A Manilha e o Libambo
13. Bornu e a Hauçalândia
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Bornu e a Hauçalândia
No correr do século XVII, os navios europeus arrancaram da África m ais escravos do que os caravaneiros do Saara. Calcula-se que se em barcaram em m édia, anualm ente, no prim eiro quartel do Seiscentos, 13.100 negros, 12.100 no segundo, 18.600 no terceiro e 30.900 no quarto, o que dá um a som a, para todo o século, de 1.868.000 corpos. Nos cem anos anteriores, eles não teriam superado os 325 m il. O com ércio atlântico de escravos crescia, portanto, a saltos, pois não passara de cerca de 3 m il por ano, entre 1551 e 1575, e de uns 5.600, entre 1576 e 1600. Enquanto isso, o tráfico para o m undo islâm ico branco m ostrava-se quase estacionário: por volta de oito m il por ano, dos quais cerca de cinco m il corresponderiam aos escravos que atravessavam o Saara, dois m il aos que
cruzavam o m ar Verm elho e m il aos saídos dos vários portos do Índico. 1 O espantoso aum ento das vendas ao Atlântico, para atender à expansão da dem anda de m ão de obra nas Caraíbas e no Brasil, não tinha, portanto, com o contrapartida a queda nas exportações para o m undo m uçulm ano. É possível até que estas se tenham increm entado, sobretudo na viragem do século XVI para o XVII, quando a conquista de Songai pelos m arroquinos e a subsequente guerra de resistência dos ásquias geraram um enorm e volum e de cativos.
Há, aliás, quem pense que a abertura da África ao Atlântico não só não
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prej udicou o com ércio transaariano, com o favoreceu a econom ia do Sael. As regiões costeiras, consideradas antes, da perspectiva dos caravaneiros, com o a borda ocidental do m undo e, portanto, m arginais, passaram a ser m ercados cobiçados pelos diulas, que ali colocavam os artesanatos de couro, o gado, os tecidos, o natro e os cereais do Sudão, bem com o as vestim entas, os panos de lã, as sedas, os vidros, os espelhos, os perfum es, as arm as de fogo e os utensílios de cobre do Magrebe. Em troca, recebiam bens do m esm o tipo, m as de procedência asiática e europeia, para os quais tinham fregueses certos no interior, e tam bém produtos locais, com o sal, peixe seco, tecidos de algodão e noz-de-cola. Para a cola não faltavam com pradores ao longo do cam inho, na faixa saeliana, no Saara e no outro lado do deserto. Tudo indica que a sua procura só fazia crescer, da m esm a form a que o interesse por ouro, m arfim , alm íscar, plum as de avestruz, peles, gom a-arábica e ceras.
Muito do que atravessava o deserto acabava nas m ãos dos num erosos m ercadores europeus estabelecidos nos portos m editerrânicos do Magrebe. Procuravam eles com petir com o com ércio atlântico dos portugueses, valendo-se dos custos m ais baixos de transporte que, para m ercadorias de alto valor e pequeno peso, apresentava, entre o norte da África e o Sudão, o cam elo. A atividade desses m ercadores, entre os quais se destacavam os italianos, com pensou sobej am ente a retração da dem anda nos países do Oriente Médio, cuj as econom ias se m ostraram em geral estagnadas, quando não declinantes, durante todo o século XVII.
Tom buctu e Jené não deixaram de ser, após a conquista m arroquina e durante o dom ínio dos arm as, grandes urbes com erciais. O centro de expansão econôm ica deslocou-se, entretanto, para leste, para as cidades hauçás e Bornu. O antigo im pério dos Sefauas (um a dinastia que governara Canem , desde o fim do século XI, e transplantara o seu estado e boa parte de seu povo para Bornu, no
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fim do século XIV ) expandira-se durante todo o Quinhentos e tornara-se o único com petidor de Songai. Com a derrocada desse, transform ou-se no poder hegem ônico do Sudão Central, apesar de ter perdido para os otom anos de Trípoli o controle do Fezzan.
Durante os 200 anos após a sua transferência para o sudeste do lago Chade, os m aís ou sultões de Bornu tiveram não só de prosseguir no com bate aos seus inim igos externos, com o os bulalas (que os tinham , por assim dizer, expulsado do Canem ), m as tam bém de dom ar os povos j unto aos quais se estabeleceram . Se assim ilaram m uitos deles, a outros, recalcitrantes, ou os transferiram à força para lugares longínquos, ou os elim inaram com pletam ente, m atando os hom ens adultos e escravizando as m ulheres e as crianças. Esses cativos eram , contudo, insuficientes para atender às exigências de um a sociedade de base escravocrata, na qual o escravo podia ser tudo, de vizir a soldado, de concubina a trabalhadora de enxada, e para alim entar, com o a principal m ercadoria, as caravanas transaarianas que saíam da capital, Birni Gazargam u, ou de outras cidades do reino. Por isso, a repetir os seus antecessores dos tem pos de Canem , os m aís bornus em preendiam anualm ente um a cam panha m ilitar contra os vizinhos pagãos, com o obj etivo de capturar gente e poder com ela adquirir as cotas de m alha, os capacetes, as espadas e, sobretudo, os cavalos grandes de que necessitavam para m ontaria e para reprodutores.
No início do século XVI — isto nos diz Leão Africano —, os m ercadores m agrebinos traziam para Bornu um a grande quantidade de equinos, para trocar por escravos. Cada cavalo valia entre 15 e 20 cativos. O núm ero de anim ais era tão grande, que os com erciantes berberes tinham às vezes de esperar um ano, antes que o rei trouxesse de suas cam panhas m ilitares o volum e de gente
necessário para concluir as transações. 4
Outras operações m ilitares tinham outros m óveis. O de garantir a segurança dos portos saelianos contra os ataques dos nôm ades do Sael e do deserto, com o os fulas, os tuaregues, os tubus e os árabes xouas (showa ou shwua). A alguns os bornus cediam periodicam ente o uso de pastagens e os convertiam em aliados. Com outros podiam m anter relações oscilantes e passar facilm ente da cooperação para a guerra.
Os tuaregues controlavam o Air e o Hoggar. Sem sua aj uda ou, quando m enos, aquiescência, as cáfilas não atravessavam aquelas partes do deserto. Tidos com o os m elhores guias e protetores contra os ataques de outros grupos cam eleiros, não faltavam com erciantes de Gadam és ou do Tuate que lhes contratassem os serviços de transportadores, para que lhes trouxessem dos
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caravançarás sudaneses os escravos e outros bens neles adquiridos. Muitos lhes com pravam cam elos, de que eram hábeis criadores. Mas o m esm o grupo de tuaregues que aj udava um a caravana, logo em seguida agredia outra. Certa tribo que pagava, avassalada, tributo ao m aí podia, sem aviso, lançar-se contra um a ou m ais aldeias bornus e escravizar os seus m oradores.
Com o se não bastasse esse am biente de constante fricção entre os cham ados hom ens azuis, de um lado, e Songai, as cidades hauçás e Bornu, de outro, os
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sucessivos sultões tuaregues de Agadés alim entavam a am bição de pôr sob seu controle o tráfico transaariano. Na m aior parte do tem po, eles hostilizavam Bornu, quando não lhe davam guerra aberta. Às vezes, suas cam panhas tinham êxito, e voltavam para o Air carregados de butim . Com m uito gado e num erosíssim os cativos. A estes, punham a plantar cereais e a cuidar das tam areiras nos oásis, ou os vendiam no Fezzan e no Tuate.
Com os tubus, senhores do Tibesti, as relações eram ainda m ais difíceis. Algum as tribos aliavam -se esporadicam ente aos m aís, porém a m aioria guerreava ao lado dos bulalas. Se, em determ inados m om entos, se punham a serviço das caravanas entre o Fezzan e Bornu, m ostravam -se predadoras im piedosas na rota que ligava o lago Chade a Borku, Borku a Tibesti, Tibesti a Kufra e Kufra ao Egito. De tal m odo os tubus castigavam as cáfilas que se
atreviam a percorrer esse cam inho, que ele acabou por ser evitado. 7
É possível que os bornus vissem com o pragas sem elhantes a essas um povo que, em vez de m ontar cam elos, rem ava barcos. Refiro-m e aos budum as, do lago Chade. Viviam da pesca, da criação de gado nas ilhas do lago, do fabrico do sal (que extraíam de raízes), da caça ao hipopótam o e do curtim ento de seu couro, do transporte de m ercadorias por barco e da preia de escravos, que
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vendiam aos tuaregues. As principais vítim as de suas razias eram os bornus. Não eram estes últim os, portanto, os únicos produtores de escravos na região. Em bora a todos superassem , tinham concorrentes, e concorrentes que os transform avam de captores em presas.
Quando, à frente do exército m arroquino, Judar entrou em Gaô, governava Bornu um m aí cham ado Ídris ibn Ali, que ficou conhecido com o Ídris Alom a, Aloom a ou Alaum a. Deveu ele o nom e póstum o ao lago Alô (Alau ou Alawo), j unto ao qual foi, por volta de 1600, enterrado. Desse sultão e de suas conquistas algo sabem os, graças a duas crônicas encom iásticas — a prim eira sobre as
guerras que m oveu nos prim eiros 12 anos de seu sultanato, 9 e a segunda sobre
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suas cam panhas no Canem —, escritas em árabe por um contem porâneo, o
im am e e erudito bornu Ahm ad ibn Furtu (ou Ahm ed ibn Fartuwa, ou Fartua,
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com o leu H.R. Palm er ). Ídris Alom a não só continuou a organizar expedições
anuais para capturar escravos, com o procurou, com êxito, reconquistar aos bulalas parte dos territórios a leste do lago Chade e m anter ou im por pelas arm as a obediência ou a vassalagem a cidades hauçás, a vários grupos tuaregues e tubus, aos saôs, aos m argis, a Mandara, a Bagirm i e a outros estados e povos da área. De um a posição de vitorioso, ele, além de dividir o Canem em duas partes, ficando com a m aior delas, fez de seu tio m aterno, Muham ed, o sultão dos bulalas, term inando assim , ao que parece, um conflito que durava desde o século
XIV. 12
Os êxitos m ilitares de Ídris Alom a têm sido atribuídos a novas táticas por ele em pregadas e ao uso disciplinado das arm as de fogo. Diante de um a cidade
am uralhada, construía ao pé dela um ou m ais arraiais fortificados,13 na m aioria
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dos casos com cercas de espinheiros (zariba), neles punha escravos a cultivar
alim entos e prolongava a duração do cerco, a fustigar o inim igo sem descanso. Adotava um a política de reduzir os adversários pela fom e. Não só destruía as
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suas colheitas, com o procurava im pedir que plantassem . E cortava
sistem aticam ente as árvores, os arbustos e as m oitas nos territórios inim igos,16 a fim de evitar que pudessem servir de proteção contra sua excelente cavalaria pesada — os ginetes vestidos de cota de m alha e os anim ais envoltos pelo lifidi (um a cobertura de pano acolchoado que am ortecia o im pacto das flechas). Há quem pense que à frente dela, entravam em com bate, tam bém a cavalo, os seus soldados de elite, arm ados de espingardas. Seriam eles os que abririam , a
surpresa e a bala, as prim eiras brechas no inim igo. 17
De que as arm as de fogo foram im portantes, ou até decisivas, no desfecho de alguns cercos e batalhas, Ahm ad ibn Furtu não deixa dúvidas. Logo no início de sua crônica sobre os 12 prim eiros anos do reinado de Ídris Alom a, declara que, entre as grandes dádivas de Deus ao sultão, figuravam os espingardeiros turcos a seu serviço, bem com o o grande núm ero de escravos de origem estrangeira por
eles treinados. 18 Relata depois vários encontros arm ados em que foi relevante o
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papel dos arcabuzeiros. É a eles que atribui, por exem plo, a conquista da
cidade am uralhada de Am saka, em bora dê tam bém destaque a outros estratagem as que o m aí usou para vencê-la. Com o, do alto de seus m uros, os sitiados lançassem fogo e pedra, lanças e flechas envenenadas, bolas de barro e vasos com excrem ento a ferver, Ídris Alom a m andou construir três torres de m adeira e colocou-as em diferentes lados das fortificações inim igas. De cim a delas, os arcabuzeiros podiam atingir com suas balas os inim igos que buscavam proteger-se atrás das altas paredes de barro. Deu tam bém ordem para que os seus arqueiros e lanceiros deixassem que os soldados com arm as de fogo fossem os únicos a atuar no início do ataque. Que ninguém arrem essasse um a flecha ou um a lança. E que deixassem o adversário gastar as suas arm as. Estas deviam ser recolhidas pelas tropas bornus, para se som ar às que traziam consigo. Tão pronto puderam os seus soldados chegar j unto ao fosso que envolvia a m uralha, eles o encheram de terra. Depois, hom ens livres e escravos, com m achados e enxadas, com eçaram a abrir brechas na grossa parede. Term inada a luta, o m aí m andou j untar todos os hom ens adultos que haviam caído prisioneiros e deu m orte a todos
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eles. A todos — insiste Ahm ad ibn Furtu.
O relato das cam panhas m ilitares de Ídris Alom a deixa, aliás, isto claro: todas
term inavam com a m atança e a escravização dos vencidos.21 Com a escravização das m ulheres, dos rapazolas e das crianças e a m atança im piedosa dos hom ens adultos — narrada com o se fosse um feito de devoção religiosa, destinada a erradicar o erro e a im piedade da terra. Desse fado só escapavam os hom ens que j á fossem escravos e que escravos, com novos donos, continuariam . Se o butim se repartia sem pre de acordo com as regras do islam e, o grosso dele era de cativos, recebidos com alegria pela soldadesca. A guerra, tendo prioritariam ente obj etivos políticos, não deixava de ser concebida com o um em preendim ento econôm ico. A riqueza que gerava era o escravo.
O sultanato de Mandara, que ficava ao sul de Bornu, viu, prim eiro, sua gente ser levada em cativeiro. Passou, depois que se tornou cliente do m aí, a pagar-lhe um tributo de seres hum anos, que ia prear nas suas vizinhanças densam ente povoadas. E tam bém de ferro. E tam bém de cavalos, que os tinha excelentes. Com Kano, Katsina, Zária e outras cidades-estados hauçás repetiu-se o m esm o enredo. E igualm ente com Bagirm i, um reino ao sul de Canem , que se islam izara no com eço do século XVI, graças à ação de clérigos fulos que lá se instalaram . (Ver o m apa “O Sudão Central”.)
Seriam esses ulem ás fulanis os responsáveis por Bagirm i se ter tornado não só o início de um a rota de peregrinação a Meca, m as tam bém um fam oso centro de form ação religiosa. O seu tanto de m érito não pode ser tirado, porém , de Abdullah, um rei devoto que, na segunda m etade do Quinhentos, reform ou o estado, a fim de adequá-lo às norm as m uçulm anas. Dantes, Bagirm i só era conhecido com o um país onde era fácil prear escravos. Mais tarde, j á no fim do Setecentos, ganharia outro tipo de fam a, não condizente com sua condição de país islâm ico: a de produtor e exportador de eunucos. Ídris Alom a procurou reduzi-lo à vassalagem e, num a de suas cam panhas, lá encontrou a m orte. Ele assistia ao desenrolar de um a batalha, de pé j unto a um a árvore; um contrário,
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escondido no alto da folhagem , atingiu-o com um a faca.
Por essa época, Ídris enfrentava um outro desafio: o dos cuararafas,23 povos pagãos, governados por reis sagrados, e que viviam , desde a m etade do século
XIII, no vale do rio Gongola e no m édio Benué.24 Havia m uito, os cuararafas conflitavam com os m aís e com as cidades hauçás, sobretudo com Kano. Já na prim eira m etade do Duzentos, o m aí Dunam a Dibalem i, que os descrevia com o pagãos antropófagos com buracos nas orelhas, saíra de Canem para lhes dar com bate, m as vira suas tropas debandarem espavoridas, depois que espiões lhes
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contaram que tinham visto os cuararafas a com erem cães e gente. Século e m eio m ais tarde, Iaj i, que era sarqui ou rei de Kano, invadiu as suas terras. Tendo eles se refugiado no alto de um a m ontanha, Iaj i cercou-a durante sete m eses e só
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afrouxou o sítio depois que os sitiados com praram a paz com cem escravos. Alguns anos depois, o filho de Iaj i, o sarqui Cananej i, cobrou-lhes um tributo de duzentos cativos, passando, em seguida, a m anter com eles escam bos frequentes
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de cavalos por escravos. Outra notícia que nos ficou foi a de que, no fim do
século XV, Ali Gaj i, de Bornu, os derrotou, capturando o rei deles e m uito de sua
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gente.
É possível que essas incursões arm adas de bornus e hauçás visassem a arrebatar aos cuararafas o controle do com ércio do sal que estes extraíam de fontes, alagadiços e lagunas existentes no vale do Gongola e no m édio Benué. Quando, a partir do fim do século XVI, se inverteu a relação de forças e a iniciativa guerreira passou para os cuararafas, que de invadidos se transform aram em invasores a cavalo, talvez tivessem tam bém eles um outro m óvel econôm ico que não apenas o de obter escravos, e procurassem abrir um cam inho direto até os caravaneiros transaarianos.
Se os cuararafas j á causavam problem as a Ídris Alom a, tornaram -se ainda
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m ais agressivos nos reinados de seus sucessores. Em 1680 ou um pouco
antes,30 eles atacaram a própria capital de Bornu, Birni Gazargam u, m as o m aí Ali ibn Um ar logrou vencê-los. Dizem as tradições que os bornus m ataram m il cuararafas, feriram outros m il e cativaram m ais m il, três dos quais devolveram
aos seus com as orelhas cortadas e penduradas ao pescoço. 31 Talvez tenha sido esta a vitória que um poeta de Katsina, o fam oso Dan Marina, cantou em versos,
aliviado.32
O alívio e a louvação de Dan Marina tinham sobrados m otivos. Se o poderoso Bornu sofreu com as investidas cuararafas, m aiores ainda devem ter sido as tribulações das cidades-estados hauçás. Kano foi atacada várias vezes: pelo m enos no fim do século XVI, na m etade do XVII e por volta de 1671. Zária e Katsina tam pouco foram poupadas. Ainda que vitoriosos — na prim eira dessas agressões a Kano, tom aram , ao que parece, o birni, ou cidade am uralhada, e devastaram o território circunvizinho, e no ataque a Kano e Katsina, em 1671, saquearam am bas as cidades e m assacraram boa parte de seus habitantes —, os
cuararafas não se faziam senhores dos vencidos.33 Voltavam com o butim aos seus pagos. Não desej avam , creio, o im pério. Talvez alm ej assem apenas repartir os ganhos do com ércio a distância e a ele ter acesso direto.
Explica-se o apetite que tinham pelos burgos hauçás. Antes m esm o da conquista de Songai pelos m arroquinos, Kano j á era considerado, j untam ente com Cairo e Fez, um dos três m aiores centros m ercantis do continente africano: era tido com o um a cidade onde não havia nada que não se pudesse achar e
com prar. 34 Ali, e em Katsina, Zária e outros lugares da Hauçalândia, não só se com erciava intensam ente, m as eram diversificadas as atividades m anufatureiras. Os seus arreios, selas, sandálias, cabos e bainhas de arm as brancas, pufes, alm ofadas e outros artigos de couro (m uitos deles, de um couro de cabra ou carneiro de altíssim a qualidade, suave, flexível e am oldável, conhecido na Europa com o m arroquim ), e seus tecidos de lã, e suas roupas bordadas, e suas j oias de prata, e suas vasilhas de cobre tinham dem anda segura do outro lado do deserto, no Saara, no Sael, no Bilad al-Sudan e na floresta.
Prim eiro os uângaras e, depois, os próprios hauçás, que daqueles aprenderam os m étodos de com ércio, haviam desenvolvido cam inhos seguros entre a Hauçalândia e o m édio Volta. Pela rota de Gonj a, nom e que se dava à região lim ítrofe com as florestas acãs, chegavam o ouro e a noz-de-cola. E por m eio dos nupes, não só a cola, m as tam bém os eunucos, a quem os sarquis tinham passado a confiar im portantes responsabilidades no m anej o do estado.
Durante os séculos XVI e XVII, as cidades-estados hauçás não cessaram de
enriquecer e expandir-se. 35 Cada um a não era apenas o birni, protegido por fossos e altos m uros de barro, e o seu entorno rural. Esta e aquela controlavam áreas bastante extensas e populações num erosas, divididas por vilarej os tam bém am uralhados. Am eaçadas a oeste por Songai, ao norte pelos tuaregues, a leste por Bornu e ao sul pelos nupes e cuararafas, essas cidades-estados fizeram -se m ilitarm ente im portantes, em bora nenhum a lograsse im por-se sobre as dem ais e construir um grande estado hauçá. As repetidas guerras entre Kano, Katsina e Zária parecem dizer-nos que, m al rom pido pela superioridade arm ada de um a delas, não tardava em se restabelecer o equilíbrio de forças.
Na prim eira m etade do século XVI, Kebbi chegou a conseguir um a posição de preem inência. Com um a população m ista de hauçás e songais, libertara-se, em 1517, da tutela dos ásquias, convertera-se num estado-tam pão entre Songai e a Hauçalândia e passara a influir na política de Agadés, onde os seus interesses contrariavam os de Gaô e os de Bornu. Com o um novo poder na área, Kebbi não podia deixar de incom odar os ásquias. Estes o atacaram pelo m enos duas vezes, na quarta e na sexta décadas do século XVI, e em am bas ocasiões, foram vencidos.
Por algum tem po, Kebbi recebeu tributo de vassalagem de outras cidades-estados hauçás. Mas sem exercer controle político direto sobre elas. A autoridade que pode ter tido sobre Katsina, por exem plo, foi de curta duração. E sem pre contestada (basta lem brar que um dos m ais fam osos reis de Kebbi, Kunta Kotal, m orreu em 1555, de um a flecha envenenada, a lutar contra rebeldes de Katsina). No final do século, apesar de terem os m arroquinos o livrado da pressão songai, Kebbi não logrou am pliar e nem sequer m anter a sua vantagem com parativa sobre os outros centros de poder hauçás. Viu, pelo contrário, Kano ser superada por Katsina em riqueza e poder, e esta tornar-se tam bém candidata a unificar o m undo hauçá. Esse possível grande estado hauçá tornara-se, entretanto, ainda m ais distante, porque a relação de forças na região se havia alterado, com o fortalecim ento do sultanato tuaregue do Air e o florescer de novas cidades-
estados com o Gobir e Zam fara.36 O que não se m odificou foi o clim a de desconfiança e m alquerença entre as cidades hauçás, que só tendia a agudizar-se com a disputa pelo aum ento do pedaço que devia caber a cada um a no com ércio transaariano. Durante todo o século XVII, os conflitos arm ados continuaram a suceder-se: Zam fara contra Zebbi, Katsina contra Zam fara, Gobir contra Katsina, Kebbi contra Gobir, Zam fara contra Kano, Kano contra Katsina. As repetidas guerras entre essas duas últim as cidades foram de tal m odo desgastantes, que as partes foram levadas a concluir, entre 1649 e 1651, um tratado de paz perpétua, tratado esse que nunca foi rom pido. Mas é possível que esse acordo tenha sido apressado pelo pavor que a am bas causavam as arrem etidas cuararafas e pela guerra civil que se desatou em Kano, entre os partidários do sarqui Kukuna e os que desej avam ver no poder o seu filho
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Os sultões de Bornu acom panhavam com preocupação o crescim ento da prosperidade e do poder m ilitar dos hauçás. Procuraram , em vez de destruí-lo, dom á-lo. Daí que entre as duas partes se tenham entretecido o conflito e a cooperação. Talvez desde a m etade do século XV, Kano j á pagasse tributo a
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Bornu. Katsina o fazia, no Quinhentos e no Seiscentos, enviando cem cativos de presente ao sultão bornuense, cada vez que um novo sarqui assum ia o poder. Ou,
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talvez, anualm ente. Havia casos em que a m esm a cidade enviava presentes,
em sinal de subordinação, ao m aí e ao ásquia, para assim com prar a tranquilidade. Com o Bornu considerava as cidades hauçás com o vassalas, as várias cam panhas m ilitares que contra elas em preendeu destinar-se-iam a castigar as recalcitrantes ou insolventes e a im pedir que nelas se criassem condições m ilitares para rom per um a situação de dependência, ainda que frouxa ou puram ente form al.
Assim terá sido quando Ídris Alom a resolveu atacar Kano. Diz-nos a crônica de Ahm ad ibn Furtu que a gente de Kano estava am uralhando os seus vilarej os e que isto só podia indicar que pretendiam voltar-se contra Bornu. Por esse m otivo, e porque essas vilas fortificadas serviam de abrigo aos que em preendiam razias
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contra súditos do m aí, este resolveu destruir os seus m uros.
Muitas m ulheres e crianças — a “gente fraca” do texto41 — foram então capturadas e vendidas. Ao serem aprisionadas, eram provavelm ente pessoas livres e m uçulm anas. A rigor não podiam ser reduzidas à escravidão por um estado que se tinha com o islâm ico e por sultões que alardeavam devoção e o título de al-haj j . Todos procuravam , com efeito, ao m enos um a vez na vida, fazer a peregrinação a Meca — o m aí Ali ibn Um ar a cum priu três vezes —, em bora não rom pessem de todo com certos costum es e ritos dos tem pos em que seus antepassados se tinham por reis divinos ou sagrados. De turbante e litham (o véu que cobria a parte baixa do rosto), viviam reclusos num palácio cercado por m uros de tij olos cozidos, falavam por m eio de línguas, m ostravam -se cerim onialm ente aos súditos dentro de um a gaiola (o fanadir) e reservavam um a boa parcela do poder para a rainha-m ãe, a m agira, e tam bém para a irm ã
oficial, a m agram .42 A persistência desses m oldes do passado não parecia conflitar com a piedade dos m aís, nem tam pouco com o estím ulo que deram à propagação do islam ism o. O islam e era a religião do estado, e nele os ulem ás gozavam de grande prestígio e poder. Tanto assim que, na m etade do século XVII, Gazargam u se tornou um im portante centro de ensino m uçulm ano, não só para Bornu, m as tam bém para a Hauçalândia.
Na sua crônica sobre as guerras do Canem , Ibn Furtu concede especial relevo a um gesto de Ídris Alom a, ao fechar a sua segunda expedição à terra dos bulalas. O m aí m andou reunir todos os prisioneiros. Depois, fez com que se separassem , sem levar em conta o sexo, os que, antes da captura, eram livres dos que eram escravos. Deixou, então, que aqueles voltassem às suas casas e repartiu
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entre as tropas os que j á viviam em servidão entre os vencidos. O elogio rasgado que o cronista faz desse procedim ento e o contraste que estabelece com a atitude dos bulalas (que vendiam todos os que aprisionavam em terras do islam e, fossem livres ou escravos), m ostra que o gesto de Ídris Alom a, que não se repete nas crônicas, era de todo invulgar ou, quando m enos, infrequente.
Não eram os m aís os únicos soberanos m oslins a escravizar islam itas livres. Das lutas entre os vários centros de poder m uçulm anos do Sudão Central saíam cativos para os m ercados do Sael e até m esm o, a partir das últim as décadas do século XVII, para os entrepostos do Atlântico. E nem todos j á seriam escravos. Se o fossem , ainda que convertidos ao islam e, era j usto e correto que pudessem ser vendidos. Se gente livre e m uçulm ana, tinham , caso seus parentes não os resgatassem ou não fossem trocados por outros prisioneiros, de ser m ortos ou deixados partir em liberdade.
Um fam oso j urista de Tom buctu, Ahm ad Baba, que presenciou, após a conquista de Songai, m arroquinos a cativarem m uçulm anos livres, deu, em 1614, a consultas que lhe foram dirigidas do Tuate, um a série im portantíssim a de
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respostas sobre a escravidão. Nesse texto, deixa claro ser lícito, e até louvável,
a escravização dos incréus pelos islam itas, m as inaceitável que se reduzam crentes ao cativeiro. Com o a conversão posterior à escravização não fazia do cativo um hom em livre (em bora fosse condição essencial para que pudesse ser m anum isso), e com o era m uitas vezes difícil saber-se se um a pessoa, ao ser escravizada, j á era ou não m uçulm ana, propôs Ahm ad Baba que se tivesse prim ordialm ente em conta a sua origem , isto é, se provinha ou não, na África, de um país ou de um povo que j á havia aceito a fé, antes de ser vencido ou conquistado por outro. E deu por exem plos de gente que devia ser tida por m uçulm ana os habitantes de Kano, Katsina, Bornu e Songai.
Não predom inaram entre os poderosos os escrúpulos de bons islam itas, com o aqueles que se dirigiram ao grande letrado de Tom buctu e com o tantos outros que preferiam libertar os escravos sobre cuj a real condição tinham dúvidas. Já em 1391 ou 92, o m aí Usum an (ou Uthm an) ibn Ídris escrevia ao sultão do Egito, a reclam ar das tribos árabes que efetuavam gázuas contra os seus súditos, livres e
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crentes, para vendê-los no Egito, na Síria e em outras partes. Não afasto, contudo, que o próprio queixoso, grande preador de escravos, com o todos os seus antecessores e sucessores, fosse useiro na m esm a prática em relação a seus adversários ou vizinhos m uçulm anos, aos quais não consideraria com o verdadeiros islam itas. A estes acusava-se de heresia; àqueles, de idolatria ou de persistência em práticas pagãs. Se havia dúvidas de consciência no declarar guerra a um outro estado m oslim , estas pouco duravam . E se, term inados os com bates, se hesitava sobre o que fazer com os prisioneiros, sobretudo com as m ulheres e as crianças, a dúvida pouco durava: ou eram soltos, ou levados com os vencedores, ou vendidos aos traficantes que acom panhavam os exércitos.
Seria ainda m enor a indecisão na com pra de cativos. E o com ércio de gente era intenso nas bordas e no m eio da faixa sudanesa. Os nupes, por exem plo, vendiam escravos a Kano, a Zária e a Katsina, e dessas cidades tam bém adquiriam gente. O cavalo que aqui se obtinha por escravos ia ser retrocado por outros escravos, m ais adiante. Poucos cuidariam em saber, ao adquirir um grupo de escravos, se algum fora cativado im propriam ente, e só um fervorosíssim o m oslim aprofundaria suas dúvidas sobre cada um deles, antes de decidir se os levaria para o sul, a fim de trocá-los por sal ou noz-de-cola, ou para o norte, para receber por eles cotas de m alha, cavalos, espingardas ou pólvora, ou se ficaria com eles, para usá-los com o carregadores ou nos trabalhos da casa e da lavoura.
Até m esm o em Bornu, cuj o sultão fora sem pre um grande fornecedor de cativos ao com ércio transaariano, a m aioria dos escravizados não era exportada. Continuava nas m ãos dos captores. É bem verdade que os hom ens adultos que escapavam das m atanças eram logo vendidos aos caravaneiros, e por baixo preço, um a vez que era reduzida a procura por esse tipo de escravos no Magrebe, no Egito e na Arábia. Mas, para as m ulheres, não era m enor a dem anda interna que a externa, e só um a parcela das cativas atravessava o deserto. O m esm o sucedia com os m eninos, sobretudo os m ais pequenos, que não ofereciam m aior perigo de fuga ou revolta, e cresceriam em cativeiro, a serem educados com o escravos. Ao capturar grande núm ero de pessoas e só vender um a parte, Bornu e outros estados m ilitarm ente fortes aum entavam as suas populações às custas das
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que lhes cediam os escravos.
Bornu, Kano, Katsina, Zária, Zam fara, Gobir, Daura e Bagirm i eram estados escravistas e não apenas sociedades com escravos. Nelas, a produção se fundava sobre o trabalho servil, e tinha-se o escravo por necessário ao grande senhor, para cuidar de suas terras e de seus rebanhos, e ao chefe m ilitar, para reforçar as suas tropas, e ao com erciante, para o carrego das m erces, e ao curtidor, e ao seleiro, e ao tecelão, e ao tingidor. Em Kano, por exem plo, eram os escravos, reunidos num a aldeia agrícola ou rinj i, que produziam o algodão que outros escravos iam fiar e tecer, e outros ainda tingir, coser e bordar, para que outros pudessem pôr as túnicas à venda. Todos os estágios da produção, da m atéria-
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prim a ao m ercadej o do produto acabado, eram cum pridos por escravos. Daí
que fosse tão forte na Hauçalândia a dem anda por cativos. Tão forte, que havia
no panteão do culto de possessão dos boris48 um a personagem , Son Bawa (o “Desej oso de Escravos”), que cam inhava, a chorar, de um lado para outro, a
pedir aos outros espíritos que lhe conseguissem um escravo.49
A dem anda dom éstica seria, assim , o grande acicate da preia de gente. Havia até m esm o um a procura de natureza política, pois os reis necessitavam de cativos para distribuí-los entre os que queriam agradar — com o fez, conform e nos diz um texto de 1658, o m aí al-haj j Ali ibn Um ar, ao repartir entre os letrados m uçulm anos de sua corte os quatro m il cativos que recolhera num a só
expedição.50 Não esqueçam os, no entanto, que era pela exportação de escravos que o sultão de Bornu — e isto vale para outros soberanos do Bilad al-Sudan — obtinha, prim eiro, arm as e cavalos; segundo, os bens de prestígio com que assegurava lealdades; e terceiro, a boa vontade e a aliança de outros soberanos.
O escravo azeitava os entendim entos diplom áticos. Com Trípoli, por exem plo. As relações oficiais entre Bornu e aquela cidade eram antigas: datavam da época
em que ela estivera subordinada aos Cavaleiros de São João 51 e continuaram depois de tom ada pelos turcos, em 1551. Já em 1555, um a m issão do m aí era recebida pelo governador otom ano de Trípoli. E outras se seguiram , com o obj etivo, ao que tudo indica, de assegurar o com ércio pelo Fezzan e o abastecim ento de arm as de fogo e de corcéis de guerra. Não sei se esses em baixadores levaram escravos de presente, m as acredito que sim , pois isto se deu em outras ocasiões. Com o nesta: no segundo quartel do século XVII, um a em baixada do m aí Um ar, filho de Ídris Alom a, ao governador otom ano de Trípoli, se fez acom panhar de um m im o de 30 eunucos, 50 donzelas e cem rapazes negros, e dele recebeu de volta 15 j ovens europeus (provavelm ente soldados escravos convertidos ao islam ism o), além de 200 cavalos, arcabuzes e
espadas.52 Alguns anos m ais tarde, o sucessor de Um ar, o m aí Ali ibn Um ar, presenteou, de um a feita, o paxá de Trípoli com cem escravos, entre os quais
vinte eunucos e cinco anões, e, de outra, com 200 escravos e vários eunucos.53
Diante da im portância política que tinha o escravo, não é de estranhar-se que os reis, até porque eram os grandes produtores e arm azenadores de cativos, procurassem m onopolizar ou, quando m enos, controlar o seu com ércio. No Bornu dos séculos XVI e XVII, os negociantes locais, em bora pudessem interm ediar nas transações, im portar de vez em quando alguns escravos e revendê-los às caravanas ou nos m ercados da terra, tinham geralm ente de contentar-se em trabalhar com outros produtos, com o gado, tecidos, artigos de couro, sal, tâm aras, legum es e cereais. O grosso do com ércio de escravos estava sob a responsabilidade de altos funcionários do estado, que m ercadej avam não só
em nom e do m aí, m as tam bém por conta própria.54 Nada obstava, porém , a que traficantes estrangeiros adquirissem cativos diretam ente ao rei.
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Ahm ad ibn Furtu conta-nos um caso desses. Voltava Ídris Alom a de sua sexta cam panha contra Canem . Tinha as tropas em descanso, quando, atraídos provavelm ente pelas notícias de suas vitórias e de seu butim , ali foram ter m ercadores bornus, acom panhados por caravaneiros de Bilm a, Kawar e Ghazbi. O sultão adquiriu pessoalm ente deles um grande núm ero de cavalos. Em bora não nos diga o cronista em que m oeda os pagou, tudo indica que foi em escravos, pois era principalm ente de escravos o despoj o que trazia.
A m aioria dos com erciantes que atravessavam o deserto provinha do Magrebe, sobretudo dos oásis da borda setentrional do Saara. Alguns eram senhores de seus negócios, m as outros trabalhavam com o agentes de grandes casas de Túnis, Trípoli ou Cairo. Havia quem viesse de m uito longe: do Egito, do Iêm en, de Om ã, do Iraque e da Pérsia. E não faltavam fam ílias que se dividiam , para a m elhor condução dos negócios: um irm ão em Bornu, outro no Fezzan e um terceiro em Trípoli. Eram quase todos m uçulm anos, m as entre eles podia aparecer algum cristão — veneziano, genovês, m altês, catalão ou m arselhês — que lograva iludir as barreiras islâm icas, bem com o um punhado de j udeus, que estes estavam dissem inados por todo o espaço m oslim .
Quando ou onde quer que os com prassem — logo após a repartição dos prisioneiros, que se seguia a um a batalha, ou na viagem de volta, ou nos depósitos reais, ou no m ercado, ou na cubata de um soldado —, os m ercadores punham peias nos cativos e atavam as suas m ãos, prendiam -nos aos pares pelos tornozelos, e depois os ligavam em pequenos grupos pelo pescoço, com um a
corda ou um a correia de couro. Foi assim que viu fazer Mungo Park, 56 no final do século XVIII, e não devia ser diferente um século antes. Cam inhando de m odo lento e penoso, os escravos, conduzidos pelos seus novos donos, iam reunir-se nos pontos de partida das caravanas. Ali, eram colocados dentro de paliçadas ou de cercas de espinheiros. E preparavam -se para a duríssim a travessia do deserto, na qual os doentes, os enfraquecidos, os tom ados por fadiga e todos os que não podiam acom panhar a m archa a pé — e o percurso era de m ais de dois m il quilôm etros — tinham cortadas as am arras que os j ungiam aos com panheiros e eram abandonados ao sol e à sede. As perdas deviam ser grandes. E isto tornava ainda m ais elevada a parcela de custos de transporte que form ava o preço final de um escravo nos m ercados do Cairo, de Túnis ou de Trípoli. Relativam ente barato no local onde era aprisionado, o cativo aum entava
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de preço — entre cinco e oito vezes entre Bornu e Trípoli — à m edida que
dele se distanciava. E m uitas vezes ia findar os seus dias m uito longe. Em 1565,
por exem plo, boa parte dos negros de Palerm o provinha de Bornu.58
Muito da escravaria que as caravanas levavam de Bornu e da Hauçalândia tinha por origem terras afastadas. Traziam -na do oeste os uângaras e os iarces, e do sudoeste e do sul, não só estes, m as tam bém os nupes e os m ercadores itinerantes hauçás, que, j á então, percorriam corriqueiram ente as rotas diretas até Gonj a, nas m argens do país acã. Em bora a rede com ercial hauçá, em tudo sem elhante às dos uângaras ou diulas, só se torne claram ente visível, para nós, no
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século XVIII, é m uito provável que suas bases estivessem sendo lançadas m ais de cem anos antes e que hom ens de negócios hauçás j á se estabelecessem em entrepostos e aldeias de outros grupos m ercantis m uçulm anos, antes de form arem os seus vilarej os e de constituírem um a diáspora com ercial própria.
A m aior parte dos escravos que, a partir do Sudão Central, atravessavam o Saara derivava, porém , das num erosas guerras que ali se sucediam . Na segunda m etade do Seiscentos, não só Gobir e Zam fara procuraram expandir-se m ilitarm ente às custas dos vizinhos, com o o sultanato tuaregue do Air tam bém se envolveu num a aventura im perial, conquistando o Adrar, por volta de 1674, e repetindo os conflitos arm ados com Kebbi, Gobir, Zam fara e Bornu. Tanto o sultão Muham ed al-Mubarak quanto seu filho e sucessor, Agaba (ou Ag-Abba), aspiravam a controlar o com ércio transaariano e não apenas a sua passagem pelo Air. Ao aum ento da pressão m ilitar tuaregue correspondeu, entretanto, um certo alívio ao sul. Inexplicavelm ente, após os ataques da antepenúltim a década do século XVII, os cuararafas se retraíram e desapareceram , com sua tem ível cavalaria, das crônicas bornus e hauçás. Mas não da História nem da vida.
Crê-se que os cuararafas, ou os konas dos canúris, seriam a m esm a gente a que vários povos da região cham am de apa e que, em bora se tenha tornado
conhecida pelo nom e hauçá de j ucum ,60 dado à sua aristocracia sacerdotal, se
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autodenom ina wapan. A favor dessa identificação há um testem unho antigo: o
poem a de Dan Marina, no qual cuararafa e j ucum aparecem com o sinônim os.62
Os j ucuns63 dom inavam um a confederação de pequenos estados no m édio Benué. Todos os seus régulos sabiam -se subordinados a um grande rei sagrado ou sum o sacerdote, o aku, que tinha sua m orada em Wukari. Não retirava esse rei o seu poder das arm as. Deus encarnado, ou filho, com panheiro ou representante dos deuses, era respeitado, obedecido e tem ido por sua força sobrenatural e a da
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classe dos sacerdotes em que se arrim ava. Nisto reside, aliás, a dificuldade encontrada por alguns historiadores para aceitar a identificação dos j ucuns com os belicosos cuararafas: não só aqueles aparecem , nos séculos XIX e XX, despidos de virtudes guerreiras, com o tam bém não guardam lem brança de um passado arm ipotente. Em Pindiga, é bem verdade, há m em órias de guerras na
Hauçalândia. E em outros lugares, as tradições registram conflitos com Bornu.65 Não é de excluir-se, porém , que, ao longo do século XVIII, os reis j ucuns, tal qual se passou um a centúria antes no Benim , se tenham encerrado cada vez m ais no palácio e se fortalecido na condição de reguladores espirituais e m ágicos do m undo, em detrim ento da de chefes de hom ens em arm as, que acabou por tornar-se esquecida. É possível até que o aku tenha tido, no vale do Benué, um a espécie de suprem acia fundada na religião, pois igalas, igbiras, idom as e vários outros povos possuem tradições de origem e organização política vinculadas aos
j ucuns. 66
Vendiam os j ucuns escravos tanto para o norte, a cam inho do Saara, quanto para o sul, na direção dos navios europeus, tendo, ao que parece, Old Calabar por principal desaguadouro. Mesm o depois que foram afastados de Idah, os j ucuns devem ter m antido relações com erciais com os igalas. E possivelm ente valeram -
se da interm ediação do Arochukwu. 67 Quero crer que a m aior parte dos cativos que colocavam no m ercado lhes era entregue com o tributo ou oblata de povos vizinhos a um rei de quem dependia o bom funcionam ento da natureza.