Sobrevivi para Contar
Capítulo 20 - Na Rota dos Rebeldes
CAPÍTULO 20
Na Rota dos Rebeldes
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Num a tarde quente, em fins de agosto, o capitão francês notificou-m e de que seríam os evacuados. A Operação Turquesa ia ser desativada, e os franceses se preparavam para deixar Ruanda.
— Vam os desm ontar o cam po hoj e m esm o — com unicou o capitão. — Em duas horas você deve ter todos prontos para partir.
— Partir para onde? — perguntei. — Há um as trinta pessoas aqui... para onde devo m andá-las? Não tem os m ais nossos lares. — Sentia-m e atordoada pela notícia inesperada.
— Levarem os vocês para os soldados tútsis. A FPR está na região e arm ou um acam pam ento a alguns quilôm etros, seguindo por esta estrada. Levarem os vocês até lá e os entregarem os a eles. Vocês ficarão m elhor, j á que estarão entre seu próprio povo.
Senti-m e entusiasm ada por saber que os com batentes tútsis haviam finalm ente aberto cam inho até onde estávam os e expulsavam os Interaham wes do país. Ouvi m esm o dizer que nosso herói, o líder da FPR Paul Kagam e, havia estabelecido um novo governo em Kigali. Graças a Deus estávam os salvos, finalm ente — o genocídio certam ente havia term inado.
Percorri o cam po avisando a todos que tínham os que partir. Os que haviam chegado por últim o ficaram desconfiados; diziam que não devíam os acreditar nos franceses, que haviam m ontado cam pos para refugiados com o frentes hum anitárias apenas para encobrir sua verdadeira m issão: dar fuga aos hútus que haviam prom ovido o genocídio, levando-os em segurança para fora de Ruanda através do lago Kivu.
— Não consigo acreditar — foi m inha reação. — Os franceses nos protegeram durante sem anas, e agora vão nos devolver à liberdade. Cum priram tudo o que prom eteram .
Não dem oram os m uito para nos aprontar, pois há m uito estávam os preparados. Ninguém possuía coisa algum a, então não havia m alas para arrum ar. Reuni m eus parcos pertences — o suéter e a toalha que a filha do pastor Murinzi havia m e dado, dois livros dados por Pierre e uns poucos sabonetes e cam isetas presenteados pelos soldados — e enfiei-os num saco plástico. Enquanto isso, lem brava-m e de m inha m ãe arrum ando suas coisas em m alas enquanto os assassinos se reuniam perto de nossa casa... e decidi que não queria carregar para m inha nova vida obj etos pertencentes ao passado. Queria rom per com tudo. Levei o saco para o prédio da escola e deixei-o em um canto, na esperança de que um outro tútsi, pobre e sem lar, o encontrasse.
Dei m eia-volta para sair e esbarrei em Pierre, de pé à porta. Ele m e olhou com ar triste e m e entregou um papel.
— Este é o m eu endereço na França, caso você m ude de idéia algum dia. Sentirei m uito sua falta e guardarei você em m eu coração. Peço a Deus que a protej a.
— Adeus, Pierre. Deus o abençoe. — Mas ele j á havia saído quando falei.
FUI A ÚLTIMA A SUBIR PARA A CARROCERIA DO CAMINHÃO. A porta traseira se fechou, a lona foi estendida para nos esconder, e o cam inhão seguiu em frente. Peguei o rosário que m eu pai havia m e dado — a única posse da qual eu j am ais m e desfaria — e fiz um a oração. Pedi a Deus a Sua bênção para nosso novo recom eço e que nos conduzisse em segurança até onde estavam os soldados tútsis.
O cam inhão ultrapassou o sem icírculo de veículos blindados, desceu por um a estrada secundária e desem bocou num m ar de assassinos! Através de um a fenda na lona, vi que m ilhares de hútus cam inhavam pela estrada principal em direção ao lago Kivu — e centenas deles usavam o uniform e dos Interaham wes e carregavam facões.
— Oh, m eu Deus — gem i e m e recolhi ao fundo do cam inhão. — Outra vez não!
Avançam os palm o a palm o pela estrada congestionada, buzinando para pedir passagem aos hútus... Eu tinha certeza de que, se fôssem os parados, ou se o cam inhão enguiçasse, os Interaham wes cairiam em cim a de nós em m inutos. Não sentia tanto m edo desde que saíra do banheiro.
— Deus, por favor — rezei. — Você nos trouxe até aqui — acom panhe-nos pelo restante da viagem . Deixe cegos os assassinos... Não perm ita que olhem dentro da carroceria deste cam inhão. Deus de m isericórdia, protej a-nos dos olhos deles com um escudo.
Já estávam os a m eio cam inho do acam pam ento da FPR quando o cam inhão parou. O capitão francês veio até a traseira, abriu a lona e avisou:
— Há relatos de tiroteio na área e tem os ordens de evitar a todo custo participar da luta. Vam os voltar daqui, portanto é aqui que vocês têm que descer.
Pensei que não havia escutado corretam ente.
— Quer dizer que vam os voltar com o senhor, não é?
— Não. Vam os desm ontar o acam pam ento. Vocês têm que saltar aqui... agora. Sinto m uito, Im m aculée.
Durante as sem anas anteriores eu conhecera bem o capitão. Ele odiava os assassinos hútus e afirm ava querer aj udar os tútsis de todas as m aneiras, assim não consegui acreditar que ele fosse capaz de nos abandonar no m eio de um grupo de Interaham wes arm ados. Desci do cam inhão para argum entar com ele.
— Por favor, capitão, o senhor sabe m uito bem , m elhor do que qualquer outro, o que vai acontecer se o senhor nos deixar aqui. Há assassinos por toda a nossa volta! Por favor, eu im ploro... leve-nos por m ais um quilôm etro e m eio até o acam pam ento da FPR, ou leve-nos de volta com o senhor... Não nos deixe aqui para m orrer.
— Sinto m uito, Im m aculée. São as ordens que recebi.
— Por favor, capitão, leve-nos com o senhor.
— Não! Trate de m andar descer a sua gente. Tem os que partir agora.
Era difícil acreditar no que estava acontecendo. Mais ou m enos uns 12 Interaham wes, postados a 3 m etros de onde estávam os, nos observavam e prestavam atenção a nossa conversa. Senti tonteiras, a estrada rodava, e tudo que eu pude ver foi um a m ancha confusa de rostos raivosos. Apoiei-m e à lateral do cam inhão e, pela prim eira vez, percebi os corpos espalhados pelo chão — cadáveres por todo lado, até onde m inha vista podia alcançar.
Pela últim a vez, olhei para o capitão, im plorando com os olhos. Foi tudo inútil — ele continuou inflexível. Talvez o pastor e os outros estivessem certos a respeito dos franceses. Talvez eles estivessem ali para proteger os assassinos, pois estavam a ponto de nos entregar à m orte.
— Desçam do cam inhão — ordenei aos m eus am igos. — Saiam todos... Os franceses vão nos deixar aqui.
Os gritos de desespero e incredulidade vindos de dentro do cam inhão cham aram m ais ainda a atenção dos assassinos, que cam inharam em nossa direção. Encarei um Interaham we diretam ente nos olhos e não baixei m eu olhar. Meu coração dizia-m e que ele era alguém com o eu, e que não queria de fato m atar. Segurei m eu rosário e fiz um trem endo esforço para enviar-lhe um a m ensagem de am or. Pedi a Deus que m e fizesse Seu instrum ento para tocar o assassino com o poder do Seu am or.
Não pisquei... Fixam os nossos olhares um no outro pelo que parecia o tem po de um a vida inteira. Por fim , o assassino desviou do m eu o seu olhar. Deu-m e as costas e deixou cair o facão, com o se o dem ônio tivesse saído de seu corpo. Mas havia m uitos outros dem ônios para ocupar seu lugar. Agora eram pelo m enos 15 Interaham wes a poucos m etros do cam inhão, facões à m ão e sorrisos grotescos nos lábios. Esperavam para entender o que estava acontecendo e para ver se algum dos m eus com panheiros ousaria descer do cam inhão.
Mas não tínham os outra escolha, a não ser descer. Um a um m eus am igos saltaram , até que ficam os os trinta diante dos assassinos. Depois que todos saltaram , dois franceses colocaram Aloise na estrada e depositaram os pequenos Kenza e Sam i ao seu lado, entraram na cabine, e o cam inhão partiu em alta velocidade, deixando-nos em m eio a um a nuvem de poeira e incertezas.
— Vej am quantos tútsis — disse um assassino, espantado. — Com o é que eles ainda estão vivos?
— São as baratas que as tropas francesas protegiam — explicou um outro. — Quem vai salvar vocês agora, suas baratas?
Meus am igos estavam tão am edrontados que m al conseguiam m exer-se. Cutucaram -m e, perguntando-m e o que deviam fazer, com o se eu fosse um a especialista em lidar com assassinos im placáveis. Olhei para a cicatriz deixada por um facão no rosto de Florence e lem brei-m e do que ela havia dito sobre com o ela e sua fam ília haviam perm anecido sentados na igrej a, esperando sua vez de serem m ortos a facadas. Pois eu não pretendia ficar parada esperando a m orte.
— Vam os em frente — eu disse. — Cam inharem os até o acam pam ento da FPR. Os soldados estão por perto.
Os assassinos ficaram nervosos ao m e ouvir m encionar a FPR.
Nos pusem os em m archa, m as não conseguim os ir m uito longe. A estrada estava tão coberta por pedras e cadáveres que era quase im possível em purrar a cadeira de rodas de Aloise — e quando um a roda ficou presa num a vala, param os todos. Os filhos de Aloise tam bém choravam , agarrados aos braços da m ãe.
Cham ei de lado m eus am igos Jean Paul e Karega.
— Vocês dois venham com igo — os dem ais fiquem com Aloise... e rezem . Vou em busca dos soldados tútsis e voltarei com aj uda. Não se m exam daqui, ou não poderei encontrá-los entre esses refugiados hútus.
Aloise olhou para m im em dúvida.
— Tem certeza de que quer ir? Eles vão m atar você na certa. Deixe os hom ens irem no seu lugar — ela im plorou.
— Não. Eu vou... vocês se concentrem nas orações.
E segui na direção para a qual os franceses estavam nos levando antes de nos abandonarem . Eu cam inhava e rezava o rosário, falando com Deus do fundo do m eu coração e da m inha alm a.
— Deus, estou literalm ente cam inhando pelo vale da m orte; fique ao m eu lado, por favor. Protej a-m e com o poder de Seu am or. Você criou o solo em que pisam os, portanto não perm ita que esses assassinos derram em sobre ele o sangue desta Sua filha.
Três Interaham wes nos seguiram quando nos separam os do grupo m aior, e um deles m e reconheceu e disse.
— Conheço esta barata. É a filha de Leonard. Procuram os por ela há m eses! Não acredito que ela ainda estej a viva... Matam os o resto da turm a, m as essa baratinha nos passou a perna.
— Querido Deus — rezei e continuei andando o m ais depressa que podia, com o rosário de m eu pai apertado na m ão. — Só Você pode m e salvar. Você prom eteu tom ar conta de m im , Deus... pois preciso de aj uda agora. Há dem ônios e urubus às m inhas costas, Senhor... por favor protej a-m e. Retire o m al do coração desses hom ens e cegue o ódio deles com o poder do Seu santo am or.
Continuei andando, sem olhar para o chão, sem ter com o saber se pisaria sobre pedras ou corpos, confiando em que Deus m e conduziria para um lugar seguro. Nossos passos eram rápidos, m as os assassinos estavam em torno de nós. Form avam um círculo à nossa volta e cortavam o ar com seus facões. Estávam os indefesos, então por que não atacavam logo?
— Deus, se eles m e m atarem , peço-Lhe que os perdoe. Seus corações foram corrom pidos pelo ódio, eles nem sabem por que desej am ferir-m e.
Andam os assim por m ais uns 600 m etros, então ouvi a voz de Jean Paul que dizia:
— Eles se foram ... eles se foram .
Olhei à m inha volta e vi que era verdade — os assassinos tinham -nos deixado. Mais tarde Jean Paul disse que foi porque os soldados da FPR estavam por perto, e os bandidos sabiam disso. Mas eu sabia do m otivo real, e não m e canso de agradecer a Deus por nos haver salvo naquela estrada.
Poucos m inutos se passaram , e vim os um a barreira instalada na estrada pela FPR e dúzias de soldados tútsis, altos, m agros, sérios, que m ontavam guarda. Disparei a correr e caí de j oelhos diante deles. Fechei os olhos e entoei um canto de louvor.
— Graças a Deus, graças a Deus, estam os salvos. Graças a Deus vocês estão aqui. Abençoados sej am , vocês todos. Se soubessem o que nós enfrentam os. Obrigada por...
Não pude term inar m inha frase, interrom pida pelo som frio e m etálico do gatilho de um a m etralhadora se arm ando. Abri os olhos e a única coisa que vi foi o cano da arm a a 2 centím etros do m eu rosto.