Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 26 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 21 - A Caminho de Kigali

Capítulo 21 - A Cam inho de Kigali

CAPÍTULO 21

A Cam inho de Kigali

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Oh, Deus, quando Você porá fim a este pesadelo?

Olhei por sobre o cano da arm a e vi os olhos frios e zangados de um soldado tútsi. Esses olhos m e fizeram lem brar o olhar do assassino que eu havia encarado vinte m inutos antes.

Se esses eram de fato os soldados da FPR que aguardávam os, desde o início do genocídio, com o nossos salvadores, talvez fosse m esm o m inha hora de m orrer. Meus vizinhos se haviam voltado contra m im , os franceses m e haviam abandonado, e, agora, os tútsis salvadores preparavam -se para estourar m eus m iolos.

Agora depende de Você, Deus — rezei silenciosam ente. Já não me importa viver ou morrer, desde que essa seja a Sua vontade. Você me trouxe até aqui — a decisão é Sua.

Tentei ficar de pé, ao m esm o tem po levantando as m ãos para o ar e explicando que m eus dois am igos e eu éram os tútsis.

— Os soldados franceses nos abandonaram na estrada... Outros sobreviventes do genocídio ficaram para trás, cercados por assassinos. Por favor, vocês têm que aj udá-los antes que sej a tarde dem ais.

— Cale a boca e sente-se no chão — gritou o soldado, cutucando-m e com a espingarda.

— Se vocês são tútsis, por que ainda estão vivos? — berrou um outro, apontando um a arm a para m im . — Todos m orreram , todos! Vocês é que devem ser assassinos... são espiões hútus. Sabe o que fazem os com espiões? Fique quieta. Não diga nada e não se m exa.

Soldados irritados nos cercavam , portanto não adiantava falar. Fiquei de boca fechada e esperei para ver qual seria m eu destino. Minutos se passaram ... pensei em Aloise e nos dem ais, cercados por um m ar de assassinos, esperando que eu cum prisse m inha prom essa de m andar soldados para salvá-los. Que Deus se apiedasse deles.

Finalm ente chegou o com andante rebelde para interrogar-nos. Os soldados que nos vigiavam fizeram -lhe continência e cham aram -no “Maj or”. Era alto, m agro com o um a vara, e com um a das aparências m ais calm as que j á vi. Olhou-nos com o se fôssem os ladrões apanhados a roubar sua casa... e sua expressão era igual à dos soldados franceses quando capturaram o espião Interaham we. Fiz o sinal-da-cruz ao lem brar do que havia acontecido àquele hom em . Obviam ente o m aj or não acreditava que éram os sobreviventes do genocídio, e com ecei a orar pelos pobres coitados que havíam os deixado à beira da estrada.

Mas, é claro, foi nesse ponto que Deus tornou a se m anifestar.

— Im m aculée? Immaculée Ilibagiza? Um soldado que estava ao lado do m aj or dizia m eu nom e e m e olhava fixam ente, incrédulo. — Im m aculée! Não pode ser você, ou será que pode? Será você m esm a?

— Bazil?

— Então é você! — Deixou cair o rifle, aj oelhou-se no chão e deu-m e um abraço apertado.

Bazil era um vizinho hútu que havia aderido aos tútsis rebeldes. Nos conhecíam os desde os tem pos de colégio, e ele havia sido por m uitos anos o aluno favorito de m inha m ãe por ser tão inteligente e talentoso. Nós o cham ávam os “queridinho da professora” porque m am ãe gostava tanto dele que o convidou m uitas vezes para ir a nossa casa.

— Você conhece essa m oça? — perguntou o m aj or quando Bazil parou de m e abraçar.

— Mas é claro, fom os colegas de escola. Seus pais são tútsis m uito respeitados em m inha aldeia. São ótim as pessoas. Tudo bem com ela, m aj or... não se trata de um a espiã. Tudo que Im m aculée diz é verdade.

Agradeci rapidam ente a Deus por ter enviado Bazil no m om ento exato em que precisei dele. Os soldados baixaram as arm as, o m aj or estendeu a m ão e apertou a m inha.

— Sou o m aj or Ntwali — ele se apresentou. — Sinto m uito pelo m al-entendido, m as há espiões por toda parte. Ainda há m uito perigo por aqui, m as conosco você estará segura. Para você a guerra acabou... nós a protegerem os daqui em diante.

— Obrigada, m aj or, m as são os m eus am igos que precisam de sua proteção — expliquei com a m aior urgência. — Os soldados franceses nos abandonaram no m eio da estrada, cercados por Interaham wes, e a 800 m etros daqui há trinta tútsis sobreviventes com assassinos por todo lado. Nem sei se ainda estão vivos. Por favor...

Antes m esm o que eu term inasse de falar, o m aj or fez um sinal para que fossem buscar Aloise e os outros.

— Não se preocupe com seus am igos. Chegarem os até eles.

— Obrigada. Que Deus o abençoe.

Assim que os soldados se foram para aj udar os que haviam ficado para trás, Bazil sentou-se ao m eu lado e bom bardeou-m e ansiosam ente com perguntas.

— Há m eses não vou a m inha casa... Tem notícias da aldeia? Com o vai a professora... quer dizer, sua m ãe? Tem notícias dos m eus pais, irm ãos e irm ãs? Quando os vi pela últim a vez, preparavam -se para deixar o país... sabe se eles conseguiram ?

Coloquei m inha m ão sobre o braço de Bazil. Sabia da dor que iria causar-lhe e tentei falar com a m aior brandura possível.

— Nem sei com o lhe dizer isso, Bazil, a não ser lhe dizendo a verdade. Morreram todos: m inha fam ília, a sua... Quase todos os tútsis e hútus m oderados em nossa aldeia... Estão todos m ortos.

Ele m e olhou com o se houvesse perdido a fala, então desabou a m eus pés, com o peito arfando em espasm os e chorando encostado à coronha do fuzil. Pobre Bazil... Perdera os pais, quatro irm ãos e três irm ãs.

Com ecei a entender por que nos haviam recebido com tanta desconfiança ao chegarm os. Muitos desses soldados vinham lutando desde Uganda e passaram todo esse tem po sem notícias de casa. Ao voltar, encontravam suas fam ílias trucidadas por vizinhos — pessoas nas quais haviam confiado por toda a vida. Não reinava m uita felicidade no acam pam ento rebelde.

Eu m esm a não m e sentia m uito feliz. Estava pesarosa por ter dado as notícias a Bazil e, à m edida que o tem po passava, tem i que o pior houvesse acontecido a Aloise e todo o grupo. Rezei m uito por sua segurança, e dentro de pouco tem po, à aproxim ação de um cam inhão da FPR, ouvi a fam iliar risada alegre de m inha am iga.

— Sej a lá quais forem as orações que você rezou, continue rezando, Im m aculée — gracej ou Aloise. — Aqueles assassinos nos olhavam com o se quisessem nos cortar em pedacinhos, m as não conseguiam se m over. Era com o se estivessem congelados no m esm o lugar. Nos sentim os com o Daniel na cova dos leões... exatam ente com o Daniel na cova dos leões.

Aloise puxou os filhos para perto de si, deu-lhes um abraço apertado, depois riu, riu, até as lágrim as escorrerem por suas faces. Meu coração se alegrou e com entei:

— Nunca pensei que este dia chegaria, m as posso dizer que não enfrentarem os m ais os assassinos. O genocídio acabou. Deus nos poupou e nos concedeu nova vida. Deus sej a louvado! Obrigada, m eu Deus! Obrigada, meu Deus!

Aloise sorriu para m im e disse:

— Am ém , Im m aculée... Am ém .

O GÊNIO ALEGRE DE ALOISE E SEU ESPÍRITO INDEPENDENTE encantaram os soldados endurecidos. Ela passou suas prim eiras horas no acam pam ento divertindo-os com histórias a respeito das pessoas im portantes que havia conhecido, depois os m anteve rindo com anedotas picantes. Mas o que m ais os im pressionava era o seu otim ism o invencível. Jam ais se queixava de sua sina na vida e sabia ver o lado bom de todas as coisas, por m ais difíceis que fossem .

Aloise e eu nos dávam os tão bem que o m aj or Ntwali perguntou se ela era m inha m ãe.

— Não — respondi-lhe —, m as ela m e trata com o se eu fosse sua filha. Meus pais e dois de m eus irm ãos foram m ortos durante o genocídio, assim com o a m aioria dos m eus parentes.

— Sinto m uito — disse o m aj or. — Você acha que fom os nós os culpados?

— O que o senhor quer dizer com isso? — indaguei, perplexa com a pergunta.

— Muitos dos m eus soldados culpam a si m esm os pelo que aconteceu. Crêem que perdem os tem po dem ais lutando para conquistar Kigali, enquanto m ilhares de tútsis eram assassinados, inclusive suas fam ílias. Acham que dem oram os dem ais a chegar até aqui.

— Eles não devem pensar assim , m aj or — não é culpa de vocês... que lutavam contra o diabo. Agora é preciso fazer de tudo para não enfrentarm os a m esm a batalha. Tem os que parar de m atar e aprender a perdoar.

O m aj or balançou a cabeça e estalou a língua em sinal de desaprovação.

— Não m e fale em Deus ou no diabo; eu sei quem foi o causador de tudo. Você pode perdoar à vontade, Im m aculée, m as talvez não tenha visto tantos túm ulos coletivos com o eu vi. Os hom ens que encheram essas valas ainda estão por aí, e não m erecem seu perdão. Merecem ser fuzilados, e é m inha intenção dar-lhes aquilo que m erecem . Vou perdoá-los quando estiverem m ortos.

A seguir apontou para um a igrej a batista ali perto.

— Lá você encontrará outros sobreviventes. Fique por lá enquanto decidim os o que fazer com você, e não se afaste. Lem bre-se de que ainda está num a zona de guerra. Caso encontre algum Interaham we, esse não será tão m isericordioso quanto você.

Nosso grupinho se instalou na igrej a com cerca de outros cem tútsis que haviam sobrevivido. Não havia cam as ou cobertores, m as nos sentíam os felizes por term os um teto sobre nossas cabeças, e era m uito bom estar em um a casa de Deus. Bazil nos deu com ida, que m e ofereci para cozinhar, m as, ao tentar acender o fogo do lado de fora, senti ânsias de vôm ito, causadas por um fedor nauseante.

— Meu Deus, que cheiro é esse? — perguntei a um dos soldados que nos guardavam .

Ele m e pegou pela m ão e levou-m e a um local atrás da igrej a. Era um a im agem do inferno: fileiras e m ais fileiras de corpos, várias centenas deles, em pilhados com o lenha. Um escuro tapete form ado por m oscas pairava acim a dos corpos, e corvos bicavam os que estavam no alto da pilha. Havia um velho j unto à pilha, tentando espantar os cachorros com um a vara.

Cobri a boca, olhos arregalados de terror. Então o soldado apontou para além da pilha de corpos, para um fosso profundo, com aproxim adam ente 30 m etros de com prim ento e uns 20 de profundidade. O fosso estava repleto de cadáveres, talvez dezenas de m ilhares deles. Olhei para o lado, vom itei e cam baleei de volta para a área fronteira à igrej a. O soldado continuou m e seguindo, sem dizer nada.

— Você é daqui desta região? — perguntei.

Ele balançou a cabeça afirm ativam ente, e com preendi que lá, no m eio daquela pilha de seres hum anos podres, estava a fam ília dele. Seu sofrim ento estava além das palavras.

Quantos anos — quantas gerações — seriam necessários para que Ruanda se recuperasse desse horror? Quanto tem po nossos corações feridos levariam para sarar, para nossos corações endurecidos se abrandarem ? Tem po dem ais para m im , decidi. Olhando nos olhos aquele soldado, com preendi que teria que abandonar Ruanda.

Deixaria para trás a tristeza e o sofrim ento desse país, pelo m enos por algum tem po. Para aj udar a curar a outros — o que Deus desej ava de m im , eu sabia — precisava da perspectiva que apenas a distância e o tem po poderiam m e dar. Precisava curar prim eiro a m im m esm a para só então poder dar assistência ao m eu próxim o: os órfãos que vira no acam pam ento francês, o m aj or cuj o coração abrigava desej os de vingança, os assassinos ainda cheios de ódio no olhar e o soldado diante de m im , cuj a dor sufocava sua alm a.

Sim , eu devia partir, m as não ainda. Havia m uito a fazer antes disso, e, além do m ais, eu não tinha um em prego, nem dinheiro ou plano. Tudo que possuía eram as roupas do corpo e o rosário de m eu pai no bolso.

FICAMOS AINDA ALGUNS DIAS COM OS SOLDADOS REBELDES e passávam os a m aior parte do tem po im aginando com o fazer para chegar a Kigali sem possuir dinheiro. Ao chegarm os lá, poderíam os ficar os 12 na casa de Aloise, m as não tínham os com o fazer a longa e ainda perigosa viagem de cinco horas. Rezei dias seguidos e pedi aos dem ais que fizessem o m esm o. Na hora certa, Deus nos deu a resposta ao enviar o m aj or Ntwali com um a solução.

O m aj or ofereceu-nos um cam inhão e um m otorista que nos deixariam na porta da casa de Aloise. E não foi só isso, pois, quando o cam inhão veio nos pegar, o m aj or m andou que seus com andados o enchessem com sacos de arroz, farinha, açúcar, feij ão café, latas de leite e de óleo. Era m uito m ais com ida do que eu havia visto em m eses, m ais do que suficiente para durar alguns m eses. Ao dizer adeus, agradecem os repetidam ente sua generosidade e rum am os para Kigali.

Chegam os à capital na m etade do que, m eses atrás, norm alm ente seria um m ovim entado dia de trabalho. Mas entram os no que se assem elhava a um a cidade fantasm a. As ruas estavam desertas, a não ser por um ou outro cam inhão da ONU ou j ipe da FPR que passavam em alta velocidade, desviando-se dos cadáveres espalhados pelas ruas... ou das carcaças das centenas de cães m ortos pelos soldados para que não se alim entassem dos restos hum anos. O ar tinha cheiro de m orte, e dava para ouvir o vento que uivava, com o fantasm as em fuga, por entre as casas abandonadas. Eram num erosos os prédios arruinados, queim ados e perfurados por tiros de m etralhadora ou m orteiro. As portas das loj as haviam sido arrancadas, e seu conteúdo saqueado; de vez em quando, ouvíam os ao longe um a explosão. Era im possível reconhecer a bela cidade cuj as luzes brilhantes e ruas anim adas m e haviam encantado quando adolescente.

— Olhem bem onde pisam — preveniu nosso m otorista. — Há m inas terrestres por toda parte... não podem os lem brar onde deixam os cada um a delas. Quem sai para dar um passeio pode acabar sem um a perna.

Encam inham o-nos diretam ente para a sede da ONU, para ver se encontrávam os o m arido de Aloise, Fari. Com o ela disse:

— Da ONU até nossa casa é um a cam inhada de apenas 15 m inutos. Se ele sobreviveu depois de se esconder no forro, é para lá que ele iria. É o local m ais seguro em Kigali.

Estacionam os diante do grande portão m etálico e tiram os Aloise do cam inhão. Ela trem ia — pela prim eira vez desde que a conhecia vi seu ânim o vacilar.

— Não sei com o vou continuar a viver se Fari tiver m orrido — ela adm itiu. — Ele é m eu coração e m inha alm a, é dele que retiro m inha força. Tenho rezado tanto para que estej a vivo... Espero que Deus ouça m inhas orações do m esm o m odo que ouve as suas, Im m aculée.

Mas Deus ouviu as orações de Aloise. Mal ela term inou de falar, divisou um vulto fam iliar atravessando o terreno cercado.

— Deus do céu... é ele! Tenho certeza de que é ele... Sou capaz de reconhecer seu j eito de andar sej a onde for. Cham em por ele, um de vocês cham e por ele.

Pedim os a um guarda da ONU que fosse correndo cham ar o hom em apontado por Aloise. O hom em cam inhou cautelosam ente em nossa direção, até que avistou Aloise... E com eçou a correr o m ais depressa possível. Atravessou o portão, aj oelhou-se e com eçou a beij á-la.

— Minha querida, m inha querida — ele exclam ava.

Os pequenos Kenza e Sam i saltaram em seus braços, sufocando-o com beij os e abraços. Foi um a das m ais alegres reuniões de fam ília que vi em m inha vida, até que Fari perguntou:

— Onde está o bebê?

Os olhos de Aloise se encheram de lágrim as.

— Deus a levou — disse ela com voz em bargada. — Ela teve um a febre e não sobreviveu.

Fari pousou a cabeça sobre os j oelhos de Aloise e am bos choraram durante 15 ou vinte m inutos, enquanto nós nos olhávam os encabulados. Nenhum de nós sabia que Aloise havia perdido um a filha antes de chegar ao acam pam ento francês. Sentíam o-nos assom brados diante de sua força.

Por fim , Fari olhou para nós e perguntou quem éram os.

— Órfãos que adotei no cam po de refugiados — explicou Aloise. — Eles vão ficar em nossa casa.

— Sej am bem -vindos — replicou Fari.

— Aquela m ais alta é a filha da Rose e do Leonard... Nossos bons am igos estão am bos m ortos.

— Oh, m eu Deus — exclam ou Fari, que se levantou e segurou m inha m ão. — Estou vendo seus pais em você, m ocinha. Sej a forte: seu pai e sua m ãe eram gente boa e m aravilhosa. Deus a poupou com algum intuito... Fique conosco até saber qual é esse intuito.

A única coisa que consegui dizer foi “m uito obrigada”.

VOLTAMOS A SUBIR NO CAMINHÃO PARA A CASA DE ALOISE. No cam inho, Fari nos contou que havia abandonado a casa e tinha vivido na ONU durante os últim os quatro m eses.

— Se Aloise não voltasse para m im com as crianças — ele disse —, eu j am ais voltaria para cá. Um a casa sem am or é com o um a prisão.

Estava tudo em absoluta desordem : as j anelas haviam sido arrancadas, as paredes perfuradas por balas, e parte do telhado havia desabado. Todos nós colaboram os, e passam os a sem ana seguinte em consertos e lim peza. Com m uito trabalho e com m aterial de construção que recolhem os em vários prédios destruídos, o lugar logo tom ou a aparência de um lar. Jean Paul e os outros rapazes tinham seu próprio aloj am ento, enquanto Florence e eu dividíam os um quarto. Pela prim eira vez desde que deixei a casa de m eus pais, dorm i num a cam a de verdade. Nos sentíam os no paraíso.

Em bora providos dos alim entos doados pelo m aj or Ntwali, não possuíam os dinheiro — e nossas roupas estavam praticam ente em farrapos depois de usadas ao longo de m eses ininterruptos. Então fom os a casas abandonadas à procura de sapatos e roupas em m elhor estado que as nossas. Em um a dessas casas, encontrei um par de brincos de ouro. Convenci a m im m esm a de que m erecia algo bonito, que m e fizesse sentir bem depois de ter sofrido tanto, e guardei-os no bolso. Mas quando os experim entei diante de um espelho, na casa de Aloise, não suportei m inha própria im agem . Enxergava apenas o rosto da m ulher que fora sua proprietária. Os brincos não m e pertenciam e não estavam carregados com m inhas próprias m em órias; alguém havia trabalhado m uito para com prá-los, ou os havia recebido com o um presente de am or. Senti-m e um a invasora na vida de outra pessoa. Não queria possuir coisas que não fossem frutos do m eu trabalho ou não tivesse m erecido; portanto, no dia seguinte, levei-os de volta ao local onde os havia encontrado.

Enquanto isso, um a vozinha sussurrava em m inha cabeça, e concordei com o que ouvi. Está na hora de começar a me mexer. Hora de arranjar um trabalho.