Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 20 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 15 - Os Improváveis Salvadores

Capítulo 15 - Os Im prováveis Salvadores

CAPÍTULO 15

Os Im prováveis Salvadores

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As prim eiras notícias verdadeiram ente boas que tive, pouco depois, vieram -m e quando o m orticínio estava no auge, e atos de crueldade viraram a norm a.

Em m eados de j unho, m ais de dois m eses após nosso confinam ento no esconderij o, ouvi Sem beba, filho do pastor, conversar com am igos sob a j anela do banheiro. Falavam a respeito de m ortes recentes que presenciaram na vizinhança, ou sobre as quais am igos lhes contaram em prim eira m ão, e as atrocidades que descreveram foram das m ais horríveis que j á ouvi.

Cheguei a pensar que vom itaria ao ouvir um dos rapazes descrever perversidades inim agináveis, tão casualm ente quanto se estivesse narrando um a partida de futebol.

— Eles agarraram um a m ãe, e todos se aproveitaram dela. Ela im plorava que tirassem seus filhos dali, m as eles seguraram o m arido e seus três filhinhos, am eaçando-os com facões encostados à garganta. Obrigaram todos eles a assistirem enquanto oito ou nove deles estupraram a m ulher. No final, m ataram toda a fam ília.

Botei as m ãos na cabeça enquanto eles trocavam entre si histórias horríveis. Contaram que crianças foram deliberadam ente deixadas vivas e sofrendo depois de seus m em bros serem am putados, bebês esm agados contra rochedos, e que soldados HIV positivos receberam ordens para estuprar garotas adolescentes e infectá-las.

Houve m uito m ais, m as tapei os ouvidos e im plorei silenciosam ente, Oh, Deus, se é isso que nos espera, por favor, receba-me agora em Seus braços amorosos! Leve-me para viver no Paraíso com Você, tire-me do inferno em que este país se transformou.

Aos poucos, a conversa lá fora passou dos crim es de guerra à guerra propriam ente dita. Alguns rapazes disseram que os soldados do governo estavam sendo de tal form a derrotados que Kigali cairia em breve nas m ãos dos rebeldes. Estavam todos eles preocupados com o que aconteceria aos hútus se os rebeldes saíssem vitoriosos.

Sem beba contou que tinha ouvido dizer que os franceses m andariam tropas para Ruanda. Ele e seus am igos sentiram -se um pouco aliviados, pois os franceses eram ligados ao governo hútu. Os rapazes acreditavam que os franceses aj udariam o governo a derrotar os tútsis rebeldes e a expulsar do país a FPR. Nesse caso, a guerra term inaria, e os assassinos poderiam com pletar de vez sua m issão sinistra.

De início, eu não sabia ao certo o que pensar do envio de tropas francesas. Muita gente dizia que os franceses haviam aj udado a treinar os Interaham wes, portanto era possível que os franceses viessem para aj udar o governo a com pletar o genocídio.

Mas eu não acreditava nessa possibilidade. Não, se os franceses ocupassem Ruanda, estariam sob os olhos do m undo inteiro. Haveria câm eras de TV e repórteres, o que queria dizer que o m undo veria as im agens do m orticínio, do m assacre e dos estupros. E se os habitantes dos países ricos vissem com seus próprios olhos — realmente vissem — o que estava acontecendo, eles teriam que fazer algum a coisa. Teriam que interrom per o genocídio... Não é m esm o?

Mesm o que eles tivessem aj udado a treinar os assassinos, decidi, seria bom que os franceses viessem , pois qualquer estrangeiro cham aria a atenção do m undo para o nosso dram a. Rezei para que chegassem bem e agradeci a Deus por enviá-los. Verdade sej a dita que, de acordo com seu histórico em nosso país, os franceses eram os salvadores m enos prováveis. Mas algo eu havia aprendido durante m inha vida no banheiro: que Deus realm ente age de m odo m isterioso.

Poucos dias depois, ouvim os no rádio um a reportagem a respeito da Operação Turquesa, com o foi cham ado o proj eto francês de enviar tropas para Ruanda. Soldados de vários países de língua francesa acam pariam perto do lago Kivu, que não ficava longe de onde estávam os.

Ao chegarem a Gom a, no Zaire e perto da fronteira de Ruanda, foram recebidos no aeroporto, com grandes cerim ônias de boas-vindas, pelos governantes hútus. Pelo rádio, escutam os o coral hútu que recebeu os soldados com um a canção com posta especialm ente para a ocasião, que entoava elogios aos franceses e celebrava a duradoura relação de am izade entre os dois países.

O pastor inform ou-nos que a cerim ônia era um a prova de que os franceses vinham a Ruanda para m atar tútsis, m as discordei. Estava certa de que Deus, um a vez m ais, atendia às m inhas orações, desta vez enviando alguém em nosso socorro. As Nações Unidas apoiavam o plano francês, um bom sinal. E, logo após desem barcarem , os franceses anunciaram , eles m esm os, pelo rádio, quais eram suas intenções. Ali estavam para criar refúgios seguros para os tútsis sobreviventes; os tútsis que conseguissem chegar até lá seriam protegidos pelos soldados franceses.

— Obrigada, m eu Deus — sussurrei.

Mais uns dias se passaram , e um helicóptero francês sobrevoou nossa área. Tínham os certeza de que procuravam sobreviventes — procuravam por nós — e nossos corações se rej ubilaram . Segundo as inform ações dadas pelo rádio, eu sabia que os franceses ainda estavam longe para que os alcançássem os, e, com o a guerra ainda não term inara, m ilhares de assassinos arm ados ainda rondavam a área caçando tútsis. Mas para m im era evidente o que devíam os fazer.

Quando o pastor chegou m ais um a vez para nos trazer os restos de com ida, dei m inha opinião.

— Acho que devíam os ir para onde estão os soldados franceses — inform ei.

— Não é um a boa idéia, Im m aculée. Não acredite que eles vieram aj udar os tútsis. Eles a m atariam assim que a vissem — foram suas palavras. E m e dispensou com um gesto.

— Não tem im portância, pastor, prefiro ser m orta rapidam ente por um soldado estrangeiro do que dar a esses assassinos Interaham wes o prazer de m e m atar. Melhor m orrer de form a lim pa pelas m ãos dos franceses do que m orrer depois de insultada e degradada por nossos carrascos.

O pastor pareceu chocado pelo que eu disse, e reafirm ou que eu e as outras m ulheres devíam os perm anecer no banheiro e torcer pelo m elhor. Mas viu que as outras sete apontavam para m im e faziam com as cabeças sinal de que concordavam .

— Tam bém prefiro viver com os franceses num cam po de refugiados do que ir para a floresta casar-m e com um abashi — acrescentei, ao ver que as m ulheres continuavam dizendo sim com a cabeça. — Quanto aos franceses, ou eles nos salvam ou eles nos m atam ... de toda form a, pastor, acho que é m elhor nos arriscarm os com eles.

O pastor suspirou e encolheu os om bros — parecia até aliviado com nosso pedido. Tinha agora m uito m ais gente m orando com ele do que no início da guerra, e abrigar-nos era um a preocupação constante.

— Se vocês querem m esm o ir ao encontro dos franceses, vou descobrir onde eles estão e ver se é possível levá-las até lá — ele finalm ente aquiesceu. — Mas não criem m uitas esperanças. Lá fora ainda é m uito perigoso... Um a tútsi que for vista na estrada será m orta im ediatam ente.

O PASTOR MURINZI ESTAVA PREOCUPADO. Tem ia que os três m eses de confinam ento em seu pequeno banheiro tivessem afetado nossas m entes, e decidiu que precisávam os de estím ulo. Um a noite, enquanto aguardávam os notícias sobre o local onde estavam as tropas francesas, chegou com um convite surpresa. Pela prim eira vez desde que nos trancaram , convidou-nos para acom panhá-lo num a visita à parte principal da casa. E não seria um a visita qualquer — o convite era para assistir a um film e.

Alta m adrugada, quando todos na casa dorm iam profundam ente, o pastor guiou-nos pelo corredor até um côm odo desocupado, onde havia instalado um a TV e um vídeo. Pelo cam inho, não cessava de nos m andar ficar quietas, por causa do barulho que fazíam os; depois de m eses sentadas, nossas pernas estavam bam bas e esbarrávam os o tem po todo contra as paredes. Apesar de tudo, senti-m e m uito grata ao pastor por conceder-nos um a folga fora do banheiro, e todas nós sorríam os de um a orelha a outra.

Com m edo de que fôssem os ouvidos, o pastor, por precaução, passou o vídeo com o som desligado. Por sorte, a essa altura, tínham os boa experiência de leitura labial e não foi difícil acom panharm os o film e. Não m e recordo do título, m as lem bro-m e vivam ente da história. Era a respeito de um a enferm eira designada para um a aldeia no deserto, onde não havia m édicos, de m odo que, para salvar vidas, teve que exercer a m edicina sem a devida habilitação. Foi acusada por suas boas obras, m as, no final, reabilitada — e, ao term inar o film e, triunfou e se tornou fam osa.

A história era edificante, m as o que m ais m e lem bro a respeito do film e é um a cena em que um rapaz andava de bicicleta através de um parque e cantava. Minha prim eira reação foi preocupar-m e: tem i que ele fosse descoberto pelos assassinos e atacado, e quis gritar-lhe que fosse esconder-se. Então lem brei-m e de que era apenas um film e, e nem ao m enos se passava em Ruanda. Havia-m e esquecido de que há lugares no m undo em que nascer tútsi não é um crim e punível com a m orte. Depois que m e convenci de que o rapaz não corria perigo, quis desesperadam ente pular para dentro da tela e j untar-m e a ele. Desej ei correr por um gram ado, cantar um a bela canção e louvar em voz alta o Senhor! Desej ei viver num m undo no qual as crianças rissem e ninguém fosse obrigado a se esconder.

Infelizm ente, o prazer de um a noite no cinem a foi de curta duração. Um dos em pregados do pastor tinha ido lá fora e visto a lum inosidade azul da TV brilhando através da j anela, num lugar que ele sabia que estava sem pre desocupado. Na expectativa de um a recom pensa, denunciou a um grupo de assassinos o que havia visto, e disse-lhes que há m uito suspeitava de que o pastor Murinzi escondia tútsis em algum lugar da casa.

Um am igo do pastor avisou-o de que um grupo, com posto de m uitos assassinos, program ava um a revista em sua casa. E disse que o grupo j á desconfiava de que o pastor vinha m entindo para eles há m uitas sem anas, e estavam todos m uito zangados.

O pastor estava bem nervoso quando veio nos avisar do acontecido. Eu nunca o vira tão assustado. Caiu de j oelhos e, pela prim eira vez desde nossa chegada, j untou as m ãos e rezou por nossas alm as.

— Querido Deus, se chegou a hora dessas senhoras partirem , por favor, leve-as de form a rápida.

A oração não m e pareceu das m ais confortadoras. Ele conseguiu que ficássem os m ais am edrontadas do que j á estávam os — se é que tal coisa era possível.

— Pastor, o senhor acha que o em pregado nos viu voltar para o banheiro depois do film e? Acha que sabem onde realm ente estam os? — m urm urei.

— Não tenho certeza do que eles sabem , m as logo descobrirem os. Os assassinos estão a cam inho. Se têm conhecim ento do banheiro e encontrarem vocês lá, m orrerem os todos.