Sobrevivi para Contar
Capítulo 11 - Esforçando-me por Perdoar
Capítulo 11 - Esforçando-m e por Perdoar
CAPÍTULO 11
Esforçando-m e por Perdoar
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Estava profundam ente concentrada em m inhas orações quando os assassinos vieram revistar a casa pela segunda vez.
Já passava do m eio-dia, e eu rezava o rosário desde o alvorecer, pedindo a Deus Seu am or e perdão para todos os pecadores da Terra. Mas, por m ais que tentasse, não conseguia rezar pelos assassinos. Esse era um problem a sério, pois Deus desej ava que rezássem os por todo mundo, e, acim a de tudo, eu precisava ter Deus do m eu lado.
A solução que encontrei foi rezar o rosário inúm eras vezes, todos os dias, com o m aior fervor possível. Rezar todas essas ave-m arias e pai-nossos ocupava de 12 a 13 horas do m eu dia — e quando chegava à passagem do pai-nosso que diz “assim com o nós perdoam os a quem nos tem ofendido”, eu tentava não pensar nos assassinos, porque sabia que não conseguiria perdoá-los.
Durante a segunda revista, a gritaria deles, com o vozes furiosas a m e despertar de um sonho, ultrapassou a barreira que eu tinha erguido a poder de orações. Ouvi quatro ou cinco pancadas fortes, próxim o da m inha cabeça, que desviaram toda a m inha atenção. Percebi que eles estavam bem ali, no quarto do pastor! Rem exiam seus pertences, arrancavam coisas da parede, levantavam a cam a e derrubavam cadeiras.
— Olhem aqui dentro — gritou um deles. — Agora ali em baixo. Em purrem a côm oda! Revistem tudo!
Tam pei a boca com as m ãos, com m edo de que ouvissem m inha respiração. Eles estavam a poucos centím etros da m inha cabeça... estavam diante do arm ário — o armário! Tornei a agradecer a Deus pelo arm ário, m as m eu coração ainda batia descom passado dentro do peito.
E eles riam. Divertiam -se enquanto m atavam gente! Am aldiçoei-os e desej ei que queim assem no inferno.
O arm ário chocou-se contra a porta. Cobri os ouvidos e rezei: Deus, por favor. Você colocou esse armário aí... agora faça com que ele fique no mesmo lugar. Não permita que eles o arrastem. Proteja-nos, Senhor!
Meu couro cabeludo ardia, e os m urm úrios m alévolos penetraram de novo em m inha cabeça. Por que apelar para Deus, Immaculée? O ódio em seu coração não é o mesmo que existe no coração dos assassinos? Por acaso você não está tão cheia de ódio quanto eles? Você desejou a morte deles; na verdade, desejou matá-los com as próprias mãos! Chegou a rezar para que Deus os fizesse sofrer e queimar no inferno.
Eu ouvia os assassinos do outro lado da porta e im plorei: Deus, mande-os embora... livre-nos de...
Não se dirija a Deus, Immaculée, interrom peu-m e a voz. Deus sabe que você não passa de uma mentirosa. Sempre que reza a Deus, você mente ao dizer que O ama. Deus não nos criou a todos à sua imagem? Como é possível amar a Deus e odiar tantas de Suas criaturas?
Meus pensam entos paralisaram -se. Eu sabia que o dem ônio em m inha cabeça tinha razão — eu estava mesmo m entindo para Deus quando rezava. Estava tão tom ada de ódio pelos genocidas que a respiração chegava a m e faltar.
Havia, a essa altura, quarenta ou cinqüenta hom ens, no m ínim o, no quarto do pastor. Eles cantavam e zom bavam . A j ulgar pela selvageria em suas vozes, deviam estar bêbados, e sua cantoria era ainda m ais brutal do que de costum e:
— Matem os tútsis, adultos e crianças... m atem um , m atem todos. Matem !
Com ecei a rezar para que Deus os levasse para longe do arm ário e para fora da casa.
Em surdina, abafada pelo canto grosseiro, a voz das trevas m e provocava: Não adianta... não apele para Deus. Quem você pensa que mandou os assassinos virem aqui procurar você? Foi Ele! Não há nada que possa salvá-la. Deus não protege mentirosos.
Com ecei a rezar pelos assassinos, m as detive-m e. Eu queria desesperadam ente a proteção divina, m as acreditava, do fundo do coração, que eles m ereciam a m orte. Eu não seria capaz de fazer de conta que não m ataram e violentaram m ilhares de pessoas — não podia ignorar as coisas horríveis que fizeram contra tantos inocentes.
Por que exige de mim o impossível?, perguntei a Deus. Como posso perdoar os que querem me matar, que talvez tenham trucidado minha família e meus amigos? Não é lógico eu perdoar essas pessoas. Permita-me, em vez disso, rezar por suas vítimas, pelos que foram estuprados, mortos e mutilados. Permita-me rezar pelos órfãos e viúvas... rezar por justiça. Deus, eu Lhe peço para punir esses homens malvados, mas não posso perdoá-los — simplesmente não consigo.
Finalm ente, percebi que os assassinos estavam de saída. Prim eiro deixaram o quarto, depois a casa, e logo desceram a estrada, e seu canto soava cada vez m ais fraco à m edida que se afastavam .
Retom ei as orações. Agradeci a Deus por nos haver salvo e por m e ter inspirado a idéia de colocar o guarda-roupa diante da porta do banheiro. Deus, foi muito inteligente da Sua parte, Você é muito inteligente, falei m entalm ente, e voltei a agradecer-lhe. Fiquei pensando para onde teriam ido os assassinos, depois rezei por m eus am igos e por m inha fam ília. Por favor, Deus, cuide de minha mãe; ela se preocupa tanto conosco. Cuide do meu pai, que às vezes é tão teimoso...
Mas era tudo inútil — m inhas rezas pareciam ocas. Um a guerra se havia iniciado em m inha alm a, e eu j á não conseguia orar a um Deus de am or tendo o coração cheio de ódio.
Tentei outra vez, pedi a Deus que perdoasse os assassinos, m as, lá no fundo, não acreditava que eles m erecessem perdão. Isso m e fazia m al... Tentei sinceram ente rezar por eles, m as senti-m e com o se rezasse ao dem ônio. Por favor, Senhor, abra o meu coração e ensine-me a perdoar. Não sou capaz de extinguir o meu ódio... Eles nos fizeram tanto mal... Meu ódio é tão pesado que é capaz de me esmagar. Toque o meu coração, Senhor, e ensine-me a perdoar.
Passei m uitas horas nesse dilem a. Rezei até tarde da noite, por todo o dia seguinte, e na noite subseqüente, e no outro dia tam bém . Rezei a sem ana toda, quase não com ia ou bebia. Nem m e lem brava da últim a vez em que havia dorm ido e m al percebia o tem po passar.
CERTA NOITE, OUVI GRUTOS NÃO MUITO LONGE DA CASA, depois o choro de um bebê. Certam ente os assassinos trucidaram a m ãe e abandonaram a criança para m orrer na estrada. A criança berrou a noite inteira; pela m anhã seu choro era interm itente e fraco, e, ao anoitecer, silenciou. Ouvi cães rosnando nas im ediações e estrem eci ao pensar em com o a vida do bebê tinha term inado. Rezei a Deus para que recebesse aquela alm a inocente, e perguntei-Lhe: Como posso perdoar quem fez uma coisa dessas com uma criança pequena?
Ouvi Sua resposta tão claram ente com o se estivéssem os conversando na m esm a sala: São todos meus filhos... E o bebê está comigo agora.
Um a frase tão sim ples, m as era a resposta que eu tanto im plorava em m inhas orações.
Os assassinos eram com o crianças. Não havia dúvida de que eram criaturas bárbaras que m ereciam ser punidas severam ente por seus atos, m as, m esm o assim , crianças. Cruéis, m alvadas e perigosas, com o são às vezes as crianças, m as, apesar de tudo, crianças. Viam , m as não entendiam , o m al terrível que causavam . Feriam cegam ente outras pessoas sem pensar, feriam seus irm ãos e irm ãs tútsis, feriam a Deus — m as não percebiam o quanto feriam a si m esm os. Suas m entes haviam sido infectadas pelo m al que se abatera sobre o país, m as suas almas não eram m ás. A despeito de suas atrocidades, eram filhos de Deus, e eu seria capaz de perdoar um a criança, em bora não fosse fácil... principalm ente se essa criança estava tentando m e m atar.
Aos olhos de Deus, os assassinos tam bém faziam parte de Sua fam ília e m ereciam am or e perdão. Com preendi que não podia pedir a Deus que m e am asse se não estivesse disposta a am ar Seus filhos. Nesse m om ento orei pelos assassinos, para que seus pecados fossem perdoados. Rezei para Deus que os fizesse reconhecer, antes do final de suas vidas, o cam inho horrendo que seguiam — antes de serem cham ados a responder por seus pecados m ortais.
Segurei firm e o rosário do m eu pai, pedindo a Deus que m e aj udasse, e, várias vezes seguidas, ouvi Sua voz: Perdoe-os, porque não sabem o que fazem.
Avancei nesse dia um passo im portante em direção à capacidade de perdoar os assassinos. Minha raiva se esvaía — eu havia aberto m eu coração a Deus, e ele o havia tocado com seu am or infinito. Pela prim eira vez m e condoí dos assassinos. Pedi a Deus que lhes perdoasse os pecados e os atraísse para a beleza da Sua luz.
À noite rezei com a consciência e o coração puros. Pela prim eira vez desde que havia entrado no banheiro, dorm i em paz.