A Manilha e o Libambo
Apresentação (João José Reis)
Apresentação
L
ivros de síntese histórica não são corriqueiros no Brasil, salvo os m anuais didáticos. Muito m enos quando o assunto é história da África, a que pouca im portância tem sido dada entre nós até recentem ente. Esta obra de Alberto da Costa e Silva é um estudo pioneiro dessa natureza: a síntese de duzentos anos fundam entais da história africana, séculos XVI e XVII. É livro com panheiro de outro anterior do m esm o autor, A enxada e a lança: a África antes dos portugueses, num a série planej ada para três volum es. Com o organizar com sucesso um a narrativa para período tão longo e a tratar de região tão vasta, com plexa e diversa? A resposta é um a com binação de conhecim ento aprofundado, m étodo investigativo e estilo narrativo.
Antes de tudo é preciso conhecer a m atéria com a erudição e a experiência de um historiador com o o de A m anilha e o libam bo. Sua erudição se revela no uso de copiosa bibliografia, da qual dem onstra ser leitor m eticuloso e crítico. Costa e Silva acom panha seus colegas africanistas quando os crê convincentes, com para pontos de vista de diferentes autores, polem iza quando dados e argum entos apresentados não o convencem , os desafia com fontes contem porâneas por ele coligidas. Esse procedim ento o faz ir além da m era descrição de episódios e processos, ele os interpreta.
O livro não lida apenas com m aterial bibliográfico, acabo de dizer; tam bém resulta de pesquisa em fontes prim árias, que são m uitas e de natureza diversa. Lá se encontram dezenas de viaj antes e cronistas europeus, árabes e africanos que visitaram ou viveram na África daqueles dois séculos, ou um pouco antes e um pouco além . Tam bém presentes os artefatos arqueológicos e outros, às vezes reproduzidos em catálogos e obras especializadas, ou expostas em m useus e diretam ente observadas pelo historiador. Assim , faz de fonte a iconografia africana, europeia, árabe, registrada em cerâm ica, m etal, m adeira, tela, tecido e outros suportes. A essas fontes se som a própria experiência do autor com o viaj ante e residente no continente que estuda. A pesquisa nasce tam bém da arquitetura, das paisagens e cidades que o historiador adm irou, visitou e percorreu, além da gente com quem conviveu e conversou.
Apesar de seu título assim sugerir, este não é um livro apenas sobre a escravidão e o tráfico de hom ens, m ulheres e crianças. O assunto percorre m uitas de suas páginas e estrutura a obra, m as nesta se encontra m uito m ais: os variados m odos de produção e de com ércio, tipos de m oeda e m aneiras de negociar, form as de organização social, sistem as de parentesco, estruturas sociais e regim es políticos, devoções religiosas, tudo tecido pelos contatos, relações e conflitos entre povos e civilizações, classes sociais, grupos étnicos, devotos desde ou daqueles deuses. Para cum prir tão am bicioso proj eto, o núm ero de páginas precisou ser apreciável. Há por trás disso um a questão de m étodo e outra de estilo historiográfico e literário. Costa e Silva não aprecia grandes teses e pequena evidência. Sua história é o tem po todo esclarecida pelas fontes e frequentem ente pelos detalhes, de onde retira a substância que faz ver m elhor o m ovim ento m ais am plo da história.
Além de farta inform ação, o leitor vai se deliciar com o j eito narrativo do historiador, que escreve sem pedantism o acadêm ico, evitando a m etralha conceitual e a abstração teórica. Im pressiona que consiga sustentar ao longo de centenas de páginas um a narrativa bem concatenada, criativa, à qual não falta a tensão própria da boa literatura. E trabalho escrito com a paixão de quem não só conhece o assunto, m as com ele se com prom ete e se em ociona. É um livro pró-África. Em m uitos trechos o repúdio à pilhagem europeia, por exem plo, vem à tona com o se o autor estivesse a acom panhar o desenvolver dos acontecim entos pela ótica dos africanos. Não se furta, num a passagem , a cham ar de bárbaros os brancos que preavam pessoas aqui para vender acolá.
Os europeus são protagonistas relevantes do livro, que cobre o período de m ontagem de um sistem a econôm ico m undial, tendo com o centro a Europa, e de cuj a periferia a África viria a ser parte vital. O tráfico transatlântico de escravos foi um dos principais e talvez o m ais lucrativo dos em preendim entos criados por esse sistem a global. Acom panhem nas páginas seguintes a chegada dos portugueses à Alta Guiné, ainda no século XV, o estabelecim ento de relações vantaj osas com m ercadores e chefes africanos, a construção de feitorias e fortificações facilitadoras do com ércio de gente e de outras m ercadorias (de preferência, ouro), a penetração de territórios para estabelecer alianças ou guerrear com potentados locais, o exercício da política de dividir para dom inar. Essas lances não se verificaram de m aneira linear, um após o outro, aconteceram sim ultaneam ente m uitas vezes. De todo m odo, o com ércio de gente foi o que se agigantou para m arcar para sem pre as relações entre a Europa, as Am éricas e a África, e transform ando com ferocidade as sociedades africanas, em bora um as m ais outras m enos. Se j á era forte nas rotas caravaneiras que atravessavam o Saara, o negócio se tornaria “sinistro”, definiu-o Costa e Silva, quando organizado para abastecer de m ão de obra as colônias agrícolas e m ineradoras do Caribe e da Am érica continental. A com petição entre europeus por cativos africanos em erge no livro com o parte integral da história da África, m orm ente o século XVII.
O papel dos brancos nessa história não é narrado para pintar um retrato rom ântico da África anterior ao assédio europeu. O historiador explica as sociedades com plexas que os africanos j á tinham anteriorm ente criado, seus sistem as políticos sofisticados, sua organização em sociedades estratificadas e m uitas vezes opressivas, seus im périos conquistadores, reinos,governos, classes e inteligência com prom etidos com a escravidão. Esta não foi inventada na África pelo europeu. Nem foi o tráfico, que figurava com o atividade havia m uito estabelecida entre os africanos e árabes quando os portugueses se iniciaram no negócio em m eados do século XV. Com o tem po, o leitor aqui verá, portugueses e outros europeus term inaram por sugar para o Atlântico um a parte da m ercadoria hum ana antes negociada através do Saara. No século XVI, aliás, os portugueses com pravam e vendiam escravos principalm ente dentro dos lim ites da própria África. Escravos que eram trocados por ouro, sobretudo.
A escravidão existia antes da chegada dos europeus, em bora tivesse – e continuaria tendo – características próprias. Nas sociedades escravistas africanas m ulheres e crianças escravizadas eram m ais facilm ente integradas às fam ílias senhoriais, e se perm itia um a m obilidade social desconhecida nas Am éricas. Os escravos podiam ser parte da classe dom inante e dirigente, grandes com erciantes e proprietários, m inistros de governo, adm inistradores palacianos, generais à frente de exércitos eficientes – eficientes, inclusive, na produção de novos cativos. Muitos escravos, é verdade, laboravam cam pos agrícolas e veios auríferos sob um j ugo parecido com o encontrado nos canaviais e nas j azidas am ericanos, e escravidão dessa ordem , além de outras, se expandiu no ritm o de intensificação do tráfico transatlântico.
Muito se aprende neste livro sobre a África, m as, do m esm o m odo, sobre o Brasil. O Brasil, afinal, consum iu quase m etade dos cerca de doze m ilhões dos africanos transportados para as diversas regiões das Am éricas nos porões fétidos dos tum beiros. A história que se desenrola nas páginas seguintes é, portanto, tam bém a nossa história.
Aproveitem , então, essa obra que flui, engaj a, entretém , em polga, ao m esm o tem po que ensina. Adm irável historiador, m agnífico escritor, esse nosso Alberto da Costa e Silva.
João José Reis