Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 17 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 12 - Sem Amigos a quem Recorrer

Capítulo 12 - Sem Am igos a quem Recorrer

CAPÍTULO 12

Sem Am igos a quem Recorrer

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Encontrei um cantinho do banheiro que podia cham ar de m eu: um cantinho dentro do m eu coração. Para lá m e retirava logo ao acordar, e ali ficava até a hora de dorm ir. Era m eu j ardim secreto, onde falava com Deus, m editava sobre Suas palavras e cultivava m eu eu espiritual.

Através da m editação, chegava às raízes da m inha fé e fortalecia o m ais íntim o da m inha alm a. Enquanto o horror se desenrolava à m inha volta, encontrei refúgio em um m undo que se m ostrava m ais acolhedor e m aravilhoso a cada visita. Meu corpo definhava, m as m inha alm a nutria-se da relação cada vez m ais profunda com Deus.

A entrada nesse m eu lugar especial se fazia por interm édio da oração; um a vez lá dentro, eu rezava sem parar, usando o rosário com o âncora para focalizar m eus pensam entos e energias em Deus. As contas do rosário aj udavam -m e a m e concentrar nos Evangelhos e a m anter vivas na m ente as palavras de Deus. Rezava em silêncio, m as form ulava as palavras com os lábios, para convencer a m im m esm a de que as pronunciava... de outra form a, a dúvida se infiltraria, e a energia negativa voltaria a m e visitar.

Passava horas m editando sobre o sentido de um a única palavra, tais com o perdão, fé ou esperança. Concentrei-m e durante dias seguidos na palavra entrega, até entender o significado da entrega a um Poder Superior. Subm eti-m e inteiram ente a Deus. Quando não estava rezando, sentia-m e afastada da Sua luz, e o universo daquele banheiro se tornava árido dem ais para suportar.

Ao se aproxim ar o final do prim eiro m ês no esconderij o, o pastor Murinzi, que se havia m ostrado com passivo ao nos receber, m as parecia estar se cansando, nos trouxe, no m eio da noite, um prato com restos de com ida. Sua fisionom ia dem onstrava repúdio, em vez da usual piedade e cuidado.

— Seu pai foi um m au tútsi — disse-m e bruscam ente.

— O quê? O que o senhor quer dizer com isso? — fui apanhada totalm ente despreparada, não só pelo ataque a m eu pai, m as tam bém pelo fato de o pastor se referir a papai no passado. Eu m e recusava a pensar na possibilidade de que qualquer m em bro da m inha fam ília pudesse estar m orto. — Meu pai é um homem bom , pastor... Talvez o m elhor que conheci.

— Não, Im m aculée, ele foi um m au tútsi e um hom em m au... ele colaborou com a FPR no planej am ento da guerra civil. — Olhou para as outras m ulheres e disse: — Se vocês forem apanhadas e m ortas, será por causa de Im m aculée. Im m aculée é procurada por causa das atividades do pai dela.

Ele m e olhava com raiva, e senti o olhar das outras m ulheres pousados em m im .

— Encontraram seiscentos fuzis em sua casa — continuou ele, dirigindo-se novam ente a m im . — Encontraram tam bém granadas e um a lista de hútus a serem elim inados. É esse o m otivo pelo qual vocês, tútsis, estão sendo perseguidos e m ortos. Se os hútus não agissem prim eiro, agora nós é que estaríam os sendo m ortos por vocês, tútsis!

Era difícil acreditar nos m eus ouvidos. As m entiras venenosas espalhadas pelos hútus extrem istas privaram o pastor da razão. Ele tinha sido am igo de m eu pai por m uitos anos e sabia que papai se dedicara a m elhorar a vida dos pobres e m enos afortunados. Havia construído escolas e capelas, que serviam igualm ente a tútsis, hútus e twas. Portanto, com o o pastor podia acusá-lo de esconder arm as ou planej ar assassinatos? Não havia m eu pai exortado os tútsis desesperados, refugiados em nossa casa, a não m atarem hútus, em bora os hútus am eaçassem m atá-los?

O pastor Murinzi disse que essas eram inform ações dadas pelas autoridades. Infelizm ente, com o tantos ruandeses, ele acreditava cegam ente em tudo que diziam os governantes.

Meu ânim o se abateu. Eu tinha certeza de que ninguém espalharia m entiras tão deslavadas contra m eu pai... a não ser que j á o tivessem executado. Fazê-lo passar por hom em perigoso era, obviam ente, o m eio que encontraram para j ustificar seu assassinato. Mas eu não devia pensar nisso. Recusava-m e a adm itir a idéia de que alguém da m inha fam ília pudesse ter m orrido — pelo m enos agora não. Ainda não m e sentia forte o bastante.

Fiquei tão encolerizada com o pastor que m inha vontade era gritar, m as o que eu podia fazer? Ele era o que se interpunha entre nós e a m orte. Dependíam os inteiram ente da sua caridade — m esm o que nesse m om ento ele não se m ostrasse m uito caridoso. Era evidente que ele j á não nos enxergava com o vizinhas em perigo e necessitadas de sua aj uda. Via-nos com o não hum anas, tal com o nos viam os assassinos, baratas destinadas ao exterm ínio antes que a guerra chegasse ao fim .

A raiva ferveu dentro de m im ao ouvir o pastor m anchar o nom e de m eu pai. Não pude controlar m eu gênio — m eu pai j á sofrera insultos em excesso! Pela prim eira vez levantei a voz desde que o pastor nos tinha trancado no banheiro.

— Se m eu pai tinha tantos fuzis, por que não os distribuiu aos m ilhares de tútsis que pediram nossa proteção? Com tantas arm as, por que não im pediu que os assassinos queim assem totalm ente nossa casa? Se planej ava m atar os hútus, ele o teria feito antes que os hútus destruíssem sua vida e obrigassem sua fam ília a buscar um esconderij o! Diga-m e, pastor, por que ele não usou os fuzis para proteger a m ulher e a filha dos assassinos estupradores?

O pastor Murinzi se chocou com a m inha explosão (e m inhas com panheiras tam bém — suas vidas estavam nas m ãos desse hom em e seus olhos se arregalaram incrédulos ao m e ver enfrentá-lo). Ele m e fez sinal para ficar quieta — e contou que tam bém haviam encontrado arm as na igrej a do padre Clem ent, o velho padre bondoso a quem , em criança, eu disse que pretendia ser freira. Padre Clem ent era a pessoa m ais doce que eu j á vira, um vegetariano de longa data porque não adm itia ver sofrer os anim ais; repudiava a violência e não tolerava a presença de arm as. As afirm ações do pastor eram evidentem ente tão m entirosas que eu tinha que contestá-las.

— O senhor viu algum a dessas arm as, pastor?

— Não... m as pessoas im portantes m e contaram . São pessoas honestas, elas não m entiriam .

Não era possível acreditar que um hom em culto se portasse de form a tão ingênua, especialm ente diante de tudo que acontecia no país.

— Então o senhor acusa m eu pai sem ter provas do que diz?

Ele tirou do bolso um a folha de papel em branco e disse que era o tipo de papel que os rebeldes da FPR entregavam aos que doavam dinheiro e arm as.

— Encontraram isso na casa do seu pai — disse, e apontou-m e a folha com o se fosse um revólver fum egante.

— É só um a folha de papel em branco.

— Mas é do tipo de papel em branco que os rebeldes utilizam .

Eu j á não suportava m ais falar com ele.

— Bem , se é esse o tipo de prova que se usa para condenar um hom em , dá para entender por que as pessoas daqui acham tão fácil m atar.

O pastor enfiou o pedacinho de papel no bolso e virou-se para sair.

— Espere — eu cham ei. — O senhor tem um a Bíblia para m e em prestar? Esqueci a m inha em casa.

Ele m e olhou encabulado — ele sabia que a m inha casa era um a ruína carbonizada — e prom eteu trazer o que eu pedia. Senti-m e grata... precisava clarear m inha m ente com as belas palavras de Deus.

As outras m ulheres m e olharam com o se eu tivesse perdido o j uízo. Para elas, eu tinha desnecessariam ente, im prudentem ente, desafiado a paciência e a autoridade do pastor. Talvez tivessem razão, m as eu j á não m e im portava. Sentira-m e na obrigação de defender m eu pai, e, naquele m om ento, o pastor m ais parecia um carcereiro do que um salvador.

Além disso, o fato de ele sentir-se à vontade para falar m al de papai era um indício de que nos considerava com os dias contados. Ruandeses são pessoas profundam ente discretas e reservadas, que preferem guardar para si m esm as suas em oções — ele j am ais m e teria exposto assim seus sentim entos se acreditasse que eu sobreviveria ao holocausto e que algum dia nos encontraríam os novam ente em pé de igualdade.

IMERSA EM ORAÇÕES, NA TENTATICA DE LIVRAR-ME DA IRA NEGATIVA, ouvi quando o pastor Murinzi ligou o rádio do quarto.

O orador era o novo presidente de Ruanda, e nossos ouvidos ficaram alertas ao ouvi-lo citar nossa província, Kibuy e. Falava em tom exultante — seria possível que a guerra houvesse term inado? Poderíam os finalm ente deixar o banheiro e sair à procura de nossas fam ílias? Nós seis nos olham os ansiosas, convictas de que enfim ouviríam os boas notícias. Nossas esperanças se desfizeram ao escutarm os, horrorizadas:

— Desej o felicitar pessoalm ente os esforçados hútus de Kibuy e por seu m agnífico trabalho — disse o presidente. — Houve m ais inim igos tútsis m ortos em Kibuy e do que em qualquer outra província.

Senti-m e enoj ada. Será que o m undo não percebia a loucura que tom ara conta do país? Não haveria ninguém disposto a vir em nosso socorro?

O presidente sentia-se tão contente com o “bom trabalho” em curso em Kibuy e que prom eteu o envio de m ilhares de dólares para a com pra de alim entos e cervej a, para que os assassinos pudessem com em orar em grande estilo.

— Quando term inarem o trabalho e todos os inim igos estiverem m ortos, viverem os no paraíso. Não m ais terem os que disputar em pregos com as baratas. Sem filhotes de baratas, haverá vagas suficientes nas escolas para crianças hútus.

A transm issão devia ser ao vivo, pois ouvim os palm as e aclam ações.

— Vocês vêm fazendo um bom trabalho em Kibuy e; quase todos os inim igos estão m ortos. Mas é necessário m atar todos eles. Vam os com pletar a tarefa!

Olham os um as para as outras desesperadas. As palavras do presidente significavam m esm o que todos os tútsis em nossa região estavam m ortos? Os tútsis em Kibuy e eram cerca de 250 m il... com o seria possível? E quanto a nossas fam ílias? Onde estavam m eus pais, e Vianney e Augustine? Oh, onde estaria m eu querido Dam ascene? Perguntei a Deus se Ele estava m e testando — e m ais um a vez uni as m ãos para orar. Mas com o era difícil recolher-m e ao m eu local de retiro com o diabo gritando em m eus ouvidos.

Depois da transm issão oficial, ouvim os, através da j anela, o som de vozes, um a delas a de m inha velha am iga Janet. No pátio, atrás da parede do banheiro, ela falava a m eu respeito.

— Im m aculée? — ela disse. — Ninguém ainda a encontrou. Sem pre pensei que ela fosse m inha am iga, m as não passava de um a m entirosa. Ela m e tratava bem apenas com a intenção de m e enganar e convencer-m e de que eu estava em segurança. Ela sabia que o pai dela planej ava m atar toda a m inha fam ília... Não m e im porto nem um pouquinho se ela for encontrada e m orta.

O que virá depois disso, meu Deus?, perguntei a m im m esm a. Como a Janet tem coragem de dizer uma coisa dessas? Lem brava-m e de sua contrariedade quando nos vim os pela últim a vez, m as im aginei que fosse por influência do pai e resultado do estresse causado pela guerra. Mas agora ali estava m inha m elhor e m ais antiga am iga com entando que não se im portava se eu estava viva ou m orta.

Ao m e ouvir renegada por Janet, senti-m e m uito solitária, desesperadam ente em falta de um a pessoa am iga com quem conversar. Queria tanto estar de volta ao m eu dorm itório, ouvindo o riso de Sarah e Clem entine, ou confiando-lhes m inhas tristezas, de m ãos dadas com elas, que m e confortariam .

O diabo certam ente espreitava m eus pensam entos, pois m al acabei de ouvir Janet renegar nossa am izade outra reportagem foi transm itida pelo rádio do pastor — dessa vez anunciando a m orte de centenas de estudantes do m eu cam pus. Um m assacre.

— Arrasam os tudo em Butare... m atam os m ais de quinhentas serpentes na universidade, e os traidores, seus am igos hútus — gabava-se o locutor.

Com o sofri ao pensar em m eus colegas, m uitos dos quais tinham sido m eus am igos íntim os desde o secundário. Eu sabia que a m aioria deles tinha perm anecido no cam pus durante os feriados da Páscoa. Pensei naqueles j ovens encantadores com quem eu havia rido, chorado e rezado... nos sonhos que havíam os com partilhado: apaixonar-se, criar fam ília... Acreditávam os que nossa am izade haveria de durar a vida inteira — agora suas vidas estavam acabadas, extintas. Rezei para que não tivessem sido torturados antes de m orrer. Então m e dei conta de que eu estaria com eles se não fosse a com ovedora carta em que papai m e pediu para passar os feriados em casa.

Senti um a pontada no coração. Teria eu perdido todos aqueles que am ava? Fechei os olhos e supliquei a Deus que m e enviasse um sinal de que perm anecia com igo. Era Ele o único que m e restava, Aquele em quem eu podia confiar. Entretanto, em vez de um sinal, ouvi um pedido de socorro.

— Pastor Murinzi, graças a Deus o senhor está aqui. Por favor, m e aj ude. Eles estão atrás de m im ... eles vêm m e m atar.

Reconheci a voz: era Sony, um a viúva idosa, cuj o m arido fora m orto durante a tem porada de assassinatos de 1973. Sony era m uito gentil e sem pre m e recebia, quando eu saltava do ônibus de volta da escola, com frutas e presentes para m eus irm ãos. Era com o se fosse m inha avó, m inha vontade era levantar-m e e gritar para ela que viesse esconder-se conosco.

Foi quando ouvi o pastor dizer:

— Saia daqui. Não posso esconder tútsis, sinto m uito. Você não pode entrar.

— Tenha piedade de m im , pastor, por favor. O senhor é um hom em de Deus — poupe m inha vida, por favor... prom eto não contar a ninguém . Vou ficar quietinha. Pastor, eu não quero m orrer. Sou apenas um a velha, não fiz m al a ninguém .

— Você é inim iga do país e não posso abrigá-la. Sou um bom hútu. Saia. E bateu a porta da frente.

Ouviam -se a distância, m as cada vez m ais próxim os, os cânticos de caça dos assassinos. A pobre Sony recom eçou a gritar. Eu quase podia vê-la afastar-se, m ancando, apoiada em sua bengala e em suas pernas tortas — certam ente não iria m uito longe antes de ser alcançada pelos assassinos.

Senti vontade de chorar, m as as lágrim as não vinham . Meu coração se endurecera ante o constante desfile de tristezas. Nem m esm o senti raiva do pastor. Talvez os assassinos estivessem m uito perto quando Sony chegou, e ele não pôde fazer outra coisa senão m andá-la em bora.

Cerrei os olhos e pedi a Deus que acolhesse a alm a boa de Sony e lhe reservasse um bom lugar no paraíso. E voltei a pedir-Lhe um sinal de que velava por nós.

O pastor abriu a porta e, sem um a palavra sequer, entregou-m e a Bíblia que eu lhe havia pedido.

Abri-a im ediatam ente e tive diante dos olhos o salm o 91:

“Aquele que habita na proteção do Altíssim o, à som bra do Onipotente

descansará. Direi do Senhor: Ele é o m eu Deus, o m eu refúgio, a m inha fortaleza, e n’Ele confio. Porque Ele te livrará do laço do caçador e da peste m ortífera. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das Suas asas encontrarás refúgio; a Sua verdade será o teu escudo e tua arm adura. Não tem erás o terror da noite nem a seta que voa de dia. Nem a peste que anda na escuridão, nem a m ortandade que assola ao m eio-dia.

Mil cairão ao teu lado e 10 m il à tua direita, m as tu não serás atingido.”