Sobrevivi para Contar
Parte II - No esconderijo
Parte II - No esconderij o
PARTE II
NO ESCONDERIJO
Capítulo 9 - Para Dentro do Banheiro
CAPÍTULO 9
Para Dentro do Banheiro
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Vianney e Augustine saíram . Fechei a porta e fui m e reunir às dem ais m ulheres tútsis.
O pastor Murinzi pegou um a lanterna e guiou-nos pelo corredor escuro até seu quarto. Nossos olhos seguiram o facho de luz, que percorreu a parede até parar sobre um a porta, que supus dar para o pátio.
— É aqui que vocês vão ficar — disse, e abriu um a porta que revelou nosso novo lar: um banheiro pequeno, de aproxim adam ente um m etro e vinte de com prim ento por um m etro de largura. A luz cintilou sobre os azulej os esm altados que cobriam a m etade inferior das paredes. Havia um box com chuveiro num a extrem idade e um vaso sanitário na outra — o côm odo era pequeno dem ais para conter um a pia. A ventilação provinha de um a pequena j anela basculante, à altura do teto, coberta por um pedaço de pano verm elho, fazendo o côm odo parecer ainda m enor.
Era difícil im aginar com o nós seis poderíam os caber num lugar tão pequeno, m as o pastor nos m andou entrar, e nos am ontoam os lá dentro.
— Enquanto estiverem aqui, vocês têm que ficar quietas, e isso quer dizer em silêncio absoluto — preveniu-nos. — Se fizerem qualquer ruído, m orrerão. Se forem ouvidas, vão encontrá-las e m atá-las. Ninguém pode saber que estão aqui, nem m esm o m eus filhos. Entenderam ?
— Sim , pastor — m urm uram os em uníssono.
— Não dêem descarga no vaso nem usem o chuveiro. — E apontou com a lanterna um ponto logo acim a do vaso. — Há m ais um banheiro, do outro lado da parede, que utiliza o m esm o encanam ento. Se for indispensável usar a descarga, esperem até alguém usar o outro banheiro e usem a descarga exatamente no m esm o instante. Entenderam ?
— Sim , pastor.
A lanterna se apagou, suas últim as palavras foram pronunciadas no escuro:
— Acredito que as execuções vão continuar por m ais um a sem ana, talvez m enos. Se forem cuidadosas, vocês sobreviverão. Eu detestaria que os assassinos as encontrassem ... sei o que eles fariam .
O pastor fechou a porta e nos deixou em total escuridão, nossos corpos com prim idos uns contra os outros. O calor e o cheiro enj oativo produzidos por nossos hálitos, suor e pele se m isturaram e nos deixaram tontas.
Tentam os nos sentar, m as não havia espaço para todas se m ovim entarem ao m esm o tem po. As quatro m ais altas tivem os que nos encostar contra a parede, depois escorregar até o chão, então puxar as m enores para baixo, por cim a de nós. Já passava das três da m adrugada, estávam os inteiram ente despertas, m as não ousávam os falar. Ficam os ali da m elhor m aneira que podíam os; os únicos ruídos eram nossa respiração e o cricrilar dos grilos lá fora.
Rezei em silêncio e pedi a Deus que protegesse Vianney e Augustine e m antivesse m eus pais e Dam ascene a salvo. Agradeci-Lhe por nos providenciar esse banheiro. Eu acreditava firm em ente que Deus tinha orientado o pastor a nos trazer até ali e, pela prim eira vez em m uitos dias, senti-m e com pletam ente segura. Se eu, em m inhas visitas freqüentes, nunca notara o banheiro, certam ente ninguém m ais o faria.
Pedi a Deus que abençoasse o pastor Murinzi por arriscar a própria segurança para nos aj udar... m as hesitei no m eio da oração. Senti um a onda de raiva ao lem brar que ele m andara em bora m eu irm ão e o nosso am igo em plena escuridão. Pedi a Deus que m e aj udasse a perdoar o pastor algum dia.
A lua surgiu de trás de um a nuvem , e um raio de claridade, tênue e pálido, se esgueirou por um a fresta da cortina verm elha, o que m e perm itiu ver os rostos de m inhas com panheiras: sentada ao m eu lado, Athanasia, um a bonita m ocinha de 14 anos, de olhos lindos e grandes que refletiam o luar. Em cim a dela, Beata, de 12 anos, ainda com o uniform e escolar e um a expressão perdida e m uito assustada. Puxei-a para o m eu colo e ninei-a em m eus braços até ela fechar os olhos.
À m inha frente estava Therese. Com 55 anos, era a m ais velha do grupo. Therese vestia um xale colorido enrolado em torno do corpo, um traj e típico ruandês, m uito popular entre as m ulheres casadas. Era a m ais preocupada de todas, provavelm ente porque apenas duas de suas filhas — Claire e Sanda — estavam com ela. Claire tinha um a pele m uito clara e, em bora da m esm a idade que eu, estava nervosa e retraída e não olhava para m im . Sua irm ã m enor, Sanda, de apenas 7 anos, era a m ais nova de todas, bonitinha, graciosa e surpreendentem ente calm a. Em m om ento algum chorou ou dem onstrou m edo, em bora todas nós trem êssem os — acredito que passou em estado de choque todo o tem po que estivem os dentro do banheiro.
A insistência do pastor para nos m anterm os caladas estava gravada em nós. Ficam os ali, desconfortavelm ente am ontoadas, am edrontadas dem ais até para m udar de posição ou respirar fundo. Aguardam os que a luz acinzentada da m adrugada entrasse no côm odo, então nos revezam os, de m odo que cada um a tivesse sua vez de ficar de pé e esticar os m em bros. Cada um a tinha direito a apenas dois ou três m inutos, até retom ar a incôm oda posição no chão.
Quando a m anhã clareou, aves com eçaram a cantar nos galhos da árvore do j ardim do pastor. Invej ei-as e pensei, Vocês tiveram sorte em nascer pássaros e livres... vejam o que nós humanos fazemos uns aos outros.
ESTÁVAMOS TÃO CANSADAS, FAMINTAS E ESPREMIDAS, m orrendo de calor, que nosso prim eiro dia no banheiro se passou num a espécie de inconsciência dolorosa. Im possível dorm ir. Assim que eu pegava no sono, era acordada pela cãibra nas pernas ou pelo cotovelo de alguém esbarrando contra m inha costela.
No início da tarde, ouvim os a voz do pastor Murinzi dizendo a alguém do lado de fora:
— Não, não, de m odo algum . Nem sei do que você está falando. Sou um hútu e j am ais esconderia tútsis. Não há tútsi algum aqui... eles se foram durante a noite.
Olham os um as para as outras com olhos arregalados. Ficam os aterrorizadas.
— Não quero encrencas com o governo — prosseguiu o pastor. — Vocês m e conhecem e têm o dever de proteger m inha casa... os rebeldes tútsis podem m e atacar porque sabem que sou um verdadeiro hútu.
A pessoa com quem o pastor falava partiu, e pudem os relaxar. O pastor Murinzi m entiu para nos salvar — tive a certeza de que não nos entregaria aos assassinos. Já não havia saída para ele — se nos entregasse, saberiam que nos havia escondido. Cham ariam -no de m oderado, um traidor de sua tribo, e o m atariam assim com o fariam conosco.
Respirei m ais aliviada e abracei a pequena Beata, deitada no m eu colo. Lem brei-m e de com o m inha m ãe m e punha no colo quando eu era pequena e estava com m edo. Lem brar-m e de m am ãe m e fez sentir triste — pela prim eira vez na vida eu não sabia do paradeiro de m eus pais e irm ãos. Cochilei e sonhei com Vianney, Augustine e Dam ascene batendo às portas do pastor, enquanto, atrás deles, nossa casa queim ava. Vi m eus pais m ontados sobre a m otocicleta de papai, e m inha m ãe perguntando: “O que vai acontecer aos m eus filhos?”
No m eio do sonho, o pastor Murinzi abriu a porta e, sem um a palavra, nos em purrou um prato com batatas e feij ões frios. Era bem tarde, talvez 11 horas da noite, e nenhum a de nós havia com ido ou bebido o que quer que fosse nos últim os dois dias.
Atacam os o prato, agarrando a com ida com dedos suj os e enfiando-a na boca.
Quando o pastor voltou, cinco m inutos m ais tarde, com garfos, j á tínham os devorado tudo. Ele olhou para o prato, depois para nós, cheio de piedade. Um m om ento depois, j ogou um colchonete para dentro do banheiro.
— Foi um a longa j ornada até aqui, agora tentem descansar — foram suas palavras antes de fechar a porta.
AO ACORDARMOS NO DIA SEGUINTE, NOS REVEZAMOS para esticar os m úsculos doloridos. Qualquer m ovim ento representava um problem a, pois não podíam os nos com unicar. Logo inventam os um código de sinais, e essa seria nossa linguagem silenciosa durante o tem po que durou a estada dentro do banheiro.
A dor nas pernas encolhidas provocou-m e um a careta, e pensei que teria m uitas histórias para contar depois da guerra, a respeito do quanto eu havia sofrido. “Im aginem o que suportei”, eu diria aos am igos. “Passei um dia inteiro e um a noite presa com cinco estranhas, dentro de um banheiro m inúsculo. Fui um a heroína!”
Mal havia com eçado a elaborar m inha fantasia, fui trazida de volta à realidade por im agens de m inha fam ília: m eus pais fugindo da casa em cham as; a triste partida de Dam ascene; Augustine e Vianney soltos no m undo sem ter para onde ir. Graças a Deus Aim able estava em segurança, longe de Ruanda. Mas e os m ilhares que se refugiaram em nossa casa, o que lhes teria acontecido? Teriam encontrado abrigo ou j aziam feridos em algum canto, para sangrar até a m orte? Senti-m e boba e egoísta por m e entregar à autopiedade enquanto m ilhares de pessoas certam ente sofriam m uito m ais.
Quando chegou m inha vez de esticar as pernas, irrom peu um tum ulto do lado de fora. Eram dezenas, talvez centenas de vozes, um as gritando, outras cantando. Soubem os que os assassinos tinham chegado.
— Vam os caçá-los nas florestas, lagos e colinas; vam os desentocá-los nas igrej as; vam os riscá-los da face da Terra.
Fiquei na ponta dos pés e espiei pela j anela, através de um furo na cortina. Minhas com panheiras m e agarraram , puxando-m e para baixo. Athanasia balançou a cabeça freneticam ente, e seus lábios form aram as palavras:
— Desça daí! Eles estão à nossa procura! Desça antes que eles a vej am !
Não lhes dei atenção, em purrei suas m ãos e continuei a espiar. Mas logo m e arrependi porque fiquei petrificada pelo que vi diante dos m eus olhos.
Centenas de pessoas cercavam a casa, m uitas delas vestidas com o diabos, com saias feitas de casca de árvore e folhas de bananeira; algum as usavam tam bém chifres de cabra am arrados à cabeça. Apesar dos traj es dem oníacos, seus rostos eram facilm ente reconhecíveis, e seu olhar era hom icida.
Os dem ônios guinchavam e gritavam . Davam saltos e agitavam no ar facas, lanças e facões. Cantavam canções que falavam de genocídio e dançavam a dança da m orte:
— Matem ! Matem ! Matem todo m undo! Matem os adultos e as crianças! Matem os j ovens e os velhos tam bém ... Um filhote de serpente não deixa de ser um a serpente, deve ser m orto tam bém , nenhum pode escapar. Matem , m atem ! Morte a todos eles.
Quem cantava não eram soldados, nem a m ilícia adestrada que vinha nos atorm entando há dias. Não, eram nossos vizinhos, pessoas ao lado de quem eu havia crescido, que foram m eus colegas de escola — m uitos j antaram em m inha casa.
Percebi entre eles Kananga, m eu conhecido desde a infância e que m eu pai tinha tentado orientar quando abandonou a escola no segundo grau. Vi Philip, um rapaz que era tím ido dem ais para encarar as pessoas, m as que agora se m ostrava totalm ente à vontade entre a gangue de assassinos. À frente do bando divisei dois professores, am igos de Dam ascene. Reconheci no m eio da turba dúzias de cidadãos proem inentes de Mataba, m ovidos por um a fúria hom icida, gritando palavras de ordem que pediam o sangue dos tútsis. Os chefes do grupo forçaram a entrada na casa do pastor, e a cantoria agora vinha de todas as direções.
— Procurem ! Procurem ! Procurem e m atem !
Minha cabeça rodava. Caí de costas sobre as senhoras, sem poder respirar. Murm urei:
— Querido Deus, venha em nosso socorro... — m as não consegui lem brar de nenhum a oração. Fui invadida por um a onda de desespero e m edo.
Foi então que Satanás segredou em m eu ouvido: De que adianta pedir socorro a Deus? Olhe para eles lá fora... são centenas à sua procura. São uma legião, e você é uma só. Você não pode sobreviver. Você não vai sobreviver. Eles já estão dentro da casa, e andam pelos quartos. Sinta como estão perto, quase chegando... vão achar você, estuprá-la, cortá-la, matá-la.
Meu coração disparou. Que voz era essa? Cerrei os olhos com força para afastar os pensam entos negativos. Agarrei o rosário verm elho e branco, dado por m eu pai, e rezei silenciosam ente com todas as m inhas forças: Ó Deus, diz a Bíblia que você pode fazer tudo por qualquer um. Pois bem, sou uma entre esses quaisquer, e preciso que você faça algo por mim. Por favor, Deus, deixe cegos os assassinos quando chegarem ao quarto do pastor — não permita que descubram a porta do banheiro, não permita que eles nos vejam. Você salvou Daniel da cova dos leões, impediu que eles o fizessem em pedaços... não permita que esses homens nos façam em pedaços também. Deus, proteja-nos como protegeu Daniel.
Jam ais havia rezado com tam anha intensidade, m as a força negativa ainda atorm entava m eu espírito. A voz da dúvida voltou a soar em m eus ouvidos, com o se o próprio Satã estivesse pousado sobre m eu om bro. Sentia o m edo literalm ente correr por m inhas veias, e m eu sangue queim ava com o fogo. Você vai morrer, Immaculée, zom bava a voz. Você se compara a Daniel? Como você é pretensiosa... Daniel era puro de coração e amado por Deus — um profeta, um santo! E você, quem é você? Você é nada... merece o sofrimento e a morte... merece morrer.
Segurei com força m eu rosário, com o se fosse um a corda presa a um salva-vidas conectando-m e a Deus. Com o coração e a m ente im plorei por Sua aj uda. Eu sei que sou um nada, mas Você é misericordioso. Sou humana e fraca, mas, por favor, Deus, conceda-me o perdão. Perdoe meus pecados... e, por favor, expulse daqui os assassinos, antes que eles nos encontrem.
Minhas têm poras latej avam . A voz lúgubre continuava em m inha cabeça, e a enchia com im agens apavorantes, inom ináveis. Os cadáveres estão por toda parte. Bebês foram cortados ao meio diante dos olhos de suas mães, os não nascidos arrancados de seus ventres... e você acha que deve ser poupada? Essas mães rogaram a Deus que poupasse seus filhos, mas Ele as ignorou — por que salvaria você, se bebês inocentes são assassinados? Você devia se envergonhar por ser tão egoísta. Escute só, Immaculée... você os ouve? Eles estão do outro lado da porta — vieram buscar você.
Minha cabeça ardia, m as eu ouvia os assassinos no corredor, e eles gritavam . “Matem todos! Matem todos!”
Não! Deus é amor — respondi à voz. Ele me ama e não me assustaria. Não me abandonará. Não permitirá que eu morra encolhida de medo no chão de um banheiro. Não me deixará morrer humilhada.
Esforcei-m e para criar na m ente um a im agem de Deus, e visualizei duas brilhantes pilastras de luz branca que cintilavam diante de m im , sem elhantes a duas pernas gigantescas. Passei os braços em volta dessas pernas, com o um a criança assustada que se agarra às pernas da m ãe. Im plorei a Deus que m e concedesse Sua luz e Sua força, que arrancasse do m eu coração a energia nociva: Agarro-me às Suas pernas, ó Deus, e não tenho dúvida de que Você pode me salvar. Não vou soltar Suas pernas enquanto Você não mandar embora os assassinos.
Travava-se em m inha m ente um a luta entre a oração e os m urm úrios m alignos, que eu tinha certeza de pertencerem ao diabo. Não parei de rezar um só m inuto... m as os m urm úrios não cediam .
AO ANOITECER, O PASTOR ABRIU A PORTA e nos encontrou num a espécie de transe. Eu estava banhada em suor, exausta, agarrando o rosário com as duas m ãos e alheia a tudo ao m eu redor. Continuava a rezar com o olhar vago. Therese cobria os olhos com um a m ão e, com a outra, segurava a Bíblia acim a da cabeça. A j ovem Beata estava aj oelhada, braços estendidos para a frente, as m ãos postas em oração.
O pastor nos cham ou pelos nom es, m as nenhum a de nós o ouviu. Por fim , ele nos sacudiu para nos acordar do estupor. Olhei para ele, piscando, confusa, e m uito surpresa ao vê-lo rir-se de nós.
— O que é isso, senhoras? Pelo am or de Deus, relaxem . Os assassinos partiram há sete horas. Não acredito que vocês ainda estão rezando.
Para m im , as horas tinham passado com o se fossem m inutos. Assim m esm o, estava totalm ente esgotada. Apesar de habituada, durante tantos anos, a rezar, j am ais havia m e concentrado tão com pletam ente em Deus ou m e sentido tão consciente da presença das forças das trevas. Vi o m al no olhar dos assassinos e percebi a presença do m al ao m eu redor enquanto a casa era revistada. E a voz das trevas havia tentado m e convencer de que estávam os prestes a ser executadas. Todas as vezes em que sucum bi ao m edo e acreditei nas m entiras venenosas da voz, senti com o se arrancassem a pele do m eu couro cabeludo. Som ente concentrando-m e na energia positiva de Deus pude resistir àquela prim eira visita dos assassinos. Meu pai sem pre dizia que orações nunca são dem ais... agora eu sabia que ele estava certo.
Com preendi que m inha batalha para sobreviver seria travada em m eu interior. Tudo que eu tinha de bom — fé, esperança, coragem — era vulnerável à energia do m al. Se perdesse a fé, eu não sobreviveria. Mas podia confiar em Deus com o um aliado em m inha luta.
A visita dos assassinos nos deixara esgotadas. O pastor Murinzi nos trouxe um prato de com ida, m as, apesar da fom e, estávam os cansadas dem ais para com er. A com ida continuava intocada quando ele retornou, por volta de m eia-noite.
O pastor retornou um a vez m ais, no m eio da m adrugada, durante um a violenta tem pestade. Era tão forte o ruído da chuva contra o telhado de m etal que ele pôde falar livrem ente, sem m edo de ser ouvido.
— Hoj e tivem os sorte. Eles revistaram toda a casa e inspecionaram cada côm odo. Vistoriaram tam bém o quintal e cavaram os m ontes de estrum e atrás do curral das vacas. Subiram ao forro e se enfiaram em baixo dos m óveis — chegaram a enfiar os facões nas m alas para verificar se eu não escondia bebês tútsis. Pareciam loucos, com o anim ais hidrófobos. Tinham os olhos vidrados e verm elhos... acho que estavam drogados.
— Mas ao chegarem ao m eu quarto viram tudo tão arrum ado que não tiveram coragem de desarrum ar. Disseram que iam deixar o quarto em paz, m as que da próxim a vez o revistariam .
— Próxim a vez! — exclam am os.
Não podia m e im aginar revivendo o m esm o torm ento. Deus não haveria de nos subm eter duas vezes a tam anha provação!
— É im possível saber quando eles vão voltar — disse o pastor. — Podem vir a qualquer hora, e Deus tenha piedade de nós se encontrarem vocês.
Essa últim a frase continuou a ecoar em m inha m ente e m e m anteve acordada toda a noite, e no outro dia tam bém .
Na noite seguinte o pastor retornou em pânico.
— Um am igo m e contou que o líder de um esquadrão da m orte considera que os assassinos não fizeram um trabalho eficiente durante a revista — sussurrou. — Algum as de vocês foram vistas nesta casa dias atrás, e correm rum ores de que estão escondidas aqui. Um grupo diferente virá fazer um a busca m ais m inuciosa.
Gem i, e m eu corpo am oleceu. Eu não teria forças para suportar m ais um a caçada com o aquela. Deus, por que Você não os traz aqui agora e acaba logo com isso?, im plorei. Por que nos faz sofrer tanto assim? Por que nos tortura?
Com o seria possível escapar m ais um a vez? A casa, que antes m e parecia tão grande, havia se tornado m inha cela, um a arm adilha m ortal. Só podia im aginar um a saída: ir para o céu. Ó, Deus, rezei silenciosam ente, não me resta coragem para lutar, estou prestes a desistir... por favor dê-me forças e proteja-me dos demônios que me cercam. Mostre-me como fazer com que os assassinos continuem cegos.
Ergui a cabeça e abri os olhos. Ao ver o pastor de pé, à porta, um a im agem brilhou, nítida e clara, em m inha m ente.
— Tenho um a idéia — com uniquei, em voz abafada e insistente. — O senhor não pode encostar seu guarda-roupa na porta do banheiro? Ele é alto e largo o suficiente para encobrir a porta, e se os bandidos não puderem ver a porta, eles nunca nos encontrarão. Será com o se eles fossem cegos.
O pastor Murinzi pensou um pouco e balançou a cabeça.
— Isso não alteraria nada; acho até que poderia piorar as coisas. Se eles olharem atrás do arm ário e virem um a porta, serão ainda m ais cruéis com vocês.
— Oh não, pastor, por favor, o senhor precisa... — Eu tinha certeza de haver recebido um aviso de Deus. Do fundo da alm a eu sabia que se o arm ário ficasse na frente da porta ficaríam os a salvo. Mas o pastor continuou inabalável, então fiz algo que j am ais havia feito na vida. Aj oelhei-m e de cabeça baixa diante dele e pedi:
— Por favor, eu suplico. Meu coração diz que se o senhor não colocar o guarda-roupa na frente da porta eles nos encontrarão na próxim a revista. Não tenha m edo de enfurecê-los... Eles só podem nos m atar um a vez. Por favor, faça isso por nós... Deus haverá de recom pensá-lo por isso.
Não sei se foi o fato de m e ver im plorando de j oelhos ou se foi o m edo de que m e ouvissem que o convenceu, m as ele acabou cedendo.
— Está bem . Mas fale m ais baixo, Im m aculée. Vou em purrar o arm ário agora m esm o. Espero que aj ude, m as duvido.
E desapareceu. Um m om ento depois ouvim os o ruído do guarda-roupa sendo arrastado para diante da porta do banheiro. As com panheiras m e olharam e m urm uraram :
— Foi um a ótim a idéia. De onde você a tirou?
Não m e lem brava de haver visto algum dia o arm ário do pastor, m as tive a certeza de que tivera essa idéia enquanto rezava por aj uda.
— Deus — foi m inha resposta.