A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 6 de 30

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A Manilha e o Libambo

4. O escravo negro na Idade Média europeia

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O escravo negro na Idade Média europeia

 

Não registram os cronistas a m enor surpresa dos portugueses diante dos hom ens de tez escura, lábios grossos, nariz achatado e cabelo pixaim que encontraram nos litorais africanos. Estavam acostum ados a ver negros. Nisto não eram diferentes de seus pais, avós, bisavós e trisavós, que talvez tivessem com batido contra negros e até tratado com alguns deles, desde provavelm ente o século VIII, m as sobretudo depois que os alm orávidas, quase 400 anos m ais tarde, invadiram a península Ibérica. Nos exércitos de Yusufe ibn Tashfin eram num erosos os

com andantes e soldados negros.1 E tam bém nas m iniaturas coloridas que ilustram os pergam inhos das Cantigas de Alfonso X, a lutar ao lado dos árabes e berberes ou a conduzir o butim de prisioneiros cristãos, ovelhas e bois. Aqui vão dois, de lança ao om bro, ao lado de cinco outros infantes, um dos quais m ulato, e de cavaleiros de arm adura, turbante ou cota de m alha, num códice da segunda

m etade do século XIII de Las Cantigas de Santa María. 2

Após a derrocada dos alm orávidas e de seus adversários e sucessores, os alm óadas, os vários estados islam itas que os substituíram na Ibéria continuaram a receber pretos e m ulatos do norte da África e da outra m argem do Saara. Escravos trazidos para a venda dos portos do Magrebe e da Líbia. Livres e escravos que chegavam com o funcionários ou soldados e eram reduzidos pelos cristãos, nas batalhas terrestres e navais, nos cercos e razias de fronteira. Quando do sítio de Málaga, em 1487, por exem plo, os que m ais resistiram foram três m il soldados escravos negros. Após a rendição, cem deles foram enviados ao papa e

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os dem ais repartidos entre os assediadores ou postos no m ercado.

Boa parte dos prisioneiros árabes ou berberes não era escravizada. Preferia-se cobrar um resgate por eles, um a vez que se tinha por m ais lucrativo receber o seu preço do que retê-los com o escravos. Muitos esperavam , no entanto, m eses e anos em servidão, até que os seus pagassem por eles o valor exigido ou que fossem trocados por alguns cristãos em poder dos islam itas. Os não rem idos ficavam escravos, e quase sem pre os negros estavam neste grupo. Os que j á eram escravos apenas m udavam de dono.

Em bora pouquíssim os fora da Ibéria e da Sicília, os escravos negros não seriam desconhecidos no resto da Europa de antes do Trezentos. Há notícias deles até m esm o na Irlanda. Os viquingues iam buscá-los, descendo o Dnieper e o Volga, nos portos do m ar Negro e do m ar Cáspio. Em troca, ofereciam ceras, peles e outros escravos, m oças e m eninos escandinavos, saxões ou russos, para as grandes casas de Constantinopla e os haréns m uçulm anos. Seriam , assim , negros

os cham ados “hom ens azuis”, que aparecem na Irlanda, por volta de 859.4 Ainda que nos m ercados islam itas (e talvez tam bém nos bizantinos) se vendessem alguns negros aos europeus ocidentais, o grosso da m ercadoria hum ana de que estes se abasteciam provinha, porém , prim eiro, da Europa Central e, depois, das m argens dos m ares Negro e Cáspio. Eram sobretudo eslavos — e de eslavo vêm esclavus, escravo, esclave, esclavo, schiavo, slave e sklave —, e gregos, sardos, tártaros, turcos, georgianos, circassianos, arm ênios e m ongóis. Nos bazares do Oriente Médio, não faltavam , porém , cativos provenientes das ilhas Britânicas: celtas e saxões. Nem tam pouco rapazes castrados em Verdun ou na Sicília.

Não devia ser de grandes núm eros esse com ércio por m ar, m as, sim , de qualidade. Eram pequenas as em barcações e nelas não cabia m uita gente. Vej a-se o caso dos viquingues. Entre o século IX e a m etade do XII, faziam suas razias contra as ilhas Britânicas em barcos que em geral não com portavam m ais de 32

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pessoas, nelas se incluindo os tripulantes. As em barcações que percorriam os rios ou se dedicavam à cabotagem eram m aiores. Porém pouco. Com capacidade m ais am pla, e sem pre aum entando de tam anho, seriam as usadas, sobretudo a partir do século XIII, pelos venezianos e genoveses, quando passaram a predom inar entre os m ercadores de escravos nos portos de Caffa e Tana, no m ar Negro, e se tornaram fornecedores tanto dos islam itas quanto dos cristãos. Ali, procuraram beneficiar-se das redes com erciais preexistentes, estabelecendo, para com erciar com a gente da terra e com os que vinham de longe, entrepostos que anteciparam as feitorias erguidas m ais tarde pelos

portugueses nas costas da África e no Índico.6

A oferta, relativam ente pequena e escolhida, parece que atendia a contento à dem anda. Os m uçulm anos desej avam m ulheres bonitas, eunucos e m eninos bem -apessoados e saudáveis, que pudessem transform ar em ghulam e treinar com o soldados. Os cristãos tam bém preferiam as crianças, ou passaram a fazê-lo no século XIV. Sabe-se que a m aioria dos vendidos em Caffa aos negociantes

italianos com punha-se de m eninos e m eninas de m enos de 12 anos de idade. 7 Acostum avam -se m elhor ao cativeiro e aprendiam m ais depressa as suas tarefas. Destinavam -se em geral, na Europa, aos trabalhos urbanos e ao serviço dom éstico.

Não que não houvesse escravos nos cam pos. E que as novas form as de opressão e controle do trabalho, que tinham passado a predom inar no fim do Im pério Rom ano, tivessem excluído a escravaria das lavouras. O vilão e o servo da gleba trabalhavam , aqui e ali, lado a lado com o escravo. Era m uitas vezes difícil distinguir entre eles. E até m esm o entre o cliente, o servo, o arrendatário, o

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escravo e o colono. Um com o que se fundia e se transform ava no outro. Do que não parece haver dúvida é de que se desfizera, j untam ente com o Im pério, o sistem a de produção escravista que se tem por característico de Rom a e que prevalecia em parte da Itália, da França m eridional, da Espanha e do norte da África. Não sobreviviam no feudalism o os latifúndios trabalhados pela escravaria em grande escala. A m aior parte da produção passara a derivar do esforço dos cam poneses legalm ente livres, ligados à terra e dela cuidando de form a quase fam iliar, pagando ao senhor feudal pelo uso do solo e pela proteção m ilitar que esse lhes dava, prestando-lhe hom enagem e levando para o seu m oinho os grãos que colhiam . Os escravos, onde escravos havia, com portavam -se com o se fossem clientes ou servos, am anhando as terras para os trigais, podando os vinhedos, pastoreando o gado ou tratando das hortas e dos pom ares, em bora tudo o que produzissem pertencesse de direito ao senhor. As exceções encontrar-se-iam em certas áreas de fronteira da Cristandade. Na Rússia, na Sicília e na península Ibérica, onde persistia um a escravidão à rom ana.

Na Síria, no Líbano e na Palestina, os cruzados aprenderam com os árabes a retirar açúcar de um a cana que estes trouxeram da Índia ou da Indonésia (e que era originária possivelm ente da Nova Guiné). O produto era de alto preço e fácil transporte, e a nobreza europeia o vinha adquirindo, desde algum tem po, do

Egito, o principal fabricante, 9 e de Creta, Malta, Síria, Sicília, sul do Marrocos, Valência, Andaluzia e outros territórios m uçulm anos. Usou-se, prim eiro, com o artigo m edicinal e, m ais tarde, com o adoçante, para substituir o m el, em algum as poucas, pouquíssim as m esas, pois, com o escreveu Luís da Câm ara Cascudo, era, na Europa, “caro com o j oia e raro com o a j ustiça”. Tão caro e tão raro, que figurava em testam entos e inventários. No de Joana d’Evreux, terceira m ulher de Carlos V de França, m encionam -se quatro pães de açúcar. E um burguês rico de

Paris deixou a um hospital de pobres três pães de sete quilos. 10

Nas terras do Levante, os venezianos, que haviam tom ado parte, sobretudo com o financiadores, na reconquista cristã, com eçaram a produzir açúcar nas redondezas de Tiro, Acre, Sídon e Tibérias e a com erciá-lo com grande

eficiência no Mediterrâneo. 11 Depois, levaram a cana para Chipre, em poder dos cruzados. Ali, nobres norm andos e burgueses venezianos e catalães, expulsos da Terra Santa, continuaram a fabricar açúcar. Na ilha, aprim oraram não só as técnicas de produção (introduzindo, por exem plo, caldeiras de cobre e m oinhos m ovidos a água), m as tam bém as de distribuição e com ercialização. E, com o o açúcar exige enorm e quantidade de trabalho, sobretudo na época de colheita e m oagem , tiveram , para poder atender a um a dem anda crescente, de acrescentar à m ão de obra local, livre, servil ou sem isservil, um certo núm ero de escravos.

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No m eio desses escravos, j á se contavam , por volta de 1300, alguns negros.

A história repetiu-se com os norm andos na Sicília. E em Creta. E em Malta. E no Algarve, com os portugueses, que provavelm ente herdaram os canaviais dos

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m ouros.

Teria sido o açúcar o responsável pelo surgim ento, no Mediterrâneo Oriental,

de um novo tipo de dono de terra, sem elhante a um em presário capitalista.14 Seria esse novo tipo de em presário quem traria de volta a grande plantação agrícola servida por trabalho escravo, m as por um trabalho escravo altam ente arregim entado, que Rom a talvez só tenha conhecido em alguns latifúndios. Por isso, Charles Verlinden propôs a tese de que a econom ia escravista das Am éricas seria “a continuação pura e sim ples” do sistem a desenvolvido, entre os séculos

XII e XIV, nas ilhas do Mediterrâneo. 15 Dali, os capitalistas genoveses, pisanos, venezianos e catalães teriam levado os novos m étodos para as Canárias e o arquipélago da Madeira e depois para as Am é-ricas. Cham a a atenção, com efeito, o figurarem algum as das fam ílias italianas que se dedicavam ao tráfico de escravos no m ar Negro entre as que prim eiro se voltaram à produção de açúcar nas ilhas atlânticas e ao com ércio de negros na África. A biografia de

Bartolom eo Marchionni poderia ser tom ada com o um paradigm a. 16

Nem todos concordam com esse enredo. Alguns sustentam que a produção de

açúcar nas ilhas do Mediterrâneo não se assentava no trabalho escravo. 17 Teria havido nas labutas dos engenhos alguns escravos, conhecedores das técnicas de m oagem , fervura e purga, trazidos da Síria, do Líbano ou da Palestina, j untam ente com alguns hom ens livres, m estres do ofício, aos quais se pagavam salários. No cam po, seriam , porém , clientes e servos os que plantavam , cortavam e transportavam a cana. Podia este ou aquele canavial, fosse de m uçulm ano ou de cristão, em pregar escravos, m as sem pre em núm ero reduzido — até porque esses custariam m uito caro, para serem utilizados m aciçam ente

em labutas agrícolas 18 — e de m odo distinto ao da escravidão em grande escala, caracterizada por grupos arregim entados sob um feitor e a cum prir de form a sistem ática e repetida determ inada tarefa. Em bora não neguem que as experiências do Mediterrâneo oriental (e tam bém as feitorias italianas no m ar Negro) deram form a a um novo tipo de em presa agroindustrial, com andada por m ercadores, arm adores e banqueiros, que se uniam em sociedades, seguravam seus carregam entos, m antinham em dia um a contabilidade por partidas dobradas, se apoiavam nas arm as dos estados e buscavam obter posições de

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m onopólio e preços altos para os seus açúcares, autores com o William D.

Phillips, Jr. consideram que foi som ente m ais tarde, nas ilhas do Atlântico, nos arquipélagos da Madeira e das Canárias, que portugueses e espanhóis, com técnicas e capitais genoveses e venezianos, criaram o tipo de produção açucareira que transplantariam para as Am éricas. Nessas ilhas, com binar-se-iam pela prim eira vez os três elem entos que viriam a caracterizar a plantação (ou plantagem ) am ericana: grande propriedade fundiária, produção para

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exportação e dependência do trabalho escravo.

Nas Canárias, contudo, não existiram verdadeiram ente plantações do tipo am ericano, nas quais coincidiam a propriedade da terra, do engenho e dos escravos. Nas Canárias, a m aioria dos plantadores cortava a cana e a

transportava até um engenho que pertencia a um a outra pessoa.21 E os canaviais eram de tam anho que seria tido, no Brasil, e ainda m ais nas Antilhas, com o pequeno ou m édio. Até m esm o em São Tom é, onde se ensaiaria todo o futuro enredo a desenrolar-se nas Am éricas, o uso de escravos em grande escala,

aquilo a que Sidney W. Mintz cham ou gang slavery ,22 ainda não assum iria a form a que teria no Brasil e se am pliaria e aperfeiçoaria nas Caraíbas, tanto assim que os escravos viviam em aldeias, em vez de concentrados em barracões, e

produziam os seus próprios alim entos.23

Em bora considerando que as ilhas atlânticas se incluem no m esm o processo

de ocupação e colonização, Jacob Gorender24 sustenta que, no Brasil, se criou um m odo de produção historicam ente novo, a que deu o nom e de escravism o colonial, um m odo de produção que não foi capitalista, não representou um a ressurreição do sistem a escravocrata rom ano, nem — concluo — a sim ples continuação am pliada do que se desenrolara no Mediterrâneo ou nos arquipélagos das Canárias e da Madeira. David Eltis, por sua vez, reclam a a nossa atenção para o fato de isso ter-se verificado no m esm o m om ento histórico em que os vários tipos de trabalho com pulsório cediam espaço, nos países m ais dinâm icos da Europa, a um novo tipo de apropriação do esforço alheio, denom inado trabalho assalariado. Os m esm os europeus que expandiam na Europa o cham ado trabalho livre, desenvolveram nas suas dependências em outro continente um escravism o de dim ensões até então desconhecidas e que só

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se aplicava aos não europeus, à gente de cor. Tom ou corpo nas plantações e

nos engenhos do Brasil e atingiu sua form a com pleta nas Caraíbas um sistem a econôm ico que bem m erece a singularidade que lhe reservou Jacob Gorender e o nom e, que lhe deu, de escravism o colonial. As decisões, os capitais, a distribuição e o consum o ficavam num continente: a Europa; a m ão de obra, na África; a produção, nas Am éricas.

Determ inaram a transplantação de trabalho forçado de um continente a outro, em núm eros com o dantes nunca se vira, de um lado, na África, a falta de resistência dos europeus às enferm idades ali existentes e a oposição de seus habitantes, m uitos deles com estruturas políticas e m ilitares bem -organizadas, a que se apossassem de parte de suas terras e nelas instalassem as suas plantações e abrissem as suas m inas; e, de outro, nas Am éricas, a abundância de espaços dos quais podiam ser excluídos pelas arm as os seus habitantes, quando não eram dizim ados pelas doenças trazidas pelos europeus e seus escravos africanos, e contra as quais não tinham defesa.

Em bora criadores desse m odo de produção com características novas, os europeus não reinventaram , em terras brasileiras, a escravidão, que lhe serviu de espinhaço. Trouxeram da Europa a teoria e a prática do escravism o. E da antiga Rom a a estrutura j urídica, conform e consolidada no Corpus Iuris Civilis, do im perador Justiniano.

Ao fazer, no rastro de Platão e Aristóteles, a apologia da escravidão, ou ao j ustificá-la, autores com o são Paulo, são João Crisóstom o, são Isidoro de Sevilha, santo Tom ás de Aquino ou Thom as Morus, não destoavam do pensam ento, corrente por m uitos séculos, que tinha o haver escravos com o um fato norm al, de todo conform e com a ordem natural das coisas. É verdade que santo Agostinho, num a de suas 27 cartas descobertas em 1975 por Johannes Divj ak, ao queixar-se ao im perador das am eaças que ele e os seus vinham recebendo dos traficantes de escravos, por tentar libertar as suas vítim as, condena aqueles que “com erciam , não em anim ais, porém em seres hum anos”. Não se dem ora, contudo, em qualificar a denúncia e o reproche: os cativos não eram bárbaros que tivessem sido capturados na guerra, m as cidadãos rom anos. Era isto o que

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era grave.

Ao chegar ao Brasil ou às Antilhas, ou ao aplicar nas Am éricas os seus dinheiros, os europeus j á sabiam com o usar o escravo. Não tardaram , por isso, em potenciar o seu uso nas plantações am ericanas e o em pregaram com o o boi que arrasta o arado, com o o vento que gira os m oinhos ou a água que m ove as azenhas. Com o energia. Com o se não tivesse nada de um ser hum ano, a não ser a aparência. O aum entar do núm ero da escravatura nas lavouras de cana era um a decorrência lógica do rápido increm ento do consum o de açúcar, com a dissem inação de seu uso nas cidades e, bem m ais tarde, nas classes populares. A m aneira com o se organizou o trabalho dos m agotes de escravos sobre grandes extensões de terra, a prenunciar, de certa form a, as linhas de m ontagem industriais, é que teria sido nova e original. Com o nova e original seria cada etapa do longo processo que culm inaria com o tipo de agroindústria açucareira altam ente integrado, desenvolvido na Jam aica e na Hispaniola, em que cada

engenho-com -plantação em pregava um enorm e núm ero de escravos. 27

Se, no Mediterrâneo m edieval, houve ensaios do uso de escravos trabalhando coordenadam ente em grupos, a norm a seria, tanto ali quanto no resto da Europa, a escravidão em pequena escala, urbana, dom éstica ou fam iliar. Tinham -se alguns escravos a aj udar na oficina, a m over os teares, a fundir o ferro, a soprar o vidro, a girar a roda do oleiro, a cuidar da cozinha e da casa, a tratar do j ardim , do pom ar e da horta, a ordenhar as vacas, a am a-secar as crianças, a abrir a porta das grandes vivendas, a retirar o lixo e as fezes, a cum prir as tarefas m ais desagradáveis e m ais duras.

No início do segundo m ilênio, a escravidão com eçou a refluir na m etade setentrional do Ocidente europeu. Quando, em 1086, foi feito o prim eiro recenseam ento em Dom esday, na Inglaterra, 10% da população ainda era form ada por escravos, que podiam facilm ente ser adquiridos em m ercados

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com o o da cidadezinha de Lewes. Não havia um a sede de bispado na França

sem um a feira em que não se vendesse gente. 29 Em pequenos núm eros, claro — nada sem elhante ao m ercado do Valongo, no Rio de Janeiro oitocentista. Ofereciam -se não só escravos trazidos de longe, m as tam bém este ou aquele que um vizinho não m ais queria ter em sua casa ou que era item de um a partilha de herança. Havia tam bém alguns em pórios de cativos, e quem desej ava adquiri-los em m aior núm ero não tinha m ais do que dirigir-se, por exem plo, a Marselha ou a Bristol. Pouco a pouco, porém , na Inglaterra, nos Países Baixos, no norte da França e nas terras alem ãs, as m enções a com pra, venda e legado de seres hum anos vão-se tornando cada vez m enos frequentes nos docum entos, com o se o escravo estivesse a perder im portância na organização da sociedade.

No sul da Europa, então a parte m ais rica do continente, não houve, na Baixa Idade Média, esse recuo. Ao contrário, na m aioria das cidades o núm ero de escravos continuou a ser grande: entre dois m il e três m il, na Gênova do século XIII, com apenas 20 m il habitantes. E aum entou ainda m ais, depois da m ortandade causada, na m etade do Trezentos, pela Peste Negra. Estim a-se que cerca de 25 m ilhões de europeus m orreram na epidem ia. Esse desastre dem ográfico am eaçou interrom per o extraordinário processo de expansão econôm ica, técnica, intelectual e artística que se verificava em toda a Europa Ocidental, m as sobretudo naquelas regiões cuj as águas fluíam para o Mediterrâneo. Passou a escassear a m ão de obra. E aquelas pessoas livres que prestavam serviços m enores ou m ais cansativos, com o os em pregados dom ésticos, deles saíram para m elhores tarefas. Os escravos ocuparam os seus lugares.

Nas cidades m ais prósperas, com o Florença, por exem plo, os ricos tinham m uitos escravos. Ou m elhor, escravas, pois estas predom inavam de tal m odo que, num a relação de 329 pessoas vendidas naquela cidade, entre 1336 e 1397,

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apenas 28 eram do sexo m asculino. Donos de estalagem , loj istas, boticários, m arceneiros, funileiros, tecelões, padres e freiras — todos contavam com ,

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quando m enos, um a escrava ou um escravo. Veneza, Nápoles, Mântua, Milão,

Ferrara e Barcelona não lhe ficavam atrás. Seus becos e praças encheram -se de gregos, bósnios, búlgaros, russos, arm ênios, circassianos, tártaros, turcos, árabes e

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berberes. Nelas não faltavam uns poucos negros, alguns deles escravos de luxo

— paj ens a enfeitar os palácios dos nobres e a acom panhá-los à rua, quais se veem , vestidos de veludo e renda, nos quadros dos pintores do Renascim ento. Sabe-se que, em Veneza, alguns negros foram utilizados, no século XV, com o

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gondoleiros, e que, nos seus m ercados, se venderam , entre 1414 e 1423, m ais

de dez m il escravos, das m ais diversas origens. 34 Não sabem os quantos guanches, caçados nas Canárias, foram oferecidos em Portugal e em Castela,

m as num único ano, o de 1402, tiraram -se, só da ilha do Ferro, uns 400 cativos.35 Em certas regiões, com o Sicília, Maiorca, Aragão e Catalunha, a escravaria era tão num erosa, tanto nos burgos quanto no cam po, que Charles Verlinden não

hesita em qualificá-las com o sociedades escravistas. 36 Segundo ele, j á por volta de 1328, os escravos com punham 36% da população de Maiorca. E não seria de estranhar-se que entre eles figurassem negros, adquiridos nos portos do Magrebe e da Líbia pelos italianos, portugueses, castelhanos, catalães e granadinos.

Mudara-se a correlação de forças no Mediterrâneo ocidental. Com a reconquista do Algarve, em 1249, e de Cádis, Jerez e Niebla, entre 1260 e 62, o poder m uçulm ano na Ibéria ficara reduzido ao em irato nasirida de Granada. Os cristãos tinham a vantagem da ofensiva e, no m ar, os seus navios m ostravam -se crescentem ente superiores aos dos m oslins. Os diferentes reinos da península Ibérica e os Hafsidas de Túnis, os Marinidas do Marrocos e os Zaianidas de Trem ecém (ou Tlem cen) entrelaçavam -se e se cindiam num a longa história de oscilação entre com ércio e conflito. As m udanças constantes de aliados e de adversários, que podiam colocar, por exem plo, num determ inado m om ento, Castela, Granada e Marrocos contra Aragão e Trem ecém , ou fazer com que soldados catalães form assem a tropa de elite dos Zaianidas, ou perm itir que flotinhas cristãs fossem cedidas a um sultão m uçulm ano, não obstavam — ao contrário, até favoreciam — o crescim ento dos negócios entre o norte e o sul do Mediterrâneo.

Navios, não só portugueses, castelhanos e catalães, m as sobretudo de Gênova, Veneza, Pisa, Am alfi e Marselha, frequentavam rotineiram ente os portos do norte da África. Em m uitos desses portos, com o Ceuta, Túnis e Trípoli, e até m esm o em cidades do interior, com o Trem ecém e Marraquexe, estabeleceram -se colônias de m ercadores cristãos e j udeus, cada nacionalidade com seu funduq,

um a m escla de hospedaria e em pório am uralhado. 37 Esses entrepostos europeus procuravam situar-se no térm ino m editerrânico das rotas caravaneiras transaarianas. Sobretudo, para recolher parte do ouro que vinha do Sudão Ocidental.

Havia produtos que fluíam nas duas direções. O trigo, por exem plo, conform e os caprichos das colheitas. Ou os tecidos, para atender à m ultiplicidade dos gostos. Mas, se os europeus adquiriam ao Magrebe frutas secas, tâm aras, azeite de oliva, sal, ceras, alúm en, couros, peles, gom a-arábica, plum as de avestruz, tapetes, cavalos e escravos, procuravam vender m uito m ais, m uitíssim o m ais — e vendiam tecidos, papel, vidro, m adeiras, cobre, ferro, estanho, prata, pedras preciosas, contas, j oias, perfum es, arm as, falcões e outras aves de caça, além de produtos trazidos da Índia e da China —, para transform ar em ouro a diferença. Pois precisavam de ouro, um a vez que este voltara a ser a base de seus sistem as m onetários.

Com pravam -se escravos, é certo, m as não em quantidade que pudesse com prom eter os desej ados saldos com erciais. Com o era abundante a oferta nos Bálcãs e no Cáucaso, só se j ulgava conveniente abastecer-se nos portos do Magrebe, quando isso não significava a renúncia a recebim entos em ouro. Não havia, contudo, obj eção a se conseguirem escravos pelas arm as. Tanto assim que, em 1317, D. Diniz, o rei poeta de Portugal, não só autorizou um navegante genovês, Manuel Pesagno, a exercer, com esse obj etivo, o corso, com o se reservou o direito de adquirir os cativos que ele trouxesse, a cem libras por

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cabeça.

Cento e tantos anos m ais tarde, a situação novam ente m odificou-se. No Mediterrâneo oriental, onde, desde Saladino, o Egito se tornara a potência dom inante e com petia com os italianos pelo controle do com ércio, venezianos, genoveses, florentinos, pisanos, catalães e m arselheses passaram a perder espaço. Prim eiro, porque o sultão m am eluco Bairsbay não só aum entou as restrições aos negociantes e navegadores europeus, com o im pôs, na terceira década do século XV, o m onopólio governam ental sobre o com ércio do açúcar, da pim enta e de outras especiarias, do que resultou um aum ento exagerado de preços. Segundo, porque, de um pequeno principado, um grupo turco, que herdou de um de seus chefes o nom e, otom ano, com eçara, no com eço do Trezentos, um vigoroso processo expansionista, apossando-se, no correr do século, das terras e das águas que lindavam com o m ar Negro. Depois de conquistar aos bizantinos quase toda a Anatólia, os seus exércitos atravessaram os Dardanelos e fizeram sua boa parte dos Bálcãs.

Com a tom ada de Constantinopla, em 1453, os otom anos assum iram o dom ínio do m ar Negro. E se, desde alguns anos antes, j á tinham com eçado a com petir, em posição de vantagem , com os europeus, puderam doravante fechar-lhes, quando bem quisessem , a passagem pelo Helesponto e pelo Bósforo, fazendo com que se tornassem quase proibitivos os preços da escravaria dos Bálcãs e do Cáucaso.

Tam bém os otom anos tinham apetite por escravas e escravos. Pois os usavam em tarefas de todos os tipos. No harém , no cam po, na cozinha, na rua, na oficina, no cais, no quartel. Para lavar cavalos e cobrar im postos. Para rem ar os barcos ou ficar ao lado do sultão e m andar em seu nom e. Para integrar as tropas de elite dos j anízaros. Para vendê-los ao Egito e a outros países m uçulm anos. Com tam anha necessidade de escravos, procuraram afastar da cena os com petidores. E de tal form a tornaram difícil a vida dos com erciantes cristãos, que Tana e Caffa, no fim do século XV, se transform aram em m em ória.

Continuavam abertos aos italianos, é verdade, alguns portos do Adriático oriental, m as estes tam bém acabaram por esvaziar-se, em consequência da conversão de m uitos eslavos ao catolicism o e das obj eções que se passaram a fazer à escravização dos cristãos ortodoxos. Enquanto isso, na outra ponta do Mediterrâneo, na península Ibérica, os êxitos da reconquista foram reduzindo o núm ero de cativos que se obtinham nos cercos, razias e batalhas. Já agora era necessário ir filhá-los nas Canárias e em ataques de pirataria a barcos que atravessavam o estreito de Gibraltar ou navegavam em suas proxim idades, ou então em acom etidas contra as praias m ouras.

Essas investidas contra os m ouros tinham -se tornado um a constante durante o século XIV e se am pliaram ainda m ais depois da conquista de Ceuta em 1415. Daquela praça m arroquina, da qual se afastaram as caravanas do Sudão, os portugueses saíam em guerra contra a vizinhança, a saquear as vilas e a prear escravos. Destes e tam bém dos capturados nas operações de corso, alguns seriam negros. Gom es Eanes da Zurara conta-nos, no capítulo XVI do livro II da Crônica do Conde D. Pedro, que, de um barco que saía de Larache, se tom aram por presa 56 m ouros negros, dos quais três m ulheres. É possível que fossem

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cham ados negros porque m ulatos ou berberes de pele m ais escura, porém o

m ais provável é que fossem escravos trazidos do sul do deserto (ou deles descendentes), tão com uns nas cidades e nos cam pos m arroquinos e nos oásis e grupos nôm ades do Saara Ocidental. Davam os portugueses o nom e de m ouros a esses negros porque eram m uçulm anos.

Nem todos chegavam à península Ibérica reduzidos pelas arm as. Muitos seriam com prados na m argem oposta do m ar. Há lem branças desse com ércio, desde o fim do século XIV, em Castela. E registros de que os franceses da costa m editerrânica m andavam buscar pretos em Barca, na Cirenaica. Encontravam -se escravos negros em Aragão, na Catalunha e em Maiorca. Fizeram -se eles tão num erosos na Barcelona do Quatrocentos, que ali se form ou um a confraria de cristãos negros. E, em Sevilha, para atender aos seus pleitos, a rainha Isabel de

Castela chegou a designar um j uiz especial. 40 Instalados, desde m uito, nos portos m agrebinos, os m ercadores italianos, que iam sendo expelidos do m ar Negro, passaram a interessar-se pelos escravos negros que neles se vendiam . E, no final do século XV, na Sicília e em Nápoles, a m aior parte dos escravos j á se originava

do sul do Saara.41

Os que organizavam as cáfilas entre as duas m argens do deserto traziam o ouro, o alm íscar, o alúm en, as peles, as plum as e os escravos para um com ércio que se fazia fundam entalm ente entre islam itas. Negras e negros destinavam -se aos haréns, palácios, casas, oficinas, exércitos, hortas, pom ares, cocheiras, pátios de obra e canaviais m uçulm anos. Mas deles sem pre sobravam alguns para atender à dem anda dos cristãos. Não chegara à m etade o século XV — um século em que a escravaria do sul da Europa se foi escurecendo de africanos — e alguns dos caravaneiros aprenderam que havia novos cam inhos, m ais fáceis e m enos perigosos, para colocar suas m ercadorias: os que dem andavam , a oeste, as enseadas e as em bocaduras dos rios onde desciam as âncoras das caravelas portuguesas.