Sobrevivi para Contar
Introdução
Eu m e cham o Im m aculée
_
Ouvi quando os assassinos cham aram m eu nom e.
Estavam do outro lado da parede, m enos de 2,5 centím etros de gesso e m adeira nos separavam . Suas vozes eram frias, duras e decididas.
— Ela está aqui... sabem os que está aqui em algum lugar... Tratem de encontrá-la, encontrem Im m aculée.
Eram m uitas as vozes, m uitos os assassinos. Eu podia vê-los com os olhos da m ente: m eus antigos am igos e vizinhos, que sem pre m e haviam recebido com am or e bondade, andavam pela casa, m unidos de lanças e facões, e cham avam m eu nom e.
— Já m atei 399 baratas — disse um deles. — Com Im m aculée serão quatrocentas. Esse é um bom núm ero para se m atar.
Encolhi-m e, sem m exer um m úsculo sequer, em um canto de nosso m inúsculo banheiro secreto. Assim com o as outras sete m ulheres que se escondiam com igo para proteger suas vidas, prendi a respiração para que os perseguidores não nos ouvissem .
Suas vozes dilaceravam m inha carne. Senti-m e em fogo, com o se estivesse deitada sobre um leito de carvões ardentes. Um a avassaladora onda de m edo tom ou conta de m im ; m ilhares de agulhas invisíveis penetraram m eu corpo. Eu nunca havia im aginado que o m edo pudesse provocar tam anho sofrim ento físico.
Tentei engolir, m as m inha garganta se fechou. Não havia saliva em m inha boca, que parecia m ais seca do que areia. Fechei os olhos, na tentativa de desaparecer, m as as vozes soavam cada vez m ais alto. Eu sabia que eles não teriam piedade, e um único pensam ento ecoava em m inha m ente: Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar. Se me pegarem, eles vão me matar...
Os assassinos estavam do outro lado da porta, eu sabia que a qualquer m om ento eles m e encontrariam . Tentei im aginar o que sentiria quando o facão cortasse m inha pele e penetrasse até os ossos. Pensei em m eus irm ãos e em m eus queridos pais, perguntando a m im m esm a se estariam vivos ou m ortos, e se em breve estaríam os reunidos no paraíso.
Juntei as m ãos, segurei o rosário de m eu pai e com ecei a orar silenciosam ente:
— Ó, Deus, por favor, me ajude. Não permita que eu morra assim, assim não. Não permita que esses assassinos me encontrem. O Senhor nos diz na Bíblia que se pedirmos, receberemos... pois bem, Deus, eu estou pedindo. Por favor, faça com que esses assassinos se afastem. Por favor, não permita que eu morra neste banheiro. Por favor, Deus, por favor, por favor, por favor, me salve por favor! Me salve!
Os assassinos abandonaram a casa e todas nós voltam os a respirar. Eles partiram , m as voltariam inúm eras vezes durante os três m eses seguintes. Acreditei que Deus havia poupado a m inha vida, m as, durante os 91 dias que passei trem endo de m edo, com m ais sete pessoas, num banheiro do tam anho de um arm ário, eu aprenderia que ser poupada não é o m esm o que ser salva... e essa lição m e m odificou para sem pre. Foi um a lição pela qual, em m eio a assassinatos em m assa, aprendi a am ar os que m e odiavam e perseguiam — e com o perdoar aqueles que executaram m inha fam ília.
Meu nom e é Im m aculée Ilibagiza. Esta é a história de com o encontrei Deus durante um dos holocaustos m ais sangrentos da História.