Sobrevivi para Contar
Apresentação
Devo ter lido alguns m ilhares de livros nos últim os cinqüenta anos. Este que o leitor tem em m ãos é, sem som bra de dúvida, o m ais em ocionante e m ais dolorosam ente significativo em m eio à vasta biblioteca que representa um a vida inteira dedicada à leitura.
Você está prestes a em barcar num a viagem que certam ente haverá de alterar — e para sem pre — sua opinião a respeito do poder da fé. Um a frase da Sagrada Escritura nos lem bra que “para Deus, tudo é possível”. Cito-a freqüentem ente em m inhas palestras, m uitas vezes seguida de um a pergunta retórica: “Essa frase prevê exceções?” A resposta é óbvia para qualquer um . “Tudo significa todas as coisas.”
Você j á deve ter lido que a fé em estado puro, aquela que não adm ite dúvidas, pode m over m ontanhas e m esm o fazer com que um cam elo passe pelo buraco de um a agulha. Entretanto, apesar da sua fé inabalável, a m ontanha provavelm ente perm aneceu im óvel em seu lugar de sem pre, e o buraco de um a agulha é pequeno dem ais para perm itir a passagem de um a sim ples pestana de cam elo — quanto m ais que a criatura inteira passe por essa m inúscula abertura. Pois bem , tenho o prazer de dizer-lhe que, quando term inar sua prim eira leitura de Sobrevivi para Contar, sua noção do que sej am todas as possibilidades não será m ais a m esm a. À m edida que testem unhar a experiência transcendental vivida por Im m aculée Ilibagiza em m eio a um holocausto terrível dem ais para ser contem plado, com preenderá com o a força ilim itada de um a fé pura e inam ovível pode levar à obtenção de m ilagres.
Apesar da horrenda dem onstração da desum anidade de que os seres hum anos são capazes de perpetrar uns para com os outros, acontecida em Ruanda há um a década ou pouco m ais, esta é na verdade um a história de am or no sentido m ais puro da palavra — um a história do triunfo do espírito hum ano, a história da fé profunda de um a m ulher e de sua determ inação em sobreviver (a despeito de dificuldades literalm ente invencíveis) para narrar esses fatos e fazer-se m ensageira de um a nova consciência religiosa. Um a história em que o am or a Deus se m ostra tão forte que, diante dele, o ódio e o desej o de vingança se dissolvem .
Convivo há um ano com Im m aculée e posso dizer que a conheço bem , m uito bem — em verdade, nos com unicam os diariam ente. Ela tem sido m inha com panheira em m uitas viagens, para contar sua história a platéias que com preendem alguns m ilhares de pessoas, e com partilham os do m esm o palco. Conversam os a sós por horas a fio a respeito de suas vivências do holocausto e de suas atuais aspirações, e passei m uito tem po com ela e sua fam ília. Dialoguei com seus colegas de trabalho e com outros que com ela sobreviveram , e ela conviveu m uito tem po com m eus filhos. Trocam os idéias durante as longas viagens de trem ou avião, que nos levam de um a palestra a outra, e a vi dirigir-se a platéias num erosas ou reduzidas. Posso dizer que conheço tão bem essa m ulher dinâm ica e poderosa que posso incluí-la entre os m eus am igos m ais íntim os. Eu lhe quero tanto bem e a adm iro tanto que lhe dediquei m eu livro m ais recente, Inspiration (Inspiração).
Faço questão de revelar aqui, na introdução a este livro extraordinário, qual é m inha relação pessoal com Im m aculée, para que você, leitor, que vai m ergulhar num a experiência que m udará para sem pre sua vida (e estou convencido de que igualm ente fará deste mundo um m undo m elhor), sej a inform ado em prim eira m ão do quanto Im m aculée Ilibagiza é adm irável aos m eus olhos. Durante as inúm eras horas que passam os j untos, em am bientes públicos ou privados, essa m ulher espiritualm ente transcendental sem pre — sempre é a palavra certa — irradia um a luz que contagia todos ao seu redor.
Em um a sim ples conversa à m esa do j antar, os presentes não apenas a escutam , com o tam bém sentem sua atração m agnética; é possível ouvir um a m osca voar em m eio a um a platéia num erosa, à m edida que as palavras brotam do seu coração com tam anha convicção. Trata-se de algo m ais do que sim ples carism a — Im m aculée não se lim ita a falar e escrever a respeito do am or incondicional e do perdão, m as os irradia onde quer que estej a. Sua vida transcorre num nível superior de consciência espiritual que eleva o nível de energia de todos que dela se aproxim am ... inclusive eu m esm o.
No m om ento em que a conheci, soube im ediatam ente, com o se através de um a revelação, que estava na presença rara de um a pessoa singularm ente Divina (o que se tornará evidente quando você chegar ao final deste livro). Nos falam os ligeiram ente após um a palestra que proferi no Instituto Om ega, na cidade de Nova York, e, depois de um ou dois segundos, ela havia desaparecido da m inha vista — m as durante esses poucos segundos eu havia sido conquistado. Intuí sua energia excepcionalm ente forte, tal com o havia acontecido ao m e encontrar, anos atrás, com Mãe Meera, um a indiana que m uitos acreditam ser um a reencarnação da Mãe Divina.
Im m aculée não pediu m inha aj uda para publicar este livro — fui eu quem a procurou. Aquela centelha interior de am or e j úbilo que eu havia sentido em sua presença não m e abandonava, então pedi a m inha filha Sky e, que havia trocado endereços de e-m ail com Im m aculée, para contatá-la. Dias se tornaram sem anas, e nada de com unicação. Diariam ente eu perguntava a Sky e: “Já teve algum a resposta daquela m ulher de Ruanda?”
Até que, finalm ente, Im m aculée respondeu a m inha filha, e eu lhe telefonei im ediatam ente. Perguntei: “Você está disposta a escrever a história de sua sobrevivência? Sinto-m e na obrigação de contribuir para que sua m ensagem sej a ouvida em todo o m undo.” Foi então que Im m aculée m e contou que j á havia escrito, ela m esm a, cada detalhe de suas provações com o um a tútsi em Ruanda por ocasião do genocídio de 1994, perseguida e m arcada para m orrer. Contou-m e tam bém acreditar que fora poupada com essa finalidade, m as suas tentativas de publicar essas notas tinham sido em vão, principalm ente porque o inglês era sua terceira língua, e precisava de alguém para aj udá-la a selecionar o essencial em sua história e convertê-lo em algo m ais legível.
Então pedi-lhe que m e enviasse tudo que havia escrito, o que som ava cerca de 150 m il palavras, com as quais, laboriosam ente, uns cinco anos após partir de Ruanda, ela tinha registrado cada detalhe. Telefonei para m eu am igo Reid Tracy, presidente da editora Hay House, e ficou com binado que o escritor Steve Erwin aj udaria Im m aculée a contar sua história, do m odo com o é contada neste livro. Prom eti a Reid que apoiaria o proj eto de todas as form as possíveis: eu não só escreveria a Apresentação, m as tam bém incluiria Im m aculée e sua história em m inhas aparições públicas. E m ais: iria a Ruanda com ela e sua fam ília, com a finalidade de aj udá-la a angariar fundos para sua m issão em favor das m uitas crianças que ficaram órfãs quando a m atança finalm ente cessou.
Disse, ainda, a Reid que gostaria de apresentar Im m aculée no m eu especial de
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televisão — Inspiração: seu objetivo primordial — e faria o que estivesse ao m eu alcance para tornar conhecida do público a saga espiritual dessa m ulher. Tudo por causa do que eu sentira ao encontrá-la pela prim eira vez, ao fundo de um a sala cheia de gente e por alguns m om entos apenas.
Dizem que as leis do mundo material não se aplicam aos que vivem na consciência da presença de Deus em si mesmos. Estou certo de que o leitor concordará com essas palavras ao term inar a leitura deste livro. Vezes sem conta, a pureza do sentim ento de Im m aculée da presença de Deus em seu eu m ais íntim o perm itiu-lhe erguer barreiras invisíveis, de tal m odo que os assassinos com seus facões, a um a distância de alguns centím etros, ficaram cegos à sua presença. À m edida que sua fé se fortalecia, os m ilagres se tornavam m ais extraordinários. Suas visões tornaram -se tão realistas — e todas as dúvidas se dissiparam nela — que ela se fez una com Deus. Sabia que Deus estava ao seu lado, ao ver um a cruz lum inosa livrá-la e a suas com panheiras de um a m orte certa. Anj os de am or e com paixão pareciam surgir do nada quanto m ais intensa era sua com unhão com Deus. Pôde olhar fixam ente para um assassino em pedernido e esperar, confiantem ente, vê-lo deixar cair a arm a e perm anecer im óvel, enquanto seu desprezo se transm udava em bondade.
E, finalm ente, quando abandonou todo o sentim ento de ódio e vingança que nutria pelos assassinos — a despeito de que um dia isso lhe houvesse parecido im possível —, fundiu-se em um a união divina com Deus ao oferecer aos seus perseguidores não apenas com paixão, m as perdão com pleto e am or incondicional. Sim , ela se uniu ao Espírito, com o qual perm anece até hoj e.
Você se sentirá profundam ente tocado por sua história. Será capaz de sentir o seu m edo, certam ente há de chorar, e perguntará a si m esm o aquilo que todos nós costum am os perguntar: Como algo assim pôde acontecer? De onde vem tamanha animosidade? Por que não somos como Deus, que é a Fonte de todos nós? Mas haverá de sentir, intensam ente, algo m ais: sentirá esperança, um a esperança de que, passo a passo, o ser hum ano cam inhe em direção a novas atitudes — isto é, cam inham os em direção a um a vida consciente da presença de Deus em nós.
A m eu ver, Im m aculée não sobreviveu apenas para contar esta história horripilante, m as é, acim a de tudo, um exem plo vivo do que podem os realizar quando nos voltam os para nosso interior e optam os integralm ente por viver em perfeita harm onia com o Espírito que nos deu origem .
Honra-m e ter sido em parte o responsável por cham ar a atenção m undial para esta história. Sinto-m e honrado pela oportunidade de, lado a lado com Im m aculée, colaborar com sua m issão de com paixão e am or — não som ente em Ruanda, assim com o em todos os lugares em que o ódio há tanto tem po se faz presente. Sinto-m e profundam ente honrado ao escrever estas poucas palavras neste livro que você, leitor, está prestes a iniciar. Asseguro-lhe que, à m edida que prosseguir na leitura, terá avançado m ais um passo em direção a um a vida unida à Essência Divina, da qual som os todos originários.
Am o este livro, am o Im m aculée Ilibagiza.
Im m aculée, obrigado por você fazer parte da m inha vida.
— Wayne Dyer, Maui, Havaí.
1 Inspiration: Your Ultimate Calling.