Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 29 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 24 - Perdoar os Vivos

CAPÍTULO 24

Perdoar os Vivos

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Eu tinha certeza de que m inha fam ília estava em paz, o que não dim inuía a dor de não tê-la com igo. Era im possível ignorar essa dor devastadora, ela se apoderava do m eu coração a cada vez que m e lem brava de com o eles foram m ortos. Todas as noites eu rezava para ser liberada da m inha agonia particular, dos pesadelos que atorm entavam m eu sono e perturbavam m eu dia. Dem orou um pouco, m as Deus, com o sem pre, atendeu às m inhas preces. Desta vez através de um sonho, enviado por Ele, diferente de todos que eu j á sonhara.

Eu estava a bordo de um helicóptero sobrevoando a casa de m inha fam ília, m as fiquei presa num a nuvem escura. Podia ver papai, m am ãe, Dam ascene e Vianney de pé, no céu, m uito acim a de m im , banhados por um a luz tépida e clara que irradiava tranqüilidade. A luz se tornou m ais intensa e se espalhou pelo céu até envolver a nuvem escura que m e rodeava. Repentinam ente eu estava outra vez com m inha fam ília. O sonho foi tão realista que estendi as m ãos para eles e senti o calor de suas peles e a m aciez de seu toque. Senti-m e tão feliz que dancei através do ar.

Dam ascene usava um a cam isa branca novinha e calças azuis. Fitou-m e com um olhar brilhante de alegria e sorriu seu sorriso radioso. Minha m ãe, m eu pai e Vianney estavam atrás dele, de m ãos dadas, e tam bém sorriam para m im .

— Olá, Im m aculée, é bom saber que ainda podem os fazê-la feliz — disse m eu lindo irm ão. — Você tem estado triste há m uito tem po e deve parar de chorar. Vej a com o é belo o lugar onde estam os... Não percebe o quanto som os felizes? Se continuar pensando que sofrem os, nos forçará a reviver a dor que deixam os para trás. Sabem os que sente nossa falta, m as quer m esm o que voltem os para sofrer?

— Não, Dam ascene, de m odo algum ! — exclam ei com lágrim as de alegria a escorrer pela face. — Não voltem ! Esperem por m im aí onde estão, e um dia irei j untar-m e a vocês. Quando Deus j á não precisar de m im neste m undo, irei ter com vocês.

— Estarem os à sua espera, irm ã querida. Acalm e seu coração. Você deve am ar e perdoar aqueles que nos ofenderam .

Minha fam ília recuou lentam ente no céu, até desaparecer com pletam ente. Eu ainda pairava sobre m inha casa, m as j á não havia a nuvem escura... nem o helicóptero. Eu voava sobre a aldeia com o um pássaro, sobre a casa do pastor e o acam pam ento francês, acim a de todas as florestas, rios e cachoeiras de m eu país tão belo — eu flutuava acim a de toda Ruanda.

Sentia-m e livre de toda tristeza e seriedade, e com ecei a cantar de alegria. Cantei com entusiasm o, e as palavras brotavam alegrem ente da m inha boca. E a canção que eu cantava era Mwama Shimirva, que em kiny arwanda significa “Graças a ti, ó Senhor, por um am or além do nosso entendim ento”.

Minha cantoria acordou toda a casa, pois estávam os no m eio da noite. A m ãe de Sarah veio correndo até o m eu quarto, com m edo de que eu estivesse com febre e delirante.

A partir dessa noite, m inhas lágrim as com eçaram a secar e m inha dor abrandou. Nunca m ais m e angustiei com o destino de m inha fam ília. Aceitei que sem pre choraria por eles e sentiria sua falta, m as não passaria nem m ais um m inuto pensando no sofrim ento que tinham suportado. Ao m e m andar aquele sonho, Deus m e m ostrara que m inha fam ília estava num lugar além de todo sofrim ento.

E m ostrou-m e tam bém que eu devia fazer um a nova visita a m inha aldeia.

ALGUMAS SEMANAS DEPOIS, O CORONEL GUEYE OFERECEU-ME NOVA CARONA, m as dessa vez fom os de carro atravessando o país. A paisagem de m inha j uventude j á não m e entristecia; ao contrário, senti-m e contente com as lem branças am enas provocadas pelo cenário e pelos sons à m inha volta. Passeei com am igos pela plantação de bananas de m am ãe e pelos cafezais de papai nas encostas. Disse a m inhas tias que, se não tivessem m edo de sair de casa, poderiam colher a safra para ganhar seu sustento.

Tia Jeanne disse que eu não precisava pensar que ela teria m edo: ia arranj ar um a arm a e aprender a atirar.

— Da próxim a vez m e encontrarão prevenida.

Próxima vez, pensei e suspirei profundam ente.

Fui a m inha antiga casa visitar m am ãe e Dam ascene. Aj oelhei-m e ao lado das sepulturas e contei-lhes tudo que havia acontecido desde nosso últim o encontro: m eu em prego na ONU e o que eu planej ava para o futuro. Senti falta de ver suas faces e ouvir suas vozes, e chorei. Mas, desta vez, m inhas lágrim as foram de libertação e não de dor.

E senti que estava na hora de fazer o que eu viera fazer ali.

JÁ ERA TARDE QUANDO CHEGUEI À PRISÃO, onde fui recebida por Sem ana, o novo burgom estre de Kibuy e. Sem ana tinha sido professor antes do genocídio, e tam bém colega e am igo de papai — era com o um a espécie de tio para m im . Quatro de seus seis filhos haviam sido m ortos durante a carnificina, e disse-lhe que ele precisava acreditar que seus pequenos estavam na com panhia de Deus.

— Com o este m undo está m udado; os filhos agora consolam os pais — ele m e respondeu com tristeza.

Com o burgom estre, Sem ana era um político poderoso, encarregado de prender e m anter encarcerados os assassinos que haviam aterrorizado a região. Interrogou centenas de Interaham wes e sabia, m elhor que ninguém , qual assassino havia assassinado quem .

Sabia por que eu tinha vindo procurá-lo.

— Quer se encontrar com o líder da gangue que m atou sua m ãe e Dam ascene?

— Sim , senhor, é isso m esm o.

Pela j anela do escritório de Sem ana, vi quando ele atravessou o pátio até a cela, depois voltou, em purrando diante de si um velho desgrenhado que m ancava. Pulei de susto quando eles se aproxim aram , pois reconheci o hom em im ediatam ente. Seu nom e era Felicien, um próspero hom em de negócios hútu, com cuj os filhos eu havia brincado na escola prim ária. Tinha sido um hom em alto, bonito, de m uito boas m aneiras, sem pre vestido com ternos caros. Estrem eci ao lem brar que fora a voz dele que ouvi cham ando o m eu nom e quando os assassinos revistaram a casa do pastor. Felicien era um dos que m e caçavam .

Sem ana em purrou Felicien para dentro do escritório, e ele tropeçou e caiu de j oelhos. Quando olhou para cim a e viu que era eu a pessoa que o aguardava, ficou com pletam ente pálido. Rapidam ente desviou o olhar para o chão.

— Levante-se, assassino! — gritou Sem ana. — Levante-se e explique para esta j ovem por que a fam ília dela m orreu. Explique por que assassinou sua m ãe e esquartej ou o irm ão dela. Levante-se, eu j á disse! Levante-se e fale com ela!

Sem ana gritava cada vez m ais alto, m as o hom em arrasado continuou encolhido e aj oelhado, envergonhado dem ais para ficar de pé e olhar para m im .

As roupas suj as que cobriam seu corpo em aciado estavam em farrapos. Sua pele estava am arelada, m achucada e cortada; seus olhos em baçados e cheios de crostas. O rosto, antigam ente bonito, estava oculto sob um a barba im unda e em aranhada; os pés nus estavam cobertos de feridas abertas e supuradas.

Chorei diante de tanto sofrim ento, Felicien perm itira que o dem ônio entrasse em sua alm a, e o dem ônio arruinava sua vida, com o se fosse um câncer da alm a. Tornara-se vítim a de suas vítim as, fadado a viver em torm ento e lam entações. Fui tom ada de piedade por ele.

— Ele saqueou a casa de sua fam ília e roubou a safra de suas lavouras, Im m aculée. Encontram os as m áquinas agrícolas de seu pai na casa dele, não foi m esm o? — Sem ana gritou para Felicien. — Depois de m atar Rose e Dam ascene, ele foi procurar você. Queria vê-la m orta para se apoderar de suas terras. Não foi m esm o, seu porco? — Sem ana voltou a berrar.

Retraí-m e com um suspiro em bargado. Sem ana olhou para m im , pasm o com a m inha reação e confuso com as lágrim as que corriam por m eu rosto. Agarrou Felicien pela gola da cam isa e j ogou-o ao chão.

— O que você vai dizer a ela? O que você tem para dizer a Im m aculée?

Felicien soluçava. Percebi toda sua vergonha. Ele olhou para m im por apenas um m om ento, m as nossos olhares se encontraram . Estendi m inha m ão até tocar a dele e disse o que eu tinha vindo até ali para dizer.

— Eu o perdôo.

Meu coração se aquietou e vi a tensão desaparecer dos om bros de Felicien antes de Sem ana em purrá-lo porta afora, para o pátio. Dois soldados ergueram Felicien pelas axilas e arrastaram -no de volta à cela. Sem ana voltou furioso.

— O que foi isso, Im m aculée? Aquele é o hom em que m atou sua fam ília. Eu o trouxe para que você o interrogasse... para cuspir nele se quisesse. Mas você o perdoou! Com o você fez um a coisa dessas? Perdoou por quê?

Respondi a verdade.

— Perdão é tudo que tenho para oferecer.