Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 9 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 4 - Na Universidade

CAPÍTULO 4

Na Universidade

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No final do verão de 1991, o im possível aconteceu: obtive um a bolsa de estudos para a Universidade Nacional, em Butare. Por toda a vida eu havia sonhado freqüentar um a universidade, e eis que, subitam ente, o sonho se tornava realidade, apesar de todos os obstáculos em m eu cam inho.

Meus pais ficaram tão contentes com a notícia que não conseguiram perm anecer parados. Corriam para lá e para cá, providenciando com ida e bebida para um a com em oração à m oda de Ruanda, isto é, com um banquete.

— Você é a prim eira m ulher na fam ília a entrar para a universidade e tem os que contar para todo m undo agora m esm o — exclam ou papai, cheio de orgulho.

Program ou um a viagem para que eu desse pessoalm ente a notícia a m inha avó, às tias e aos tios, e tam bém aos prim os que m oravam em aldeias próxim as.

Ficam os acordados até tarde, rindo, com endo e com entando tudo de bom que o futuro prom etia. Naquela noite m eus pais m e pareceram m uito j ovens, com o se um peso tivesse sido tirado de seus om bros. Minha m ãe estava radiante.

— Você tem um futuro prom issor, Im m aculée — foram suas palavras. — Vai poder traçar seu próprio cam inho daqui para a frente, andar de cabeça erguida e nunca vai depender de outra pessoa para botar com ida na sua m esa.

Papai ergueu um brinde em m inha hom enagem e m e deu m uitos conselhos paternais.

— Na universidade, a m aioria dos estudantes é com posta por hom ens, e eles vão im aginar que você não é tão inteligente quanto eles. Mas eu sei que você pode ser tão capaz, ou até m ais, do que qualquer hom em . Porque você é um a tútsi, sua entrada na universidade constituiu um a batalha, m as o m ais difícil j á passou. Agora depende apenas de você... Estude m uito e reze; sej a sem pre a filha disciplinada, bondosa e linda que nós vim os crescer.

Meu coração bateu m ais forte ao ouvir essas palavras tão doces e carinhosas.

— Não se preocupem , papai e m am ãe — respondi. — Não vou desapontá-los. Vocês sentirão orgulho de m im .

Eu queria estudar psicologia e filosofia, para aprender os m ecanism os internos do coração e da m ente hum anos, m as as bolsas de estudo estavam condicionadas às vagas existentes em determ inadas áreas, e não pude escolher em que eu iria m e graduar. O governo m e designou para o program a de ciências aplicadas, o que m uito m e agradou. No Ly cée eu havia m e esforçado para brilhar em m atem ática e física, para m e m ostrar para m eus irm ãos, o que m e seria m uito útil agora. Fiz as m alas e logo m e vi em Butare, a um a distância de quatro horas a sudeste da m inha aldeia, com toda um a vida à frente.

QUANDO CHEGUEI AO CAMPUS, descobri que cinco colegas do Ly cée, inclusive Clem entine, tam bém receberam bolsas. Minha am iga Sarah j á estudava lá há um ano e estava à m inha espera para dividirm os um quarto. Depois de anos dorm indo em dorm itórios lotados, era um luxo ter um quarto só para as duas. Clem entine sem pre nos visitava lá, e ríam os ao com entar que sorte a nossa por não term os posto em ação o plano de nos eletrocutarm os, no início da guerra; ou não estaríam os na universidade, participando de tantas em oções.

Eu gostava das aulas e estudava m uito, m as não deixava de gozar os prazeres e a liberdade da vida universitária. Minha bolsa de estudos com preendia tam bém um a pequena aj uda de custo, equivalente a trinta dólares am ericanos — um a fortuna para m im . Pela prim eira vez na vida m e sentia independente, com o um a adulta. Já não era obrigada a usar uniform e e tinha dinheiro para ir à cidade com prar roupas bonitas com m inhas am igas. Tudo m uito em ocionante!

Minha vida social era anim ada, com encontros em cafés, cinem a aos dom ingos e bailes no cam pus aos sábados, a cada 15 dias. Entrei para o clube de teatro e dançava e cantava em todas as produções, m uitas vezes com a presença do prefeito de Butare. Eu preferia os papéis religiosos, e cheguei a representar m inha santa favorita, a Virgem Maria. Sem pre reservava algum tem po para rezar. Cada vez m ais eu percebia que a oração e a m editação m e proporcionavam equilíbrio e concentração. Ia à igrej a m uitas vezes por sem ana e criei um grupo de oração j unto com algum as colegas.

Estava ocupada dem ais para sentir saudades, m as as cartas de m eu pai, que se sentia solitário, lem braram -m e de que eu devia visitá-los com m aior freqüência. Vianney j á estava no colégio interno, e era difícil para m eus pais se aj ustarem à situação. “A vida não é a m esm a coisa sem ter ao m enos um filho por perto”, escreveu papai. “A casa está tão vazia. Há dias em que sua m ãe e eu olham os um para o outro e pensam os: onde estão os risos? Quando você tiver filhos, Im m aculée, trate de aproveitar cada m inuto, porque logo eles se vão...”

Encontrei um colega cham ado John, que conhecia alguns dos m eus am igos de Mataba. Era três anos m ais velho do que eu e tinha o estranho hábito de esbarrar com igo todos os dias, “por acaso”. Ele passou a carregar m eus livros, levar-m e a passear pelo cam pus e m e apresentou a seus am igos. Era um rapaz bonito, m uito cortês e atencioso. Fazíam os longas cam inhadas pela floresta e conversávam os sobre o que era im portante para nós dois: Deus, fam ília e um a boa educação. Com eçam os um nam oro que se tornou m ais sério nos dois anos seguintes. John era hútu, o que não representava problem a. Meu pai se preocupava m uito m ais com o fato de ele ser protestante e filho de um pastor.

— Não se esqueça de que é um a católica — papai vivia m e lem brando. — John m e parece um bom rapaz, e aprovo o nam oro de vocês, desde que ele não tente convertê-la.

Papai era tolerante, m as, por outro lado, era um católico ferrenho.

Meus dois prim eiros anos de faculdade passaram rápido, e tudo corria bem . Minhas notas eram boas, m inha fam ília gozava de boa saúde, a vida era divertida e anim ada. Para ser sincera, a vida era tão boa que era fácil esquecer que havia um a guerra em curso — m as, por outro lado, em certas ocasiões, era im possível ignorá-la.

Apesar das conversações de paz, tantas vezes iniciadas, interrom pidas e retom adas vezes sem fim , a luta continuava renhida no Norte, entre os rebeldes tútsis e as tropas governam entais. Partidos radicais, ferozm ente antagônicos, brotavam em cidades e vilas. Jovens desem pregados aderiam à ala j ovem dos diferentes partidos sim plesm ente por falta de m elhor ocupação. Muitos não passavam de m em bros de gangues de rua que se filiavam em troca de álcool e drogas.

O partido do presidente Haby arim ana organizou um m ovim ento j uvenil, o Interaham we, que significa “aqueles que atacam em conj unto”. O Interaham we atraía centenas de j ovens sem lar, e as adesões se alastravam pelo país com o um vírus. O m ovim ento constituía a m ilícia extrem ista hútu, e m uitos dos seus m em bros eram treinados por soldados do governo para lutar e m atar. Viaj avam em bandos e usavam uniform es inform ais — cam isas folgadas, estam padas num berrante verm elho, am arelo e verde — que reproduziam as cores de seu partido. Por m ais que se organizassem , eu os considerava um bando de arruaceiros sem lei.

Foi durante as férias da Páscoa, em 1993, que o Interaham we cham ou m inha atenção pela prim eira vez. John e eu estávam os em Kigali, em visita à fam ília de Sarah, quando nosso ônibus ficou preso num engarrafam ento. Enquanto aguardávam os, vi através da j anela um grupo de j ovens cercar um a m ulher tútsi de m eia-idade, que parecia estar voltando das com pras, a cam inho de casa. Os rapazes, sem a m enor cerim ônia, tom aram a bolsa da pobre senhora, arrancaram suas j óias, roubaram suas sacolas e a j ogaram ao chão. A seguir tiraram seus sapatos e arrancaram suas roupas. Isso em plena luz do dia e em um a rua m ovim entada, m as ninguém se atreveu a aj udá-la. Todos olharam para o outro lado.

Levantei-m e num salto e, da j anela, gritei-lhes que parassem com aquilo, m as John m e puxou de volta para m eu assento.

— Fique calada — ordenou. — Você não tem idéia, Im m aculée, do que anda acontecendo nesta cidade. Não interfira com esses suj eitos; eles a m atarão.

— John, nós tem os que fazer alguma coisa. Pelo m enos cham e a polícia.

— A polícia não vai fazer nada. Esses rapazes do Interaham we são m em bros do governo. Não se dirij a a eles, nem m esm o olhe para eles... Ainda m ais que você é um a tútsi.

Senti-m e enoj ada e im potente. Os rapazes se afastaram , e vi a m ulher levantar-se do chão com dificuldade. E foi em bora m ancando, vestida apenas com um collant e um xale.

Se permitirmos que esses demônios controlem as ruas, o problema ficará sério, pensei, enquanto a m ulher desaparecia no final da rua.

Poucos m eses depois, tive um encontro ainda m ais assustador. Dam ascene e eu tínham os vindo de Mataba para assistir a um casam ento em Kigali. A viagem de ônibus tinha sido cansativa, quente, poeirenta, e estávam os quase chegando ao nosso destino quando o ônibus parou subitam ente.

Havia pelo m enos uns trezentos Interaham wes bloqueando a estrada, ridículos em suas roupas de palhaço, m as tam bém com olhos ferozm ente esbugalhados. Muitos pareciam drogados ou bêbados, e dançavam em círculos, gritando e insultando os transeuntes. Nosso m otorista estava por dem ais apavorado para seguir cam inho e anunciou que daria m eia-volta. Podíam os continuar no ônibus e seguir um desvio que nos tom aria duas horas, ou podíam os descer e continuar a pé.

— Vam os ficar no ônibus — propôs Dam ascene. — Essa turm a parece enlouquecida.

Mas eu não queria ficar, por várias razões, principalm ente porque m e recusava a m e deixar intim idar por um bando de desordeiros.

Discordei:

— Tem os que descer ou vam os perder o casam ento. Podem os ir a pé até a igrej a rapidinho.

Desem barcam os j unto com m etade dos passageiros. Do lado de fora, vim os que m uitos dos Interaham wes carregavam facões e verificavam as carteiras de identidade dos que pretendiam seguir adiante. Senti um ím peto de raiva e perguntei:

— Quem dá a eles esse direito?

Dam ascene com eçou a se preocupar.

— Acho m elhor voltar, Im m aculée. Já ouvi m uita coisa ruim sobre esses suj eitos. Vam os a pé para casa.

— Andar até em casa? Levam os quatro horas de ônibus para chegar até aqui, levaríam os três dias para chegar em casa a pé. E tem m ais, esse pessoal não pode agir com o se fosse da polícia e nos intim idar só porque som os tútsis.

Senti m ais m edo do olhar assustado de Dam ascene do que dos Interaham wes. Ele geralm ente tinha um a aparência j ovial e era, provavelm ente, a pessoa m ais valente que eu conhecia. Mas percebi que ele estava com m edo de verdade. Norm alm ente eu é que perguntaria a ele qual seria a m elhor atitude, m as algo m e fez seguir em frente.

— Vam os seguir adiante — sugeri. — Vai dar tudo certo.

— E com o você sabe disso? Ou você acha que eles não são capazes de nos m atar? Eles têm perm issão do governo para fazer o que quiserem . A polícia não se m ete com eles.

— Vam os fazer aquilo que você sem pre sugere quando tem os um problem a, Dam ascene. Vam os rezar e confiar em que Deus haverá de nos proteger.

Ficam os de pé à beira da estrada e rezam os, a 30 m etros da m alta de extrem istas furiosos. Pedi a Deus que m e desculpasse pelo pedido assim em cim a da hora, m as precisávam os da Sua aj uda para chegar em segurança à igrej a. Cam inhei em direção à barricada, dois dos rapazes m e viram e bateram os facões contra as coxas.

— Ai, m eu Deus, isso não, Im m aculée... você sabe o que está fazendo?

— Sei sim , sim plesm ente aj a de form a natural; e talvez sej a m elhor tirar o rosário do bolso.

Segurei com força o m eu rosário e fom os em direção aos Interaham we. Cerca de m eia dúzia deles nos cercou, m e olhou de cim a a baixo e pediu para ver nossas identidades. Olhei-os diretam ente nos olhos, sorri e entreguei os docum entos. Percebi que se sentiram confusos com a audácia do m eu com portam ento — eles não podiam entender com o um a tútsi não sentia m edo deles e de seus facões. Devolveram -nos nossas identidades e nos deixaram passar, m as j am ais esquecerei do m edo que vislum brei no rosto de Dam ascene. Foi a prim eira vez que o vi vacilar e não pude m e livrar do pensam ento de que algo ruim se estabelecera em Ruanda.

Um m ês depois de nossa experiência nas barricadas, o presidente Haby arim ana foi à Tanzânia e assinou um tratado de paz com os tútsis rebeldes. O acordo previa o fim da guerra civil e a participação dos tútsis no governo. Que m aravilha — acreditei que Ruanda havia reencontrado a paz e que tútsis e hútus poderiam viver em harm onia. Em pé de igualdade.