Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 30 de 32

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Sobrevivi para Contar

Epílogo - Amor novo, vida nova

Epílogo - Am or novo, vida nova

EPÍLOGO

Am or novo, vida nova

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É im possível prever quanto tem po levará um coração partido para se recom por. Entretanto, eu fui abençoada. Com a aj uda de Deus, dentro de dois anos eu estava forte o bastante para am ar um outro alguém . Porém , durante o período que levei para m e curar, vivi um a vida quieta e reflexiva.

Continuei em m eu em prego nas Nações Unidas e m orando com a fam ília de Sarah, e, nos períodos de folga, trabalhava com o voluntária num orfanato de Kigali, onde fazia o papel de irm ã m ais velha para dezenas de crianças solitárias e traum atizadas. Estava sem pre à procura dos dois irm ãozinhos de que cuidei no acam pam ento francês — nunca os encontrei, m as encontrei m uitos outros j ovens necessitados de am or.

No final de 1995, finalm ente reencontrei Aim able. Os adm inistradores de sua bolsa de estudos decidiram que Ruanda estava suficientem ente estabilizada e pagaram sua passagem . Escrevíam os um ao outro com freqüência e algum as vezes, durante o ano, nos falam os por telefone, m as não estávam os preparados para um encontro real face a face. Nunca m e esquecerei de nosso encontro no aeroporto. Em vez de um a enorm e torrente de em oções, nossa reunião foi hesitante, com o se quiséssem os poupar nossos corações. Nos abraçam os e beij am os, porém cautelosam ente, pois am bos tínham os m edo da dor um do outro. Era-nos difícil olhar dentro de nossos olhos, sabendo que, se nossos verdadeiros sentim entos viessem à tona, não poderíam os controlá-los — se com eçássem os a chorar, nada nos faria parar.

Meu irm ão e eu fom os a um restaurante com alguns am igos e representam os durante todo o j antar — falam os de estudos, do m eu trabalho, até rim os das piadas dos m eus am igos. Mais tarde, entretanto, naquela m esm a noite, ao m e ver sozinha na cam a, chorei o m ais que pude. Estou certa de que ele fez o m esm o.

No dia seguinte foi m ais fácil estarm os j untos. Nos am ávam os tanto que era um conforto gozar da com panhia um do outro, em bora o fato de estarm os ali nos lem brasse nossa tragédia fam iliar. Eu desej ava dizer-lhe que j á estava suficientem ente forte para lidar com a dor e queria consolá-lo, m as sabia, instintivam ente, que ele não podia ser consolado. Com o tem po, tornou-se claro que havíam os tacitam ente decidido não falar sobre o que acontecera àqueles que am ávam os. Mencionávam os os nom es de todos eles, m as com o se ainda estivessem vivos — só assim podíam os lidar com o assunto. Esse m odo de agir continuou por m ais dois anos, em nossas cartas e telefonem as. E nada m udou quando Aim able se graduou com o veterinário e foi residir em Kigali. Nos víam os diariam ente, m as só m encionávam os o genocídio em term os gerais, com o se houvesse acontecido a outras pessoas. E quando foi visitar os túm ulos de m am ãe e Dam ascene em Mataba, não m e cham ou para ir com ele.

E desde então tem sido sem pre assim entre nós. Aim able ainda reside em Kigali, é um m édico bem -sucedido, tem um a esposa encantadora e um filho. Continuam os nos am ando e som os m uito unidos, nos falam os com freqüência e nos escrevem os um a vez por sem ana. Mas, em bora um a década tenha se passado, j am ais nos referim os a nossa fam ília no passado. Talvez sej a essa nossa m aneira de m anter viva sua m em ória.

EU PASSAVA MUITAS NOITES ENCLAUSURADA, EM ORAÇÃO E MEDITAÇÃO, num centro j esuíta próxim o, que se tornou um segundo lar para m im . Foi nesse am biente tranqüilo que experim entei novam ente a m esm a ligação forte e íntim a com Deus que tinha sido a m inha salvação durante os m eses que passei no esconderij o.

À m edida que m eu coração se recuperava, com ecei a sentir o desej o de dividir m inha vida com alguém especial, de ter m inha própria fam ília para am ar e cuidar. Mas tinha m edo... lem brava-m e da experiência com John e hesitava em suj eitar m eu frágil coração a um a relação sem futuro, que pudesse acabar de m odo doloroso. Então, com o havia m e acostum ado a fazer sem pre que m e defrontava com um problem a, cham ei Deus em m eu auxílio. Se eu queria um casam ento predestinado pelo céu, m elhor casam enteiro não poderia haver.

Diz a Bíblia que, se pedirm os, receberem os, e foi exatam ente o que fiz. Pedi a Deus que m e trouxesse o hom em dos m eus sonhos. Não queria m e enganar — tinha que ser m uito clara quanto ao tipo de pessoa que Deus deveria m e enviar. Sentei-m e e desenhei num a folha de papel o rosto daquele com quem eu queria m e casar, depois anotei sua altura e outras características físicas. Pedi um hom em de caráter forte, com um a disposição cordial; um hom em gentil, am oroso e terno; que tivesse senso de hum or e m oral sólida; que m e am asse pelo que eu era; que gostasse de crianças tanto quanto eu; e, acim a de tudo, am asse a Deus.

Não podia m arcar um prazo para Deus, m as, com o não havia feito restrições quanto a raça, cor ou nacionalidade — e considerando-se que existiam neste planeta m ais de 5 bilhões de pessoas —, im aginei que seis m eses seria um tem po razoável de espera até que o Senhor providenciasse para m im um a alm a gêm ea. Fiz apenas um a exigência: porque eu am ava m uito o rosário, a Virgem Maria, e tantos outros aspectos do catolicism o eram im portantes para m im , eu disse a Deus que tratasse de m e m andar um católico. Queria ter certeza de que não haveria em m eu casam ento tensões causadas pela religião e de que m eu m arido louvaria a Deus da m esm a form a que eu.

Um a vez decidida quanto ao que eu queria exatam ente, com ecei a visualizá-lo e a acreditar, do fundo do coração, que j á havia acontecido. Estava tudo nas m ãos de Deus, e eu sabia que seria apenas um a questão de tem po até que Ele atendesse ao m eu pedido. Mas, para apressar as coisas, peguei o rosário verm elho e branco de m eu pai e com ecei a rezar para que m eu m arido aparecesse. E apareceu, três m eses m ais tarde: o Sr. Bry an Black, enviado por Deus, por interm édio da ONU, diretam ente da Am érica!

Ironicam ente, Bry an chegou ao país para instalar o Tribunal Crim inal Internacional de Ruanda, a corte da ONU que j ulgaria os responsáveis pelo planej am ento do genocídio. Bry an j á trabalhava para a ONU há m uitos anos, e estava entusiasm ado por fazer parte da m issão que j ustiçaria os crim inosos. Pessoalm ente, achei que vinha enviado por Deus com um a m issão.

A prim eira vez que vi Bry an na sede da ONU, pensei que ele se parecia exatam ente com o hom em que eu havia encom endado a Deus. Logo depois, quando cruzei com ele no hall e vi a bondade do seu olhar, tive certeza de que era “ele”. Mas com o eu havia deixado o assunto nas m ãos de Deus, esperei que Ele trouxesse Bry an à m inha presença... e Ele o fez.

Bry an m e convidou para sair, e nos divertim os m uito. Ao final da noite, eu tinha certeza de que éram os um par perfeito e de que se tratava da pessoa com quem eu queria passar o restante da vida... se ele fosse católico. Tom ei coragem e perguntei:

— Qual é a sua religião?

— Sou católico.

Meu desej o era saltar nos seus braços e gritar: “Louvado sej a Deus! Sej a bem -vindo! Você vai fazer parte da m inha vida!” Mas isso poderia assustar o rapaz. Portanto, apenas peguei sua m ão e disse:

— Eu tam bém .

Jam ais sobrecarreguei Bry an com a história com pleta de tudo que sofri durante o genocídio, m as ele m e ouvia sem pre que m eu coração estava pesado e perm itia-m e chorar em seu om bro quando eu o necessitava.

DOIS ANOS DEPOIS, BRYAN E EU NOS CASAMOS NUMA CERIMÔNIA TRADICIONAL ruandesa e, logo em seguida, viem os para a Am érica, em 1998. Mantem os um casam ento am oroso e solidário, e Deus nos abençoou com duas crianças: nossa filha Nikeisha e nosso filho Bry an Jr. Todas as m anhãs, ao acordar para m ais um dia em com panhia de m eus dois anj inhos, vej o a beleza e o poder de Deus em seus rostos. Jam ais deixo de agradecer-Lhe por Seus preciosos dons.

Deus continua fazendo parte de m inha vida, todos os dias e de todos os m odos. É Ele quem m e sustenta, protege e com pleta. Faz de m im um a esposa m elhor, m elhor m ãe e um a pessoa m elhor. E aj udou-m e a ter um a carreira. Depois que m eus filhos nasceram , eu quis voltar a trabalhar, m as encontrar um bom em prego em Nova York foi m ais difícil do que o fora em Kigali depois do genocídio — havia tanta gente e eram tão poucos os em pregos.

Pedi a Deus que m e guiasse, então procurei o em prego que desej ava — nas Nações Unidas, em Manhattan. Sabendo onde queria trabalhar, visualizei-m e ocupando um cargo, usando a m esm a técnica de pensam ento positivo que vinha usando há tanto tem po: acredite e conseguirá. Entrei no site das Nações Unidas, im prim i a lista dos funcionários com seus nom es e os títulos dos seus cargos, então acrescentei m eu próprio nom e à lista. Incluí até o núm ero do m eu ram al telefônico! Prendi a lista na parede com tachinhas e olhava para ela todos os dias. É claro que tam bém preenchi um form ulário, enviei um currículo e telefonei seguidam ente para m e inform ar — porém m ais de m il pessoas fizeram o m esm o. Eu continuava contem plando m inha lista e acreditando que o cargo seria m eu, e rezava diariam ente, até que o telefone tocou. E, com certeza, m eu nom e estava selecionado entre centenas de outros pretendentes, e o cargo m e foi oferecido só depois de um a entrevista. Nunca deixei de m e assom brar com o poder de Deus em ação.

E é esse m esm o poder que m e im pele adiante para um a fase nova em m inha vida. Deus salvou m inha alm a e poupou m inha vida com um propósito: fui poupada para poder contar m inha história e m ostrar para o m aior núm ero de pessoas o poder curativo de Seu am or e a Sua m isericórdia.

Deixei para trás pessoas a quem devo aj udar. Espero poder voltar a Ruanda tantas vezes quantas m e forem possíveis, para restituir a esperança aos corações dos sobreviventes do genocídio, especialm ente as crianças. Ocupo-m e no m om ento com a criação de um a fundação cuj a m eta é aj udar as vítim as de guerra e genocídio em qualquer parte do m undo a curar seus corpos, m entes e alm as.

A MENSAGEM DE DEUS ULTRAPASSA FRONTEIRAS: qualquer pessoa pode aprender a perdoar aqueles que a ofenderam , por m aior ou m enor que sej a a ofensa. Esta verdade está diariam ente diante de m im . Por exem plo, recentem ente confiei m inha história a um a nova am iga, e, poucos dias depois, ela telefonou para contar que m inha vivência a inspirou a entrar em contato com um tio de quem fora m uito próxim a, m as com o qual não falava há anos.

— Tivem os um a briga feia, e fiquei tão zangada que j urei nunca m ais falar com ele — ela confidenciou. — Mas, depois de ouvir com o você conseguiu perdoar os que m ataram a sua fam ília, m e senti obrigada a pegar o telefone e falar com ele. Não pedi que ele se desculpasse — sim plesm ente abri m eu coração e perdoei-o. Em pouco tem po j á estávam os conversando com o antigam ente, com m uito am or. Difícil era acreditar que havíam os desperdiçado tanto tem po.

Da m esm a form a, um a sobrevivente do genocídio, cuj a fam ília foi sacrificada, não faz m uito tem po telefonou-m e de Ruanda, chorando, e pediu que lhe explicasse o cam inho que eu havia percorrido até poder perdoar os assassinos.

— Achei você um a louca por perdoá-los, Im m aculée... Você os estava deixando escapar. Mas a dor e a am argura que carrego no peito há 11 anos estão a ponto de m e m atar. Sinto-m e infeliz há tanto tem po que j á nem tenho energia para viver. Mas ouço sem pre as pessoas contarem com o você perdoou os assassinos da sua fam ília e seguiu em frente com a vida... com o você é feliz com seu m arido, filhos e um a carreira! Eu tam bém preciso aprender a livrar-m e do m eu ódio. Preciso voltar a viver.

Contei-lhe com o depositei m inha confiança em Deus, relatei tudo que fiz para perdoar e continuar em frente... Tudo que acabo de narrar neste livro. Ela m e agradeceu e, tem pos depois, contou-m e que tam bém pedia a Deus que a aj udasse a perdoar os assassinos.

E houve ainda a m ulher de Atlanta que se aproxim ou de m im em lágrim as, ao final de um a palestra que pronunciei. Disse ela que seus pais foram m ortos durante o Holocausto nazista, quando ela era um bebê:

— Passei a vida inteira com o coração cheio de raiva... sofri e chorei por m eus pais por m uitos anos. Mas inspirei-m e ao ouvir sua história sobre o que você sofreu e assim m esm o perdoou. Tentei por toda a m inha vida perdoar os que m ataram m eus pais e agora acho que vou conseguir. Abandonarei m inha raiva e serei feliz.

Durante a m esm a palestra, um a senhora de 92 anos passou os braços em torno de m im e abraçou-m e com força. Estava tão em ocionada que m al podia falar, m as finalm ente recuperou a voz. Nunca m e esquecerei de suas palavras:

— Pensei que para m im era tarde dem ais para perdoar. Estava à espera de alguém que dissesse o que você disse: que era preciso saber que é possível perdoar o im perdoável. Agora estou em paz.

Quanto a m inha terra natal, sei que Ruanda pode recuperar-se, se cada coração aprender a perdoar. Dezenas de m ilhares de pessoas presas por terem com etido assassinato durante o genocídio com eçam a ser soltas e estão de volta a suas antigas cidades e aldeias, portanto é este o m om ento certo para perdoar. Ruanda pode voltar a ser um paraíso, m as será preciso o am or do m undo inteiro para curar m inha pátria. E é assim que deve ser, pois o que aconteceu em Ruanda aconteceu a todos nós — o genocídio feriu toda a Hum anidade.

O am or de um único coração pode fazer m uita diferença. Acredito que podem os curar Ruanda — e o nosso m undo — curando nossos corações um a um .

Espero que m inha história aj ude.