Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 27 de 32

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Capítulo 22 - O Trabalho do Senhor

CAPÍTULO 22

O Trabalho do Senhor

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Só m esm o Deus para saber onde encontrar trabalho num a cidade em que as pessoas tinham m edo de andar pelas ruas. Minas terrestres ainda se espalhavam pelas ruas de Kigali, m as, se eu queria trabalhar, seria preciso trilhar esses cam inhos. As linhas de ônibus ainda não haviam voltado a funcionar, e eu não tinha com o pagar um táxi.

Perguntei a Fari se ele sabia de algum a em presa, à distância de um a cam inhada e onde houvesse vagas.

— As opções são m uito lim itadas no m om ento, pois ninguém está contratando novos funcionários — respondeu ele. — A única possibilidade é a ONU... Mas geralm ente só contratam quem fala inglês.

Minha m ente entrou em alerta. Claro! Pois fora j ustam ente por causa da ONU que Deus m e fizera aprender inglês no banheiro. Eu inclusive tivera um a visão em que m e via trabalhando na ONU.

Naquela noite lavei m inhas roupas com um cuidado especial e rezei m uito para que Deus m e aj udasse a conseguir trabalho na ONU. Estava tão entusiasm ada com a possibilidade de finalm ente utilizar m eu inglês que passei boa parte da noite acordada, treinando diante do espelho as frases que havia ensinado a m im m esm a:

Good m orning to y ou.

How do y ou do?

I am looking for a j ob.

My nam e is Im m aculée Ilibagiza.

I am Rwandan.

I studied science at the university in Butare.

I am looking for a j ob. 5

Oh, com o era em ocionante. Eu estava falando frases com pletas em inglês e, no dia seguinte, teria um a conversa de verdade nesse novo idiom a... e lá pelo fim do dia poderia estar de posse do m eu novo em prego. Deus sej a louvado!

Às 8 horas da m anhã em ponto eu j á estava diante dos portões do edifício das Nações Unidas. Um guarda ganense cum prim entou-m e am avelm ente em algo que m e soava com o inglês. Estou certa de que ele deve ter dito “Good m orning,

how can I help y ou?”.6 Mas o que ouvi foi “Blá, blá, blá, blá, blá?”. Eu não tinha idéia do que ele dizia, m as fingi que sim . Aprum ei a cabeça, apontei o queixo para a frente e disse: “How do y ou do? My nam e is Im m aculée Ilibagiza. I am

looking for a j ob.”7

Ai, ai. Pelo j eito que ele m e olhou, im agino com o devo ter soado ridícula. Apesar de tudo, tentei m ais um a vez. Não tinha vindo até ali para ser m andada em bora.

— How do y ou do? My nam e is Im m aculée Ilibagiza. I am looking for a j ob.

— Ah, você é ruandesa... deve falar francês — ele disse.

Sorri e fiz que sim com a cabeça. O guarda abriu o portão, outro guarda m e acom panhou até um a pequena sala de espera, onde preenchi vários form ulários e m e m andaram aguardar. E eu aguardei... e aguardei... e aguardei. Quando os funcionários da ONU com eçaram a sair, no final do dia, perguntei à recepcionista quanto tem po m ais eu teria que esperar para conseguir m eu em prego.

— Vai ter que esperar m uito tem po, m inha querida. Não há vagas.

Voltei para casa desapontada, m as não desencoraj ada. Era m eu destino trabalhar nas Nações Unidas — eu o havia visualizado e estava determ inada. Se Deus queria que eu trabalhasse ali, nada m e im pediria de atingir m eu obj etivo.

Retornei no dia seguinte, preenchi os m esm os form ulários e esperei por m ais um a tarde inteira. E fiz o m esm o no dia seguinte, e no dia seguinte a esse, e no outro tam bém . Levei m ais de duas sem anas preenchendo form ulários e esperando. Todos os dias, quando eu ia em bora, a recepcionista dizia:

— No seu lugar eu não m e daria o trabalho de voltar, m inha cara. Não há vagas.

Ao final da segunda sem ana eu j á com eçava a m e sentir desencoraj ada. Não queria voltar para a casa de Aloise sem um em prego, então peram bulei pelas ruas m altratadas do nosso bairro, cheia de pena de m im m esm a. Queria ficar quieta, em com unicação com Deus, para focalizar m inhas energias, m as a casa de Aloise era barulhenta dem ais para m e perm itir m editar. Acreditem ou não, cheguei a sentir saudades dos dias passados no banheiro do pastor, quando podia conversar com Deus sem ser interrom pida. Lem brava-m e da paz e da alegria com que Ele preenchia m eu coração durante as longas horas de oração silenciosa, e da clareza m ental que sentia depois.

A duas quadras da casa de Aloise, entrei em um a residência incendiada, da qual só restavam as paredes externas, aj oelhei-m e sobre as ruínas calcinadas e vidros quebrados e com ecei a rezar.

— Querido Deus, conta-se na Bíblia que Pedro se desencoraj ou após um dia inteiro de pescaria sem pescar coisa algum a, m as Você lhe disse que lançasse a rede m ais um a vez no m esm o lugar... e ele pescou tantos peixes! Ficou tão feliz! Pois bem , Você m e guiou até a ONU, e estou há dias tentando pescar um em prego... m as não há peixes. Preciso, portanto, da Sua aj uda. Vam os dar um j eito do pessoal da ONU notar a m inha presença e oferecer-m e um bom em prego em algum escritório. Você sabe o quanto eu preciso, aj ude-m e e eu aj udarei a m im m esm a! Am ém .

SACUDI O PÓ DE MINHAS ROUPAS E SAÍ DA CASA ARRUINADA com a confiança renovada. Eu havia pedido a aj uda de Deus, e sabia que agora com petia-m e fazer com que acontecesse. Visualizei a m im m esm a trabalhando na ONU, fazendo anotações, atendendo ao telefone e aj udando a tom ar decisões com plicadas.

No cam inho de casa, pensei em tudo de que precisaria quando m e oferecessem o em prego na ONU. Precisaria de algum as roupas apresentáveis e, com certeza, do m eu diplom a secundário e de um a prova de que havia freqüentado a universidade durante três anos. Infelizm ente, todas as m inhas posses estavam no m eu dorm itório em Butare, a um a distância de quatro horas de carro, e, obviam ente, eu não tinha o suficiente para pagar um a corrida de táxi até lá.

Estava tão distraída com m eus pensam entos que quase não percebi que um carro parara ao m eu lado e que, lá de dentro, o m otorista cham ava m eu nom e. Era o Dr. Abel, professor da m inha universidade em Butare.

— Quase não a reconheci, Im m aculée — ele disse. — Você está tão m agra! Estou feliz por você ter sobrevivido... m as você tem o que com er e um lugar para m orar?

Dr. Abel era m édico, e m e fez perguntas de todo tipo sobre o que m e havia acontecido e sobre m inha saúde. Convidou-m e para ir m orar com ele e a esposa em Butare até recuperar m inhas forças. Agradeci-lhe, m as disse que j á tinha um a fam ília com quem m orar. Mas caso ele fosse a Butare num futuro próxim o, eu ficaria m uito feliz em aceitar um a carona.

— Mas é claro. Estou indo para lá am anhã.

Mais um a vez vi a m ão de Deus naquilo que parecia um encontro ao acaso. No dia seguinte o Dr. Abel deixou-m e no portão da m inha antiga universidade. A escola havia sido saqueada. Soldados guardavam o portão e recusaram -se a perm itir m inha entrada:

— A escola é zona proibida por tem po indefinido. — E m andaram -m e voltar para Kigali.

Sentei-m e à beira da estrada, rezei com o rosário de m eu pai e esperei para ver que j eito Deus daria de m e fazer entrar no cam pus. Dentro de dez m inutos um carro que conduzia um coronel do exército parou diante do portão. Enquanto os soldados se apressavam em lhe fazer continência, fui até o carro e m e apresentei.

— O que você está fazendo aqui, m enina? — ele m e interpelou. — Onde estão os seus pais? É m uito perigoso andar por aí sozinha.

Eu tinha 24 anos, m as havia perdido tanto peso que m ais parecia ter 12.

— Meus pais m orreram , senhor. Foram m ortos com o restante da m inha fam ília durante o genocídio. Tudo que m e resta no m undo está no m eu antigo dorm itório, m as seus soldados não perm item que eu entre. O senhor não quer m e aj udar? — perguntei com a voz m ais doce do m undo.

O coronel abriu a porta, entrei e sentei-m e ao lado de um soldado. O carro atravessou o portão e percorreu o cam inho curto e deprim ente até m eu dorm itório.

O belo cam pus, onde eu havia feito tantas e tão boas am izades, e do qual tinha tão belas m em órias, j á não era o m esm o. Havia lixo por toda parte, e m uitos dos edifícios haviam sido queim ados e estavam a ponto de desabar. Arquivos escolares voavam pelo cam pus com o folhas secas, e, m esm o depois de tantas sem anas, m uitos corpos ainda estavam espalhados pelo chão. Não suportei olhar, tem endo reconhecer o corpo de Sarah ou de algum outro de m eus am igos. Tentei reviver a lem brança dos bailes de que eu tanto gostava, das peças em que tinha tom ado parte, m eus passeios rom ânticos com John... m as tudo em palidecia diante da devastação reinante.

O coronel deixou-m e diante do dorm itório, e um soldado m e acom panhou até o m eu quarto, que havia sido totalm ente saqueado. A porta havia sido arrebentada a m achado, e tudo que eu possuía se fora — m inhas m alas, roupas, sapatos e até m eu colchão haviam sido roubados. Graças a Deus algum as fotos de m eus pais ainda estavam presas à parede — m om entos únicos de nossa vida j untos. Recolhi alguns envelopes espalhados pelo chão, m as o soldado arrancou-os da m inha m ão e com eçou a ler. Tirou o fuzil do om bro e perguntou de m aneira am eaçadora:

— Quem é Aim able?

Para sua surpresa, com ecei a rir. Pareceu-m e côm ico ter sobrevivido ao genocídio para acabar sendo m orta por um soldado tútsi por saquear m eu próprio quarto vazio.

— Aim able é m eu irm ão. Essa carta veio do Senegal, onde ele estuda — expliquei.

O soldado resm ungou e foi para o corredor, onde continuou a ler m inha correspondência particular.

Procurei no chão, entre os outros papéis, e não pude acreditar no que vi. Ali, em um envelope grande, estavam m eu diplom a da escola secundária, os relatórios dos m eus progressos na universidade e quase 30 dólares da m inha aj uda de custo escolar, que eu havia guardado. Via-m e subitam ente rica... e podia provar que era instruída.

Saí do cam pus e usei um dos m eus dólares am ericanos para pagar um a corrida de táxi de volta a Kigali; pelo cam inho, agradeci a Deus por ter, um a vez m ais, atendido as m inhas preces. Ele m antinha m esm o Sua palavra e cuidava de m im com o Sua filha.

Havia algum as loj as reabertas na cidade, e com prei roupas de segunda m ão, sapatos novos, perfum e e desodorante. Mandei arrum ar m eu cabelo pela prim eira vez em cinco m eses. Voltei para casa sentindo-m e novam ente um a dam a. Aloise quase teve um ataque cardíaco ao m e ver sair do quarto, bem -arrum ada e bonita.

— Sem pre que você rezar por algum a coisa, trate de rezar para eu ganhar um pouco tam bém — ela disse, entre surtos de riso. E riu ainda m ais quando m ostrei os m antim entos — suficientes para um m ês — que havia com prado com o dinheiro restante.

NA MANHÃ SEGUINTE, RUMEI DE NOVO PARA A ONU, para recom eçar m inha caçada por um em prego. Eu estava com bom aspecto, cheirava bem , levava com igo m eu diplom a e sentia-m e adequada e confiante — eu era um a j ovem profissional pronta a ocupar seu lugar no m undo.

Dessa vez o segurança ganense não m e fez perguntas ao portão; acho até que ele nem m e reconheceu, pois foi logo m e m andando entrar, com um sorriso e sem fazer perguntas. Assim que entrei no prédio, encontrei o cam inho para o escritório do diretor de pessoal e bati à porta, interrom pendo o diretor no m eio de um a conversa.

— Com o posso aj udá-la, senhorita? — ele perguntou em francês.

— Preciso de um em prego, senhor — respondi em inglês... Pelo m enos eu pensava que era inglês.

Ele pareceu confuso.

— A senhorita está tentando dizer que precisa de um em prego?

— Isso m esm o, senhor, preciso de um em prego — eu disse em francês. Estava óbvio que m eu inglês ainda precisava ser trabalhado.

— Já sei... espere aqui — ele recom endou, e desapareceu em seu escritório. Alguns m inutos depois sua secretária veio falar com igo e m e exam inou de alto a baixo. Era ruandesa e, por um m otivo qualquer, antipatizou com igo im ediatam ente.

— Com o você entrou no prédio? O que está procurando? — perguntou em kiny arwanda.

— Estou procurando em prego.

— E qual é a sua experiência?

— Freqüentei a universidade, onde estudei engenharia eletrônica e m atem ática.

— Os em pregos são na área de secretariado... isto é, quando há vagas disponíveis. Você sabe usar com putador ou fala inglês?

— Nunca trabalhei com o secretária e sei um pouco de inglês.

— Ah, entendo — ela retrucou rudem ente. — No m om ento não tem os vagas... talvez dentro de três ou quatro m eses. Mas com suas aptidões duvido que haj a algum a coisa para você. Por favor, feche a porta ao sair.

Estava tão perturbada ao sair do escritório que desci correndo por um a escada dos fundos, para que ninguém m e visse chorando. Em m eio à descida, um senhor de m eia-idade dirigiu-se a m im em francês.

— Espere! Espere um m inuto, m ocinha. Posso falar com a senhorita?

Minha vontade seria continuar descendo, m as o respeito pelos m ais velhos m e obrigava a responder. Enxuguei as lágrim as.

— Sim , senhor.

O hom em m e olhou com o quem vê um fantasm a.

— Hum ... hum ... estava tentando saber por que você está aqui.

Pensei que ele ia cham ar os seguranças, m esm o assim respondi:

— Um em prego, senhor... estou procurando em prego.

— E j á falou com o diretor de pessoal?

Esse interrogatório na escada m e incom odava, m as voltei a responder, por um a questão de respeito.

— Falei, sim , senhor. Mas disseram -m e que não há vagas.

— Nesse caso... Ele rabiscou algum a coisa num cartão de visitas que m e entregou. — Mostre isso no portão am anhã — explicou-m e. — Espero você em m eu escritório às dez da m anhã. Vam os ver o que podem os fazer para conseguir-lhe um em prego.

Não soube o que dizer; ele continuou a subir e eu sim plesm ente fiquei olhando para o cartão, no qual estava escrito:

PIERRE MEHU

PORTA-VOZ DA MARNU

MISSÃO DE ASSISTÊNCIA PARA RUANDA, NAÇÕES UNIDAS.

Eu não tinha a m enor idéia do que fosse um porta-voz, m as parecia algo im portante. E a MARNU tinha sido fundada antes da guerra, para contribuir com o estabelecim ento de um governo m ais j usto em Ruanda. Talvez eu viesse a fazer parte do proj eto!

Quando m e encontrei com o Sr. Mehu na m anhã seguinte, ele disse que m e havia confundido com um a j ovem que trabalhara com ele antes da guerra, e de quem ele gostava m uito. Ela e sua fam ília haviam m orrido durante o genocídio. A seguir pediu-m e que lhe contasse m inha história, o que passei a fazer.

— Qual é sua renda m ensal? — ele perguntou.

— Minha o quê?

— Quanto dinheiro você ganha por m ês?

— Nada. Zero. É por isso que estou aqui.

— Isso não pode continuar assim ! Vou aj udá-la a conseguir um trabalho. Pelo visto seus pais a educaram bem e digo-lhe que você só será um a órfã se quiser. De agora em diante a ONU será o seu lar, e você pode falar com igo com o se eu fosse seu pai.

Sorri tanto que chegou a doer — Deus estava m antendo a palavra e enviava Seus anj os para cuidarem de m im .

— Você terá que passar nos testes, é claro — continuou o Sr. Mehu —, m as, com sua instrução, isso certam ente não será problem a. Quais são suas aptidões em datilografia e inglês?

— Não sei datilografar m uito bem , e aprendi inglês sozinha enquanto estava escondida no banheiro.

— É, pelo que vej o você vai precisar de um curso intensivo.

O Sr. Mehu apresentou-m e a sua secretária, Jeanne, que passou o dia m e m ostrando com o usar o com putador e redigir m em orandos, além dos m ecanism os de seu sistem a de arquivos. Decorei a função de cada tecla do com putador, depois desenhei um a réplica exata do teclado num pedaço de papelão. Passei três dias trabalhando no com putador e três noites acordada treinando digitação em m eu teclado de papelão.

Certam ente Deus guiava m eus dedos, porque, no quarto dia, passei no teste de digitação da ONU, com a nota m áxim a. Poucos dias depois passei no teste de inglês e fui considerada apta a trabalhar para as Nações Unidas. Eu visualizei o em prego, sonhei com ele, rezei para que acontecesse, e agora o conseguia.

E pouco depois passei a trabalhar com o auxiliar de escritório e fui encarregada de controlar os suprim entos das Nações Unidas que vinham do exterior para Ruanda — de j ipes a contêineres com alim entos. Era um trabalho im portante e eu m al podia acreditar que dois m eses antes estava agachada no m inúsculo banheiro de alguém , sem saber se iria viver ou m orrer.

Eu era a prova viva do poder que têm a oração e o pensam ento positivo, que, no fundo, são a m esm a coisa. Deus é a fonte de toda energia positiva, e a oração é o m eio m ais eficaz de entrar em contato com Seu poder.

Deus m e havia guiado através de um longo cam inho, que com eçou no banheiro, e cam inhou com igo cada passo da estrada: salvou-m e dos assassinos, encheu m eu coração com sua m isericórdia, aj udou-m e a aprender inglês, levou-m e a um lugar seguro, deu-m e am igos, abrigo e com ida; e, finalm ente, apresentou-m e ao Sr. Mehu e ao em prego dos m eus sonhos. Apesar de tudo que havia sofrido nos últim os m eses, Deus j am ais saiu do m eu lado, nunca estive sozinha.

EU AMAVA MEU NOVO EMPREGO; CADA DIA MAIS INTERESSANTE QUE O PRECEDENTE. Eram tantas as nacionalidades na ONU que eu m e sentia com o turista em m eu próprio país. A cada m om ento adquiria novas aptidões, conhecia pessoas novas e apurava m eu inglês.

Minha riqueza não consistia apenas nas bênçãos do Senhor — eu recebia tam bém um contracheque, e logo pude m andar algum dinheiro para m inhas tias e com prar com ida e roupas novas para Aloise e seus filhos, em agradecim ento a tudo que fizeram por m im . Deram -m e um lar e um a fam ília quando eu m ais precisei... m as sabia tam bém que era chegada a hora de partir.

No início de outubro todos os am igos do acam pam ento francês tinham deixado a casa de Aloise, e tudo à m inha volta com eçava a m udar. Mais de um m ilhão de refugiados tútsis, que haviam saído do país depois dos genocídios de 1959 e 1973, retornavam , vindos de todas as partes do m undo. Traziam filhos, netos e novas culturas, dos tipos m ais variados, e línguas estranhas. Sua chegada m udava os sons e a aparência do país. Um m ilhão de exilados estava de volta, o m esm o núm ero de tútsis m ortos durante o genocídio — um núm ero que ia além da m inha com preensão.

À m edida que um m ilhão de tútsis retornava, m ais de 2 m ilhões de hútus fugiam com tem or da vingança. A m aioria deles foi habitar m iseráveis cam pos de refugiados em países estrangeiros, e m uitos m orreram de doença e desnutrição. O sofrim ento estava em toda parte. Certo dia, quando houvesse aprendido m uita coisa e poupado algum dinheiro, eu deixaria para trás a tristeza do m eu país. Mas, por enquanto, pretendia fazer algum as pequenas alterações. A vida em Ruanda m udava, e eu m udava com ela.

Pedi a Deus que m e desse um novo lar, onde o am or e pensam entos positivos m e cercassem . Desta vez Ele fez com que eu m esm a atendesse à m inha prece ao abrir a porta da frente da casa de Aloise. De pé, à entrada, chorando de alegria por m e haver encontrado, estava m inha querida colega e com panheira de quarto, Sarah, que conseguira rastrear m eu paradeiro. Gritam os am bas de alegria e caím os nos braços um a da outra. Levam os horas em choros e contando nossas histórias. Senti m eu coração partir-se um a vez m ais ao contar com o o pastor m andara em bora Augustine e Vianney, no m eio da escuridão — e com o eles m orreram j untos. Choram os por esses rapazes que tanto am ávam os e pelo restante de m inha fam ília — Sarah conhecia e am ava todos eles.

— Minha fam ília sem pre será sua fam ília — disse Sarah. — Venha m orar conosco... Serem os irm ãs novam ente.

Sarah era um a pessoa m uito especial para m im , e sua oferta foi tão generosa que aceitei im ediatam ente. Em pacotei m inhas coisas e m udei-m e para a casa de seus pais no m esm o dia. Aloise não ficou m uito aborrecida, porque Sarah m orava a cinco m inutos de distância e prom eti visitas freqüentes.

Eu não poderia encontrar um lugar m ais calm o e am oroso do que o lar de Sarah. Seus pais, j á idosos, estavam casados há 55 anos, m as ainda im plicavam um com o outro e se am avam com o adolescentes. Eram cristãos devotos, iam à igrej a diariam ente e rezavam j untos todas as noites. Era o lugar perfeito para eu retom ar m inha relação íntim a e pessoal com Deus... perfeito tam bém para chorar o luto por m inha fam ília e iniciar m inha recuperação.

Na casa de Sarah, m eu coração ferido lentam ente conseguiu forças suficientes para colocar no papel as palavras que eu m al ousava pronunciar. Era chegada a hora de escrever para m eu irm ão Aim able, ainda residindo no Senegal e que nem sabia que eu estava viva. Eu vinha adiando essa tarefa dolorosa, em parte porque não havia serviço de correios, m as tam bém na esperança de que, não vendo as palavras, seria com o se os fatos dolorosos não tivessem acontecido. Mas aconteceram — eram fatos reais, o que eu finalm ente com eçava a aceitar.

Coloquei o rosário de m eu pai ao m eu lado, sobre a m esa, e com ecei a escrever: Queridíssimo Aimable, esta é a carta mais triste que já escrevi, a mais triste que você receberá...

5 Bom -dia. Com o vai? Meu nom e é Im m aculée Ilibagiza. Sou ruandesa. Estudei ciência na universidade, em Butare. Estou à procura de em prego. (N. da T.)

6 Bom dia, em que posso aj udá-la? (N. da T.)

7 Com o vai você? Meu nom e é Im m aculée Ilibagiza. Estou à procura de em prego. (N. da T.)