Sobrevivi para Contar
Capítulo 8 - Adeus aos Rapazes
CAPÍTULO 8
Adeus aos Rapazes
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Não m uito depois da partida de Dam ascene, bateram à porta da casa do pastor. Ouvi a voz de Nzim a, um dos professores de Vianney na escola secundária, que pedia para falar com o pastor Murinzi. Houve um a conversa abafada, e a porta se fechou. Fui até os fundos da casa e encontrei Nzim a sozinho, sentado à som bra da árvore frondosa do j ardim . Mesm o com a pouca luz, era possível perceber a dor estam pada em sua face.
Sua voz era a de um a criança assustada:
— O que vão fazer conosco? Será que vão nos m atar?
Ao ouvir sua voz à entrada da casa, egoisticam ente eu havia esperado que ele m e pudesse oferecer palavras de conforto e m e dar algum a força, m as era ele quem precisava, desesperadam ente, de am bas.
Nzim a contou-m e que sua m ulher e filhos estavam em visita a sua sogra, em um a aldeia distante. Ele não tinha com o saber se estavam bem , e se sentia torturado pela incerteza.
— Tenho visões e não consigo m e livrar delas — foi o que ele m e disse. — Vej o diante dos m eus olhos m inha m ulher e m eus bebês sendo abatidos, esquartej ados. E não há nada que eu possa fazer. Com o posso saber se a esta hora eles não estão m ortos?
Tentei consolá-lo o m elhor que pude, m as o que eu podia dizer? Quantas vezes m ais eu diria às pessoas que tudo acabaria bem , se nem eu m esm a tinha certeza do que aconteceria?
Ele suspirou fundo:
— Para onde posso ir? Lá fora todo m undo carrega um facão, e alguns têm fuzis.
— Fique aqui até que a m atança term ine, depois você encontrará sua fam ília — respondi, na tentativa de anim á-lo.
Nzim a balançou a cabeça e se levantou.
— Não vou ficar aqui, m ocinha, nem existe outro lugar para onde eu possa ir.
— Rezarei por você.
— Obrigado, Im m aculée.
Despediu-se e foi na direção do j ardim da frente, onde o pastor o aguardava e deve ter-lhe dito que não podia ficar, pois o vi apontar com o dedo para o portão, e Nzim a saiu, sem dizer um a palavra. Mais tarde contaram -m e que o pobre coitado foi m orto a facadas na estrada, a algum as centenas de quilôm etros da casa do pastor.
Duas horas m ais tarde, eu estava sozinha no quarto quando o pastor Murinzi cautelosam ente fez entrar outras cinco m ulheres tútsis. Eu as reconheci com o habitantes locais, m as não conhecia nenhum a delas.
O pastor estava m uito agitado quando as trouxe para o quarto, e m urm urava tão depressa e em voz tão baixa que era quase inaudível:
— Rápido, rápido. Andem logo! E fiquem caladas!
Ao fechar a porta recom endou:
— Esperem aqui e continuem caladas.
E lá ficam os nós, seis m ulheres tútsis, praticam ente desconhecidas, com apenas duas coisas em com um : éram os perseguidas e não tínham os para onde ir. Olhávam os um as para as outras, am edrontadas dem ais para falar, ou m esm o para nos apresentarm os. Não sabíam os o que se passava lá fora, m as, a j ulgar pela atitude nervosa do pastor, era algo m uito grave.
Subitam ente ouviram -se gritos do lado de fora da casa — gritos apavorantes que deixaram arrepiados os cabelos em nossos braços.
Vozes furiosas, horríveis, gritavam :
— Matem ! Matem ! Matem todos eles!
Entram os em pânico. Várias m ulheres se j ogaram ao chão e se esconderam em baixo da cam a. Eu trem ia tanto que pensei que era o chão que balançava. Meus olhos percorreram o quarto, em busca de um esconderij o, e avistei um a abertura estreita, j unto ao telhado, por onde eu poderia m e esgueirar.
Sussurrei:
— Podem os nos esconder lá em cim a — e puxei um a cadeira para baixo da abertura e subi. Puxei outra m ulher, e, j untas, erguem os as outras. E ficam os à espera da volta do pastor. O local era apertado, abafado, nossas roupas logo ficaram alagadas de suor, e tínham os que nos esforçar para respirar. Duas horas m ais tarde, o pastor Murinzi retornou. De pé, no m eio do quarto, coçou a cabeça com um ar espantado.
— Onde estão elas? Meu Deus, eu as deixei bem aqui!
Eu teria rido se não estivesse com tanto m edo.
— Estam os aqui em cim a — falei baixinho, e pus a cabeça para fora do alçapão.
O pastor balançou a cabeça e nos m andou descer im ediatam ente, pois precisava falar conosco. Com a fisionom ia perturbada, disse-nos:
— Sei que estão com m edo, e com toda razão. Está tudo fora de controle, os assassinos entram na casa de todo mundo. Hoj e não entraram na m inha, m as podem fazê-lo a qualquer m om ento. Sinceram ente não sei o que fazer de vocês... preciso pensar.
Ele certam ente notou nosso pânico porque logo apresentou um a solução.
— Não se preocupem , não vou expulsar vocês — assegurou-nos. — Mas ouçam bem . Am anhã bem cedo, antes de todos acordarem , vou levá-las para outro côm odo, onde ficarão até que a m atança term ine. Direi a todos que m andei vocês em bora. Só eu saberei que estão aqui. Falatórios inconseqüentes podem levar todos nós à m orte. Já presenciei outras ondas de m assacres... Quando há no ar um a sede de sangue não se pode confiar em ninguém , nem m esm o nos filhos. Se um a única pessoa descobrir vocês, estarão todas m ortas. E, por Deus, não quero que o sangue de vocês recaia sobre m inha fam ília ou m anche m inhas m ãos.
Então virou-se para m im , e suas palavras foram com o se um a faca m e cortasse:
— Seu irm ão e o am igo dele não podem ficar aqui. Têm que sair e se safar sozinhos. Para m im seria m uito perigoso proteger hom ens. Vocês j á são m uitas para eu esconder.
Ele não conseguia m e olhar nos olhos — am bos sabíam os que m andar em bora Vianney e Augustine era quase o m esm o que m andá-los para a m orte.
— Oh, não, pastor Murinzi, por favor! O senhor não pode...
Ele levou um dedo aos lábios, encerrando a conversa.
— Eles têm que partir, Im m aculée. Quando eu vier cham á-la dentro de poucas horas, você vai acom panhá-los e abrir a porta para eles saírem . E cuidado para que ninguém a vej a.
Quando o pastor saiu do quarto, am aldiçoei-o internam ente. Com o ele podia agir com o santo, protegendo-nos, e ao m esm o tem po j ogar m eu irm ão e Augustine nos braços dos assassinos?
Eu não queria pensar m al do hom em que agia com o nosso salvador, m as não conseguia evitá-lo — suspeitei do pior. Durante m assacres anteriores, alguns hom ens hútus abrigaram m ulheres tútsis e expulsaram os hom ens. Dizia-se que protegiam as tútsis por causa de sua beleza, na intenção de ficar com elas para si depois que seus hom ens fossem assassinados. Essa foi sem pre um a outra m aneira pela qual os tútsis, especialm ente as m ulheres, tinham sido brutalizados. Com ecei a pensar que o pastor tinha m otivos escusos para abrigar a nós seis.
TENTAMOS DORMIR NAQUELA NOITE, m as foi difícil descansar sem ter qualquer noção do que ainda teríam os pela frente. Sem pre que fechava os olhos, eu im aginava Vianney e Augustine saindo da casa e caindo nas m ãos de loucos enfurecidos que brandiam facões. Eles eram tão j ovens — apenas 20 e 18 anos, respectivam ente —, com o eu poderia abandoná-los à própria sorte? Seria um a traição da m inha parte.
Decidi acom panhá-los, m as m udei de idéia... e tornei a m udar inúm eras vezes. Com o poderia eu protegê-los se fôssem os atacados? Eu seria um estorvo. Acom panhados por um a m ulher eles cham ariam m ais atenção, e seríam os m ortos os três.
Ressoavam em m eus ouvidos as palavras de despedida de Dam ascene: “Não saia daqui, aconteça o que acontecer.”
Gem i baixinho, m as alto o suficiente para alarm ar m inhas com panheiras.
— Não se preocupe, seu irm ão é adulto, não é m ais um m enininho — disse Therese, um a das senhoras escondidas j unto com igo, ao m e ver virar e revirar durante um a hora. — São rapazes fortes... Podem cuidar de si m esm os. Se você seguir com eles, vai atrair os estupradores. Deixe-os partir. É o m elhor. Eu sou m ãe, acredite em m im . É m elhor você ficar conosco.
Talvez ela estivesse certa, m as isso não m e fazia sentir m elhor. Ao m esm o tem po pensava que, com a partida de Vianney, talvez eu nunca m ais visse alguém da m inha fam ília.
Duas horas antes do alvorecer, o pastor entrou no quarto, acordou-nos e nos recom endou num m urm úrio:
— Levantem -se, vam os! Andem logo, depressa. — Olhou para m im e disse: — Vá despedir-se do seu irm ão e volte im ediatam ente.
Entrar naquele quarto e acordar Vianney e Augustine foi a coisa m ais difícil que tive que fazer na vida. Lágrim as escorriam com o chuva pelo m eu rosto — felizm ente a escuridão ocultava a vergonha, a tristeza, e o m edo indisfarçável em m eus olhos.
Pousei a m ão sobre as costas de Vianney e acordei-o suavem ente, e falei baixinho, tentando controlar os soluços.
— Acorde... j á é de m anhã... vocês têm que partir... não se preocupem ... haverão de encontrar papai... ele lhes dirá o que fazer.
Sentia-m e m uito infeliz, com o se apertassem m eu coração.
Vianney e Augustine levantaram -se num salto. Meu irm ão m ais novo esfregou o olho, ainda sonolento, e perguntou:
— O quê? Ir aonde, Im m aculée? Não podem os ir a lugar algum sem Dam ascene. O que lhe acontecerá se partirm os sem ele?
Suas palavras m e faziam sofrer. Eu o m andava para o perigo, e ele só pensava na segurança do nosso irm ão. Era com o se eu fosse um a m ãe lançando seu bebê a um bando de lobos.
— Dam ascene vai estar bem — respondi, tentando dar um tom firm e a m inha voz. — Ele deve estar a salvo em algum lugar. Venham , tem os que ir.
Apressei os rapazes pelo corredor, até chegarm os à porta da frente. Abracei Vianney o m ais forte que pude, e cobri-o de beij os.
— Sej a forte, Vianney. Voltarem os a nos encontrar em breve.
Eles saíram porta afora e desapareceram na escuridão.