Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 28 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 23 - Enterrar os Mortos

CAPÍTULO 23

Enterrar os Mortos

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– O nde m oram os seus pais? — perguntou-m e alguém , m eses depois que com ecei a trabalhar nas Nações Unidas.

— Eles vivem apenas no m eu coração — respondi com paciência. — Morreram durante o genocídio.

Na ONU não m e era fácil ignorar m inha dor. A m aioria dos que trabalhavam ali vinha de outros países, e, ao tom ar conhecim ento do destino da m inha fam ília, todos sentiam -se curiosos em saber com o eu havia sobrevivido enquanto a m aioria da m inha tribo havia m orrido.

— Sinto m uito — foi o que respondeu a pessoa que falava com igo nessa hora. — Eu não sabia. Espero não ter perturbado você.

Seu nom e era coronel Guey e, um oficial senegalês responsável por parte das forças de paz da ONU, enviadas a Ruanda para aj udar na estabilização do país.

Eu disse ao coronel que não se preocupasse com isso. Depois de tudo que eu tinha passado, perguntas eram o que m enos m e incom odava. Contei-lhe que eu tinha ainda tias e um tio residentes na m inha província natal de Kibuy e, em bora não os visse desde a guerra.

— Ah, Kibuy e... tenho vários soldados estacionados lá — ele disse. — Se algum dia quiser visitar seus parentes, terei m uito prazer em lhe dar um a carona e em acom panhá-la eu m esm o. Você pode trazer um a am iga, se quiser.

Era um a ótim a oferta, j á que viaj ar pelo país ainda era difícil e perigoso.

— Verdade? Basta m e dizer quando e estarei pronta, coronel.

Duas sem anas depois, Sarah e eu estávam os com os cintos afivelados, dentro de um helicóptero, voando acim a das m ontanhas verdej antes de Ruanda, de m ãos dadas e rindo m uito anim adas. Nenhum a das duas havia voado antes, nunca im aginam os que o coronel, ao nos oferecer um a carona, queria dizer carona aérea.

Vendo lá de cim a a beleza de m eu país, era difícil acreditar na feia verdade do genocídio. Quantas vezes, durante aqueles dias, eu havia desej ado poder voar para longe do banheiro-prisão, acim a do horror interm inável? E ali estava eu, voando de volta para lá, em visita à cena do crim e. Levara tanto tem po para ir de Mataba a Kigali e apenas trinta m inutos para voltar.

Desej ei que Aim able pudesse estar com igo, m as foi im possível. O correio ainda era lento, e sem anas se passariam ainda antes de eu receber dele um a resposta em que dizia estar tão feliz por receber notícias m inhas que não tinha palavras para descrever sua em oção. Tinha acom panhado os noticiários durante o genocídio e havia se conform ado com a idéia de que toda nossa fam ília falecera, assim com o todos os tútsis de Ruanda. E não tinha com o voltar ao país durante o holocausto sem ser assassinado tam bém .

Infelizm ente, Aim able não podia arcar com a despesa de vir a Ruanda no m om ento. Com o estudante, não tinha renda, e m orava no Senegal, a quase 5 m il quilôm etros de distância. Só a passagem de avião lhe custaria 2 m il dólares am ericanos, um a som a inim aginável! A organização européia que patrocinava sua bolsa se recusava a pagar sua viagem , argum entando que se tratava ainda de um a zona de guerra, por dem ais perigosa. Meu irm ão queria abandonar os estudos para vir m orar com igo, m as eu lhe disse que a m elhor m aneira de honrar papai e m am ãe seria term inar os estudos com boas notas. Com binam os de nos escrever todas as sem anas e econom izar dinheiro para um a visita futura. E agora, graças a um a carona para Mataba, eu visitaria nossa antiga casa sem a com panhia do único irm ão que m e restava.

DEPOIS QUE O HELICÓPTERO ATERRISSOU, O CORONEL GUEYE NOS DEIXOU no acam pam ento, aos cuidados de um j ovem capitão cham ado Traore, que nos apresentou a todos com o as filhas do coronel Guey e. Ao contrário de m inhas estadas anteriores em aloj am entos m ilitares, aqui Sarah e eu tínham os nosso próprio quarto, cam as para dorm ir, com ida deliciosa e o respeito e a boa vontade de cada um dos soldados. Entram os pela m adrugada adentro em com panhia deles, ouvindo canções senegalesas e as piadas que trocavam entre si. Sarah sentia-se bem -vinda e segura, e eu estava feliz por voltar novam ente a m inha casa.

No dia seguinte, nos preparávam os para a cam inhada de 8 quilôm etros até a aldeia quando o capitão se disse preocupado com nossa segurança. O genocídio havia term inado, m as um a palpável corrente de ódio percorria o país, e assassinatos ainda eram com uns. O capitão insistiu em m andar-nos com um a escolta arm ada — que consistia em nada m ais, nada m enos do que duas dúzias de soldados e cinco carros blindados. Não chegaríam os furtivam ente a Mataba com o refugiadas; pelo contrário, entraríam os com o orgulho de guerreiras. Eu m e havia encolhido de m edo por tem po dem ais naquela aldeia, seria m uito bom voltar de cabeça erguida.

Meu estado de espírito logo se transform ou em tristeza m órbida enquanto seguíam os de carro sob o céu da m inha infância. Com ecei a chorar ao enveredarm os pela estrada que m eus irm ãos e eu havíam os percorrido tantas vezes, depois passam os diante da escola de m am ãe, agora deserta, e descem os pelo cam inho que nos levava para nosso m ergulho m atinal com papai, no lago Kivu.

Sarah passou o braço sobre m eus om bros para m e consolar, m as não adiantou — eu estava inconsolável. Tam bém percebi vultos som brios a espreitar-nos através das venezianas das j anelas e atrás dos portões fechados... rostos de hútus extrem istas que haviam caçado e abatido tantos da m inha gente. Eram deles as únicas casas ainda de pé, depois de terem incendiado a m aioria dos lares tútsis.

Então chegam os à casa de m eus pais.

Estava com pletam ente destruída; sem telhado, sem j anelas, sem portas. Restos de paredes cercavam a terra calcinada, onde havíam os passado dias a ouvir o rádio, enquanto os assassinos se preparavam para o m assacre. Vagueei por entre o esqueleto de pedra, visitei os aposentos vazios que um dia haviam sido a casa dos sonhos de m eus pais. Não havia vestígios de m obília destruída ou de roupas queim adas — obviam ente nossos pertences foram pilhados antes de atearem fogo à casa.

Vários vizinhos tútsis que sobreviveram viram nossa escolta m ilitar e vieram cum prim entar-m e. Inform aram -m e a respeito dos tristes acontecim entos transcorridos enquanto eu estava no esconderij o, narraram -m e o assassinato de m inha m ãe e m ostraram onde seus despoj os foram enterrados.

Alguns am igos de Dam ascene levaram -m e até a cova rasa em que apressadam ente enterraram o que restara dele. Karubu, nossa em pregada, que presenciara a execução de m eu adorado irm ão, contou-m e, palavra por palavra, golpe a golpe, com o tudo se passou.

As lem branças, de cortar o coração, e os detalhes m acabros, horrendos, foram dem ais para m im . Eu apenas com eçava a m e sentir curada, e m inhas feridas se reabriram sob o assalto da realidade brutal. Quis pedir aos vizinhos e soldados que m e aj udassem a dar um funeral adequado a m inha m ãe e m eu irm ão, m as não consegui falar. Um nó fechou m inha garganta e bloqueou m inha voz, então fiz sinal aos soldados que m e levassem de volta ao acam pam ento.

Quando o carro se afastou de m inha casa e passou diante dos m ontículos de terra, sem nom e, que cobriam m am ãe e Dam ascene, senti na boca o gosto am argo e suj o do ódio. Durante o cam inho de volta, olhei os rostos que observavam nossa passagem e soube, com toda certeza, que essa gente tinha as m ãos tingidas de sangue — sangue de seus vizinhos... sangue da m inha fam ília. Gostaria que os soldados encharcassem Mataba com gasolina e m e perm itissem acender o fósforo que a reduziria a cinzas.

Quando chegam os ao acam pam ento, fui direto para a cam a, sem falar com ninguém . Minha alm a estava em guerra com ela m esm a. Eu havia m e esforçado m uito para perdoar, m as agora m e sentia um a idiota por tê-lo feito; não restava em m im qualquer clem ência. Ver m inha casa em ruínas e visitar os túm ulos solitários e esquecidos das pessoas que eu am ava tinham sufocado m inha disposição de perdoar. Quando os vizinhos sussurraram em m eus ouvidos os relatos dos sádicos assassinatos de m inha fam ília, o sentim ento de ódio, que eu acreditava banido de m inha alm a, em ergiu violentam ente das profundezas do m eu ser com vigor renovado. Meu coração estava fam into de vingança, e a raiva ardia em m eu interior. Esses malditos animais! Eles são animais, animais, animais!

Rolei e debati-m e na cam a durante horas. Sabia que o diabo estava m e tentando — que m e afastava da luz de Deus, da liberdade de Sua m isericórdia. Podia sentir o peso de m eus pensam entos negativos arrastando-m e para longe da luz que m e havia guiado através da escuridão. Nunca m e senti tão só com o naquela noite. Deus era o m eu am igo m ais verdadeiro, e esses sentim entos erigiam um m uro entre nós. Sabia que m eus pensam entos causavam -Lhe dor, e essa idéia m e torturava.

Saltei da cam a e aj oelhei-m e.

— Perdoe m eus m aus pensam entos, ó Deus — rezei. — Por favor... com o sem pre tem feito, tire de m im esta dor e purifique m eu coração. Sacie m inha alm a com o poder de Seu am or e perdão. Aqueles que fizeram essas coisas horríveis são, apesar de tudo, Seus filhos, perm ita que eu os aj ude e aj ude-m e a perdoá-los. Oh, Deus, aj ude-m e a amá-los!

Um a súbita torrente de ar inundou m eus pulm ões. Soltei um profundo suspiro de alívio, e m inha cabeça voltou a repousar sobre o travesseiro. Estava novam ente em paz. Ainda estava triste, sim — profundam ente triste —, m as era um a tristeza que m e fazia sentir bem . Deixei que essa tristeza m e envolvesse e percebi que era um a tristeza pura, sem laivos de am argura ou de ódio. Sentia saudades desesperadas de m inha fam ília, m as fora-se a raiva que, com o algo m aligno, havia-se apoderado de m im .

Os que feriram m inha fam ília feriram m ais ainda a si m esm os, e m ereciam m inha piedade. Não havia dúvida de que teriam que ser punidos por seus crim es contra a Hum anidade e contra Deus. Falava-se na ONU na criação de um tribunal internacional para prender os responsáveis, e eu rezava para que isso acontecesse. Mas rezava tam bém por com paixão. Pedi que a m isericórdia divina pusesse fim ao ciclo de ódio — ódio que estava sem pre, perigosam ente, perto de vir à tona.

Eu estava ciente de que m eu coração e m inha m ente sem pre seriam tentados a sentir raiva — encontrar os culpados e odiá-los. Mas decidi que, quando os sentim entos negativos m e assaltassem , não lhes daria tem po para crescer e alastrar-se. Recorreria im ediatam ente à Fonte de todo o poder verdadeiro. Recorreria a Deus e deixaria que Seu am or e Sua m isericórdia m e protegessem e salvassem .

Quando levantei a cabeça, percebi que a lua j á havia surgido. Ouvi os soldados que riam e tocavam m úsica e fui lá para fora. Sarah e eu trocam os sorrisos, e eu sorri para todos. Os soldados davam um a festa e se surpreenderam quando m e j untei a eles, com um a aparência feliz. Eles dançaram a noite toda, e Sarah e eu assistim os e aplaudim os.

NO DIA SEGUINTE PERGUNTEI AO CORONEL SE PODIA ME LEVAR DE VOLTA à aldeia, para que pudesse dar a m inha m ãe e m eu irm ão um enterro digno. Ele estava preocupado com m inha reação no dia anterior e perguntou-m e se eu m e sentia forte o suficiente para isso. Dei-lhe a m inha palavra que sim , e ele providenciou a m esm a escolta m ilitar para levar-m e até lá.

Param os no m eio do cam inho para um a visita a m inhas tias Jeanne e Esperance, que m oravam perto da m inha antiga casa. Eu não as via desde que haviam deixado o acam pam ento francês. Nenhum a das duas estava com pletam ente recuperada de suas provações, e talvez nunca se recuperassem , m as, pelo m enos, estavam em condições bem m elhores. Tivem os um a reunião em ocionante à beira da estrada, m as procurei m anter m eu coração sob controle, em preparação para a tarefa solene que m e aguardava. Pedi a m inhas tias para entrarem em contato com todos aqueles que gostariam de se despedir de m am ãe e Dam ascene e depois se encontrarem com igo em m inha antiga casa.

A m aioria dos tútsis da aldeia que havia sobrevivido ao genocídio com pareceu, e alguns am igos hútus tam bém se j untaram a nós. Um velho am igo da fam ília, Kay itare, levou dois caixões; outro levou um a pá e um a Bíblia. Juntos fom os em busca dos restos m ortais. Prim eiro desenterram os Dam ascene; alguns vizinhos se agruparam , bloqueando m inha visão, e carinhosam ente m e em purraram para trás, para im pedir que eu visse o que restara dele.

Abri cam inho entre as pessoas.

— É o m eu irm ão: eu tenho que vê-lo — insisti.

Acho que eu nunca acreditaria que Dam ascene tinha realm ente m orrido se não visse seu corpo com m eus próprios olhos. Foi então que ouvi a pá esbarrar em um osso, e eu o vi... vi sua caixa torácica. A prim eira coisa que notei foi que ele não usava roupas e lem brei-m e de com o haviam tentado despi-lo de sua dignidade, antes de executá-lo.

— Não olhe — disse Esperance.

Mas eu tinha que olhar — vi seu tórax e m ais nada. Haviam -no esquartej ado — cortado seus braços, sua cabeça... Oh, Deus, meu doce Damascene, o que fizeram com você? Soltei um a espécie de guincho anim al.

Alguém se abaixou sobre a cova, depois levantou-se e voltou-se para m im , com o crânio de Dam ascene nas m ãos. A m andíbula proj etava-se para a frente, então vi os dentes... reconheci aqueles dentes. Tudo que restava de seu lindo sorriso ali estava, encarando-m e com um ricto contorcido e grotesco.

— Não... Dam ascene... m inha Nossa Senhora, m ãe de Deus. — A terra veio em m inha direção, m inha cabeça se chocou contra um a pedra, depois foi tudo escuridão.

Eu não esperava desm aiar, m as quando a m orte de m eu irm ão, finalm ente, penetrou em m inha m ente, foi com o se todo o oxigênio tivesse sido sugado do m undo. Os parentes e am igos m e reanim aram e m e puseram de pé; colocam os os restos m ortais de Dam ascene no caixão e o levam os conosco até onde estava m am ãe. Desta vez insistiram para que eu não olhasse para o corpo, que deveria estar m uito decom posto e seria um a visão perturbadora. Concordei, pois havia atingido o lim ite da m inha dor. Por m ais que enrij ecesse o coração, essa visão de m inha m ãe seria dem ais para m eus olhos am orosos suportarem . Concordei em enterrá-la sem que eu a visse. Eu lem braria dela tal com o fora em vida... com o estaria sem pre em m eu coração e em m eus sonhos.

Alguém m artelou os pregos na tam pa do caixão de m inha m ãe, e olhei para o rosto dos parentes e am igos — fisionom ias arrasadas, que refletiam vidas arrasadas. Ali estavam m inha prim a, que havia sido forçada a assistir enquanto seus três filhos eram retalhados; m eu tio Paul, que fora um hom em de vontade férrea, hoj e reduzido a um a som bra pela m orte de sua am ada esposa e seus sete filhos; e m inhas tias, cuj os m aridos estavam m ortos e cuj os filhos se tornaram doentes incuráveis.

Éram os todos participantes da desgraça que caíra sobre a aldeia, m as eu sabia que aqueles à m inha volta tinham perdido m ais do que eu. Haviam perdido a fé — e com ela toda a esperança. Contem plando os caixões de m inha m ãe e Dam ascene, pensei em m eu pai e Vianney, cuj os corpos eu j am ais encontraria... e agradeci a Deus. Eu havia perdido tudo, m as conservara m inha fé, e essa m e fazia forte, confortava-m e e m e m ostrava que a vida ainda tinha um propósito.

— Onde vam os deixá-los? Vam os enterrá-los onde? — perguntou tio Paul, que soluçava ao passar as m ãos pelos caixões toscos de pinho.

— Em casa — respondi. — Vam os levá-los para casa, onde poderão repousar.

Levam os os corpos de m am ãe e de m eu irm ão até as ruínas de nossa casa e cavam os um grande túm ulo no centro de um dos côm odos onde o am or e o riso tinham ecoado um dia. Já não havia padres na aldeia, e celebram os nós m esm os os ritos funerários. Cantam os alguns dos hinos favoritos de m inha m ãe, rezam os inúm eras orações. Pedi a Deus que m antivesse m inha fam ília perto de Si e que velasse por suas belas alm as lá no céu... e fizem os nossas despedidas.

— Vam os para casa, Sarah. Está na hora de voltar a Kigali — m urm urei para m inha am iga querida, m inha irm ã adotiva, que m e dera abrigo e um a nova fam ília.

Em pouco tem po estávam os novam ente entre as nuvens, voando acim a de m inha aldeia, m uito acim a das tristezas que m ancharam nossas vidas... tão alto que m e parecia poder tocar a face de Deus.