Sobrevivi para Contar
Capítulo 16 - Manter a Fé
CAPÍTULO 16
Manter a Fé
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Ouvi quando os assassinos cham aram m eu nom e, e o dem ônio voltou a cochichar em m eu ouvido: Agora eles sabem quem é você... eles sabem onde você está...
Minha cabeça deu um estalo, e fiquei totalm ente desorientada. Por que cham avam meu nom e — com o sabiam que eu estava ali? Viriam até o banheiro?
Tentei recorrer a Deus, m as tudo que ouvia era a voz m aligna gritando no m eu ouvido... e o canto m au, sádico, dos assassinos ecoando por toda a casa. Com a roupa ensopada de suor, tentava desordenadam ente recuperar m inha fé.
Eram centenas de assassinos dessa vez. Berravam com o pastor, acusavam -no e am eaçavam .
— Onde ela está? — perguntavam com insistência. — Sabem os que ela está aqui, em algum lugar. Tratem de encontrá-la... Encontrem Im m aculée.
Entraram no quarto do pastor. Estavam do outro lado da parede, m enos que 2,5 centím etros de gesso e m adeira nos separavam . Seus passos faziam a casa trem er, eu ouvia seus facões e lanças baterem contra as paredes.
Em m eio ao caos, reconheci a voz de um am igo da fam ília.
— Já m atei 399 baratas — gabou-se. — Com Im m aculée serão quatrocentas. Esse é um bom núm ero para se m atar.
Agachei-m e num canto, o diabo ria de m im : Eles sabem o seu nome... sabem que você está aqui. Onde está Deus agora?
Os assassinos pressionavam o pastor:
— Onde estão os tútsis? Você sabe o que farem os com eles quando os encontrarm os. Onde ela está, pastor? Onde está Im m aculée? Ela estava aqui quando foi vista pela últim a vez. Onde você a escondeu?
Meu espírito recaiu nos braços do m edo e da dúvida, eu sentia m ais m edo do que durante a prim eira visita dos assassinos. Suas vozes dilaceravam m inha carne. Senti-m e em fogo, com o se estivesse deitada sobre um leito de carvões ardentes. Um a avassaladora onda de dor tom ou todo m eu corpo, e m ilhares de agulhas invisíveis o penetraram . Tentei, m ais um a vez, rezar. Querido Deus, perdoe-me por esse deslize em minha fé... Confio em Você, meu Deus... Sei que Você há de nos salvar. Você é mais forte do que todo o mal presente nesta casa.
No côm odo onde havíam os assistido ao film e, os assassinos reviraram a m obília e cham aram m eu nom e repetidam ente.
— Querem os Im m aculée... chegou a hora de m atar Im m aculée.
Cobri os ouvidos e desej ei possuir um daqueles facões para cortá-los fora e silenciar aquela voz.
— Oh, Deus... — com ecei a rezar em voz alta, m as não consegui form ar um a única palavra m ais. Tentei engolir, m as m inha garganta se fechou. Não havia saliva em m inha boca, m ais seca do que areia. Fechei os olhos e rezei para que eu desaparecesse, m as as vozes soavam cada vez m ais alto. Eu sabia que eles não teriam piedade, e um pensam ento único ecoava em m inha m ente: Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar...
Pus a Bíblia na boca e apertei-a com toda a força entre os dentes. Queria engolir as palavras de Deus, levá-las até m inha alm a. Queria reencontrar Seu espírito, m as o espírito negativo que há tanto tem po m e atorm entava sem eava im agens terríveis em m inha m ente. Via nitidam ente o que os assassinos fariam quando nos encontrassem : via a tortura, a hum ilhação, a m orte...
Oh, Deus, por piedade! Gritei silenciosam ente. Por que Você me quer ver passar por tudo isso? Por quê? Que mais posso fazer para lhe provar que O amo? Quero crer, meu Deus, que Você vai nos salvar. Como posso aumentar minha fé? Rezo tanto, Deus, tanto... mas eles estão tão próximos, e eu estou cansada. Oh, Deus... estou tão cansada.
Sentia-m e tonta — a consciência foi se apagando até que as vozes retum bantes dos assassinos se tornaram um rugido surdo e distante. Dorm i... e sonhei com Jesus.
Eu flutuava acim a das com panheiras; elas trem iam no solo, abaixo de m im , e seguravam Bíblias sobre suas cabeças. Pediam a Deus m isericórdia. Olhei para o alto e vi que Jesus pairava m ais acim a, num lago de luz dourada, braços estendidos para m im . Sorri, e desapareceram as dores que se haviam tornado parte do m eu corpo depois de passar tanto tem po agachada. Já não sentia fom e, sede ou m edo — eu estava em paz... feliz.
E Jesus falou:
— Montanhas são m ovidas pela fé, Im m aculée, m as se fosse fácil ter fé, todas as m ontanhas haveriam desaparecido. Confie em m im , saiba que j am ais a abandonarei. Confie e não sinta m ais m edo. Confie, e eu a salvarei. Colocarei m inha cruz sobre esta porta, e eles não chegarão a você. Confie em m im e viverá.
Subitam ente vi-m e no chão outra vez, ao lado das com panheiras. Os olhos delas ainda estavam fechados, m as os m eus, bem abertos, viram um a grande cruz, feita de luz branca, que se estendia de parede a parede, diante da porta do banheiro. Ao olhar para a cruz, um a energia radiante tocou de leve m inha face e aqueceu m inha pele com o se fosse o sol. Soube instintivam ente que um a força divina em anava da cruz, e essa luz afastaria os assassinos. Tive certeza de que estávam os seguras e protegidas, então m e ergui de um salto, sentindo em m im m esm a a força de um a leoa. Agradeci a Deus por, m ais um a vez, m e haver tocado com Seu am or. Olhei para as outras m ulheres.
Pela prim eira e últim a vez durante todo o tem po em que perm aneci no banheiro, gritei para as com panheiras:
— Estam os salvas! Acreditem em m im ... Tudo vai ficar bem !
A altura da m inha voz atingiu-as com o um a tapa na face. Olharam -m e com o se eu fosse louca, depois estenderam as m ãos e m e puxaram para baixo. Sorri — em bora j á não visse a cruz sobre a porta, sabia que estava lá. Os assassinos haviam saído da casa... Ouvi-os cantar enquanto se afastavam .
À noite o pastor veio falar conosco.
— Eles foram diretam ente para o local onde eu passei o film e para vocês — explicou-nos. — Não deixaram nada inteiro lá. Com o não encontraram coisa algum a, quase não deixaram inteiro o m eu em pregado tam bém . Pediram -m e desculpas, m as j á não é seguro para vocês aqui. Despedi o em pregado... Agora ele está ressentido e desconfiado. É am igo dos outros em pregados e tenho certeza de que todos eles vão vigiar cada m ovim ento daqui para a frente. Tom ara que as tropas francesas cheguem logo a nossa região.
Por m ais algum as sem anas, vivem os em suspense. Os assassinos fizeram nova visita e viraram o quarto do pastor de cabeça para baixo à procura de algum sinal indicativo de que havia tútsis escondidos. E m ais um a vez prom eteram voltar.
O pastor estava tão preocupado com a possibilidade de que o estivessem espionando que passou a nos trazer com ida com m enor freqüência. Dizíam os de brincadeira que havíam os encontrado um m eio seguro de escapar dos assassinos — m orrer de fom e —, m as a fom e nos atorm entava m uito.
JÁ ERA O INÍCIO DE JULHO quando ouvim os um em pregado da casa bater à porta do quarto.
— Pastor, faz m uito tem po que não entro nesse banheiro. Não seria bom lim pá-lo agora?
Enrij ecem os todas... Essa tortura nunca teria fim ?
— Não se preocupe com o banheiro — o pastor respondeu. — Eu j á fiz a lim peza.
— O senhor não devia; isso é obrigação minha. Deixe-m e entrar e eu faço um a lim peza com pleta para o senhor.
— Não, eu perdi a chave, não uso m ais esse banheiro... pode ir em bora. Não quero ser incom odado.
— Quem sabe eu consigo abrir, m esm o sem a chave?
— Vá em bora! Já não lhe disse que não quero ser incom odado?
Em três m eses essa era a prim eira vez que alguém sugeria lim par o banheiro, portanto tudo indicava que o rapaz adivinhou onde nós estávam os escondidas. Ficam os apavoradas, certas de que ele iria cham ar os assassinos e avisá-los onde deveriam procurar: o único côm odo da casa que eles não haviam ainda revistado!
O rapaz se retirou, e o pastor veio dizer-nos que não acreditava que ele fosse im ediatam ente falar com os assassinos.
— Eles quase m ataram o outro rapaz quando não encontraram tútsis lá onde ele lhes disse para procurar — explicou —, portanto penso que este vai esperar até obter provas. Ele não irá hoj e, m as com certeza irá em breve.
Entreolham o-nos, sabendo que nosso prazo estava esgotado.
— Ouvi dizer esta m anhã que os soldados franceses estão na área, à procura de tútsis sobreviventes; vou falar com eles hoj e. Tratem de ficar o m ais quietas possível enquanto eu estiver fora — disse o pastor, e saiu de casa apressado.
Assim que ele se foi, o em pregado com eçou a torturar-nos. Pudem os ouvi-lo andar para lá e para cá sob a j anela do banheiro durante toda a m anhã. Sabíam os que estava atento ao som de vozes ou m ovim entos, para ter suas suspeitas confirm adas antes de contatar os assassinos. Não m ovem os um só m úsculo por m uitas horas.
Em determ inado m om ento, ele puxou um banco, ou um a m esa, para debaixo da j anela e subiu. Retivem os a respiração quando ele escalou a parede e quase desm aiam os quando vim os sua som bra contra a cortina. Felizm ente a j anela estava fora do seu alcance, m as ele passou o restante do dia ali, à espera de ouvir algum som .
À noite o pastor regressou, desta vez com boas notícias — talvez as m elhores que j á recebi na vida.
— Encontrei os franceses e contei-lhes a respeito de vocês. Eles não estão longe daqui e disseram -m e para levar vocês até lá am anhã, bem cedo, entre duas e três horas da m adrugada.
Mal pudem os acreditar no que ouvim os — íam os finalm ente deixar o banheiro. “Graças a Deus”, m urm uram os todas ao m esm o tem po.
Im ediatam ente, entretanto, o pastor esfriou nossos ânim os.
— Sim , graças a Deus — disse ele. — Só espero que não sej a tarde dem ais para vocês. Depois que deixei os soldados, encontrei um am igo que m e disse que os assassinos viriam novam ente revistar m inha casa. Virão esta noite, ou am anhã de m anhã — rezem para que sej a am anhã.
Rezam os m uito!
NÃO POSSUÍAMOS BAGAGEM PARA ARRUMAR — tudo o que tínham os eram as roupas que vínham os usando diariam ente, por três m eses. Tom ar um banho tam bém estava fora de questão, e nos contentam os com trançar os cabelos um as das outras. Queríam os estar o m ais bonitas e apresentáveis possível para o encontro com os soldados franceses. Não tínham os noção de que era impossível, a essa altura, dar-nos um a aparência agradável.
O pastor Murinzi chegou às duas horas e nos disse para esperarm os em seu quarto enquanto acordava os filhos e lhes contava a nosso respeito. Aproveitam os a espera para nos olharm os no espelho do quarto. Era a prim eira vez que nos víam os num espelho desde nossa chegada, e quase m orrem os do choque — parecíam os m ortas vivas. Nossas faces estavam flácidas, e nossos olhos tão afundados nas órbitas que nossas cabeças pareciam crânios vazios. As costelas eram salientes, as roupas pendiam de nossos corpos com o se penduradas em cabos de vassoura. Eu pesava 52 quilos ao entrar no banheiro e saí de lá com apenas 29. Todas nós sentim os desej os de chorar.
Quando o pastor retornou com seus dez filhos, todos recuaram im ediatam ente, exceto Lechim e Dusenge. Sentiram -se genuinam ente chocados e totalm ente confusos. As m oças com eçaram a chorar; um a delas chegou a sair do quarto correndo e gritando:
— Fantasm as! Fantasm as tútsis! Voltaram do m undo dos m ortos para nos m atar!
O pastor ordenou-lhe que calasse a boca e sossegasse, então explicou-lhes quem éram os.
Nenhum deles conseguiu acreditar que tínham os estado esse tem po todo escondidas na casa sem que eles percebessem . Tocaram -nos — apalparam nossos ossos faciais, costelas e braços — num a tentativa de convencer a si m esm os de que éram os realm ente hum anas. Tinham m il perguntas a fazer:
— Onde vocês estavam ? Com o couberam todas ali? O que vocês com iam ? Há quanto tem po estão aqui? Com o puderam ficar tão quietas? Vocês tom avam banho? Não falavam ? Com o conseguiam dorm ir sentadas?
Tentam os responder, m as estávam os exaustas por ficar de pé, e nossos m úsculos protestavam contra a posição ereta depois de passarm os tantos m eses sentadas no chão.
O pastor disse aos filhos que olhassem bem para nós.
— Em nom e de Deus, prestem atenção, e isto vale para vocês todos — recom endou. — Se tiverem a oportunidade de aj udar os desafortunados, com o essas senhoras, não deixem de fazê-lo, m esm o que signifique arriscar a própria vida. É assim que se deve viver, segundo a vontade de Deus.
Meu coração se abrandou em relação ao pastor. Claro, m uitas vezes, durante os últim os m eses, tinha ficado furiosa com ele, e algum as coisas que o ouvi dizer foram insensíveis, ignorantes e cruéis... Mas ele havia arriscado tudo por nós, e nos havia salvo. Ali, aguardando o com eço de um novo capítulo da m inha vida, senti-m e grata. Pedi a Deus que velasse por esse hom em depois de nossa partida.
Os filhos do pastor olharam orgulhosos para o pai, e depois para nós, cheios de com paixão — todos eles, isto é, m enos Sem beba. Esse era o filho que ouvíram os, sem anas antes, dizer ao pai que os tútsis m ereciam m orrer e que, agora, num canto, olhava para o chão contrariado. Rezei para que ele algum dia encontrasse a verdade e a m isericórdia divinas, e que não nos denunciasse aos assassinos antes de partirm os.
Shim we, a filha do pastor que havia fugido do quarto ao nos ver, deu-m e um a toalha e um dos seus suéteres para vestir. Abraçou-m e com força e disse que rezaria por m im . Depois do total isolam ento e tantas privações, faltam -m e palavras para descrever esse m om ento de terno contato hum ano.
Nós oito dissem os adeus aos dem ais filhos do pastor, e ele nos conduziu do banheiro para o ar fresco da noite.