A Manilha e o Libambo
11. Angola
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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Angola
Ondem bi a angola nunca m ais soube de Paulo Dias de Novais. Nem dos presentes (40 argolas de cobre, 40 peças de um pau arom ático cham a do
cacongo, 35 presas de elefante e alguns escravos)1 que por ele m andara ao rei de Portugal, e que este não retribuíra, com o de seu dever. Consta que com o português viaj ou um em baixador do angola, m as, se viaj ou, dele tam pouco se voltou a ter notícia.
Passados dez anos, seria a um novo angola a quiluanj e que se anunciaria o regresso do antigo prisioneiro. Chegara a Luanda, em fevereiro de 1575, acom panhado de m uita gente: 700 soldados, m arinheiros e artífices, além de uns
poucos j esuítas, em sete2 3 ou nove navios. Na ilha, encontrara sete barcos são-tom enses, que faziam negócios com os nativos, e uns 40 m oradores portugueses. Muitos outros espalhavam -se pelo continente defronte, a fazer o seu com ércio e a se africanizarem . Mas nem todos atenderam à convocação para um encontro. Dentre os que vieram , na com panhia de escravos arm ados, vários, sobretudo os cristãos-novos rej udaizados, inquietaram -se com a inform ação de que Paulo Dias de Novais chegava para assum ir o governo daquelas terras em que eles eram senhores de seus negócios, de suas vidas e de suas alm as.
Desde o retorno a Lisboa, passando pelo Congo e por São Tom é, Paulo Dias de Novais procurara interessar a Coroa portuguesa na conquista dos territórios que se estendiam em frente à ilha de Luanda. Nesse esforço, fora coadj uvado pelos j esuítas e pela correspondência que, do cativeiro, enviava a Lisboa o padre Francisco de Gouveia, a descrever as riquezas do país, as suas j azidas de prata, cobre e sal, e a insistir sobre o quão fácil era dali chegar-se por terra até Moçam bique e as m inas do Monom otapa. Para o padre Gouveia e seus colegas da Com panhia de Jesus, só se conseguiria evangelizar os africanos, caso eles fossem antes subj ugados m ilitarm ente. Não se tratava m ais de fundar feitorias nem de repetir a política de aliança, catequese e cooperação desenvolvida no Congo, m as de ocupar o reino do angola, para depois, de um a posição de força, convertê-lo.
A Corte portuguesa acabou por convencer-se, desde que a conquista se efetuasse sem ônus para a fazenda real. Criou-se, em 1571, a Capitania e Governança de Angola, calcada no sistem a das capitanias hereditárias ado-tado no Brasil, e dela fez-se donatário Paulo Dias de Novais. Deu-lhe D. Sebastião o que não era dele. Transferiu-lhe o governo e a posse de terras que não pertenciam a Portugal, m as a reis africanos. Sob seu governo vitalício pôs os territórios entre os rios Dande e Cuanza, e concedeu-lhe a posse hereditária, sob a suserania da Coroa, de 35 léguas de costa, do Cuanza para o sul, sem lim ites para o interior.
Paulo Dias de Novais fundeou na ilha de Luanda, que pertencia ao m anicongo e era governada por um nobre conguês. Os seus habitantes, os m uxiluandas ou Axiluanda — Axiluanda é a form a plural de m uxiluanda — eram habilíssim os
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canoeiros e dedicavam -se à apanha das lagostas — “grandes e bastantíssim as” —, à pesca e secagem do peixe e à caça das baleias. A principal riqueza da ilha
era, contudo, os zim bos, pelo que podia ser considerada a m ina do m anicongo. 5
Em bora a ilha estivesse fora de sua j urisdição, a presença de tanta gente arm ada certam ente desassossegou o rei am bundo. Consta que o angola foi advertido do perigo por alguns m uissicongos. Ou por lançados. E deve ter recebido conselhos, para pôr-se de sobreaviso e ser prudente, de um chefe que enviou em em baixada e para coletar inform ações à ilha de Luanda. Prudente foi, m esm o depois que os portugueses passaram para a terra firm e e ali, num prom ontório, com eçaram a construir igrej a, casas e fortificações. Parecia evidente que tinham vindo para ficar e não apenas para adquirir escravos — escravos que o angola estava disposto a vender-lhes, com o j á vendia, desde havia algum tem po, aos navios que ali ancoravam . Com o os estrangeiros construíam em dom ínios do m anicabunga, um governador do m anicongo, o angola não tinha por que nem com o hostilizá-los. Mas deve ter ficado, de longe, à espera de que adoecessem e se fossem finando, com o de costum e, pouco a pouco. Disso provavelm ente não sabia, m as tinha no m osquito o m elhor aliado.
É provável que a gente do angola só chegasse às praias próxim as à ilha de Luanda, e, m esm o assim , com o consentim ento do m anicabunga, para fazer com ércio. E talvez toda a área costeira entre os rios Bengo e Cuanza estivesse sob o controle daquele chefe que aparece nos textos com o Cassanze (Kasanze, Caçanze, Casanze, Cassanj e, Quasanze, Cazzanzi, Casangi etc.) e que foi o prim eiro líder da região a opor-se pelas arm as, ainda em 1575, à presença de Paulo Dias de Novais. Se fosse um caçanj e, um título do sul do Cuanza, dos
reinos do Culem be e do Libolo, 6 adotado pelos im bangalas — kasanj e significava originariam ente “guardião” e se aplicava a um chefe que defendia as fronteiras ou cuidava de um território em nom e do rei —, poderia ele ser o soba de algum grupo sulista que cruzara o rio ou um chefe guerreiro im bangala, que viera para
as proxim idades do litoral, atraído pelo com ércio com os barcos europeus. 7 Tendo o título de m ani, o m ais provável é que fosse um chefe ou régulo conguês, vassalo do m ani de Bam ba (ou Mbam ba), que, por sua vez, era tributário do
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m anicongo. De que esta era a condição do cassanze que com bateu os portugueses em 1621, não parece ter tido dúvida Antônio de Oliveira de Cadornega, quando, sessenta anos m ais tarde, concluiu a sua História geral das
guerras angolanas. 9
O m ani cassanze percebeu prontam ente que os recém -chegados iriam perturbar o seu com ércio de escravos e afugentar os principais fregueses, os são-
tom enses.10 Que iam cham ar para ele a atenção do m anicongo, tão preocupado com o controle das trocas em Pinda. Ou, então, se fiel e zeloso tributário de São Salvador, que o seu soberano só tinha a perder com a abertura daquele novo porto português. O fato é que fez frente aos forasteiros e lhes infligiu a prim eira derrota. No confronto, aprisionou m ais de 50 hom ens de Paulo Dias de Novais,
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depois resgatados por seus cam aradas. Nessa postura de hostilidade aos
portugueses persistiriam os seus sucessores. Voltaram a guerreá-los várias vezes, im pedindo, durante quase um século, que assum issem o controle de boa parte das terras baixas adj acentes à costa entre o Bengo e o Cuanza.
Os andongos vindos de Luanda contaram ao angola que os estrangeiros adoeciam , sim , e m orriam , m as que as baixas eram com pensadas por gente fresca que chegava, de quando em quando, da Europa. Disseram -lhe que a vila de São Paulo de Luanda, fundada por Paulo Dias de Novais, continuava a crescer. E, o pior de tudo, que os portugueses com eçavam a subir o rio Cuanza.
Se o rei m ostrava-se cauto nas suas ações e reações, Paulo Dias não lhe ficava atrás. Em bora j á contasse, para invadir o Dongo, com a prom essa de aj uda do m anicongo, agia com o se fosse aliado do angola, perm itindo até m esm o que arcabuzeiros portugueses participassem de suas cam panhas punitivas contra vassalos sublevados. O que o donatário não conseguia era fazer valer os seus pretensos direitos sobre o com ércio, sem indignar os brancos e m ulatos que m ercadej avam no litoral, m uitos dos quais, nascidos em São Tom é, em Cabo Verde ou no continente africano, reinóis degredados ou cristãos-novos de volta ao j udaísm o, não se sentiam obrigados a obedecer-lhe nem ao rei de Portugal. E foi possivelm ente por instigação de algum desses, ao desdobrarem diante do angola o proj eto lusitano de conquista do território, que o rei de Dongo resolveu cortar-lhe o passo.
Subia o donatário pelo Cuanza, a explorar o território. Possivelm ente, o rei considerou isto um ato hostil. Mandou m atar de surpresa os 30 ou 40 portugueses
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que viviam em sua capital e nas aldeias vizinhas, bem com o os seus escravos. E enviou um m ensageiro a Paulo Dias de Novais, a ordenar-lhe que parasse onde estava. Ao receber o recado, Paulo Dias sentiu o perigo e recolheu-se — a coluna era form ada por 60 portugueses e cerca de 200 negros — a um sítio m ais protegido, em Anzele, onde ergueu um a paliçada e a anim ou com duas peças de artilharia. Lá recebeu as novas do m assacre. E lá foi atacado pelas tropas do angola. Castigou-as com os canhões e teve a sorte de abater quem com andava os
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atacantes, os quais, sem chefe, debandaram . Aquele, para os portugueses, era
o ano de 1579, ano que m arcou o com eço de um a longa e crudelíssim a guerra.
Num prim eiro m om ento, Paulo Dias de Novais procurou explorar a vitória, acelerando o avanço sobre o território. Pela violência sem peias, buscou espalhar
o pânico entre as populações.14 Mandava decapitar os chefes negros que capturava ou que se rendiam . E queim ar vivas dentro de suas casas fam ílias inteiras. Por onde passava, levava tudo — m ilhetes, sorgo, m el, sal e gado m iúdo —, reduzia a cinzas as aldeias e os sobreviventes, à escravidão.
Entretanto, o angola arregim entara um num eroso exército. E com eçou a fustigar os portugueses. Os seus envolviam as paliçadas dos intrusos e se esforçavam por im pedir que recebessem com ida ou saíssem em busca de água, procurando fazê-los “perecer à necessidade e fom es” — conform e escreveu um participante dessas guerras, Garcia Mendes Castelo Branco. Que acrescenta: “Assim as passam os grandíssim as, porque não havia que com er m ais que o que se alcançava com a espingarda e o trazíam os às costas com grande risco das
vidas, porque até a nossa gente preta nos desam parou.”15
Seria esta um a constante: quando tudo ia bem para os portugueses, os seus exércitos inchavam de africanos. Quando, porém , sofriam reveses, m uitos dos aliados negros os abandonavam . Tendo o reino do Dongo sido constituído pelo am álgam a de m uitas linhagens e constelações de linhagens, alguns líderes am biciosos ou ressentidos com a subordinação ao angola aliavam -se aos portugueses, na esperança de reganhar a independência. Se esses andavam vitoriosos, crescia naqueles a audácia. Se, contudo, os viam em desvantagem , os chefes insubm issos desertavam e corriam a renovar a fidelidade ao rei. Este não ignorava que assim era, com o tam bém sabia que o poderio português se assentava, m ais do que nos cavalos e arm as de fogo, na capacidade de recrutar contra ele, angola, os seus inim igos de sem pre e os grupos subj ugados, andongos ou não.
O angola nunca tinha certeza de com quem podia contar. Nem todos os chefes lhe m andavam a tem po as tropas que requisitava. Não possuindo exército perm anente, só tinha por seguro dispor de soldados na estação seca, quando se interrom piam as labutas agrícolas. Era durante esses m eses que tradicionalm ente se em preendiam as cam panhas m ilitares, até porque as tropas, após a colheita, podiam sair de casa de farnel cheio e ir com endo dos celeiros de am igos e de inim igos, pelo cam inho. Todavia, contra os portugueses, força era agir ao contrário do que se tinha por regra. Pois eles ficavam m ais frágeis na época das chuvas. Acom etidos pelas febres, m al conseguiam apoiar no om bro um arcabuz. E sob um a carga-d’água ou um a chuva m iúda, as arm as negavam fogo. A pólvora m olhada perdia a eficácia. E assim tam bém a m echa que tinha de ser acesa para disparar a arm a. Disso logo souberam os líderes m ilitares do angola. Mas não tinham com o conseguir um núm ero suficiente de guerreiros para enfrentar o adversário enfraquecido pelo inverno.
Apesar disso, o angola parou o avanço de Paulo Dias de Novais durante dois anos. Os portugueses entrincheiraram -se em Maconde. E, a atacar e a ser atacados, ficaram à espera de um a prom etida aj uda do m anicongo. Esta veio. Porém , m al o angola soube, no início de 1581, que desciam do norte 60 m il soldados congos, acom panhados por 50 portugueses, apressou-se a dar-lhes com bate e os venceu com pletam ente. O que os andongos não conseguiam era desaloj ar o inim igo de Maconde, nem im pedir que lhe chegassem os reforços enviados do litoral.
A em presa da conquista dessangrava-se. Ao redor de Luanda, resultavam em quase nada as tentativas para im plantar a agricultura: os solos revelaram -se pobres, as chuvas eram irregulares, as pragas destruíam os brotos e as colheitas. Fora dos estabelecim entos portugueses e sitiados pela hostilidade am bunda, a catequese não dera frutos; as conversões eram de conveniência e podiam durar pouco. O m ais grave é que não havia com o cobrir as despesas crescentes com as ações m ilitares. Não bastavam para os gastos os cativos produzidos pela guerra. Era necessário encontrarem -se novas fontes de receitas. Com o o sal, a m oeda da terra. Ou a prata, tão apregoada e que convencera D. Sebastião a autorizar a aventura. O sal estava ali, nas j azidas de Quissam a (Quisam a ou Kisam a), a uns 180km ao sul de Luanda. E a prata — dizia-se —, a uns 160km do Cuanza, em Cam bam be. Era urgente que os portugueses rom pessem o sítio em Maconde e saíssem atrás dessas riquezas.
O angola fez de tudo para im pedir que lá chegassem . Aqui, conseguia um a vitória. Ali, sofria um revés. Se os arcabuzes não se revelavam superiores, até por serem poucos, a um grande contingente de arqueiros com m aior rapidez de arrem esso, os canhões e os cavalos podiam causar estragos. Um hom em m ontado valia por dezenas a pé — por um a centena, diria Duarte Lopes a Filippo
Pigafetta16 —, sobretudo porque os am bundos não sabiam com o lhe dar com bate. Felizm ente para estes, os cavaleiros eram poucos, pois os anim ais m orriam com facilidade, m al chegados àquela parte da África.
Os portugueses retom aram o avanço. Lentam ente. Chegaram perto da capital do angola, Cabaça (Kabasa ou Nbanza-ia-Kabasa), a um a légua das supostas m inas de Cam bam be. O rei retirou-se da cidade. E levantou um enorm e exército contra os portugueses e seus aliados africanos. Estes o derrotaram em cam po aberto. Mas não o subm eteram . O que parecera a Paulo Dias de Novais, naquele dia de 1583 dedicado a Nossa Senhora das Candeias, com o um a vitória definitiva, não o era. Tanto assim , que o angola o forçou a de novo abrigar-se dentro de fortificações, desta feita num lugar bem protegido pela natureza, Massangano, na confluência dos rios Lucala e Cuanza. Lá ficou m ais dois anos, sitiado, quase sem
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pólvora e a passar apertos.
O enredo repetiu-se m uitas vezes. Derrotado num a batalha, o rei andongo afastava-se para longe, m as, logo depois, trazia de volta as suas tropas para Cabaça — se é que não construía outra capital com o m esm o nom e, um pouco m ais adiante — e voltava a fustigar os portugueses. Não tardou m uito para estes com preenderem que, naquela parte do m undo, eram raras as vitórias conclusivas. Devido à ausência de cavalaria, para um a perseguição rápida e efetiva, um exército que se considerasse derrotado podia fugir em aparente desordem do cam po de batalha, reunir-se de novo, dias depois, e voltar a atacar,
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com novo ânim o e determ inação. Além disso, eram com uns as ações de guerrilha, que obrigavam os portugueses a recolher-se às paliçadas, de onde não saíam sem perigo de ataque. Passava-se assim em quase todos os lugares entrincheirados pelos quais se dividiam as forças invasoras, que necessitavam m anter, por m eio deles, algum a presença nos territórios que consideravam conquistados, vigiar as suas vias de abastecim ento e im pedir que os inim igos lhe ocupassem a retaguarda. Tam bém os andongos se distribuíam por quatro ou cinco grandes redutos fortificados. Neles não tinham canhões para colocar, m as
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j á dispunham de alguns m osquetes e arcabuzes, obtidos pelo com ércio com os
lançados ou com navios clandestinos são-tom enses. Por sua vez, os portugueses
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utilizavam , nos com bates com os guerrilheiros, m atilhas de cães bravos.
Não passou despercebida ao angola a m orte de Paulo Dias de Novais, em 1589, na praça-forte de Massangano. Havia dez anos os dois andavam em guerra, sem que um deles se pudesse dizer vencedor. O africano vira m uitos de seus vassalos se passarem para os portugueses, m as, em com pensação, pelo pouco que estes avançaram no terreno — um a franj a costeira entre o Bengo e o Cuanza, e um corredor, suj eito a ataques, até Massangano —, lhes havia sido cobrado um altíssim o preço em fazenda e gente. Enorm e fora a perda de vidas hum anas na luta arm ada, m as, do lado dos invasores, as doenças contribuíam para desm oralizá-los m ais do que as degolas. Em 1587, por exem plo, com Portugal sob Felipe II de Espanha, chegaram de reforço entre 150 e 200 alem ães, flam engos e castelhanos — e m orreram todos, antes que tivessem
com eçado a pelej ar.21 Dos 1.700 europeus falecidos em Angola, de 1575 a 1591, só 400 perderam a vida na guerra; os dem ais se foram de m aleita e outras
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febres.
Era a m iragem da prata o que anim ava a em presa. Pelos escravos, não se tinha por necessária a conquista. Bastava encostar um barco ou instalar um a feitoria, que os locais e os lançados os traziam em bom núm ero. Já a exploração das m inas exigia o controle das serras onde se acreditava que ficassem . E os j esuítas escreviam para Lisboa, dando certeza da enorm idade delas. E um m ineiro espanhol, Diego de Raquena, chegara a inform ar que havia estado na riquíssim a Cam bam be e que descobrira em outros sítios m ais 40 j azidas auríferas. E o próprio Paulo Dias de Novais m andava dizer que j á localizara duas
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dúzias delas. Enganavam a Coroa e a si próprios. Ninguém acreditava em
Baltasar de Castro, que, durante o cativeiro, adquirira a certeza de que eram balela.
Foi provavelm ente o convencim ento de que Angola era um novo Peru o que m oveu o rei de Espanha e Portugal a prosseguir na conquista, m algrado ter ela avançado tão pouco e apesar do desastre m ilitar do rio Lucala, nos últim os dias de 1590, quando as tropas do sucessor de Paulo Dias de Novais, Luís Serrão, foram fragorosam ente derrotadas por um a coligação com posta pelos exércitos da rainha ou m uhongo de Matam ba e por tropas andongas, im bangalas e congas. Os pequenos canhões, os arcabuzes de 120 a 130 portugueses e as flechas, azagaias e lanças de dez m il a 15 m il africanos não puderam resistir, em cam po aberto, ao em bate dos confederados. Estes vinham divididos, com o de costum e, em três grandes corpos de tropa ou em balos, um atrás do outro, de m odo que, contido ou reprim ido o choque do prim eiro, o segundo o substituía im ediatam ente no ataque. Além disso, dos dois lados do m ole das tropas, dispunha-se em m eia-lua um a grande quantidade de guerreiros. Durante o com bate, o sem icírculo se foi fechando de form a lenta e sistem ática, até envolver com pletam ente o
inim igo.24
Em 1591, Felipe II de Espanha e I de Portugal rescindiu a doação da capitania e pôs Angola sob um governador-geral. O prim eiro deles, D. Fran-cisco d’Alm eida, trouxe consigo im portantes reforços: entre 400 e m il soldados, sendo
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50 a cavalo. O segundo, Jerônim o d’Alm eida, irm ão daquele, j á estava na
terra, quando lhe sucedeu em 1593. O terceiro, João Furtado de Mendonça,
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chegou, em 1594, com m ais 400 hom ens e 30 cavalos. Todos esses socorros não im pediram que os andongos tivessem os portugueses praticam ente sitiados em seus vilarej os fortificados. Até Massangano ficou, em 1597, por algum tem po, sob cerco. Os andongos eram os donos do terreno. A cada derrota respondiam com vitórias. Quando, por exem plo, em 1594, os portugueses pareciam ter-se assenhoreado da Quissam a e de suas m inas de sal, construindo nos seus arredores o fortim de Ndem ba, e se encam inhavam para Cam bam be,
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um soba poderoso dos quissam as, que herdava o nom e de Cafuxe Cam bare (o
kafushe kam bare), não lhes deu descanso com suas guerrilhas, até que os obrigou,
com grandes baixas, a retirarem -se. Pouco depois, Ndem ba seria abandonada.28 Nova tentativa, vários m eses depois, de avançar para Cam bam be resultou noutro desastre.
Assim iam as coisas, ano após ano, até que Manuel Cerveira Pereira logrou, em 1603, vencer Cafuxe Cam bare e apossar-se das serras de Cam bam be, onde construiu um a praça-forte (ou presídio, com o lhe cham avam os portugueses) e a
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guarneceu com 250 soldados. Esse Manuel Cerveira ocupara o m ando por força da m orte do quarto governador-geral, um irm ão de frei Luís de Sousa, João Rodrigues Coutinho. Coutinho, um fidalgo de grande prestígio, chegara a Luanda, em fins de 1601 ou início de 1602, com cerca de m il hom ens, m uitos cavalos, arm as e m unição, tendo por fito declarado o de ocupar as m inas de prata, sem as quais, para a Coroa, a conquista não se j ustificava. Mal arrum ara a casa, o governador subiu, com suas tropas, o Cuanza, m as enferm ou e m orreu dias depois.
O seu substituto, Cerveira, vitorioso sobre o kafushe, não quis correr o risco de hum ilhar o soba. Fez com ele a paz, em troco da vassalagem e de 40 escravos. Tam pouco aventurou-se, com o queriam vários de seus capitães e aliados africanos, a atacar o angola a quiluanj e, assentado a pouca distância. Preferiu receber os em baixadores andongos e costurar a paz. É possível que tem esse a repetição do passado, com as guerrilhas a enfraquecerem os seus e a forçá-los a desistir dos territórios conquistados.
Chegara às m inas fam osas — e era isto o que im portava. Só que o
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contentam ento durou pouco: as am ostras colhidas revelaram -se de chum bo. Não havia prata em Cam bam be. Decepcionado, o rei Felipe III de Espanha e II de Portugal m andou, ao que consta, suspender a conquista. Que se ficasse onde
se estava, a traficar com escravos.31
Era o escravo, aliás, o que m ovim entava o porto de Luanda. Com erciava-se ali m arfim , cobre, algum a cera. Mas não havia m erce que rivalizasse com o escravo. Já se contaram em 52.053 cabeças as em barcadas entre 1575 e 1591, sem que no cálculo estivessem incluídas as peças que, para burlar o pagam ento
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de im postos, não se declaravam , nem as que seguiam de contrabando. Esses núm eros foram recolhidos, em 1591, do livro de traslado e verbas de Luanda por Dom ingos de Abreu de Brito, que fora a Angola, a m ando do rei, fazer um
inquérito sobre a situação da conquista. 33 Segundo Abreu de Brito, de 1575 a 1587, saíram de Luanda, sem contar o contrabando, 31.922 escravos, ou sej a, 2.660 em m édia por ano; e, entre 1587 e 1591, 20.131, o que dá a m édia de 5.032. O tráfico, portanto, após 1587, quase dobrara. Se levarm os em conta os escravos que se em barcavam às escondidas, podem os acom panhar Vitorino Magalhães Godinho, que calculou em quatro m il corpos a m édia anual para o
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prim eiro período, e em 7.500, para o segundo. As cifras globais nos colocariam no nível dos cinco m il que j á se tem proposto com o a m édia anual
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para aquelas décadas. Esses núm eros pareceriam , no entanto, exagerados para
os que calculam que, entre 1576 e 1600, a m édia anual das exportações de
escravos de toda a África Atlântica seria de 5.600 corpos. 36
Antes dos prim eiros com bates entre Paulo Dias de Novais e a gente da terra, o tráfico realizava-se com o em outras partes da Costa da África: os reis ou os nobres forneciam os cativos diretam ente aos navios portugueses ou aos seus agentes locais, às feitorias e aos lançados, ou, então, os brancos iam buscá-los nos m ercados. Na Capitania e Governança de Angola, a guerra perm anente acabou, contudo, por ressuscitar entre os europeus processos de obtenção de escravos que em outros lugares, havia m uito, se tinham por contraproducentes e perigosos. Voltaram os portugueses a caçar o negro. De cada cam panha m ilitar, esperava-se que saíssem escravos. Se houvesse dem anda urgente, atacava-se um a aldeota suspeita de sim patia pelo inim igo. Os m ercadores acom panhavam os soldados portugueses e seus sequazes africanos, preparados para adquirir deles os cativos que fizessem . E traziam os prisioneiros, peados e m anietados, na cauda das tropas. Às vezes, porém , nada saía com o esperado. Com o quando os negociantes que se j untaram à expedição de Luís Serrão se viram obrigados, após o desastre de Lucala, a abandonar, na debandada, m ercadorias que com punham a carga de
24 navios ancorados em Luanda e que levavam para o resgate de escravos.37 A carga de 24 navios, repito, para que se faça um a ideia — ainda que possa ter
havido um certo exagero retórico38 no volum e dos bens perdidos — da quantidade de cativos que se esperava retirar dos com bates.
Os habitantes de Luanda não se sentiam na dependência de interm ediários africanos para conseguir escravos. Iam buscá-los de arm as na m ão. Mas continuaram a com prá-los, tanto em Luanda quanto nos presídios e feiras do interior. Os traficantes m ais em preendedores, defrontados com o aum ento da procura no continente am ericano, continuaram a valer-se dos pum bos de Malebo e de Okango: suas caravanas subiam até São Salvador, onde pagavam as taxas ao m anicongo, e dali seguiam para os dom ínios tios, voltando pelo m esm o
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cam inho. Os luandenses, entretanto, j á haviam urdido um outro m eio de obter
escravos, e sem grandes custos, ao adaptar um a instituição que tinham encontrado entre os am bundos. Ou, m elhor, ao invertê-la.
Quando Paulo Dias de Novais foi forçado a perm anecer na capital do ndem bi a angola, puseram -no sob os cuidados de um dignitário andongo, a quem
denom inou em português “am o”.40 Esse “am o” atuava com o traço de união entre a com unidade e o forasteiro, facilitava a vida deste, aj udava-o a adaptar-se ao novo am biente e evitava que agisse de form a incorreta ou ferisse os costum es locais. Havia, claro, contrapartidas. Com certeza, a de acatam ento ao “am o”; e, possivelm ente, a de preferência na interm ediação das trocas com erciais. O estrangeiro prestava-lhe tam bém serviços que os andongos não dom inavam ,
com o os de coser roupas e brear barcos. 41 Ao assum ir a donataria, Novais resolveu aplicar esse sistem a de tutela aos nativos que a ele se aliavam ou se
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subm etiam , e os am bundos o aceitaram de bom grado, por ser do costum e. A
cada soba, chefe de aldeia ou cabeça de linhagem o donatário deu um “am o” português, que pronto se transform ou em am o, em m ais do que patrão, em
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senhor. Excetuados alguns sacerdotes que se entregavam inteiros à catequese,
os colonos ou conquistadores — esta últim a palavra aparece com frequência nos docum entos da época — estavam em Angola à força ou para enricar. Eram , salvo um ou outro, nobres sem fortuna ou em desgraça, aventureiros, foragidos da j ustiça e degredados (em alguns casos, por crim es que hoj e não consideraríam os sequer delitos leves), excluídos sociais ou indivíduos pertencentes a grupos sob suspeita, com o ciganos, cristãos-novos, hom ossexuais, m ulatos da Metrópole, de Cabo Verde ou de São Tom é e m am elucos do Brasil, que destes tam bém ali devia haver, pois som avam no Congo, no fim do século XVI, cerca de 500, “culpados e hom iziados”, conform e deles disse Dom ingos de
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Abreu de Brito. Era de esperar-se que essa gente interpretasse a tutela com o
um senhorio: o soba lhe havia sido doado para seu serviço e, em últim a análise, pertencia-lhe, com todos os seus dependentes. Assim pensavam não apenas os soldados reles que se tornavam “am os” de chefes africanos de respeito, m as tam bém os padres da Com panhia de Jesus, e os com andantes de tropas, e os adm inistradores. Daí que do tutelado se exigisse de tudo. Que fornecesse ao “am o” alim entos de graça — sorgo, cabras, galinhas, capotes. Que trabalhasse sem paga, e não só ele, m as tam bém sua fam ília, seus agregados e seus subordinados. Que, finalm ente, lhe trouxesse escravos. Tudo a título de tributos devidos à Coroa, que cedera os seus direitos aos j esuítas e aos colonos.
Os am bundos não viam as coisas desse m odo. Sentiam que se desvirtuava o conceito de “am o”. Para eles, o “am o” era um procurador, um intercessor nas disputas com os europeus, um prestador de serviços. Essa era a razão por que procuravam ter um , tão pronto se uniam aos portugueses. E por isso não recusavam as contrapartidas, em bora essas se tivessem tornado exageradas, m uito acim a daquilo que a tradição consentia. Na realidade, os colonos os exploravam .
Ainda que seus dependentes não reclam assem — e alguns seguram ente reclam avam —, o soba ou chefe sabia que estava falhando com o líder, porque nada de concreto lhes dava de volta. Tem ia que a distorção do sistem a lhe erodisse o prestígio e o poder — prestígio e poder que eram postos à prova principalm ente no fornecim ento de escravos. Com o escreveu, no início do século XVII, um colono português, aqueles que eram “am os” de chefes am bundos não
queriam “os frutos da terra”, m as escravos.45 Por isso, para saldar o tributo que lhe cobrava o “am o”, um chefe tinha de prom over um a razia contra um povoado vizinho, m andar sequestrar dois ou três rapazes de um a aldeia distante, ou se tornar m ais rigoroso na aplicação das leis e expulsar do grupo pequenos infratores, para depois escravizá-los. Ou inventar novos delitos. Ou castigar crim es inexistentes, com o, por exem plo, com a cum plicidade de um a de suas m ulheres, assacar a um desafeto o ter tentado seduzi-la. A com unidade acabava por enfraquecer-se, insegura, num am biente no qual se m ultiplicavam as intrigas e as delações.
Tantos abusos gerou o sistem a, que, apesar dos protestos dos j esuítas, dele
grandes beneficiários, e dos conquistadores veteranos, 46 a Coroa o proibiu, em
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1607. Proibiu-o, para vê-lo ressurgir em 1615, se é que não continuou a ser aplicado, durante quase todo o tem po da interdição, sob disfarces vários ou, às escâncaras, nos lugares onde não chegava o olhar da autoridade ou esta se revelava cúm plice.
Ainda que Felipe III de Espanha e II de Portugal tenha ordenado a sua suspensão, a conquista prosseguiu, porque o escravo era o sustento da colônia e dos que nela viviam . As lutas arm adas continuaram , porque não havia com o vencer a tentação de conseguir cativos pelas arm as. Qualquer coisa servia de pretexto para a guerra. Sobretudo para governadores e altos funcionários que am bicionavam enriquecer em poucos anos. Com o na terra não se encontraram nem ouro nem prata, tinham de conform ar-se em vender o ser hum ano, ali a m ercadoria de m aior valor.
A galeria de retratos desses adm inistradores é de provocar repulsa e tristeza. Aspiravam todos às riquezas de Goa, m as eram m andados, quase sem m eios e com vencim entos insuficientes, para um porto calorento, suj o, insalubre, cheio de poeira e de m osquitos, onde se contavam as casas de telha e nada havia que alegrasse os olhos, exceto o m ar. Desde a chegada, tinham de conviver com intrigas e perfídias. Um a politicalha vil enodoava tudo, conduzida por colonos velhacos, que escondiam passados crim inais ou vergonhosos, por padres traficantes ou polígam os, por pés-rapados enriquecidos no roubo, por fidalgotes am argurados, ressentidos, frustrados, neuróticos e transtornados pela solidão ou pelas ilusões perdidas. Os governadores enroupavam com pretensões de grandeza o desencanto hum ilhante — não era aquele o cargo que lhes haviam prom etido ou com que tinham sonhado. Não dem orava m uito, e se revelavam agressivos, m esquinhos, m andões, soberbos, irascíveis, vingativos e tirânicos. Tratavam a colônia com o se fosse coisa deles, porém m ais atentos aos ganhos do com ércio de escravos, a que quase todos se dedicaram , do que ao bem com um .
Os escravos, podiam obtê-los de presente dos chefes africanos avassalados ou pelo desvio dos tributos que esses pagavam aos Felipes. Corriam , porém , m enor risco de m anchar suas reputações, se os preassem em guerra que pudessem qualificar de j usta. E qualquer um a acabava por receber esse adj etivo. Dava-se com bate a este régulo, porque acoitava escravos fugidos. A este outro, porque perturbara o bom funcionam ento de um m ercado nativo. Àquele, porque cobrava direitos de passagem às caravanas. Um a desinteligência insignificante, um a quizila à toa transform ava um aliado em inim igo. E, após a cam panha, se vitorioso, o governador reservava para o soberano ibérico um quinto do butim hum ano, ficava com o seu tanto e repartia o resto entre as tropas. Os m ercadores com pravam tudo e em barcavam para a Metrópole, São Tom é, as Índias de Castela e o Brasil.
No início do século XVII, os portugueses descobriram que podiam ter nos im bangalas (ou bângalas), a quem cham avam “j agas”, grandes aliados na preia de escravos. “Im bangala” é um a palavra que provém da raiz um bunda -vangala,
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que significa ser valente e vaguear por um território, e distinguia grupos num erosos de guerreiros que, sob chefias enérgicas e centralizadoras, se derram aram , com o m icroestados deam bulantes, sobre o que hoj e é a República de Angola.
A form ação dos im bangalas teria sido um a consequência das grandes m udanças políticas verificadas no centro do continente, no Chaba ou Catanga, entre os lubas e os lundas. Na sua origem estariam alguns chefes de linhagem lundas que, inconform ados com a adoção pelo seu povo das estruturas políticas lubas, dele se apartaram , deslocando-se para oeste, sob o com ando de um grande
nobre, o quingúri (kinguri). 50 Dos quingúris — no plural, porque devem ter sido vários os que m andaram sob esse título — conta-se tudo, com o m ais sanguinário exagero. Que eram ferozes com o leões — nguri quer dizer “leão”. Que retiravam sua força de m ultiplicados sacrifícios hum anos e da antropofagia. Que, para se sentarem ou levantarem , apoiavam -se em dois punhais, que cravavam nas costas de escravos agachados. Que fizeram e desfizeram , até que os cabeças de linhagens e fidalgos, os m acotas, deles se livraram .
Da análise das tradições dos povos da região, Joseph C. Miller desenhou um a
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história do evolver do quingúri para o im bangala. Segundo ele, na viagem para
o ocidente, as m atrilinhagens foram perdendo força. Os grupos assim ilavam nova gente pelo cam inho, e esta não tinha lugar nas estruturas de parentesco tradicionais. O que com eçara com o um m ovim ento em favor das linhagens e contra o poder centralizado do rei sagrado luba fora gerando um resultado oposto, com o desm ancho do tecido político do parentesco e o reforço das tendências centralizadoras. O quingúri deixara de ser um prim us inter pares entre os m acotas e procurava alçar-se a um poder que não pudesse ser contrastado. Para consolidar sua posição, havia que diluir as linhagens e, para isso, proibiram -se as m ulheres de ter filhos. Sem m aternidade, deixava de haver parentes, passando a renovação do grupo a ser garantida por crianças adotadas ou escravizadas, que, ao crescerem , só conheceriam um a fidelidade: ao quingúri.
Os m acotas perceberam que sua força e prestígio se diluíam . Alguns abandonaram o quingúri e se sedentarizaram em m icroestados de base linhageira. Outros m ataram o quingúri e elim inaram o próprio título. Ao continuar a avançada para oeste, esses grupos sob chefes lundas acabaram , porém , por topar, ao sul do Cuanza, com um reino altam ente centralizado, o Libolo, e com um a organização guerreira ovim bunda disciplinadíssim a e rigorosa, o quilom bo, sob cuj o influxo iria alterar-se a sua organização social.
Os libolas, que eram am bundos, haviam absorvido ou herdado as instituições políticas do reino ovim bundo do Culem be. Neste e no de Libolo, tinha-se diluído a força política das linhagens. O rei dos libolas, o hango, conferia o título de vunga a quem fazia representante de seu m ando e lhe entregava um a insígnia, que retornava ao soberano, quando o titulado perdia as funções ou falecia. Com o o título de vunga não era vitalício nem hereditário, o poder concentrava-se no soberano, ainda que se fundasse num culto guerreiro, num a sociedade m asculina independente dos vínculos de linhagem , num a fraternidade m ilitar ou, ainda, num a espécie de exército em constante prontidão, que tinha o nom e de quilom bo. Essa poderosa e disciplinada m áquina de guerra talvez tenha tido origem nos centros de circuncisão. Ali ter-se-ia desenvolvido, entre j ovens de diferentes linhagens, um novo sistem a de coesão e fidelidades, um a associação iniciática, cuj os m em bros se ligavam por rigorosos ritos, que os faziam invulneráveis às arm as inim igas. Esses ritos não teriam sido criados por um hom em , m as, sim , por um a m ulher, um a rainha conquistadora, Tem ba Andum ba (Tem bo a Mbum ba), que os im pôs num a cerim ônia recordada pelos am bundos com o terrível: m andou buscar um a filha ainda bebê, colocou-a num pilão e a reduziu a um a pasta, que, após m isturada com certas raízes e ervas, se transform ou no poderosíssim o unguento m aj i a sam ba, um unguento que, esfregado no corpo, o
tornava invulnerável às arm as inim igas.52 Segundo as tradições, ela teria instado os seus guerreiros a m atar os próprios filhos, cortá-los em pedaços e com ê-los.
Os m acotas adotaram os rituais do m aj i a sam ba, a estrutura m ilitar do quilom bo e o sistem a de nom ear vungas. Não abandonaram , no entanto, as prerrogativas de nascim ento, com os títulos e as posições perpétuas que haviam trazido da Lunda, e se fragm entaram em vários grupos. Um indivíduo am bicioso, acom panhado de alguns com panheiros de ritos iniciáticos, desligava-se de um a com unidade, de cuj o titular se fazia “filho” ou “sobrinho”, besuntava-se de pom ada m ágica e se tornava um senhor da guerra ou rei im bangala.
É possível que o cam inhar para oeste dos im bangalas tenha sido sustado pelo angola a quiluanj e. Ao que parece, após terem reduzido as proporções do reino de Libolo e desintegrado o Estado de Culem be, alguns grupos im bangalas deslocaram -se para sudoeste. Chegaram ao litoral. E nos arredores da foz do rio Cuvo entraram em contato com os portugueses.
Um m arinheiro inglês, Andrew Battel, que havia sido feito prisioneiro nas costas do Brasil e levado num navio m ercante para a África, contou a Sam uel
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Purchas as suas aventuras entre os im bangalas. Foi ele, ao que se sabe, o prim eiro europeu a usar a palavra, em bora Purchas tenha ouvido e registrado “im bangola”. Na época, os portugueses conheciam essa gente com o “j agas”, porque a confundiam com aqueles que assolaram o Congo. O encontro deu-se em 1601. De bordo, os que traficavam escravos por conta própria, longe dos controles e da taxação de Luanda, viram a paliçada im bangala. Enorm e. Com doze portas: um a para cada grupo de guerreiros (som ados, Battel calculou-os, talvez inflacionariam ente, em 12 m il). Os portugueses, ao desem barcar, deram com um régulo de cabelo com prido e enfeitado de conchas. Usava ele, a envolver a parte inferior do corpo, um pano de ráfia. Trazia colares de búzios e, ao redor da cintura, contas de ovos de avestruz. Peito e costas, pintados de verm elho e branco, cobriam -se de escarificações, untadas de gordura hum ana. E no nariz e nas orelhas exibia batoques de cobre. Apesar de seu ar feroz, tratou com a tripulação do navio. Que esta o aj udasse a passar da m argem sul, onde se encontravam , para o outro lado do rio. Em troca, lá preariam os escravos que os portugueses desej avam . E assim se fez.
A operação m arcou o início de um a longa cum plicidade entre os im bangalas e os traficantes europeus que burlavam o fisco dos Felipes. Os im bangalas necessitavam de escravos j ovens para renovar e am pliar os quilom bos. Neles só
inseriam , entretanto, os m eninos não circuncidados,54 isto é, que não haviam sido subm etidos aos ritos de passagem que os tornavam m em bros adultos de um a linhagem , aptos ao casam ento e à procriação. Esses guris eram subm etidos a curtas m as duríssim as cerim ônias iniciatórias, durante as quais se lhes extraíam
os incisivos superiores e talvez tam bém os inferiores 55 (e, com o em vez de bangala, m uitos diziam “banguela”, a palavra passou a aplicar-se a quem lhe faltam os dentes da frente), e a um não m enos rigoroso treinam ento m ilitar. Quanto aos rapazolas j á fanados — os im bangalas, ao que parece, não aceitavam
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circuncisos em suas hostes —, ou eram m ortos ou ficavam à disposição, j untam ente com os adultos, dos com pradores de gente.
Às autoridades portuguesas não deve ter passado despercebido o aum ento das transações com escravos ao sul do Cuanza. Nem tam pouco que esse increm ento se devia à eficiência m ilitar daqueles “j agas”, tem idíssim os pelos am bundos, que os tinham por antropófagos. Por isso, quando a oportunidade se m ostrou favorável, procuraram aliciar alguns desses grupos.
Talvez tenha sido Bento Banha Cardoso quem , após assum ir interinam ente, em 1611, o governo de Luanda, logrou a aliança com o im bangala Kulashingo, aj udando-o a atravessar o Cuanza, a instalar-se próxim o à costa e aos portugueses e a transform ar-se, de um titulado vunga (era o kasange ka kibuna), num soba independente. Pouco depois, por incitação portuguesa, Kulashingo
transferiu-se para o m édio Lucala,57 num ponto ainda m ais avançado, na direção da capital do angola a quiluanj e, do que a nova praça-forte criada por Banha Cardoso, para som ar-se às de Muxim a, Massangano e Cam bam be: o presídio de Hango-Aqui-Coito. Teria sido graças a Kulashingo e, possivelm ente, a outros senhores da guerra im bangalas coligados aos portugueses, que Bento Cardoso conseguiu rom per o cerco do qual os seus antecessores não tinham conseguido sair. Os quilom bos devem ter sido decisivos nas suas cam panhas m ilitares, das quais se saiu bem , em bora nelas tenha deixado um dos olhos e três
dedos da m ão.58 No final de seu governo, podia declarar que “o reino de Angola” ficava “quieto”, com 78 sobas vassalos, entre am bundos e
im bangalas. 59
Em 1617, chegou a Luanda o novo governador-geral, Luís Mendes de Vasconcelos. Chegou com grandes propósitos: m anter a paz no território, conter o com ércio ilegal de escravos, estancar a corrupção e desvencilhar-se dos im bangalas com edores de carne hum ana. Chegou tam bém com a am bição de ser alçado a vice-rei da Etiópia, isto é, da África. Logo, porém , descobriu que lhe era im possível, com os seus proventos, não só sustentar a em páfia, m as até m esm o sobreviver. Os seus antecessores com plem entavam os ordenados com o peculato e o com ércio, e ele, de crítico feroz e detrator dos que no cargo o precederam , passou a im itá-los, a todos superando na constância e na violência com que fez a guerra, com o obj etivo final, ainda que disfarçado, de capturar escravos.
No m esm o ano da chegada de Vasconcelos, fizera-se rei do Dongo quem tinha o título de m bande a ngola — o Angola Mbandi dos portugueses. Tom ara o poder, segundo as fontes europeias, após assassinar, durante a costum eira disputa sucessória, quem tinha o m elhor título ao trono: um sobrinho, filho de sua irm ã Jinga (Ginga, Nj inga ou Nzinga). Angola Mbandi devia ser um hom em violento e até cruel, m as era isto o que se esperava de um rei: que tivesse a fam a de duro, feroz e im placável. Estava, entretanto, em paz com os portugueses e procurava garantir-lhes a incolum idade, quando vinham ou m andavam os filhos m ulatos ou os escravos de confiança às grandes feiras da periferia do Dongo.
A essas feiras, os pom beiros traziam vinhos portugueses, artigos de ferro e latão, m antas do Alentej o, lãs e linhos de Flandres, contaria de Veneza, algodões da Índia — as chitas, as m usselinas e os m orins de um a Índia que tinha no golfo de Cam baia um dos m aiores centros têxteis do m undo. Do Brasil, o que m ais
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chegava a Luanda era a farinha de m andioca, cuj a produção local estava
longe — e assim continuaria até j á bem entrado o século XIX — de atender a
um a dem anda em crescim ento. 61 A farinha de pau, por sua durabilidade, tornara-se, nos depósitos da costa e nos navios negreiros, o principal alim ento dos escravos, e enchia tam bém os bornais dos m ercadores e os farnéis dos guerreiros, durante as cam panhas m ilitares. Nas feiras do interior, os com erciantes portugueses ou m ulatos forneciam tam bém produtos africanos, com petindo com os vendedores das áreas vizinhas, com seus cestos, potes e am arrados de pim enta, azeite de dendê e sorgo, ou de regiões distantes, com o peixe seco e o sal.
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Era o sal, aliás, excelente m oeda, e se transportava envolto num a espécie
de caixa de bam bu, a fim de m elhor resistir às viagens dem oradas e às grandes
distâncias.63 Ao contrário do que sucedia no Congo e, em geral, ao norte do rio Dande, era m ínim a a aceitação das conchas com o dinheiro. Além disso, o valor delas sofrera e continuava a experim entar desvalorizações, pelo continuado acréscim o aos zim bos da ilha de Luanda dos cauris das Maldivas e dos búzios da foz do rio Caravelas e de outras praias do sul da Bahia, estes últim os trazidos em
enorm es quantidades.64 Entretanto, um a outra m oeda im pusera-se entre os am bundos, os panos, que tinham nos pom beiros os seus principais fornecedores.
Na passagem do século XVI para o século XVII, os portugueses viaj avam ao Congo sobretudo para adquirir panos, que pagavam com zim bos e outras conchas. Garcia Mendes Castelo Branco chegou a escrever que lá não m ais se
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resgatava gente, “salvo algum m alfeitor”. Com prava-se apenas pano. Lá e no
reino vili de Loango. Do Congo vinha o afam ado kundi. Do Loango, o não m enos apreciado libongo. Mais que os outros, eram os tecidos de ráfia, os “panos de palha” de produção africana os m ais aceitos com o m oeda. Sobretudo para a aquisição de escravos. Em Luanda, eles form avam a base do m eio circulante, m as recebiam um carim bo com o em blem a real. Daí o nom e que tom aram , “panos m arcados”, para distingui-los dos outros, os “panos lim pos”, que só serviam de m oeda nos sertões. Esses tecidos, em geral, não eram usados com o roupa; passavam de m ão em m ão até se desgastarem e puírem , perdendo
progressivam ente parte de seu valor. 66
Ao angola interessava a presença dos negociantes portugueses em suas feiras lim ítrofes. Deles recebia não só tributos e taxas, m as tam bém m ercadorias essenciais à consolidação de seu poder e de seu prestígio. Não via, porém , com bons olhos os que procuravam introduzir-se no m iolo do reino e m uito m enos os que pretendiam com prar diretam ente escravos, furtando-se ao seu controle. Os pom beiros, por exem plo, não queriam senão peças boas, isto é, j ovens fortes e de saúde perfeita, enquanto que o angola só autorizava vendas em grupos, incluindo neles peças ruins, gente velha, doente ou com defeitos físicos, de difícil
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colocação no porto de Luanda.
As restrições ao livre trânsito dos m ercadores portugueses e de seus prepostos, a proibição de que com erciassem no interior do reino e as sanções que o angola aplicava aos infratores de suas regras e dos costum es locais — confisco de m ercadoria, prisão, expulsão, açoites e até m orte aos m ais insolentes — causavam indignação em Luanda. Para os seus m oradores, aquelas eram terras portuguesas, por doação papal, conform e a bula Equum reputam us, de 1534. As ações abusivas do angola e de outros reis deviam ser castigadas. E a isto se propôs o novo governador. Estava decidido a dobrar o angola. Mais: queria tirá-lo do cam inho de um a vez por todas. Form ou o m aior exército que pôde, com soldados, m oradores, escravos e um a m ultidão de flecheiros de sobas aliados. Não satisfeito, requereu a aliança dos im bangalas. E internou-se no sertão.