Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 11 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 6 - Sem Saída

CAPÍTULO 6

Sem Saída

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Mam ãe, papai, Dam ascene, Vianney, Augustine e eu passam os o dia todo agrupados no quintal, ouvindo o rádio. As transm issões do estrangeiro noticiavam que cidadãos com uns hútus haviam se j untado aos soldados e às m ilícias Interaham wes para m atar inocentes civis tútsis; enquanto isso, as estações locais encoraj avam os hútus a em punhar facões e a atacar seus vizinhos tútsis.

Eu m e sentia com o um a m enininha perdida, esperando que m eus pais m e dissessem o que fazer. Pensava que, com o desde 1959 haviam sobrevivido a vários levantes políticos e m assacres aos tútsis, deviam saber com o agir.

A rádio oficial continuava a recom endar que as pessoas perm anecessem em suas casas, e, com o crianças bem -com portadas, obedecem os. Estávam os am edrontados dem ais para abrir o portão e verificar o que acontecia do outro lado do m uro. Nos auto-im pusem os a prisão dom iciliar, com m edo de que sair de nossa propriedade fosse um passo fatal.

Minha fam ília não possuía telefone, e, m esm o que possuíssem os, a m aioria das linhas estava m uda. Estávam os com pletam ente isolados, a não ser pelas notícias recebidas através do rádio. Ficam os horas ali, ouvindo os relatórios terríveis, até eu pensar que enlouqueceria. No final da tarde, apanhei m eus livros e com ecei a estudar para as provas.

— Com o você consegue, Im m aculée? — perguntou Dam ascene. — Onde encontra forças para estudar? Será que você ainda acredita que terá um a escola para a qual voltar?

Horas antes, m eu irm ão m e aj udara a vencer o desespero, agora ele tam bém perdera as esperanças. Foi m inha vez de ser forte.

— Não se preocupe tanto — anim ei-o. — Vam os superar tudo isso. Se a situação se agravar, podem os cruzar a fronteira. Papai e m am ãe j á passaram por situações sem elhantes. Tenha fé.

Para ser sincera, eu tam bém não tinha qualquer esperança — não estudava para as provas, m as sim para isolar a m ente do terror reinante na fam ília.

A única notícia encoraj adora que ouvim os naquele dia foi a m ensagem de Paul Kagam e, da FPR, com andante dos rebeldes tútsis baseados em Uganda. Paul prom eteu que, se não cessasse a m atança de tútsis, os rebeldes invadiriam Ruanda e lutariam até a m orte para proteger seus concidadãos tútsis. Era reconfortante ouvi-lo falar assim , m as entristeceu-m e o fato de a possibilidade de um a guerra total ser a única notícia boa.

Nenhum de nós dorm iu m ais que alguns m inutos naquela noite.

No dia seguinte, ouvim os pela BBC um a entrevista por telefone com a prim eira-m inistra de Ruanda, Agathe Uwilingiy im ana, um a hútu m oderada residente em Kigali. Em bora protegida pelas tropas de paz da ONU, havia tiroteios em torno de sua casa. Agathe contou que ela, o m arido e seus cinco filhos estavam deitados no chão e não tinham com o escapar. A linha caiu durante a entrevista. Soubem os m ais tarde que soldados invadiram a casa e atiraram nela e no m arido. Felizm ente as crianças haviam sido resgatadas.

As palavras da prim eira-m inistra nos afetaram profundam ente, e tornava-se im possível fazer de conta que tudo haveria de ficar bem . Se os assassinos eram capazes de executar a prim eira-m inistra hútu, o que os im pediria de nos trucidar?

As 24 horas de tensão contínua tiveram um preço. Minha m ãe entrou num a espécie de transe, com eçou a andar de um côm odo a outro e enchia as m alas com qualquer coisa que lhe caísse nas m ãos.

— Não vou deixar para trás tudo pelo que trabalham os, para ser roubado por essa gente — explicou. — Vou esconder tudo. Um dia voltarem os para buscar nossos pertences.

Não tenho idéia de para onde ela pretendia ir — tínham os acabado de ouvir no rádio que a única rota possível de fuga (atravessar o lago Kivu) tinha sido fechada pelas m ilícias Interaham wes, que abatiam qualquer tútsi, ou hútu m oderado, que se aproxim asse do lago.

Meu pai, confuso e sentindo-se culpado, continuava a negar as evidências.

— Se o m orticínio continuar — argum entava —, a FPR vai intervir e pôr um fim nisso. Talvez eles cheguem a Mataba dentro de alguns dias para nos proteger.

Perguntei-lhe incrédula:

— O que você está pensando, papai? As tropas da FPR estão lá no Norte, perto da fronteira com Uganda. Não possuem veículos; estão a pé e terão que enfrentar a cada passo do cam inho as forças do Interaham we. Vão levar sem anas para chegar até aqui... se chegarem .

Eu podia contar nos dedos quantas vezes tinha ousado contradizer m eu pai, m as tudo estava m udado. Meus pais j á não pensavam com clareza, e não podíam os contar com Augustine e Vianney, j ovens e apavorados dem ais. A vida toda eu tinha seguido a liderança de Dam ascene, m as ele se retirou para o quarto e contem plava fixam ente as paredes.

— Você acredita m esm o que vam os escapar? — ele perguntou quando fui no seu encalço. — Fico sentado aqui pensando no que vou fazer no próxim o ano, m as não consigo. Acho que não vou estar vivo. Eu não tenho um futuro.

— Dam ascene, você tem que parar com isso! — gritei. — Você não pode entregar os pontos antes m esm o de com eçar a lutar! Se não dá para saber o que vai fazer no próxim o ano, eu sei. Você vai estar com igo em Butare quando eu m e form ar na universidade. Vai sentar-se na prim eira fila, e bater palm as e dar vivas quando eu receber m eu diplom a. Portanto, trate de se levantar e aj udar papai e m am ãe.

— Eu gostaria de ter sua fé e coragem — ele m urm urou. Depois continuou encarando a parede.

Eu não m e sentia coraj osa, m as alguém tinha que levantar o ânim o da fam ília. Tentei ser forte e pelo m enos fingir que era coraj osa, para que não caíssem todos no m ais com pleto desespero.

Ao anoitecer ouvim os a notícia de que dez belgas da ONU, da força de paz que protegia a prim eira-m inistra, tinham sido m ortos pelos soldados do governo, e que a vida dos dem ais belgas residentes em Ruanda estava am eaçada. Sabíam os que, se os belgas e dem ais estrangeiros deixassem o país, não haveria ninguém para im pedir um m assacre total. Pela segunda noite não foi possível dorm ir.

DE MADRUGADA, COMEÇOU A GRITARIA. Duas dúzias de m ilicianos do Interaham we atacaram a aldeia e j ogaram granadas dentro das casas. Quando os que estavam lá dentro tentavam escapar, eram retalhados e m ortos a facão.

Ao escutarm os os gritos, abrim os os portões e saím os para a estrada. De nossa casa, no topo da colina, tínham os boa visibilidade e tentam os localizar a fonte de onde vinham os ruídos. Abaixo de nós, na m argem oposta de um riacho próxim o, vim os um grupo de Interaham wes que cercava um de nossos vizinhos. Moviam -se com o um bando de chacais, com os facões erguidos acim a da cabeça, e lentam ente form aram um círculo em torno do hom em . De longe, im potentes, vim os quando eles atacaram para m atar, e o esquartej aram , sem piedade.

Horrorizados, dem os as costas à cena. Dezenas de vizinhos tútsis, vindos do outro lado da colina, vinham em nossa direção. Os hom ens estavam arm ados com paus e pedras, as m ulheres traziam os bebês nos braços e ordenavam aos gritos aos filhos m ais velhos que ficassem perto delas.

Ao avistar m eu pai, bradaram em conj unto:

— Leonard! Leonard! Aj ude-nos por favor. Eles querem nos m atar. O que vam os fazer? Para onde irem os?

Meu pai era um dos hom ens m ais respeitados na aldeia, e em pouco tem po aproxim adam ente 2 m il hom ens, m ulheres e crianças estavam acam pados em frente à nossa casa, na expectativa de que ele os orientasse. Custei a acreditar que tanta gente tivesse sido expulsa de seus lares. Milhares de pessoas sentavam -se em torno de fogueiras, discutiam sobre o que fazer a seguir, enquanto as crianças corriam pela relva e brincavam de pegar. Se não fosse pelos tiros ocasionais e as explosões de granadas ao longe, poderia parecer que o grupo estava fazendo um piquenique.

Toda aquela gente em busca de sua aj uda e de seus conselhos pareceu trazer papai de volta à realidade. Retom ou seu antigo j eito de ser e com eçou a agir.

— Mantenham -se calm os — recom endou. — Unidos haverem os de encontrar um a saída.

NAQUELA NOITE PAPAI ME DISSE QUE ESTAVA PREOCUPADO com m inha saúde.

— Há duas noites você não dorm e, Im m aculée. Vam os ficar aqui fora com os outros, m as quero que você vá para o seu quarto dorm ir.

— Ora, papai...

Não m e agradava a idéia de ficar sozinha dentro de casa. Morria de m edo de serm os atacados durante a noite.

Ele percebeu m inha hesitação e sorriu:

— Não se aflij a, m inha querida. Estou aqui e hei de protegê-la. Está frio aqui fora, e você precisa descansar. Vá para dentro e descanse.

Eu sabia que ele não podia m e proteger contra os Interaham wes, m as não tive coragem de ferir seu orgulho e fiz o que ele pediu. Minha m ãe prom eteu que vigiaria a casa, para que eu m e sentisse segura.

Apesar do am or e da dedicação de m eus pais, não pude dorm ir naquela noite tam bém . Coloquei um rádio sobre o peito e fiquei m udando de estação até a m adrugada, ouvindo reportagem após reportagem a respeito do que se passava à nossa volta. À m edida que a noite prosseguia, as notícias só se agravavam : grande núm ero de tútsis era m assacrado por toda Ruanda, as conversações de paz entre o governo e os rebeldes tútsis haviam sido interrom pidas, e a FPR prom etia lutar até chegar à capital e interrom per o m orticínio.

No m eio da noite, fui para fora e encontrei m inha m ãe adorm ecida no pátio. Tinha pegado no sono enquanto vigiava a porta da frente. Quando m e aproxim ei para acordá-la, m inha respiração quase estancou. Enrolada em um lençol branco e ilum inada pelo luar, ela parecia um cadáver. Fiquei tão chocada com a visão que voltei correndo para m eu quarto. Joguei-m e na cam a e rom pi em lágrim as pela prim eira vez desde que o pesadelo com eçara.

— Por que isso está acontecendo? — confidenciei em lágrim as ao m eu travesseiro. O que nós fizem os para m erecer tal coisa? Por que é errado ser um a tútsi? Deus, por que você perm ite que isso aconteça conosco?

Senti-m e egoísta e sequei os olhos. Garota boba, pensei, deixe para chorar mais tarde. A tragédia mal começou, haverá tempo demais para chorar.

Voltei lá para fora quando o sol com eçou a raiar sobre o lago Kivu e parei ao lado de m inha m ãe adorm ecida. Acariciei levem ente seus pés e desem baracei seu cabelo. Mam ãe era tão bonita, orgulhava-se tanto de sua aparência — se sentiria desgostosa se alguém a visse naquele estado. Beij ei seu rosto, sacudi-a de leve e falei baixinho:

— Acorde, m am ãe. Está frio, vá para a cam a.

Seus olhos, m al se abriram , encheram -se de m edo e confusão.

— Onde está Dam ascene? Onde está Vianney ? Im m aculée... você deveria estar em casa descansando. O que você está fazendo aqui no escuro? — ela perguntou, tentando pôr-se de pé.

— O que você está fazendo aqui fora, m am ãe?

— Eu não queria deixar você sozinha em casa, m as não queria ficar longe de seu pai e dos seus irm ãos. Preciso m e assegurar de que estão todos a salvo.

— Todos estão bem , m am ãe. Papai e os m eninos estão lá no acam pam ento. Talvez tudo m elhore hoj e. — Meu coração sofria ao ver a dor estam pada em sua face. Ela tinha trabalhado e sacrificado toda sua vida por nós, e passado horas sem -fim preocupando-se com nossa segurança. Mas sabia que nesse m om ento nada podia fazer para nos proteger, e isso a estava m atando. Parecia ter envelhecido alguns anos nesses poucos dias.

Fom os procurar papai e m eus irm ãos no acam pam ento dos refugiados. Não estávam os preparadas para o que vim os: havia no m ínim o 10 m il tútsis diante da casa.

Papai andava no m eio da m ultidão e cum prim entava a todos com palavras de encoraj am ento. Tinha passado a noite acordado e se recusara a ir para dentro descansar. Tom ou um banho, vestiu roupas lim pas e voltou para j unto dos refugiados. Dúzias de pessoas tentavam chegar até ele, cham avam seu nom e, m as eram tantos que não lhe era possível dar atenção a todos.

Por fim , subiu sobre um a pedra na base da colina e se dirigiu à m ultidão am edrontada.

— Meus am igos, m eus am igos!

Sua voz ressoou acim a da aglom eração hum ana.

— Sei que estão todos com m edo; não fiquem assim . Esses hom ens, esses assassinos, são poucos, e nós som os m uitos. Não são m ais fortes do que nós se tiverm os Deus em nossos corações. Se eles agem por m aldade, se vieram ferir-nos sem outra razão a não ser o seu ódio, nós os derrotarem os. O am or sem pre vence o ódio. Acreditem em si m esm os, acreditem uns nos outros e acreditem em Deus!

Senti m eu coração inchar-se de orgulho. Era difícil acreditar que se tratava do m esm o hom em que algum as horas antes parecia tão confuso e pouco razoável. Ali estava ele agora, transm itindo força a tantas alm as perdidas e atem orizadas.

— Lutarem os contra eles — continuou papai. A m ultidão, em ocionada com suas palavras, entoava seu nom e e aplaudia, m as, com a m ão erguida, ele pediu silêncio.

— Com o j á disse, se esses assassinos são m ovidos apenas pelo ódio, nós os expulsarem os. Mas se foram enviados pelo governo, se esses ataques fazem parte de um plano organizado para exterm inar os tútsis, terem os um problem a m ais sério. O governo possui fuzis e granadas. Tem um exército e um a m ilícia. E nós não possuím os arm a algum a. Se o governo planej a acabar conosco, tudo que podem os fazer é rezar. Usem os em arrependim ento o tem po que nos resta. Rezem os a Deus para que perdoe nossos pecados. Se devemos m orrer, que sej a com os corações purificados.

Os aplausos cessaram , e a assistência silenciou. Pensei que m eu pai havia abatido seus ânim os, m as m e dei conta de que m ilhares deles seguiam seu conselho e oravam baixinho.

— Não im porta se vam os viver ou m orrer... O im portante é com bater o m al que penetrou em nossos lares! — proclam ou papai.

Milhares de olhos o seguiam ; ele levantou a m ão acim a da cabeça. Vi que segurava na m ão direita seu rosário verm elho e branco.

— Im plorem os a Deus que nos protej a do m al — disse em voz ainda m ais alta, e agitou no ar o rosário. Então abaixou-se e, com a m ão esquerda, pegou um a lança com prida, com ponta de m etal. Ergueu-a à altura da cabeça e continuou. — Pedirem os o auxílio divino, m as não deixarem os de nos defender. Peguem lanças, arm em -se, m as não m atem ninguém . Não querem os ser com o eles. Não m atarem os. Mas não nos deixarem os sacrificar com o cordeiros. Sej am os fortes... e rezem os.

POUCAS HORAS APÓS O DISCURSO DE PAPAI, cinqüenta Interaham wes, arm ados com facas e facões, atacaram os tútsis diante de nossa casa. Meu pai reuniu m ais de cem tútsis e correu em direção aos assassinos. Ao chegarem a um a distância ao alcance de seus proj éteis, j ogaram pedras e os repeliram . Mas isso não passava de um a vitória insignificante — o rádio continuou a relatar m ortandade generalizada, e um fluxo constante de tútsis chegava a nossa casa. Cada recém -chegado trazia um novo relato de horrores; pelo que nos contaram , percebem os que estávam os com pletam ente cercados pelos Interaham wes.

Depois do ataque, fui ao m eu quarto buscar m eu escapulário, um a espécie de colar de tecido usado pelos católicos. Tenho especial apreço pelo escapulário, pois é abençoado por um a prom essa da Virgem Maria de que “todo aquele que o usar não sofrerá o fogo eterno. Será um sinal de salvação, proteção nas horas de perigo e um a prom essa de paz”. Eu o havia com prado quando entrei para a universidade, na certeza de que, se algo m e acontecesse, ele encurtaria m inha j ornada até o céu.

Fui ao escritório de papai, para onde ele se havia retirado depois de rechaçar os Interaham wes, e onde rem exia gavetas e enchia os bolsos com fotos de fam ília.

Estendi-lhe o escapulário e disse:

— Papai, trouxe um a coisa para você.

Ele sabia do que se tratava e para que servia. Então sugeriu:

— Por que não o deixa na casa? Assim não haverão de queim á-la.

Meus olhos se encheram de lágrim as.

— Não, papai, é você quem deve usá-lo. Quem , desta fam ília, está se colocando em perigo? Quem , entre nós, tem as m aiores probabilidades de ser m orto? Pare de pensar na casa... O im portante agora é a sua alm a, e não as coisas m ateriais.

— Tem razão, Im m aculée, eu com preendo — concordou ele, pegando o escapulário e colocando-o no pescoço. — Em troca, o que eu tenho para você? O que posso dar a m inha filha única? — perguntou a si m esm o, rem exendo a gaveta. — Claro, é isso m esm o! Já sei o que vou lhe dar.

E tirou do bolso da cam isa o rosário verm elho e branco que havia m ostrado ao povo reunido. Colocou-o em m inha m ão, que cobriu com as suas.

— Guarde-o para sem pre, Im m aculée.

— Guardarei sim , eu prom eto.

Ao term inarm os a troca de presentes, a porta da frente se abriu com estrondo, e um a vizinha cham ou m eu pai aos gritos.

— Leonard, Leonard! Venha depressa! Eles voltaram ! Os assassinos estão de volta. São m uitos, m uitos, m uito m ais do que antes.

Papai correu para o quarto, pegou um a lança que tinha escondido sob a cam a e saiu correndo porta afora. Tentei ir atrás dele, m as m inhas pernas pareciam feitas de borracha. Achei que tinha chegado nossa hora de m orrer... principalm ente ao ver que os assassinos estavam a m enos de 500 m etros de nossa casa.

— Vam os enfrentar esses m alvados! Chega dessa m ortandade estúpida! Pode ser que eles nos m atem , m as m orrerem os com o coração purificado — bradou m eu pai, na expectativa de que outros tútsis iriam com ele. Ninguém foi.

Papai suava; de olhos arregalados e furiosos, ergueu a lança e saiu correndo sozinho em direção aos bandidos. Mam ãe disparou atrás dele; seu longo vestido azul balançava ao vento. Ela o agarrou pela fralda da cam isa e firm ou os pés no chão. Papai não parou de correr, arrastando atrás de si m inha m ãe que gritava:

— Pare, Leonard! Pare! Não pode lutar sozinho contra eles.

E im plorava:

— Por favor, por favor, alguém vá com ele. Há tantos j ovens aqui. Eles que lutem .

Todos a olhavam espantados, m as ela não se im portava. Só tinha olhos para aquele que era seu m arido há 28 anos — que ela am ava acim a de todos — e que corria em direção à m orte certa. Faria qualquer coisa em seu poder para detê-lo.

Papai, j á ofegante, não conseguiu continuar arrastando m am ãe. Parou, tentou recobrar o fôlego, com m am ãe ainda agarrada à cam isa.

— O que há de errado com vocês? — ela berrou para os rapazes tútsis. — Com o perm item que m eu m arido m orra por vocês? Sej am hom ens! Levantem -se e lutem .

As pessoas continuaram olhando, m as não se m exeram para aj udar, aterrorizadas dem ais para agir. Mam ãe se voltou para papai, envolveu-o em seus braços e suplicou.

— Não vá, Leonard, eu im ploro.

— Rose, m e escute. — Papai segurou-a pelo om bro. — É m eu dever agir em favor dessas pessoas. Se for preciso lutar, eu lutarei. Farei o que m e parece correto. Agora deixe de pânico e vá aj udar as m ães com crianças pequenas. Eu voltarei.

Quando m eus pais pararam de discutir, os assassinos j á tinham partido. Certam ente, ao se aproxim arem , perceberam que eram m uitos os tútsis reunidos em nossa casa. Mesm o com fuzis e granadas, cem estariam em desvantagem contra 10 m il. Mas a desvantagem não continuaria a nosso favor por m uito tem po.

DEPOIS DA DISCUSSÃO DE PAPAI E MAMÃE EM FRENTE DA CASA, Dam ascene veio m e ver. Com os olhos inj etados de sangue e voz tensa, fez a seguinte observação:

— Desta vez eles fugiram , Im m aculée, m as vão voltar. E, quando voltarem , serão m uitos para os expulsarm os com paus e pedras. Se eles a pegarem , prim eiro vão estuprá-la, depois m atá-la. Você tem que partir. Vá para a casa do pastor Murinzi... ele há de concordar em escondê-la até que tudo estej a serenado.

— Não, Dam ascene. Não irei, se isso significar deixar para trás a fam ília. Ou vam os todos ou eu não vou. Eu não conseguiria viver em paz com igo m esm a sabendo que vocês podem estar sendo m ortos enquanto eu estiver escondida.

Dam ascene m e olhou com lágrim as nos olhos. Foi cham ar papai e am bos conversaram com igo.

— Seu irm ão está certo, Im m aculée — disse papai. — Você é um a m ulher j ovem , este lugar é m uito perigoso para você. Vá para a casa do pastor Murinzi e, dentro de poucos dias, quando tudo se acalm ar, irei eu m esm o buscá-la.

Jam ais acreditei que ele iria buscar-m e, porque, no íntim o do coração, não acreditava que ele sobrevivesse. Por isso respondi:

— Prefiro ficar aqui com vocês.

— Não, você vai ficar escondida, e esta é um a ordem .

Com isso, estava encerrada a discussão.

— E m am ãe? Ela não vem com igo?

— Já falei com ela, m as ela se recusa a deixar seus irm ãos. É m elhor você levar Augustine tam bém . Não saberia o que dizer aos pais dele se algo lhe acontecesse enquanto está sob m eus cuidados.

Em um a hora, Augustine e eu estávam os a cam inho da casa do pastor Murinzi. Tudo que eu levava eram as roupas do corpo, o rosário que m eu pai havia m e dado e a carteira de identidade fornecida pelo governo, na qual se dizia que eu era um a tútsi.

Meu pai nos seguiu por algum tem po. Ao dar m eia-volta para retornar, gritou:

— Lem bre-se, Im m aculée, eu m esm o irei buscá-la.

Foi a últim a coisa que ele m e disse.

PARA CHEGAR À CASA DO PASTOR MURINZI, tínham os que cam inhar 8 quilôm etros por um a estrada estreita de terra. Andam os depressa. Augustine era hútu, m as parecia um tútsi, e tem íam os topar com os assassinos pelo cam inho, o que aconteceu quando estávam os a uns 800 m etros da casa do pastor. Tratava-se de um a gangue de pelo m enos cem hútus, com facas, lanças e facões, vindo em nossa direção.

— Quem m e dera ser um pássaro e poder voar agora m esm o para m inha casa em Kigali — sussurrou Augustine ao vê-los aproxim ar-se. Meu coração batia descom passado no peito.

Alguns hútus faziam entrechocar seus facões, e o ruído era apavorante. Outros arrastavam as lâm inas pelo chão, o que produzia fagulhas de cor alaranj ada sem pre que o m etal batia em um a pedra. Mantive os olhos fixos na estrada, m as podia ver a som bra de suas arm as.

Perguntava a m im m esm a se alguém enfiaria um a faca nas m inhas costas, e que tipo de buraco isso causaria em m inha carne. Fechei os olhos e esperei pela dor... m as Deus velava por nós.

— Im m aculée, o que você está fazendo aqui?

Abri os olhos e vi Kagey o, um hútu, m as m uito am igo de m eu pai. Apesar da lança enorm e em suas m ãos, seu olhar era bondoso.

Os hútus nos rodearam , e Kagey o gritou-lhes:

— Não façam m al algum a essas crianças! São m eus am igos e não ousem tocar neles.

Os hútus ficaram zangados, m as nos deixaram passar.

— Não se preocupem , crianças, trarem os de volta a paz — afirm ou Kagey o, e seguiu cam inho com os outros.

Augustine e eu correm os o m ais depressa que podiam nossos pés e não param os até estarm os diante da casa do pastor.

— Estam os a salvo, finalm ente — suspirei.

Quem dera que eu estivesse certa.