Sobrevivi para Contar
Capítulo 19 - O Conforto do Acampamento
Capítulo 19 - O Conforto do Acam pam ento
CAPÍTULO 19
O Conforto do Acam pam ento
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O acam pam ento francês era um forte arm ado que m antinha os tútsis do lado de dentro e os hútus do lado de fora. Os soldados estacionaram oito veículos blindados, sem elhantes a tanques, em sem icírculo diante da escola, e o acam pam ento era patrulhado dia e noite, em toda sua extensão, por cerca de cem guardas. Nós perm anecíam os no interior do sem icírculo de blindados, com trinta soldados designados para nossa proteção as 24 horas do dia, e para nos acom panhar ao m ato quando tínham os que atender a um cham ado da natureza.
Os soldados franceses viviam a se desculpar pelas condições deploráveis sob as quais vivíam os, o que m e fazia rir. Em com paração ao lugar de onde eu tinha vindo, vivíam os em absoluto conforto. Para início de conversa, podíam os ir buscar água fresca em um riacho e lavar a nós m esm as e nossa roupa com sabão!
Dorm íam os ao ar livre, o que os franceses tam bém consideravam um grande desconforto, m as para m im era um prazer. Em bora m uitas vezes acordasse coberta de terra e gravetos, e dolorida por ter-m e deitado sobre pedras, eu adorava dorm ir fitando as estrelas — era com o contem plar a face de Deus ao findar o dia.
Não tínham os perm issão para cozinhar, o que não fazia m uita diferença, j á que não havia m antim entos frescos. Os soldados nos alim entavam com queij o e biscoitos, latas de leite em pó e frutas em conserva. Era um a dieta lim itada, m as aos poucos com ecei a engordar um pouquinho e parei de fazer furos adicionais no m eu cinto.
Diziam os franceses que sua m issão era proteger-nos, e eles a cum priam bem — nem um a vez m e senti am eaçada pelos assassinos enquanto estive no acam pam ento. No entanto, os hútus m uitas vezes se reuniam do lado de fora do cam po e espreitavam por entre os blindados para nos espiar. Observavam -nos com o se fôssem os anim ais num j ardim zoológico... Sobreviventes únicos de um a espécie que, de tão caçada, estava à beira da extinção.
— Eles olham para vocês com o se fossem anim ais, m as os anim ais são eles — disse-m e o capitão da tropa, certa m anhã, pouco depois da m inha chegada. Quando soube que eu era fluente em francês, tivem os um a longa conversa. Contei-lhe m inha história e ele se m ostrou m uito interessado. Sabia de tudo que os tútsis haviam sofrido em Ruanda e tinha conhecim ento da nossa história e conflitos étnicos.
— Cá entre nós, não sei com o o m eu presidente pode ter a consciência tranqüila — com entou. — A França tem as m ãos m anchadas de sangue, j á que ensinam os a tantos desses hútus a arte de m atar.
Foi essa a prim eira vez que ouvi um estrangeiro assum ir a culpa pelo que acontecia em Ruanda, e fez m uito bem à m inha alm a. Muitas vezes m e havia desesperado, ao ouvir o rádio do pastor, por perceber que o m undo sabia o que estava acontecendo, m as preferia ignorá-lo.
— Obrigada por ser tão com preensivo — respondi ao capitão. — Os autores de tudo isso são gente m uito m á.
— Má, Im m aculée? Gente má? Eles são cruéis. São m onstros! Quero que você saiba que está a salvo. Enquanto eu chefiar isto aqui, nada de m au lhe acontecerá — disse ele, apalpando o revólver no coldre à sua cintura. — Farei m ais do que protegê-la: vou fazer-lhe j ustiça. Que isto, m ais um a vez, fique entre nós, m as se desej a vingança, conte com igo. Dê-m e os nom es dos hútus que a perseguiram , ou dos que m ataram seus pais e irm ãos, e m andarei m atá-los para você.
O oferecim ento chocou-m e. Isso era o que eu desej ava durante m eus prim eiros dias no banheiro, quando o pastor nos contou as atrocidades com etidas contra nós. Então eu desej ei possuir arm as — fuzis e canhões para destruir hútus —, porque ansiava por vingança. Mas isso foi antes que eu abrisse m eu coração para a m isericórdia divina e fizesse as pazes com os assassinos.
A vingança que o capitão m e oferecia era perfeita: soldados treinados e bem arm ados, que m atariam quando eu ordenasse. Tudo o que eu tinha a fazer era m urm urar um nom e, e m inha fam ília seria vingada... e tam bém as fam ílias dos m ilhares de corpos que apodreciam nas ruas. O oferecim ento foi feito de coração, m as pude perceber o m al em sua voz. Tentava-m e com prom essas de m ortes, quando o que eu m ais desej ava era a paz. Enfiei a m ão no bolso e trancei os dedos em volta do rosário de m eu pai.
— Obrigada por m e oferecer...
— Matarei qualquer hútu, basta você m e pedir. — Ele parecia tão desej oso de m atar que não m e perm itiu term inar m inha frase. — Se houver algum hútu neste acam pam ento, diga-m e quem é ele e eu m esm o cuidarei de fuzilá-lo. Odeio todos eles.
— Os hútus não são por natureza m aus, capitão, apenas os assassinos. Foram induzidos pelo dem ônio... afastaram -se de Deus e...
— Im m aculée, os hútus são cruéis — interrom peu novam ente o capitão. — O que eles com eteram foi crueldade. Não m e diga que se trata da vontade de Deus ou de astúcia do dem ônio... Isso é obra dos hútus, e eles pagarão por isso. Se você m udar de idéia, avise-m e. Você sabe que não ofereço isso a qualquer um .
Rezei para que Deus tocasse o coração do capitão com sua com paixão e ainda para que os assassinos depusessem seus facões e im plorassem o perdão de Deus. A raiva do capitão m e fez pensar que o ciclo de ódio e desconfiança não se rom peria facilm ente em Ruanda. Haveria ainda m ais am argor quando cessasse o m orticínio, am argor que facilm ente descam baria em m ais violência. Só m esm o a clem ência divina poderia im pedir que isso acontecesse agora. Percebi que, fosse qual fosse o cam inho que Deus m e reservava, aj udar a outros a perdoar seria um a parte significativa da m inha m issão.
No dia seguinte, o capitão m ostrou-se à altura de suas palavras — ele odiava m esm o os hútus. Um hom em entrou sangrando no acam pam ento e alegou ser um sobrevivente do genocídio, ferido em luta ao lado dos rebeldes tútsis, m as o capitão não acreditou. Os soldados obrigaram o hom em a ficar de j oelhos e o interrogaram , com os revólveres encostados em sua cabeça. Perguntaram -lhe se fazia parte dos Interaham wes, o que ele negou de início. No entanto, com a continuação do interrogatório, ele acabou se descontrolando e confessou. O capitão fez um sinal a seus com andados, que arrastaram o hom em para fora, e j am ais tornam os a vê-lo. Um soldado m e contou m ais tarde que o hom em tinha adm itido ser um espião Interaham we.
— Não se preocupe com ele. Esse nunca m ais vai incom odar ninguém — disse o francês.
CUIDEI MELHOR QUE PUDE DE MINHAS TIAS E PRIMAS, conseguia-lhes com ida suficiente, rem édios que obtinha com os soldados e tratava suas feridas — fazia inclusive questão de dorm ir perto delas, para o caso de acordarem assustadas no m eio da noite. Mas, ao contrário do que possa pensar o leitor, não passava todo m eu tem po em sua com panhia. Sentia-m e feliz por estarem vivas e em segurança, m as elas não substituíam a fam ília que eu havia perdido. Eu queria com eçar um a vida nova.
Era difícil para m im conviver até com as senhoras com que havia ficado presa no banheiro. Vivíam os em lados opostos do acam pam ento, e, em bora trocássem os sorrisos, raram ente conversávam os. Mesm o vivendo confinadas por tanto tem po, não nos conhecíam os bem de verdade. Nossa com unicação havia sido através de sinais e leitura labial, e girava quase que exclusivam ente em torno do m edo, terror e desespero. Talvez tivéssem os nos tornado am igas, se no banheiro pudéssem os conversar, m as, no m om ento, avistar-nos no acam pam ento trazia de volta um acúm ulo de m em órias dolorosas.
De todo m odo, não faltaram oportunidades para fazer novos am igos. Grupos de refugiados tútsis chegavam diariam ente, a m aioria deles confusos e desorientados, e só falavam kiny arwanda. Porque eu era bilíngüe, o capitão pediu-m e que fizesse o registro de todos os recém -chegados, e senti-m e feliz em ser útil. Eu anotava os nom es e a idade, relatava seus ferim entos e necessidades m édicas aos franceses. Tam bém anotava suas histórias pessoais e tudo que enfrentaram . Com isso, ouvi relatos apavorantes, m as fiz tam bém am izades duradouras.
Um a de m inhas novas am igas era Florence, um a j ovem quase da m inha idade, dona de um sorriso doce e inocente. Era m uito bonita, apesar da cicatriz profunda que descia por sua face, por ter sido cortada entre os olhos com um facão. Anotei sua história, a qual, infelizm ente, era tão com um quanto horripilante.
Florence vivia num a aldeia não m uito distante da m inha. Quando o genocídio com eçou, sua fam ília, com m ais trezentos vizinhos, solicitou asilo na capela local, na esperança de que os assassinos respeitassem a santidade da igrej a. Mas o fato de encontrarem tantos tútsis reunidos num único lugar tornava m ais fácil o trabalho dos assassinos, a quem bastava cam inhar ao longo dos bancos brandindo suas lâm inas.
— Não possuíam os arm as, nada para nos defender — queixou-se Florence com os olhos grandes e lindos cheios de lágrim as. — Houve alguns gritos e pedidos de piedade, m as a m aioria de nós sim plesm ente continuou sentada esperando sua vez de ser sacrificada. Com o se achássem os que m erecíam os ser m ortos, que fosse tudo m uito natural. Eles m e alcançaram , e a única coisa de que m e lem bro é do facão descendo em direção ao m eu rosto. Então acordei no cam inhão.
O ferim ento de Florence era profundo, m as não m ortal — m esm o assim os assassinos a j ogaram na carroceria de um cam inhão, j unto com os cadáveres. Ao acordar, ela se viu em cim a dos corpos de seus pais, e sua irm ã em cim a dela.
— Minha irm ã tinha um a lança enfiada no peito... estava quase m orta, m as ainda agonizava. Tentei estender-lhe a m ão, m as um dos assassinos no cam inhão percebeu m eus m ovim entos e com eçou a m e espetar com um a lança — aqui, aqui e aqui — e ela m ostrou o peito, o estôm ago e a coxa. — Não pestanej ei quando ele m e perfurou; em vez disso, pedi a Deus que m e livrasse da dor e salvasse m inha vida. O assassino deve ter pensado que eu estava m orta, j á que sangrava m uito.
O cam inhão parou à beira de um rochedo acim a do rio Akany aru, um local favorito dos Interaham wes para se desfazer dos cadáveres.
— De cim a do rochedo, j ogaram todos os corpos para dentro do rio — continuou Florence. — Lem bro-m e de com o eles m e pegaram e balançaram no ar, lem bro tam bém do ruído da correnteza ao longe, m as não m e recordo da queda. Acordei no dia seguinte, na lam a, na m argem do rio. Meus pais e m inha irm ã tam bém estavam ali, m as estavam m ortos. Olhei para o rochedo lá em cim a e não entendi com o havia sobrevivido: era um a queda de pelo m enos 60 m etros. Só posso crer que Deus m e salvou com algum propósito.
Florence continuou na m argem do rio por m ais um dia, até poder levantar-se e sair dali. Encontrou um a casa onde uns hútus bondosos a receberam , cuidaram de suas feridas e a esconderam .
— Em bora tenham salvado m inha vida — seguiu relatando Florence —, o filho deles saía todas as m anhãs para se encontrar com os Interaham wes e continuou m atando tútsis na m inha cidade, até que não restasse um só para m atar. Nada m ais faz sentido para m im , Im m aculée. Por que você acha que sobrevivi, e não m eus pais e m inha irm ã?
— Deus a poupou por algum m otivo — respondi-lhe. — Estou escrevendo sua história, que será lida algum dia por alguém que saberá o que aconteceu. Você, com o eu, sobreviveu para contar.
SERVI MUITAS VEZES COMO INTÉRPRETE entre os refugiados e nossos hospedeiros franceses; conseqüentem ente acabei conhecendo vários dos soldados. Um deles, Pierre, se interessou particularm ente por m im . Tinha sido designado para o patrulham ento do círculo interno do acam pam ento no horário diurno, m as, à noite, quando eu ia olhar as estrelas, gostava de passar o tem po conversando com igo.
Pierre era um rapaz sim pático, poucos anos m ais j ovem do que eu, m uito cortês, atencioso e um bom ouvinte. Contei-lhe o que havia acontecido a m inha fam ília e a nossa aldeia, e ele m e falou sobre seus pais, sua vida na França e a nam orada com a qual rom peu antes de vir para Ruanda. Quando m e perguntou se eu tinha nam orado, contei-lhe a respeito de John e da indiferença que se havia estabelecido entre nós.
Sentia-m e m uito bem ao lado de Pierre e gostava de sua com panhia. Conversar com ele m e fazia esquecer m inha realidade cotidiana, pelo m enos tem porariam ente. À m edida que passava o tem po, Pierre passou a arranj ar desculpas para estar com igo: trazia-m e com ida, acom panhava-m e quando eu ia ao rio buscar água e conseguia-m e livros. Seus am igos faziam pilhérias com ele por causa disso, m as eu não m e im portava. Ter um am igo íntim o que não sofria as conseqüências do genocídio era um alívio, e falar-lhe dos m eus sonhos e esperanças fazia com que m e sentisse hum ana outra vez.
Um dia, Paul, am igo de Pierre, disse-m e que o j ovem soldado estava encantado por m im , o que m e fez rir m uito. Eu não trocava de roupa ou tom ava um banho direito há m ais de três m eses.
— Você está enganada, Pierre fala em você o tem po todo — garantiu-m e Paul. — Diz que você, apesar de tudo que enfrentou, m antém o coração aberto e tem m uito senso de hum or.
— Do j eito que vocês brincam com igo a esse respeito, eu tenho m esm o que ter senso de hum or — disse eu. Mas logo percebi que Paul não estava brincando; Pierre estava m esm o encantado por m im .
Senti-m e lisonj eada, m as não estava interessada. Tinha acabado de perder m inha fam ília e nem m esm o sabia se viveria até o final da guerra. Tinha tam bém perdido o interesse por rom ances desde que John m e desapontara tão seriam ente. Mesm o assim , Pierre m e fez conj eturar se acaso m eu coração desiludido seria capaz de um dia am ar alguém .
Quando ele veio m e ver à noite e m e cham ou para dar um passeio, achei m elhor dizer-lhe para não desperdiçar com igo sua afeição. Mas Pierre falou com tanta convicção, tanta paixão, que m e pegou desprevenida.
— Você se tornou para m im m uito m ais do que um a am iga, Im m aculée — disse ele com ar sério. — Você é m uito especial. Com tanta m orte, dor e violência em torno, sei que isso é a últim a coisa que você quer ouvir no m om ento, m as acho que eu a am o.
Eu esperava que ele dissesse algo do gênero, m as fiquei surpresa com a sinceridade que transparecia em sua voz.
— Pierre — respondi-lhe carinhosam ente —, m eu coração está tom ado pela dor e só tem lugar, neste m om ento, para Deus. Nem consigo m e im aginar m e apaixonando por alguém ... E tenho que pensar nos problem as que ainda tenho pela frente. Preciso cuidar de m im m esm a.
Ele pegou m inha m ão.
— Estou falando sério... Eu a am o e cuidarei de você. Quero ficar com você, não quero perdê-la.
A intensidade dele m e im pressionou, m as eu percebia que as circunstâncias, e não Deus, nos haviam reunido. Deus m e havia m ostrado que John não era o hom em que Ele m e destinava e, naquele m om ento, m ostrou-m e que Pierre tam bém não. Não m e parecia certo — e eu sabia que, quando estivesse pronta, Deus m e m ostraria o am or. E quando isso acontecesse, não haveria dúvidas nem receios.
— Não, Pierre... não. No m om ento m eu coração pertence m ais aos m ortos que aos vivos... Nem tive tem po ainda de vivenciar m eu luto. Sua am izade é m uito im portante para m im , e desej o que continue assim . Portanto, por favor, vam os ser apenas am igos.
— Com preendo — ele falou com voz triste. — Se não posso ter o seu am or, m elhor deixá-la. Direi adeus e... boa noite, querida. — Curvou-se em direção aos m eus lábios e surpreendeu-m e com um beij o na boca. Fechei os olhos e, durante o breve m om ento em que os lábios dele tocaram os m eus, senti que o calor do beij o aliviava m inha dor e m inha tristeza. Pierre se afastou em direção aos com panheiros e deixou-m e, com um sorriso resignado. Eu confiara em Deus, a única coisa certa a fazer.
EU DESEJAVA ARDENTEMENTE ENTRAR EM CONTATO COM MEU IRMÃO AIMBALE, para avisá-lo de que estava viva, m as o correio não funcionava, nem os telefones — nem eu sabia o seu núm ero ou tinha dinheiro com o qual pagar a cham ada. Aim able estava a quase 5 m il quilôm etros de distância, estudando no Senegal, e eu rezava para que ainda estivesse lá. Se tivesse voltado para Ruanda, com certeza estaria m orto, com o o restante da fam ília. Seria preciso esperar pelo final da guerra para entrar em contato com ele.
Mas quando seria o final da guerra? Os franceses não dividiam com igo suas inform ações, e não tínham os um rádio para ouvir. As únicas notícias eram as que nos traziam os recém -chegados ao nosso cada dia m ais lotado acam pam ento.
Lá pelo final de j ulho, soube que a FPR havia vencido no Norte, m as a luta continuava no Leste e no Sul. Os franceses controlavam Ruanda Ocidental, inclusive as m argens do lago Kivu, e a fronteira com o Zaire. Essas eram boas notícias, m as nossa situação era ainda extrem am ente perigosa. Centenas de m ilhares de refugiados hútus estavam na região, na tentativa de chegar ao lago Kivu e fugir para o Zaire.
A cada dia m ais sobreviventes tútsis eram deixados à entrada do acam pam ento. Nas três sem anas transcorridas desde a m inha chegada, nosso núm ero havia aum entado de duas dúzias para quase 150 — e eu continuava a anotar suas histórias e condições físicas. Muitos desses refugiados estavam gravem ente feridos, deform ados por algum tipo de tortura, ou faltava-lhes algum m em bro. Suas feridas estavam freqüentem ente tão infeccionadas que eu sabia que não sobreviveriam . E entre os que não perderam algum m em bro, havia m uitos que perderam a razão, enlouquecidos pela privação, pelo sofrim ento e pelo horror gravado em suas m em órias.
Dentre as m inhas tarefas, a m ais difícil era lidar com os órfãos. Não m e esqueço, por exem plo, de dois irm ãos, de 3 e 4 anos de idade, oriundos de Kigali. Seus pais os esconderam no forro da casa quando os assassinos chegaram . Os pais foram m ortos, e os m eninos recolhidos alguns dias m ais tarde por vizinhos hútus caridosos, que os trouxeram para o sul quando fugiram da capital para escapar ao conflito. Entregaram os m eninos a soldados franceses, explicando que pretendiam cruzar a fronteira com o Zaire, um a viagem arriscada dem ais para crianças.
Por um m otivo qualquer, os soldados se esqueceram de anotar os nom es dos vizinhos ou das crianças. Além disso, os dois tinham febre alta ao chegarem ao acam pam ento, do qual eram os habitantes m ais j ovens, sem pais ou parentes que cuidassem deles. Adotei-os e m e encarreguei de zelar por eles. Com a aj uda do capitão, instalei cam as para eles dentro da escola e consegui rem édios para baixar sua febre.
Ouvir sua conversa era de partir o coração. Tinham visto os cadáveres dos pais, m as eram pequenos dem ais para entender que a m orte era irreversível. O m ais velho tentava tom ar conta do m ais novo e recom endava-lhe sem pre que fosse gentil com estranhos. O m enorzinho, de 3 anos, insistia em pedir refrigerantes e batatas fritas, e o m ais velho respondia com toda paciência.
— Lem bre-se, aqui não é a nossa casa... Aqui não tem refrigerante nem batata frita. Tem os que esperar papai e m am ãe virem buscar a gente; aí a gente vai ganhar coisas gostosas. Não podem os fazer birra, ou podem acontecer m ais coisas ruins. — E quando o irm ãozinho chorava, ele o abraçava e dizia:
— Não chore... papai e m am ãe vão voltar logo e você vai ganhar batata frita. Vam os esperar papai e m am ãe, depois tudo vai dar certo.
Esses m eninos j am ais voltariam a ver os pais, e, com toda probabilidade, seus dem ais parentes tam bém deviam estar m ortos. Tem i que o futuro só lhes reservasse tristeza, violência e falta de oportunidades — o tipo de vida em que se enraízam a am argura e o ódio.
Eu percebia o círculo de ódio e desconfiança que se form ava nesses olhos inocentes e tive certeza de que Deus estava m e apontando outra razão para m e haver poupado. Jurei que algum dia, quando recuperasse as forças e j á m e sentisse capaz, faria tudo que estivesse em m eu poder para aj udar os órfãos do genocídio. Tentaria levar esperança e felicidade a suas vidas e evitar que abraçassem o ódio que os privara de pais e do am or de um a fam ília.
NO COMEÇO DE AGOSTO, O CAPITÃO COMUNICOU-ME que o acam pam ento estava tão lotado que pretendia levar para outro local a m aioria dos refugiados. O novo acam pam ento era um lugar fechado, em um a escola secundária na cidade de Kibuy e, com água corrente, m elhor alim entação e cam as de verdade. Fiz questão de que “m eus” m eninos estivessem na prim eira leva, para gozarem de algum conforto. Tam bém consegui que m inhas tias e prim as fossem transferidas — sim , seu estado havia m elhorado, m as precisavam estar sob um teto e entre quatro paredes para se sentirem m ais seguras. Eu pretendia ir j unto, e cuidar de todos, m as o capitão pediu-m e que ficasse para aj udá-lo na direção do acam pam ento. Ainda precisavam de um a intérprete, e novos refugiados chegavam diariam ente.
— Ficando aqui, você aj udará a salvar vidas — foi o que ele m e disse.
Com o recusar? Continuei no acam pam ento e nunca m ais tornei a ver os dois irm ãozinhos. Mas não m e esqueci da prom essa de cuidar de outros órfãos da violência, o que m enos faltava em Ruanda.
Cerca de trinta refugiados perm aneceram no antigo acam pam ento, entre eles os oito que haviam se tornado m eus am igos, com o Florence e Jean Paul. Nosso grupinho se tornara unido e nos sentíam os com o um a pequena fam ília. Nossos laços eram efetivam ente tão fortes que nos recusam os a ser transferidos, a não ser que fôssem os j untos os nove.
Seguim os recebendo refugiados tútsis, m as o acam pam ento se havia transform ado num a espécie de estação de trânsito. Eu registrava os sobreviventes que, dentro de um ou dois dias, eram levados para o aloj am ento m aior, na cidade. Então, no início de agosto, tom ei contato com algo de que estava privada há m eses: risadas sonoras, calorosas, anim adas. Eram as risadas de um a m ulher que fazia parte de um novo grupo de refugiados, sentada num a cadeira de rodas que os soldados desciam do cam inhão. Era um a m ulher pesada, e suas pernas tão atrofiadas que j am ais lhe perm itiriam andar. Do que riria ela no m eio de tanta tristeza, pensei. Ria pela sim ples razão de estar viva — soube depois.
Observei os soldados pousarem no chão a cadeira de rodas e, a seguir, entregarem -lhe duas crianças. Essas cobriram seu rosto de beij os, e ela tornou a rir — sua risada ecoou pelo acam pam ento.
— Essa é Aloise — inform ou Jean Paul. — Tem os um a celebridade no cam po.
Eu j á havia ouvido falar em Aloise. Meus pais falavam m uito bem dela quando eu era pequena, citando-a com o um exem plo de com o é possível vencer na vida pelo trabalho e determ inação. Contaram -m e que Aloise tivera pólio aos 9 anos de idade e nunca m ais pôde andar, m as continuou e ter notas altas na escola e era considerada um a das m ais talentosas estudantes em Ruanda. E isso era tudo que eu lem brava, m as, aparentem ente, ela se tornara bem fam osa no país — m uitos habitantes do cam po de refugiados a conheciam de nom e.
Jean Paul contou-m e que o m arido de Aloise trabalhava na sede das Nações Unidas de Kigali, e ela conhecia todos os diplom atas e em baixadores.
— Ela m antém boas relações com todo m undo e consegue em prego para qualquer um — disse Jean Paul com adm iração. — Dizem que, se não fosse portadora de um a deficiência, teria sido prim eira-m inistra. Sei que ela é tútsi, m as, anos atrás, com prou um a carteira de identidade hútu para ter o direito de obter contratos com o governo... É um a m ulher m uito esperta.
— Bem , acho que é hora de registrar nossa hóspede fam osa — respondi. E fui com m eu bloco de notas em direção ao cam inhão.
De sua cadeira de rodas, Aloise olhou para m im . Sua hilaridade se interrom peu abruptam ente, e ela se pôs a chorar.
— Meu Deus, você é a cara da sua m ãe... e do seu pai tam bém . Sem pre quis visitar você e sua fam ília, m as, com estas pernas, não foi possível.
Achei que a m ulher estava louca ou m e confundia com outra pessoa. Nunca nos havíam os encontrado, com o ela podia saber quem eu era?
— Não olhe para m im com o se eu tivesse perdido o j uízo, Im m aculée Ilibagiza. Sei m uito bem quem você é. Seus pais, que Deus guarde suas alm as, eram grandes am igos m eus.
Aloise colocou as crianças no chão, enxugou as lágrim as e m e estendeu os braços.
Aproxim ei-m e hesitante e estendi-lhe a m ão para um cum prim ento, m as Aloise segurou m eu braço, puxou-m e para si e deu-m e um abraço m uito apertado. E não m e soltava nunca.
— Sua m ãe salvou m inha vida. Aposto que você não sabe disso. Quando eu ainda tinha 8 anos de idade, sua m ãe ouviu dizer que eu adorava a escola m as m eus pais não tinham m ais dinheiro para m e m anter m atriculada. Pois bem , ela pagou m inhas m ensalidades por um ano... e continuou pagando m esm o depois que não pude m ais andar. Senti-m e tão agradecida que j urei que faria algo útil da m inha vida, e estudei m ais que todos os m eus conhecidos. Tudo que tenho hoj e devo a sua m ãe, Im m aculée. Ela era um a santa.
Finalm ente Aloise afrouxou o abraço e cam baleei para trás. Sentia-m e pasm a por esse estranho encontro com essa m ulher avassaladora. Precisava afastar-m e para m e recom por, então disse:
— Vou buscar água e com ida para você e seus filhos. Volto logo, e farem os sua ficha de registro.
Já ia m e afastando quando Aloise bradou:
— Im m aculée, acho que foi o espírito de sua m ãe que m e trouxe aqui! Tenho um a dívida para com ela, e vou pagá-la aj udando você. Me dê um tem po para pensar... Vou descobrir algum m eio de aj udá-la.
Acenei e continuei m eu cam inho, pensando o que um a refugiada, num a cadeira de rodas, com dois filhos pequenos para cuidar, poderia fazer por m im . Um a vez m ais eu teria que aprender que Deus age de m aneira m isteriosa.
No dia seguinte, quando fiz o registro de Aloise, ela m e contou que, em bora legalm ente fosse um a hútu, seu m arido, Fari, era um tútsi. Com isso, seus filhos, Sam i e Kenza, tam bém eram considerados tútsis. Tem endo pela segurança das crianças, havia fugido de sua casa em Kigali para se abrigar na casa dos pais. Quando partiu, seu m arido ficou escondido no forro do telhado, e ela não tinha idéia se estava vivo ou m orto.
— Já sei o que posso fazer por você em troca da generosidade de sua m ãe — disse-m e Aloise. — Assim que a luta chegar ao fim , vou levá-la com igo para m inha casa em Kigali. Você poderá m orar conosco com o nossa filha.
Havia algo em Aloise em que eu não conseguia confiar. Sorri para ela e agradeci pela oferta, m as disse-lhe que havia form ado um a pequena fam ília com am igos do acam pam ento, e que prom etem os perm anecer j untos. Ela encolheu os om bros e disse que eu estava certa em perm anecer com pessoas em quem confiava. Pensei que aí se encerrava o assunto, m as, no dia seguinte, eu estava com m eus am igos quando ela veio m e procurar.
— Im m aculée, pensei bastante e decidi que, se tem m edo de que eu a seqüestre, você pode trazer seus am igos para Kigali tam bém . Ficarão os nove em m inha casa! Vai ficar um pouco apertado, m as arranj arem os lugar para todos.
Olham os uns para os outros e rim os. Não sabíam os com o responder a um a oferta tão estranha e generosa.
— Pensem nisso — disse Aloise, afastando-se em sua cadeira de rodas. — O que vocês pensam que vão fazer depois da guerra? Estão todos traum atizados... Não acredito que eu tenha que im plorar a vocês que venham m orar em um a bonita casa na cidade. A guerra está quase term inada... Com ecem a pensar em seu futuro.
Aloise tinha razão. A capital tinha caído em m ãos dos rebeldes, era apenas um a questão de tem po antes que a luta tivesse fim . Tínham os perdido nossas fam ílias, nossos lares, até nossas roupas, e não tínham os um único centavo de nosso. Não dem oram os m uito para concluir que era um a boa idéia aceitar o convite de Aloise. No dia seguinte, fom os em grupo agradecer e aceitar.
— Não agradeçam a m im , e sim à m ãe de Im m aculée — ela respondeu. — É pela Rose que eu faço isso, e não por vocês.
Então deu início a um a risadinha, que foi aum entando até que, um a vez m ais, gargalhadas alegres, calorosas, ecoaram no cam po de refugiados.