaz de nos botar para fora da casa no m eio da noite, com o havia feito com Augustine e Vianney. E o cam po estava cheio de assassinos — não duraríam os um a hora se saíssem os do banheiro.

O pastor deve ter pensado m uito sobre o assunto, e chegado à conclusão de que precisava da aj uda de Deus. Um a noite nos pediu que rezássem os com ele para que Deus aj udasse as tropas governam entais a vencerem a guerra. Sim plesm ente olham os para ele... será que não tinha noção do que estava nos pedindo? Era incrível com o ia se tornando insensível ao nosso sofrim ento.

De todo m odo, estávam os num a situação delicada — o que m ais poderíam os fazer? De m ãos postas, fingim os rezar com ele. No m eu íntim o, eu rezava pelas alm as dos m ilhares e m ilhares de tútsis assassinados. Depois rezei para que os assassinos vissem a luz de Deus e se m odificassem , através do Seu am or. Senhor, faça-os sentir Seu amor divino. Só assim deporão seus facões e cairão de joelhos. Por favor, Deus, faça com que eles interrompam o massacre. Perdoe a todos eles.

E tam bém rezei para que o pastor não se tornasse insensível, que seu coração não endurecesse em relação a nós e se lem brasse de que éram os seres hum anos.

Ao final das orações, o pastor Murinzi chocou-nos com a revelação do que pretendia fazer a nosso respeito ao term inar a guerra.

— Não haverá m ais tútsis em Ruanda quando essa m ortandade acabar, por isso terei que retirá-las daqui sem que ninguém vej a. Vocês terão que ir para um lugar onde não as conheçam , nem possam descobrir que fui eu que as escondi durante a guerra.

O que ele pretendia era sim plesm ente m andar-nos para um a ilha rem ota, a 80 quilôm etros de distância, no m eio do lago Kivu, onde viveríam os com o esposas dos nativos da tribo abashi!

Olham os um as para as outras, sem poder crer no que ouvíam os. Os abashis eram um a tribo prim itiva que vivia no coração da floresta, praticam ente sem contato com o m undo exterior. Não possuíam escolas, igrej as ou em pregos. Com o roupa, usavam apenas tangas, e se alim entavam da coleta e da caça. Pais ruandeses, quando queriam ralhar com seus filhos e fazê-los com portar-se bem , am eaçavam m andá-los viver com os abashis — era com o ser am eaçado com o bicho-papão. A pior coisa que se podia dizer a um a ruandesa era que ela acabaria casando com um abashi.

— Que outra solução há para vocês? Não há o que discutir.

O pastor encerrou a questão e saiu, deixando-nos a refletir sobre nossa sina.

ERA DETESTÁVEL O MODO COMO O PASTOR AGORA PENSAVA A NOSSO RESPEITO, m as não era difícil entender o porquê da m udança. Se os hútus extrem istas term inassem sua tarefa a contento, seríam os as últim as tútsis vivas em Ruanda — seríam os órfãs em um a pátria hostil.

Mas eu não m e sentia nem um pouco um a órfã. Rezava há m uitas sem anas, m inha relação com Deus era cada dia m ais profunda do que eu im aginava ser possível. Sentia-m e filha do rei m ais bondoso e poderoso que o m undo j á viu. Entregava m eus pensam entos a Deus a cada dia, ao m e recolher àquele lugar especial em m eu coração para m e com unicar com Ele. Esse lugar era com o um pedaço do céu, onde m eu coração falava ao Seu santo espírito, e Seu espírito falava com igo e m e assegurava de que, enquanto eu vivesse unida ao Seu espírito, j am ais seria abandonada, j am ais estaria só e não sofreria qualquer m al.

Im óvel, sentada sobre o chão suj o, eu contem plava, horas a fio, a pureza de Sua energia, e a força do Seu am or fluía através de m im , com o um rio sagrado que lavava m inha alm a e acalm ava m inha m ente. Às vezes sentia-m e flutuar acim a do m eu próprio corpo, aninhada e segura entre as ternas e poderosas m ãos de Deus. Em m inha m ente, ouvia palavras que eu m esm a pronunciava, em idiom as exóticos que j am ais havia escutado — m as sabia, instintivam ente, que eram palavras em louvor à grandeza de Deus.

Minhas horas de vigília — de 15 a vinte horas diárias — passavam -se todas em com unicação com Deus, em oração e m editação. E durante as poucas horas de sono sonhava com Jesus e a Virgem Maria.

Em m eio ao genocídio, encontrei a salvação. Soube que m eu elo com Deus transcendia o banheiro, a guerra, o holocausto... um elo, com preendi, que transcenderia a própria vida.

Alçava m eu coração ao Senhor, e Ele o cum ulava com seu am or e perdão. A perm anência no banheiro transform ou-se num a bênção pela qual eu seria grata para sem pre. Mesm o que m eus pais tivessem perecido lá fora, eu j am ais seria um a órfã. Renascida naquele banheiro, era a filha am orosa de Deus, m eu Pai.

APENAS LECHIM E DUSENGE, OS MAIS JOVENS entre os dez filhos do pastor Murinzi, m oravam com ele. Mas, à m edida que a guerra progredia, outros filhos foram retornando à casa, que se encheu de gente. O pastor tinha m enos tem po para cuidar de nós sem aj uda — assim , depois de m anter nossa presença com o um segredo cuidadosam ente oculto, ele contou tudo a Lechim e Dusenge, as pessoas em quem m ais confiava no m undo.

Lechim era um hom em bom , dotado de um coração generoso, e Dusenge um a j ovem bondosa, e, há m uitos anos, um a am iga m uito querida. Inúm eras vezes ouvi-os conversar, e sabia que estavam am bos horrorizados pelo m al causado aos tútsis.

O pastor disse-nos que eles viriam visitar-nos, e, quando a porta se abriu, tudo que vi nos olhos de seus filhos foi piedade e com paixão. Dusenge cum prim entou-m e de form a gentil, e Lechim apertou m inha m ão e a m anteve calorosam ente entre as suas por algum tem po.

— Oh, Im m aculée — ele sussurrou, e logo em seguida calou-se.

Havíam os nos visto pela últim a vez no dia em que fui levada para o esconderij o, e não tínham os palavras para descrever tudo que se passara desde então. Meu am igo voltou a apertar m inha m ão e disse:

— Fico contente por você estar escondida aqui... Graças a Deus m inha fam ília pôde fazer algo para aj udá-la. Cuidarem os de você.

Suas palavras am áveis fizeram -m e lem brar as doces em oções de nossa inocente relação, anos atrás. Eu principiava a entender que para Deus não existem coincidências — ele prom overa m eu encontro com Lechim naquela época para que eu hoj e encontrasse um esconderij o em sua casa.

Com o m e senti confortada por reencontrar m eus velhos am igos, em bora nenhum dos dois pudesse dar notícias de m inha fam ília ou do paradeiro de m eu nam orado John. (As com unicações eram precárias no país, porque as linhas telefônicas estavam m udas desde o início da guerra.) Mas Lechim e Dusenge acrescentaram ternura ao banheiro, e, ocasionalm ente, o prazer de um a sim ples xícara de chá.

Se o pastor nos relegara a um a lista de órfãos, seus filhos m ais novos nos adotaram .

JÁ ERA TARDE, UMA NOITE EM MEADOS DE MAIO, QUANDO a porta do banheiro foi escancarada. Dois j ovens assassinos Interaham wes subitam ente se ergueram diante de nós. Encolhidas, ficam os à espera das facadas que viriam a qualquer m om ento, m as ouvim os a voz do pastor sussurrar que devíam os ficar calm as e não nos preocupar. Logo percebem os que os vultos não eram assassinos, e sim duas tútsis desesperadas para participar da nossa irm andade.

Ficam os felizes ao ver duas tútsis vivas, respirando, m as não havia com o encontrar lugar para elas. O pastor em purrou-as para dentro, e elas caíram em cim a de nós.

— Não façam barulho — ele reiterou, e fechou a porta.

A fisionom ia das j ovens era indistinguível à luz difusa que se infiltrava pela j anela. Tentam os falar-lhes em nossa linguagem de sinais, m as, é claro, elas não conseguiram entender o que dizíam os. Arriscam os algum as palavras sussurradas, só para indagar de onde vinham e o que estava acontecendo no m undo exterior.

Seus nom es eram Malaba e Solange: Malaba e eu éram os da m esm a idade — eu a vira um as duas vezes quando pequena, m as não a conhecia bem ; Solange era um a adolescente que eu j am ais havia visto. Não sabíam os, m as Marianne, um a das filhas m ais velhas do pastor, desde o início do genocídio abrigava as duas em sua casa no norte de Ruanda. A guerra era feroz no Norte, e os extrem istas hútus caçavam espiões tútsis por toda parte. Marianne era conhecida por sua bondade e com paixão, e isso a tornava altam ente suspeita aos olhos dos extrem istas. Sua casa havia sido revistada inúm eras vezes, e ela tem ia que Solange e Malaba fossem descobertas.

Marianne deu um j eito de conseguir um a identidade falsa para Malaba e disfarçou as duas com roupas sem elhantes às em geral usadas pelos assassinos. Colocou em seu carro os facões, fuzis e granadas que os Interaham wes lhe haviam dado para m atar tútsis e acom odou as j ovens ao lado das arm as. Então, em m eio à luta que rugia encarniçada, iniciou a longa e perigosa viagem até a casa de seu pai, onde esperava que encontrassem algum a segurança.

Com o nos relataram Malaba e Solange, a cada quilôm etro os assassinos Interaham wes interceptavam o carro nas barreiras e pediam suas identidades. Solange não possuía um a identidade, e, a cada parada, elas tem iam ser m ortas. Não possuir um a identidade era quase tão grave quanto possuir um a identidade tútsi... isto é, um a sentença de m orte.

— Um hom em m ostrou um a carteira de identidade tútsi e teve a cabeça cortada na nossa frente — cochichou Solange em voz surda. E balançou a cabeça, m al podendo acreditar no que ela m esm a havia visto.

— Eles m atavam até hútus que haviam esquecido as carteiras de identidade em casa — disse Malaba. — Reconheci um dos m ortos. Sabia que ele era hútu, m as os Interaham wes, não. Era um pouco m ais alto do que eles... e foi o suficiente. Cham aram -no de espião tútsi e o fuzilaram . E ainda m ataram outro hútu porque discordou deles... A única coisa que ele disse foi que achava errado m atar tútsis.

Antes de partirem , Marianne instruiu as m oças a se com portarem com o assassinas, se pretendiam sobreviver. Então, todas as vezes em que eram paradas em um a barreira, sacudiam no ar um facão ou fuzil.

— Gritávam os com o loucas — narrou Solange. — Gritávam os “Poder aos hútus! Poder aos hútus! Matem as baratas! Matem esses cães tútsis!”. Eles adoravam nos ver agir assim . Diziam -nos para continuarm os o bom trabalho e nos m andavam seguir adiante. Desej ar a m orte dos tútsis é o m esm o que possuir um passaporte... O país enlouqueceu. Esses rapazes estavam , em sua m aioria, bêbados ou sob o efeito de m aconha. Chegam os a ver, em duas barreiras, soldados descerem dos j ipes e distribuírem bebida e drogas, para m anter os assassinos m otivados.

Contaram ainda as duas irm ãs que, a cam inho do Sul, passaram por tanta gente m orta que dem oraram a perceber que se tratava de cadáveres.

— Eram tantos, em pilhados tão alto, que supusem os serem pilhas de lixo e roupas velhas. Mas, ao olhar m ais de perto... quando param os e abrim os as j anelas, entendem os. Dava para ouvir o zum bido das m oscas sobrepondo-se ao ruído do m otor. E havia cachorros, que com iam essas carcaças hum anas e brigavam por pedaços de corpos... repugnante. O país inteiro tem cheiro de carne podre — disse Solange, pálida e com a voz trêm ula. — Não consigo tirar essas im agens da cabeça... Mesm o com os olhos fechados continuo a ver cadáveres.

Havíam os ouvido tantos horrores sem elhantes, transm itidos pelo rádio ou contados pelo pastor, que não foi difícil acreditar no que nos era descrito. Era com o se o Apocalipse estivesse às nossas portas, e Ruanda fosse a prim eira etapa.

Perguntam os se tinham notícias de nossas fam ílias, m as as recém -chegadas não sabiam nem do paradeiro das próprias. Marianne era a m adrinha de Malaba, que, por isso, estava hospedada em sua casa quando o m orticínio teve início.

Malaba chorava enquanto procurava um a posição m ais confortável sobre nossos j oelhos.

— Se Marianne não nos tivesse abrigado, estaríam os em algum a daquelas pilhas, servindo de alim ento para cachorros.

A idéia m e fez estrem ecer. Pela m ilionésim a vez m e perguntei onde estariam m eus pais e irm ãos, e, em silêncio, roguei a Deus que velasse por eles: Você agora é minha única família, o único a quem posso falar. Deus, a Você confio todos eles.

O BANHEIRO FICOU MAIS APINHADO NESSA NOITE. Ao m esm o tem po que ninava Sanda, a m enina de 7 anos, para fazê-la dorm ir, pensava em com o cada um a de nós havia sido separada de sua fam ília, ou, pelo contrário, nossas fam ílias nos tinham sido arrancadas. Acariciei os cabelos de Sanda e desej ei que m inha m ãe estivesse ali para fazer o m esm o por m im .

Ao se aproxim ar a m adrugada, peguei no sono e tive o sonho m ais intenso de toda m inha vida. Vi Jesus, de pé à m inha frente, braços abertos com o para m e abraçar. Levava um pedaço de tecido em torno da cintura, e seus longos cabelos caíam -lhe sobre os om bros. Espantei-m e com sua m agreza, costelas salientes e face em aciada e encovada. No entanto, seus olhos brilhavam com o estrelas ao olhar para m im , e sua voz era doce com o um a brisa suave.

— Ao deixar este aposento, saberá que quase todos aqueles que você conhece e am a estão m ortos — foram suas palavras. — Aqui estou para dizer que não tenha m edo, porque não estará sozinha... Eu estarei com você. Serei sua fam ília. Fique em paz e confie em m im , pois sem pre estarei ao seu lado. Não chore sua fam ília por m uito tem po, Im m aculée. Eles estão com igo e são felizes.

Acordei relaxada e feliz. Sonhar com Jesus havia sido um belo presente — vivi ainda algum tem po sob o encantam ento do sonho, e agradeci a Deus por pensam entos assim m aravilhosos. À m edida que o dia avançou, m eu coração sentiu-se triste. Jesus havia anunciado a m orte de m inha fam ília... e eu desej ava tão desesperadam ente que estivessem vivos. Queria tanto estar com m eus pais, pedir perdão a Vianney por tê-lo deixado partir aquela noite, ver o sorriso de Dam ascene ilum inar o seu rosto. Por que, apesar de tantas orações, Deus não os poupara?

De olhos fechados, reconfortei-m e com o pensam ento de que tudo talvez não passasse de um sonho, m inha fam ília poderia m uito bem estar viva... e, se não fosse sonho, Deus havia prom etido cuidar de m im para sem pre, e eu sabia que Deus não quebra Suas prom essas.

NÃO MUITO DEPOIS DO SONHO, OUVI, VINDAS do lado de fora da j anela do banheiro, vozes que falavam em um a m atança que haviam presenciado. Um a voz m asculina narrou a m orte de um rapaz que se ocultara na área desde o início da guerra.

— O rapaz tinha um diplom a de m estrado, e os executores zom bavam dele. Perguntavam com o haviam conseguido encontrá-lo, j á que ele era tão sabido. Um deles disse que gostaria de ver o cérebro de alguém com um título de m estre, e rachou a cabeça do rapaz ao m eio. Depois olhou o que havia dentro do crânio.

Meu coração se partiu. Não havia m uitos rapazes tútsis na área com diplom a de m estrado... Tive certeza de que falavam de m eu irm ão Dam ascene!

Por favor, Deus, permita que não seja ele, orei. Tentei m e acalm ar, repeti para m im m esm a que não havia com o ter certeza de que se tratava de Dam ascene. Continuei rezando para que não fosse m eu irm ão, e esperei até o pastor Murinzi chegar com nossa com ida. Horas depois, quando ele abriu a porta, perguntei-lhe de chofre se era do assassinato de Dam ascene que as pessoas haviam falado.

Minha pergunta o surpreendeu, e notei que seus olhos evitavam os m eus.

— Não, não, de m aneira algum a — ele negou. — Mataram m uitos rapazes, não há m otivos para pensar que falavam do seu irm ão. Não ouvi nada a respeito de qualquer um dos seus irm ãos, Im m aculée.

Ah, pastor, eu pensei, que bom seria se o senhor soubesse mentir melhor! Sua expressão dizia-m e que Dam ascene estava m orto... m as com o ter certeza? Mordi os lábios e agradeci-lhe por m e m anter inform ada e por proteger a nós todas. Ele inclinou a cabeça e saiu dali bem depressa.

Minhas com panheiras diziam -m e para eu não m e preocupar, que m eu irm ão estava bem , e que não havia com o saber a quem aquelas pessoas se referiam . Sorri ligeiram ente, aparentando concordar. Apesar de tudo, havia ainda um a possibilidade de que m eu lindo Dam ascene estivesse vivo, e em breve eu veria seu rosto risonho e riria de suas brincadeiras.

Meu coração, entretanto, recusava-se a dar ouvidos à m inha cabeça. Meu choro com eçou de m ansinho, m as pouco depois eu soluçava desconsoladam ente. Dei tapas em m im m esm a, belisquei-m e, na esperança de que a dor física desviasse m inha atenção e estancasse m inhas lágrim as. Nada funcionou. As outras m ulheres entraram em pânico, com m edo de que alguém m e ouvisse, m as lágrim as corriam pelo m eu rosto e m eus soluços eram cada vez m ais altos. Para piorar, as m eninas m ais novas com eçaram a chorar tam bém . As m ais velhas faziam sinais, em um pedido silencioso para que eu parasse com a choradeira.

Ao fim de um a hora m e contive. E nunca m ais chorei no banheiro.