Sobrevivi para Contar

Immaculée Ilibagiza · Capítulo 15 de 32

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Sobrevivi para Contar

Capítulo 10 - Confrontando Minha Ira

CAPÍTULO 10

Confrontando Minha Ira

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Muitos dias se passaram em relativa calm a. Só ocasionalm ente ouvíam os os assassinos a cantar suas canções doentias lá fora. Rezávam os silenciosam ente o dia inteiro e nos com unicávam os através de sinais. A cada 12 horas, aproxim adam ente, nos perm itíam os alguns m om entos para esticar as pernas. Fora esses m om entos, nos m ovim entávam os o m ínim o possível e passávam os o dia e a noite na m esm a posição.

Usávam os a descarga do vaso segundo as instruções do pastor Murinzi — apenas quando outra pessoa da casa fazia o m esm o no outro banheiro. Usar o vaso era um desafio: o espaço era tão pequeno que um a de nós tinha que ficar sentada em cim a dele; assim , quando alguém precisava aliviar-se, tínham os que trocar todas de lugar. O que representava o risco de fazer barulho e serm os descobertas.

Estranham ente, apesar de term os perm anecido tanto tem po no banheiro, não retive na m em ória a im agem de alguém utilizando o vaso, m esm o situado bem no m eio de nós, nem m e lem bro de ser incom odada pelo odor. Nossos ciclos m enstruais vinham e term inavam regularm ente, e deixávam os o pastor intrigado com pedidos constantes de m ais papel higiênico. Entretanto, não nos sentíam os constrangidas com a situação — aprendem os a ignorar essas funções e a nos abster do luxo da privacidade, ainda m ais que tudo nos parecia trivial se com parado à sobrevivência.

Com íam os quando o pastor aparecia com algum a com ida, o que era esporádico. Em alguns dias, ele só vinha depois das três ou quatro da m anhã; em outros, nem ao m enos aparecia. Tinha que em purrar o arm ário toda vez que precisava nos ver ou trazer com ida, m as tom ava m uito cuidado para não fazer barulho. Havia um tapete sob o guarda-roupa, que abafava o som ; Deus, m ais um a vez, velava por nós. Com m edo de cham ar atenção se cozinhasse refeições extras, dava-nos as sobras que seus filhos deixavam , ou tudo que os criados j ogavam no lixo. Muitas vezes, por m aior que fosse nossa fom e, não conseguíam os engolir o que ele nos oferecia, pois m ais parecia lavagem para porcos. Eu ria de m im m esm a ao m e lem brar de com o, em casa, era exigente para com er. Felizm ente ele trazia água para beberm os.

Parecia im possível, m as, após alguns dias de sossego, nos tornam os um pouco descuidadas. O pastor nos cham ou de volta à realidade.

Certa noite, veio avisar que os assassinos estavam por perto, indo de casa em casa. Esquadrinhavam tudo e m atavam os tútsis que encontravam .

— Eles podem estar aqui dentro de m inutos, podem só vir am anhã, ou no dia seguinte. Mas, com certeza, virão. Portanto, fiquem quietas — advertiu.

Lá se foram nossas fantasias de encontrar algum a paz de espírito ali no banheiro. A ansiedade causada pela possibilidade da volta dos assassinos era um a tortura constante, física e m ental, com o se alguém m e espetasse com um a vara de tanger bois sem pre que o assoalho rangia ou um cão se punha a latir. Só conseguíam os dorm ir por breves períodos de cada vez, e com isso m inha pele secou e com eçou a descam ar, e m inha cabeça doía constantem ente.

O sofrim ento espiritual era ainda m ais intenso. Estava presa, a sós com m eus pensam entos, e os som brios m edos e dúvidas que m e obcecavam desde a chegada tornaram -se im placáveis — penetravam no m eu coração e solapavam os alicerces da m inha fé. Quando os assassinos não estavam ao alcance do ouvido, m eus pensam entos se desviavam de Deus e davam lugar ao espírito do m al. Mas sem pre que rezava, sentia-m e im ediatam ente envolvida pelo am or divino, e a ansiedade se acalm ava.

Foi então que decidi rezar durante todo o tem po em que estivesse acordada, assim que m eus olhos se abriam , entre quatro ou cinco horas da m anhã. Com eçava por agradecer a Deus pelo fato de a casa do pastor ter sido construída, e hoj e poder fornecer-nos abrigo contra o genocídio. A seguir agradecia a Deus por ter orientado o arquiteto a proj etar a casa com um banheiro extra e ter inspirado ao pastor a idéia de com prar um arm ário do tam anho certo para ocultar nosso esconderij o.

Depois das orações iniciais de agradecim ento, eu dava início ao rosário. A cada conta verm elha ou branca, rezava diferentes orações da Igrej a Católica. Rezava às vezes com tanta intensidade que chegava a suar. As horas passavam ... Eu fazia então um a pausa nas orações e m editava sobre algum a passagem favorita da Bíblia.

Percebendo que m inha fé corria risco, eu passava horas refletindo sobre dois versículos de Marcos, que havia decorado e que se referiam ao poder da fé. Um deles era: Por isso vos digo que tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e tê-lo-eis. (Marcos 11:24).

Depois este outro: Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito. (Marcos 11:23).

Qualquer m inuto não ocupado em oração ou na contem plação de Deus era um convite a Satã para m e atacar com sua faca de dois gum es: a dúvida e a autopiedade. A oração passou a ser um a arm adura na qual envolvi m eu coração.

O PASTOR VIVIA PREOCUPADO, COM MEDO DE QUE nos esquecêssem os de suas recom endações e fizéssem os barulho, de m odo que raram ente perm itia a entrada de alguém em seu quarto. Mas, de vez em quando, um de seus filhos ou um em pregado ia vê-lo no quarto, e ficávam os na m aior agonia até que saíssem . Mais ou m enos um a sem ana após nossa chegada, nós o ouvim os conversar com o filho Sem beba.

— O que você pensa de todas essas m ortes, papai? Não acha que está certo, que é exatam ente o que os hútus devem fazer? Ensinaram na escola que, séculos atrás, os tútsis fizeram o m esm o conosco. Então eles m erecem , não m erecem ?

— Sem beba, você não sabe o que está dizendo. Agora m e deixe dorm ir — respondeu o pastor.

— Esses tútsis sem pre se acharam superiores... Sem pre olharam para os hútus com desprezo. Você não acha que se eles ainda estivessem no poder eles nos m atariam agora m esm o? Matá-los é legítim a defesa, não é?

A voz dele nos chegava tão alta aos ouvidos que dava para saber que Sem beba estava bem ao lado do arm ário, e tive m edo de que notasse que tinha sido m udado de lugar. Entretanto, m esm o m orta de m edo, precisei dom inar-m e para não ir lá brigar com ele — suas palavras m e deixaram furiosa.

Por outro lado, eu sabia que ele não era inteiram ente culpado por tanta ignorância, pois seu desprezo pelos tútsis lhe havia sido ensinado na escola... a m esm a que eu havia freqüentado. Jovens hútus, desde a idade m ais tenra, aprendiam que tútsis eram inferiores e não confiáveis, e que não havia lugar para eles em Ruanda. Presenciavam essa segregação diariam ente, prim eiro no pátio da escola, m ais tarde em seus locais de trabalho, e aprendiam a considerar os tútsis com o não hum anos ao ouvi-los intitulados “serpentes” e “baratas”. Não é de adm irar que fosse tão fácil para eles m atar-nos — serpentes devem ser m ortas, e baratas, exterm inadas!

A hum anidade j á havia presenciado isso anteriorm ente, vezes sem conta. Depois do que aconteceu na Alem anha nazista, os países grandes e poderosos j uraram “Nunca m ais!”. Mas ali estávam os nós, seis m ulheres inofensivas, agachadas na escuridão, m arcadas para m orrer, só porque havíam os nascido tútsis. Com o podia a história repetir-se assim ? Com o o m al conseguira voltar à tona? Quem dera ao dem ônio perm issão para andar entre nós e envenenar corações e m entes até ser tarde dem ais?

O pastor certam ente sabia que podíam os ouvir a conversa, pois repreendeu o filho:

— Você é um garoto bobo, m uito bobo, Sem beba. Não há desculpa, j am ais, para o derram am ento de sangue sem j usta causa. Agora saia do quarto. Estou cansado de ouvi-lo.

— Você pensa que eu sou bobo por caçar tútsis, papai? Então não acha que escondê-los é um a bobagem m aior ainda? Na certa você j á sabe que é isso que estão dizendo de você. Será verdade? Você esconde tútsis aqui em casa?

Fiquei com o coração engasgado. Minha raiva passou e, novam ente, o que senti foi m edo.

— Basta de bobagens, Sem beba. Não estou escondendo tútsi algum . Mas fico triste ao ouvi-lo falar com tanto ressentim ento. Sua própria m ãe era um a tútsi. Você deve saber que seus tios e tias e todos os seus prim os estão sendo caçados e m ortos. Agora saia do quarto e não volte aqui. Saia!

Ainda não estávam os recuperadas da visita terrível de Sem beba quando ouvim os granadas explodirem na vizinhança. Houve um a série de estrondos, com o o de prédios desabando. Depois de cada estrondo, ouvíam os:

— Matem os adultos, m atem as crianças, m atem , m atem , m atem todos eles!

Soou um tiroteio perto da casa; a cantoria ficava cada vez m ais alta e soubem os que os assassinos vinham em nossa direção. Rezei em silêncio, e, m om entos depois, ouvim os um trovão, seguido de um aguaceiro. Im agino que os assassinos correram para se abrigar do tem poral em suas casas, porque tudo o que ouvim os pelo restante da noite foi a chuva caindo sobre o telhado de m etal.

Nessa noite o pastor veio ter conosco. Tinha a face pálida e os olhos verm elhos e cansados. Pensei que estivesse preocupado com as suspeitas de Sem beba, m as era algo pior. Tinha saído para um a cam inhada nos arredores e presenciado a gravidade dos horrores que aconteciam ali perto. Contou-nos que m ilicianos de Interaham we, soldados e civis hútus estavam destruindo todos os lares tútsis que encontravam .

— A situação é m uito ruim lá fora — explicou —, m uito, m uito ruim . Presenciei as chacinas de 1959 e 1973, e essas não foram nada em com paração com a atual. Vocês têm que com preender que tudo foi interrom pido: as escolas e m ercados fecharam , ninguém trabalha. O país parou até que a tarefa estej a concluída.

— O que significa “até que a tarefa estej a concluída”? Até qual tarefa estar concluída? — eu quis saber.

O pastor hesitou um pouco.

— Matar os tútsis. A tarefa só estará concluída depois que todos os tútsis forem m ortos. Essa é a principal m eta do governo, e querem que todos se esforcem para executá-la. Eu hoj e vi coisas que desej aria j am ais ter visto.

Senti um nó na boca do estôm ago. Pensei em m inha fam ília e tive vontade de tam par os ouvidos para bloquear a voz do pastor.

— Mataram m ilhares de pessoas — ele prosseguiu —, dezenas de m ilhares, talvez centenas de m ilhares, quem sabe? Foram tantos os tútsis a pedir abrigo nas igrej as que era im possível fechar as portas. As igrej as sem pre foram consideradas território protegido contra execuções, m as não desta vez. Incendiaram igrej as com gente lá dentro, e quem tentava sair era abatido a tiro.

— Não, m eu Deus! — exclam ei. — Disseram no rádio que fossem todos para as igrej as e estádios, onde seriam protegidos.

— Talvez tenham dito, m as não com a intenção de protegê-los. Os assassinos foram m andados para lá, com m etralhadoras e granadas. Há pilhas de corpos, da altura desta casa... o cheiro é insuportável.

— Por favor, pastor, basta. Não diga m ais nada — im plorei.

Queria pedir notícias de m inha fam ília, m as não m e achava em condições de ouvir o que ele talvez tivesse para dizer. Não conseguiria suportar m ais um a palavra.

— Lam ento contar-lhes tudo isso, m as vocês precisam saber o que está acontecendo — j ustificou. — Talvez sej am as únicas tútsis rem anescentes em Ruanda. Se tivessem visto o que eu vi, nem sei se iriam querer continuar vivas.

As outras m ulheres choravam , m as eu não. Naquele m om ento eu não tinha lágrim as. Não senti dor, senti raiva. Nunca sentira tanta raiva em m inha vida — m inha raiva era m aior do que eu pensava ser possível. Estava com raiva do pastor por contar-nos esses detalhes horripilantes, m esm o sabendo que nossas fam ílias estavam lá fora sem ter onde se esconder. Raiva do governo por ter desencadeado esse holocausto. Raiva dos países ricos que não im pediam a m atança. Mas, acim a de tudo, raiva dos hútus — de todos eles. O pastor continuou relatando os horrores que aconteciam aos tútsis, e m inha raiva cresceu e se transform ou em ódio ardente e profundo.

Eu nunca havia com etido um ato de violência contra pessoa algum a, m as, naquela hora, só desej ava possuir um fuzil para sair m atando todos os hútus. Não, nada de fuzil, eu queria m esm o era um a m etralhadora, granadas e lança-cham as! Eu queria m atar todo m undo, até tútsis... queria ser com o o Ram bo e incendiar o país. Se possuísse um a bom ba atôm ica, eu a lançaria sobre Ruanda e m ataria todos os habitantes da nossa pátria idiota e odiosa.

Olhei para o pastor e quis m atá-lo tam bém . Nunca havia im aginado que eu fosse capaz de tam anha fúria, e percebi que só com m uita oração m e livraria dela.

O pastor Murinzi term inou seu relato, e ficam os ali, olhando para ele à espera de m ais notícias horríveis. Teria sido m enos cruel se ele pegasse um chicote e nos espancasse até a m orte. Eu não conseguia acreditar em suas palavras sem ter um a confirm ação. Quando ele se preparava para sair, pedi que ligasse o rádio do quarto, para poderm os ouvir o noticiário. Ele concordou e fechou a porta.

Pouco depois ouvim os na estação oficial a transm issão do discurso de um m inistro:

— Apelo a todos os hútus de Ruanda... chegou a hora de nos aliarm os contra nosso inim igo com um . Devem os deixar de lado divergências políticas e unir-nos em nossa defesa. As serpentes tútsis querem nos m atar... precisam os m atá-las prim eiro. Matem tútsis onde quer que os encontrem — não poupem um único sequer. Matem os idosos e tam bém as crianças — são todos serpentes. Se os rebeldes da FPR retornarem ao país, que sej a apenas para encontrar os cadáveres de suas fam ílias. Apelo a todos os hútus para que cum pram com seu dever e aniquilem nossos inim igos tútsis.

Tive certeza de que o pastor não m entiu e que m eu pai errara em confiar no governo. Aqueles em quem ele acreditava planej aram o genocídio e convocavam o povo de Ruanda para realizar a tarefa. Em Ruanda cultua-se a obediência, e eu sabia que m esm o hútus norm alm ente pacíficos, ao ouvirem no rádio seus líderes m andarem -nos m atar os tútsis, obedientem ente pegariam seus facões.

Cerca de um a hora m ais tarde, o pastor sintonizou o noticiário da BBC, e ouvim os a notícia de que a FPR (soldados tútsis rebeldes) abrira cam inho vitoriosam ente do extrem o Norte até a capital Kigali. Dizia ainda o noticiário que o governo extrem ista hútu, responsável pelo genocídio, corria o risco de cair. Essa notícia fez nossos corações saltarem de alegria — se a FPR havia chegado a Kigali, poderia em poucas sem anas alcançar o Sul, onde se localizava nossa província. Mais cedo ou m ais tarde, chegariam a nossa aldeia e nos salvariam .

Eu desej ava que fosse o m ais cedo possível, pois m ais tarde poderia ser tarde dem ais para nós.