Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 12 de 32

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Capítulo 7 - A Casa do Pastor

CAPÍTULO 7

A Casa do Pastor

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Augustine e eu resfolegávam os ao chegar à casa do pastor Murinzi. Eu estava exausta da angústia dos últim os dias e senti a cabeça tonta de tanto correr dos assassinos. Ao ver o pastor olhando para nós da soleira da porta, m al pude balbuciar.

— Havia uns hom ens... com lanças... eles iam ... — Eu arfava ao falar.

O pastor estava de pé na varanda, em oldurado pela porta enorm e de sua casa de tij olos. Sem pre achei que a casa em estilo europeu parecia deslocada num a aldeia em que havia tantas cabanas e barracos de zinco — os quartos eram m uitos, duas grandes salas, de estar e de j antar, e banheiros com água corrente. E um j ardim coberto de flores, protegidas do sol de verão pela som bra de um a árvore im ensa.

O pastor nos cum prim entou calorosam ente. Apertei sua m ão, ainda m e esforçando para recobrar o fôlego.

— É bom vê-la de novo, Im m aculée — cum prim entou-m e sorrindo. — Já faz m uito tem po.

Desde a infância os m ais novos entre os dez filhos do pastor e eu éram os bons am igos, e eu havia visitado sua casa m uitas vezes. Há m uitos anos o pastor e m eu pai m antinham relações de negócios, portanto eu o via em m inha casa tam bém . Além do m ais, era tio do m eu nam orado John, portanto não era um estranho para m im . Subitam ente m e lem brei de que m inha tia havia dito que o pastor, que era protestante, sentia ciúm es das boas obras de papai e da posição proem inente que gozava na com unidade. Mas sem pre fora delicado com igo, e eu, do m eu lado, o tratava com cortesia e respeito. Concentrei-m e nesses aspectos.

— Meu pai disse para eu vir para cá, pastor Murinzi — consegui articular finalm ente, ainda segurando sua m ão. — Disse que vem m e buscar assim que tudo estiver m ais calm o. Prom eteu que viria ele m esm o.

O pastor não fez qualquer com entário, m as seus olhos diziam com toda eloqüência: Seu pai não virá buscá-la jamais. Você jamais voltará a vê-lo.

Tentei apagar da m ente o olhar do pastor, pois, se eu com eçasse a pensar nos riscos que corria m inha fam ília, teria um a crise de nervos. Antes de entrarm os na sala, onde conversavam vários visitantes, apresentei-o a Augustine. Pode ter sido fruto da m inha im aginação, m as tive a im pressão de que a conversa se interrom peu com a m inha entrada na sala.

A prim eira pessoa que avistei foi Buhoro, m eu professor na escola prim ária.

Em bora ele m e houvesse hum ilhado durante a cham ada étnica, eu não tinha guardado rancor. Fiquei tão feliz e aliviada por ver um conhecido que fui até ele. Sorri m eu m elhor sorriso e estendi a m ão para cum prim entá-lo.

Ele olhou para m inha m ão, depois fitou m eus olhos, finalm ente estalou a língua com noj o e m e deu as costas. Eu nunca havia sido tratada de form a tão grosseira ou com tam anha falta de respeito, e isso logo por um professor que eu conhecia desde a escola fundam ental! E diante de tanta gente. Sua linguagem corporal tinha sido m uito clara, com o se ele houvesse gritado: Não me toque, sua tútsi nojenta!

Olhei à m inha volta, à espera de que um dos adultos m e defendesse e repreendesse Buhoro por seu com portam ento. Mas ninguém se im portou — nem m esm o o pastor, bem à nossa frente. Augustine foi o único a tom ar um a atitude: cam inhou até onde estava Buhoro e se recusou a apertar sua m ão — e fez questão de ficar ao meu lado.

Eu sem pre soubera que Buhoro era hútu, m as só agora m e dava conta de que era um hútu extrem ista, que odiava os tútsis. Extremista... que palavra odiosa. Um a vez m ais Buhoro m e fazia sentir vergonha por Deus m e ter feito nascer tútsi. Senti-m e tão acanhada e hum ilhada que precisei m e esforçar para cum prim entar os dem ais visitantes, antes de m e retirar, arrasada, da sala de visitas.

Que alívio encontrar Janet, m inha m elhor am iga desde a escola prim ária, sentada na sala de j antar, em conversa com outra j ovem . Corri para ela exclam ando:

— Janet, que bom ver você. Os últim os dias foram terríveis para m im ; o m undo enlouqueceu. Estão m atando gente em toda a aldeia, fom os tratados com o cachorros... Graças a Deus você está aqui, é tão bom ver um rosto am igo.

Abracei-a, o m ais apertado que pude, m as ela se retraiu. Dei um passo atrás e olhei para o seu rosto, nada am istoso — na verdade, ela se recusou a m e olhar nos olhos.

Ela deve estar chocada, im aginei, preocupada com seu bem -estar. Como eu pude fazer isso? Nem perguntei como ela está passando!

— Você não está bem , Janet? Eu tam bém não tenho dorm ido, m as ainda bem que nos encontram os. Papai m e disse para ficar com o pastor Murinzi, m as não m e sinto à vontade aqui. Que sorte você estar de visita, posso ir para sua casa e podem os fazer com panhia um a à outra até que tudo volte ao norm al.

Janet se inclinou, pegou sua bolsa e levantou-se.

— Não sei o que você está im aginando, Im m aculée — ela disse, ainda evitando m e olhar. — É claro que nem eu nem m eu pai vam os escondê-la em nossa casa. Nós não abrigam os tútsis.

— Mas... Janet?

Ela se dirigiu à outra m oça e disse:

— Estou de saída.

E deixou a sala sem ao m enos olhar para trás.

Cam baleei até o corredor e m e apoiei à parede. Com o podia m inha m elhor am iga se voltar contra m im ? Nós nos am ávam os com o irm ãs — com o ela conseguia ser tão cruel? Com o podia um coração endurecer em tão pouco tem po?

Augustine veio até onde eu estava na com panhia de Lechim , o filho m ais m oço do pastor Murinzi e, até então, m eu m elhor am igo hom em . Nos conhecíam os desde a escola prim ária, e, com o ele e Dam ascene eram bons com panheiros, Lechim freqüentava nossa casa assiduam ente. Ele sem pre participava dos passeios e piqueniques do nosso grupo, e ficam os um pouquinho apaixonados. Foi ele quem m e deu m eu prim eiro beij o, pouco antes de eu com pletar 20 anos. Beij o que m arcou o início e o fim de nosso rom ance, pois decidim os que era m elhor não pôr em risco nossa am izade. E agora, por causa dessa am izade, eu sentia um a m ão am iga sobre m eu om bro, em vez de estar fugindo, cam po afora, de um bando de assassinos arm ados de facão.

— Esqueça o que aconteceu, Im m aculée, não fique m agoada. Hoj e em dia todos se com portam de form a estranha — foram as doces palavras de Lechim . — Venha, vou levar você ao quarto da m inha irm ã, e Augustine pode ficar no quarto dos m eninos. As m eninas vão ser gentis com você, Im m aculée.

Com o m e senti feliz por Lechim ter m e encontrado. Eu conhecia bem sua irm ã, am ável e bondosa com o ele. Acho que nos dávam os tão bem porque a m ãe deles, Elena, falecida há alguns anos, era tútsi. Lechim e Dusenge eram considerados hútus porque essa era a tribo de seu pai — m as, por causa da m ãe, sabiam bem o que significava ser tútsi em Ruanda.

A cam inho dos quartos, Augustine com eçou a chorar:

— Quero ir para casa. Quero ver m inha m ãe, m eu pai e m inha irm ã. Quero sair daqui e voltar para Kigali.

Segurei sua m ão e disse:

— Calm a, não fique assim , sej a forte. No m om ento não se pode ir a lugar algum ... Há perigos dem ais lá fora. Sej am os gratos por estar a salvo. Além do m ais, em bora você pareça um tútsi, você é hútu, com um a carteira de identidade para prová-lo. Ninguém lhe fará m al.

— Não, Im m aculée, ouvi gente lá na sala m urm urando que sou m em bro do exército rebelde tútsi. Acham que sou um espião da FPR! Minha carteira de identidade não tem valor algum ; podem dizer que é falsa. Aqui ninguém sabe quem eu sou, eles vão m e m atar... sei que vão m e m atar.

Meu j ovem am igo estava tão nervoso que lágrim as desciam por seu rosto, e suas m ãos trem iam .

— Não entre em pânico, Augustine. Enquanto estiverm os j untos cuidarem os um do outro e ficarem os bem .

Não sei de onde tirei forças para falar assim , j á que eu m esm a estava aterrorizada e não tinha a m enor certeza de que sobreviveríam os. Mas precisava ter fé em Deus, acreditar que Ele nos aj udaria; senão, com o suportar tanto sofrim ento, angústia e traição?

DUSENGE NÃO ESTAVA NO QUARTO, e pude ficar deitada, de olhos fechados. Eu m al havia dorm ido nos últim os dias, m as não conseguia pegar no sono. Minha m ente divagava, relem brando os acontecim entos que m e levaram à casa do pastor. Vi m inha fam ília sentada em volta do rádio sem saber o que fazer. Visualizei o rosto cinzento de m inha m ãe, adorm ecida ao ar livre para m e proteger. Lem brei-m e de m eu pai, de pé, diante de m ilhares de pessoas assustadas, tentando encoraj á-las. E revi os facões em punhados pelos assassinos, no cam inho para a casa do pastor.

Im ersa nesses pensam entos, ouvi a voz agitada de Dam ascene. Sentei-m e sobressaltada. Pensei que havia sonhado, m as não. Era com certeza a voz de m eu irm ão falando com alguém , do lado de fora do quarto. Segundos depois ele entrou.

— Dam ascene, o que aconteceu? Onde estão papai e m am ãe?

— Não sei, Im m aculée. Nós nos perdem os, e tive que fugir.

— Por quê? O que aconteceu?

— Eles a queim aram .

— O quê? Quem queim ou o quê?

— Os bandidos... eles queim aram nossa casa. Não restou nada.

Caí deitada na cam a. Meu pai havia acabado de term inar a casa, que construíra com as próprias m ãos para m inha m ãe. Seria seu refúgio na velhice, e vê-la destruída partiria seu coração.

— Papai j á sabe o que aconteceu com a casa?

— Claro que sim — eles a queim aram à vista dele — contou Dam ascene. Em seguida m e pôs a par de tudo que tinha acontecido desde m inha partida, há poucas horas. Pelo que entendi, papai continuara se recusando a acreditar que o governo estava por trás das m atanças, então pegou o carro e foi falar com o Sr. Kabay i, o burgom estre, e pedir-lhe proteção.

— Mas foi Kabay i quem tentou m atar papai de fom e na prisão! — interrom pi. — Onde é que papai estava com a cabeça?

— Papai disse que não tinha outra escolha — continuou Dam ascene. — A casa estava cercada pelos assassinos, que chegavam em núm ero cada vez m aior. Sentia-se responsável pelos que tinham vindo buscar sua aj uda. Relatou ao burgom estre que havia m ilhares de tútsis em nossa casa e pediu-lhe que enviasse o m aior núm ero de soldados que pudesse.

Segundo Dam ascene, o Sr. Kabay i disse a m eu pai que não se preocupasse, e m andou dois guardas escoltarem -no até em casa. Mas tudo se agravou com a chegada deles.

— Os soldados zom bavam de papai. Riam e perguntavam : “Será que você é idiota? Será que é burro a ponto de pensar que o burgom estre nos m andou para proteger você e essas baratas? Essas baratas devem ser exterm inadas.”

Nesse m om ento Vianney entrou no quarto. Meus irm ãos estavam am bos traum atizados: Dam ascene, pálido; a expressão na face de Vianney, vazia e assom brada. A voz de Dam ascene era tensa ao relatar o que se passou a seguir.

— Os soldados atiraram para o ar, um sinal para reunir os assassinos... e eles vieram correndo, guinchando com o anim ais e brandindo os facões. Os tútsis próxim os a nossa casa gritavam tão alto que m ais pareciam um bando de corvos crocitantes. Aos m ilhares, corriam em todas as direções, em pânico total.

“Papai, m am ãe e Vianney abandonaram a casa. Fui com eles, cuidando para que os m atadores não nos atacassem . Os soldados se voltaram para os assassinos e gritaram : ‘Esta casa está infestada de baratas. Desinfetem -na. O que estão esperando? Vocês têm um a tarefa a cum prir. Chegou a hora de esm agar as baratas.’

“Foi então que os assassinos se descontrolaram . Entraram , espatifaram tudo e incendiaram o carro. O que não quebravam , pilhavam ... então tocaram fogo na casa, que, em m enos de cinco m inutos, foi totalm ente tom ada pelas cham as. Papai caiu ao chão. Sim plesm ente desm aiou... Não podia crer no que via. Tinha afirm ado às pessoas que tudo daria certo, e só agora percebia que havia calculado m al, era tarde dem ais para tom ar algum a atitude. Toda sua vida queim ava diante de seus olhos.

“Nós o aj udam os a descer a estrada, até o lugar onde havia escondido a m otocicleta. Ele ordenou a m am ãe que se sentasse na garupa. Com o os assassinos estavam fora de controle, não tivem os tem po de nos falar, de pensar, nem ao m enos de dizer adeus. Só o ouvim os gritar: ‘Vão encontrar sua irm ã na casa do pastor Murinzi. Eu tenho que tirar a m ãe de vocês daqui. Escondam -se; nos encontrarem os m ais tarde.’

“Mam ãe chorava, agarrada à cam isa dele, e olhou para nós. ‘Meus filhos... o que será dos m eus filhos.’ Com o ruído da m oto, foi só o que deu para ouvir do que ela dizia. E eles se foram .”

— Foram para onde? — perguntei tristem ente.

— Não sei dizer... Talvez tenham ido pedir asilo na casa da tia Cecile ou em algum a igrej a. A confusão era enorm e... com o o estouro de um a m anada. Milhares e m ilhares de tútsis correndo para salvar suas vidas — em direção à floresta, à m ontanha, ao pântano e ao estádio. Mas, Im m aculée, onde quer que eles estej am , haverá assassinos. Eles estão em toda parte, e j á nem tem os um a casa para nos esconderm os.

A fala m e faltava, m as eu tinha que dizer algum a coisa que devolvesse algum a esperança a m eus irm ãos.

— É verdade, perdem os nossa casa, m as qualquer lugar em que estej am os j untos será nosso lar. — Essa foi toda a esperança que pude transm itir. — Irem os viver na cidade. Podem os recom eçar a vida em Kigali.

Meus irm ãos m e olharam com o se eu fosse um a louca.

— Im m aculée, com o você pode pensar um a coisa dessas? — perguntou um Dam ascene m uito irritado, cansado do m eu otim ism o. — A m ortandade continua por todo lado. No cam inho para cá encontram os cadáveres, e a m aioria era de am igos nossos. Estamos encurralados.

E m e olhou com um a expressão que eu j am ais havia visto em seu rosto. Não sei direito o que era: acusação, desapontam ento, raiva? E as palavras que pronunciou a seguir atingiram -m e com o um a chicotada.

— Por que você insistiu tanto tem po em dizer que tudo acabaria bem ?

Senti-m e tom ada por um a onda de culpa. Teria m eu otim ism o conduzido m eus pais e irm ãos ao pesadelo que vivíam os agora? Era eu a responsável pelo que lhes acontecera? O que eu poderia ter feito, j á que papai se recusara a partir e tudo acontecera tão rapidam ente? Deveria ter m e desesperado diante da tragédia, m e afundado em depressão ou tido um a crise histérica? Isso teria piorado tudo. Para sobreviver é preciso ter esperança.

Eu m e recusava a crer que Deus havia nos feito tútsis com o intuito de serm os m assacrados. Mas ali estava Dam ascene, a quem eu am ava tanto, olhando-m e enraivecido e desesperado.

— Sinto m uito — eu disse, com lágrim as nos olhos. — A esperança é tudo que nos resta, tem os que nos agarrar a ela. Não devem os desistir ainda. Lem bre-se de que você prom eteu ir à m inha form atura no ano que vem . Havem os de vencer todos os obstáculos.

— Você acredita m esm o? — perguntou m eu irm ão, exibindo outra vez seu sorriso lum inoso, m as ainda com incredulidade na voz.

Eu nem ao m enos sabia se sobreviveríam os a m ais um a noite, m as cham ei em m eu auxílio a convicção que ainda m e restava.

— Claro, Dam ascene, vam os superar os obstáculos.

— Tudo bem , não vou perder a esperança enquanto você m antiver a sua. — Disse isso e dirigiu-se a Vianney. — É m elhor você fazer com panhia a Augustine, que está m uito assustado. E, aconteça o que acontecer, não saia desta casa... E não perm ita que Im m aculée saia tam bém . Há assassinos e estupradores à solta. Prom eta-m e fazer o que estou pedindo.

— Prom eto — disse nosso irm ãozinho m ais novo.

Dam ascene então anunciou:

— Não pretendo ficar aqui. Sei que o pastor não gosta de papai, e acho que não gosta de m im tam bém . Além disso, m uitas pessoas m e viram vir para cá, e isso pode guiá-las até vocês.

Im plorei-lhe que ficasse conosco, m as ele se recusou a m udar de idéia. Seu am igo Bonn m orava ali perto, e Dam ascene disse que iria para a casa dele. Bonn era hútu, isso lhe facilitaria esconder m eu irm ão por algum tem po.

Acom panhei Dam ascene até a varanda, m as seria doloroso dem ais dizer-lhe algum a coisa. Nunca antes nos tínham os despedido sem um “até breve”, ou “nos vem os daqui a algum as sem anas”. Agora eu não conseguia despedir-m e, pois sabia que talvez fosse esta a últim a vez que o via.

Meu irm ão, m inha alm a gêm ea, pegou m inha m ão, e a dele parecia leve e m acia com o um a pena. Por m ais que eu a apertasse, não conseguia sentir o toque de sua palm a contra a m inha, era com o se eu segurasse a m ão de um a alm a que se apagava. Meu coração parecia que ia explodir.

Nos olham os intensam ente, em silêncio, Dam ascene retirou a m ão, suavem ente, sorriu um sorriso triste e atravessou o portão.