A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 19 de 30 · parte 1/2

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A Manilha e o Libambo

17. A Costa do Índico e os seus sertões

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

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A Costa do Índico e os seus sertões

 

Ao chegar à Etiópia, os portugueses não esconderam a decepção com a pobreza, para os seus padrões, do país. Não era aquela a corte do poderosíssim o Preste João com que tinham sonhado. Não o encontraram num grande palácio cercado por j ardins com repuxos de água, m as a viver em tendas. E, se os grandes do im pério podiam vestir-se de veludo, cetim , brocado ou seda, cobrir-se de j oias e de grossos cordões de ouro e prata, e pôr sobre os om bros um a pele ou um a j uba de leão, a m aioria das pessoas de qualidade traj ava-se sim plesm ente. As roupas m udavam de região para região, porém , de um m odo geral, eram de uso, para os hom ens, dois tipos de calças: j ustas de alto a baixo, ou largas até à canela ou ao tornozelo, onde, com o bom bachas, se apertavam . Cobriam eles o torso com um sim ples pano de algodão, que lhes servia de capa e lençol, ou com um a espécie de cabaia, que se fechava, porém , na cintura, e tinha em geral colarinho e m angas estreitas. Os hom ens faziam trancinhas nos cabelos e punham na cabeça um turbante ou um rico boné. Já as m ulheres usavam os cabelos tam bém entrançados, em form a de altos topetes ou inteiram ente soltos, e vestiam roupas m uito largas e longas. Fora de casa, envolviam a cabeça com um véu, só deixando ver os olhos. A gente do povo m al se enroupava. Muitos hom ens apenas escondiam as virilhas com um pano, um saiote ou um pedaço de couro de vaca. Outros usavam calções, deixando o dorso e o peito nus, ou sobre eles pondo um a pele de ovelha. As m ulheres casadas de Adua envolviam -se do pescoço para baixo com um sim ples velocino, e as do Tigrê, com am plas vestes de lã negra. Já as m oças solteiras andavam nuas da cintura para cim a ou m al se protegiam com

um couro de ovino. A criançada apresentava-se em pelo.1

Nos cem anos que separam as observações do padre Francisco Álvares das dos padres Pero Pais e Manuel de Alm eida (e das de Baltasar Teles, que neles se baseou), várias m udanças se devem ter verificado na m aneira de vestir das elites. Não seriam elas infensas a alterações na m oda, nem a novidades trazidas pelos portugueses. Um novo tipo de barrete, a prevalência nos tecidos de certas cores ou certas padronagens, um a nova m aneira de cortar as m angas ou o colarinho das cabaias, nada disso encontrou lugar nas descrições sum árias que aqueles j esuítas fizeram dos m odos de traj ar abexins. Deixaram -nos apenas esboços, e estes não nos perm item conhecer os câm bios por que passaram as vestim entas, câm bios que não devem ter sido m aiores do que os verificados, por exem plo, na roupa m asculina europeia entre 1918 e o fim do século. Pelas ilum inuras dos livros e pelos dípticos e trípticos pintados a têm pera, podem os sentir um a crescente influência dos traj es e dos tecidos indianos, m as força é não esquecer que esses vestiam , nos ícones, não o presente, m as um passado idealizado.

De outras m udanças, tem os notícias claras. No início do século XVI, o negus negasta m antinha-se quase que invisível aos súditos. Nas audiências, ele os recebia atrás de cortinas e lhes falava por m eio de um língua. O seu lado da sala era escuro, e o outro, ilum inado por m uitas velas, de m odo que podia reparar nos

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que nele se encontravam , sem ser visto pelos visitantes. Até quando se deslocava de m ula pelos seus dom ínios, protegiam -no dos olhos do povo grandes

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anteparos de seda roxa. O negus só se m ostrava em público três vezes por ano:

no Natal, na Páscoa e no dia da Santa Cruz. 4 E aos que o visitavam no paço, em ocasiões m uito especiais e se lhes queria fazer especial deferência. Com o quando Lebna Dengel resolveu finalm ente entender-se face a face com Rodrigo de Lim a, o em baixador português. Leio no padre Francisco Álvares, presente à entrevista, que, abertas as cortinas, se viu o negus, com um a cruz de prata na m ão, sentado sobre belos tapetes, que cobriam um tablado de seis degraus. Vestia um a opa de brocado sobre um a cam isa de seda de m angas largas e tinha, a cobrir-lhe os j oelhos, um pano de alto preço. Sua coroa era alta e de ouro e prata. Um tafetá azul lhe cobria a boca e a barba, m as, de vez em quando, lhe aparecia

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toda a face.

Um século m ais tarde, isso j á havia m udado, e o im perador, em bora ainda usasse um véu sobre a parte inferior do rosto, deixara de ser um recluso. Ele só

se abrigava atrás de um biom bo, quando com ia ou bebia. 6 E, às refeições, apenas determ inados paj ens podiam ficar ao seu lado, para pôr-lhe com os dedos os bocados na boca.

Ninguém que se prezasse com ia, aliás, sem a aj uda de um criado ou de um escravo. Era de m au tom colocar os próprios dedos na com ida ou no prato. Este era, na m aioria das vezes, o próprio pão não levedado (u’a m assa redonda e achatada com o um a pizza), sobre a qual se punham os alim entos de substância, que eram trazidos ao que se poderia cham ar de m esa, ainda que ficasse no chão, em recipientes de m adeira ou de barro negro. Serviam de copos, em geral,

cornos de boi. 7 A ausência, na corte, de baixela de prata causava espécie aos portugueses. E m ais espécie ainda, ou, antes, repulsão, a iguaria de todos preferida: um naco de carne crua, fortem ente condim entado com a bílis do

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anim al, e m uita pim enta, e m uitas ervas. De outros pratos, porém , faz o padre Álvares o elogio: de viandas cozidas com m anteiga e de assados bem assados.

Louva sobretudo um a galinha desossada e recheada com a sua própria carne. 9

Se a Abissínia desapontou os portugueses, as cidades da Azânia (assim

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cham ava Ptolom eu a costa índica da África) os surpreenderam . Quando

m enos esperavam , deram com portos cheios de velas, com povoações de pedra e cal, as casas pintadas de branco e com vários andares e terraços, casas que lem bravam não só as do Algarve, da Andaluzia e das costas do Marrocos, m as tam bém as que os navegadores haviam deixado em suas diferentes terrinhas em

Portugal. Se o autor do Roteiro da prim eira viagem de Vasco da Gam a11 foi, com o se crê, Álvaro Velho, chegou ele a equiparar Melinde a Alcochete, vizinha da vila de Barreiro, onde nascera. E de Mom baça, disse João de Barros que pareceu ao Gam a e aos seus com panheiros “tão ferm osa”, com seus edifícios “com j anelas e eirados à m aneira de Espanha”, que dela todos se enam oraram , tom ados da im pressão de que entravam em algum a cidade costeira de

Portugal. 12 Além disso, tiveram por abundantes, nesses portos da África Índica, o ouro, a prata, as pérolas, os alj ôfares, as pedras preciosas, o m arfim , o âm bar, o alm íscar, a púrpura, as sedas, os dam ascos, os linhos, os veludos, os algodões coloridos, o cravo, a pim enta, o gengibre, a noz-m oscada, o com inho, os vidros,

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as lacas, as faianças e as porcelanas. Desses portos saíam e entravam , todos os

dias, num erosos barcos. Alguns m uito grandes, em m ãos de m arinheiros hábeis,

que se regiam pela bússola e por quadrantes e cartas de m arear.14

Na realidade, a Etiópia era m ais poderosa e provavelm ente tinha um a econom ia m ais sólida do que o conj unto das cidades da Azânia. Para os portugueses, contudo, que olhavam o m undo com o m ercadores, esses em pórios do Índico estavam à m edida de suas am bições. Desde, naturalm ente, que pudessem arrancá-los do controle dos m ouros. Pois m ouros encontraram com o gente da terra, m ouros negros, brancos e m ulatos, desde a prim eira chegada à ilha de Moçam bique. E, à exceção do rei de Melinde, quase todos hostis. Os que não se ouriçaram logo de início, pronto se puseram em arm as, pois os portugueses, m al surgiram na costa, por ela saíram de saque em saque. O olhar afetuoso ou adm irativo e a sensação de fam iliaridade diante dessas cidades de casas brancas não im pediram que os caraveleiros se lançassem ferozm ente sobre elas, a canhonaços, tiros de arcabuzes e golpes de lança e espada, m atando seus habitantes, queim ando-as e delas roubando o que podiam , conform e se narra, sem tim idez ou rebuço, nos textos da época e ressoa nesse elogio da violência que, sem elhante à Ilíada, à Odisseia e à Eneida, é o im enso poem a de Cam ões.

Sofala, Angoche, Moçam bique, Quíloa, Mafia, Zanzibar, Pem ba, Mom baça, Gedi, Melinde, Manda, Lam u, Pate, Faza, Brava, Merca, Mogadixo e as outras cidades-estados do que os portugueses cham ariam Contracosta eram , a um só tem po, os portos m ais ocidentais do Índico, lim ites do m undo islâm ico e os em pórios da África j unto ao m ar. Cidades africanas, integravam -se na grande rede com ercial do Índico, dom inada pelos m uçulm anos, e eram servidas regularm ente por navios que as ligavam às Com ores, a Madagáscar, a Socotorá, a Meca, ao Iêm en, a Om ã, à Pérsia, à Índia, ao Ceilão, à Indonésia e, indiretam ente, à China. Para os grandes capitais que m ovim entavam as transações no m ais m ercantil de todos os oceanos, esses em pórios da Azânia eram parceiros m enores, de fim de linha. Mas não deixavam de ter relevância, com o fornecedores de ouro, m arfim , cornos de rinoceronte, carapaças de tartaruga, peles de felinos, plum as de avestruz, m adeiras, copal, ceras e âm bar-cinzento. Já para os habitantes dessas cidades costeiras (que viriam a ser conhecidos com o suaílis), o com ércio externo — um com ércio que tinha um m ilênio e m eio de história — era a m atéria de suas vidas. Dele dependiam .

Essas urbes m ercantis com petiam ferozm ente entre si — e das lutas e rivalidades entre elas aproveitaram -se, durante dois séculos, os portugueses, sem pre encontrando algum a que contra as outras os buscasse com o aliados. Digladiavam -se elas sem parar pelo controle do com ércio com o Iêm en, o Egito, o golfo Pérsico, as Maldivas, o Guzerate, Malabar, o golfo de Cam baia ou Malaca, de onde não só vinham barcos intercam biar m ercadorias, m as até onde viaj avam , a oferecer seus produtos, negociantes suaílis. (Em Malaca, por exem plo, Tom é Pires viu, entre 1512 e 1515, ao lado de cairotas, árabes de Aden,

etíopes, persas, turcos e arm ênios, gente de Quíloa, Melinde e Mom baça. 15) Mas lutavam tam bém pelo m ercadej o ao longo dos litorais da Azânia. Pelo arroz de Madagáscar e Pem ba, que vendiam para Aden. Pelas m adeiras, sobretudo dos m angues, que tinham m ercado certo num a península Arábica sem árvores. Pelos instrum entos de ferro. Pelo m ilhete, a carne e os tecidos de algodão de Inham bane. Pelos cauris que se recolhiam nas praias do que hoj e são Tanzânia e Moçam bique e que, com os im portados das Maldivas, serviam de m oeda no interior do continente. Por outras conchas, sobretudo as m uito brancas e as de

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grande tam anho, que os xonas usavam no m eio da testa e o m onom otapa

tam bém ao peito.17 Pelo m arfim , de am pla procura na Índia, na China e na Europa. Pelo ouro, que escoava sobretudo por Sofala, m as vinha dos planaltos do interior — de Barué, Tonga, Manica, Mocaranga, Dande, Butua e o que hoj e cham am os Transvaal.

Conform e os caprichos do com ércio, as cidades prosperavam e decaíam , um a substituindo a outra com o centro do tráfico em cada parcela do litoral. A preem inência m ais longa talvez tenha sido a de Quíloa: pelo m enos desde o início do século XIV, quando assum iu o controle de Sofala, até o fim do XV, quando o perdeu. Senhora do ouro, ela deve ter exercido, durante esse período, a suserania sobre boa parte da região que ia de Sofala, ao sul, até Mafia, ao norte.

Sofala ficava abaixo do delta do Zam beze, então m ais conhecido por Cuam a. Um barco proveniente do golfo Pérsico ou da Índia dificilm ente se arriscaria a descer a costa até lá, a m enos que estivesse disposto a perm anecer quase um ano ou m ais de um ano na Azânia. Com o a navegação no Índico era regulada pelo regim e das m onções, os navios chegavam ao atual Quênia entre outubro e m arço e deviam regressar entre abril e setem bro. Se prolongassem a viagem até Sofala, dificilm ente poderiam aproveitar as m onções daquele m esm o ano para retornar ao golfo Pérsico ou à Índia. Daí que preferissem utilizar com o interm ediários o sultão e os com erciantes de Quíloa. Eram esses que em seus barcos iam buscar o ouro em Sofala. Ou de lá o recebiam . E o guardavam para as em barcações árabes, persas e indianas.

O que não sabem os é se, antes da chegada dos portugueses, os m ercadores de Quíloa j á entravam continente adentro, ou se apenas saíam da ilha — Quíloa ficava num a ilha, do m esm o m odo que a m aioria desses em pórios — para transacionar nas praias e enseadas, recolhendo em pequenos barcos, em vários pontos da costa, as m ercadorias provenientes do interior. Seriam poucos talvez os que se aventuravam pelo sertão, naquela parte do continente defronte a Quíloa. Desde a atual fronteira entre Som ália e Quênia até aproxim ar-se o delta do Zam beze, existe, após os m angues e as praias, apenas um a estreita planície arenosa, com bom suprim ento de água e propícia a algum as culturas com o o arroz e o coco. À m edida que se cam inha para o interior, a água vai escasseando, enquanto a terra, que sobe lentam ente, se reveste de um duro cerrado (o ny ika), que, aliado à presença da tsé-tsé, não podia deixar de desestim ular os habitantes de um litoral am eno à conquista da hinterlândia. Com o eles ainda tinham de enfrentar a relutância dos povos do continente em perm itir que tivessem livre trânsito por suas terras — e quando isto consentiam , cobravam -lhes altas taxas —, o m ais provável é que as m ercadorias viaj assem entre o litoral e o m ais longínquo sertão, e do sertão para o litoral, passando de grupo em grupo e de feira em feira, num sucessivo e continuado escam bo.

Mais ao sul, a situação seria distinta. Não só os pangaios e as pirogas com flutuador lateral saíam de Sofala para recolher, em povoações costeiras com o Chiluane, Chibuene, Mam bone e Inham bane, o ouro e os outros produtos trazidos do interior, com o os seus com erciantes subiam os rios e se internavam pelo sertão, no exercício de seu ofício. Visitavam cada chefe, régulo e rei; trocavam com eles presentes; pagavam -lhes taxas de passagem e o tributo que lhes perm itia viaj ar livrem ente pelos seus territórios. Alguns iam de feira em feira, a recolher os punhados de ouro que nelas chegavam . Outros instalavam -se perm anentem ente em aldeias próxim as a m ercados de m aior m ovim ento e ali form avam fam ílias, casando-se geralm ente com as filhas e as irm ãs dos grandes da terra. Form ou-se, assim , um a classe de com erciantes itinerantes, quase todos islam itas, que os portugueses conheceriam com m ussam bazes (em xona, m usham badzi, no singular, e vasham badzi, no plural).

Vivendo j untos, em bairros próprios, nos povoados do interior, os m uçulm anos distribuíam -se ao longo das grandes rotas m ercantis e, de certo m odo, nelas dom inavam o com ércio dos produtos que viaj avam a longa distância. Era esse o perfil das com unidades de m ouros que os portugueses encontraram , em 1531, em Sena, a cerca de 260km do litoral, e em Tete, ainda m ais para dentro, a cerca

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de 515km do m ar. Alguns seguram ente chegavam m uito m ais longe, pois foi

de “alguns m ouros m ercadores, que ali foram ter” e o viram , que João de Barros

soube da existência do Grande Zim babué.19

Os com erciantes m ouros, em geral suaílis, não tinham interesse apenas pelo m ercadej o de produtos que atravessavam o oceano, com o o ouro, os tecidos de Cam baia, o m arfim , a contaria do Malabar, as plum as de avestruz, o âm bar e os cauris. Procuraram ocupar espaço nas feiras e com petir com os negociantes da terra, m uito m ais num erosos e tam bém eficientes, na com pra e venda das m achiras (m achilas ou m anchilas), nom e que se dava aos panos ou tecidos feitos em Sofala e nos vales do Chire (ou Shire) e do Zam beze, e de braceletes e outros artigos de cobre provenientes do planalto de Urungué, e do sal, e das m içangas, m anufaturadas por quase toda parte, e das conchas pouco vulgares, e das enxadas, pontas de lança, m achados e outros artigos de ferro saídos de fornos próxim os, e m uitas vezes de um a qualidade tão alta que os portugueses, m ais tarde, os exportariam para a Índia. Eram esses produtos os que constituíam a m assa das transações e eram responsáveis pela efervescência dos m ercados, para os quais afluíam os cam poneses com suas pirogas carregadas de m ilhete,

arroz, legum es, frutas, peixe fresco e seco, gado m iúdo e aves. 20

Quando da chegada dos portugueses, Sofala j á era um em pório im portante. E não só por causa de sua vinculação a Quíloa, pois m antinha antigas e intensas relações m ercantis com as Com ores, Madagáscar e, com escala na grande ilha,

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a Índia e a Indonésia. Os portugueses ainda encontraram Quíloa num a posição

de im portância, m as Mom baça, Melinde e Zanzibar j á lhe faziam som bra, e as duas prim eiras estavam à beira do conflito. Isto pronto com preenderam os recém -vindos e exploraram a fundo a hostilidade.

Não foi m enos rápida a apreensão pelos suaílis da am eaça que representavam os portugueses. Se, de início, o xeque da ilha de Moçam bique os acolheu bem , foi porque os teve por turcos. Tão logo os soube cristãos, m udou de atitude. As elites da Azânia, vinculadas pelo com ércio à parte islâm ica do Mediterrâneo, não ignoravam que os cristãos eram adversários com erciais, políticos e m ilitares, e tem eram , desde o princípio, que o obj etivo deles fosse quebrar o dom ínio que os árabes exerciam sobre as navegações e o com ércio no Índico, tendo por sócios persas, cingaleses, indonésios e indianos — e estes últim os não só m oslins, m as tam bém hinduístas, os hinduístas que os portugueses pensaram , num prim eiro m om ento, serem cristãos.

O xeque de Moçam bique deu o alarm e. O seu barco com o aviso de perigo alcançou Mom baça m uito antes das caravelas. E Vasco da Gam a j á topou a cidade em pé de guerra. Só m ais adiante, em Melinde, que aprendeu a ser inim iga de Mom baça, foi que encontrou abrigo, aliança e um excelente piloto que o guiou à Índia. Pensa-se que esse piloto tenha sido o célebre m areante árabe

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Ahm ad ibn Maj id, autor de vários tratados sobre a navegação no Índico.

Não sei se Vasco da Gam a tinha notícia do ouro de Sofala. A cidade j á figurava no m apa de frei Mauro Calm odese, de 1460, m as talvez ainda não fosse identificada claram ente com o fonte do m etal am arelo. De qualquer m odo, o Gam a não saiu em busca de ouro, m as, sim , da rota das especiarias. Quanto a Pedro Álvares Cabral, este j á viaj ou com a clara noção da im portância de Sofala

e levando instruções para nela erguer um a feitoria. 23 Na viagem de volta, Cabral m andou um a caravela encostar em Sofala, e seu com andante, Sancho de Tovar, ali com erciou com ouro. O entreposto português só seria erguido, porém , em 1505, por Pero de Anhaia, sem m aior oposição por parte do xeque Issufo ou Yusuf, que se havia, anos antes, independentizado de Quíloa, m as se achava velho e cego.

Quando da segunda viagem de Vasco da Gam a, Quíloa j á foi obrigada a pagar tributo a Portugal. Isto, em 1503. Na m esm a situação, logo ficaria Zanzibar. Mas Quíloa rebelou-se quase em seguida. E Mom baça reafirm ou a sua recusa. Am bas foram saqueadas e destruídas, do m esm o m odo que Oj a e Brava, enquanto que Lam u e Pate se renderam à vassalagem . Em Sofala, cansado de ver os estrangeiros desafiarem sua autoridade e danarem os seus interesses, entrando em contato direto com os régulos do interior, fornecendo-lhes m ercadoria a crédito e se infiltrando com o interm ediários, o xeque Yusuf abandonou a ilha e refugiou-se no continente. De lá, atacou a feitoria portuguesa. Esta deu-lhe resposta, capturou-o e o m atou, colocando em seu lugar, com o xeque de Sofala, um fantoche, de nom e Suleim an. Mas o títere ficou pouco tem po no poder: em 1511 seria m orto e substituído por um novo xeque.

Os portugueses podiam gabar-se de, em poucos anos, terem -se tornado senhores dos principais portos da costa, na qual só tinham , na verdade, dois am igos: os xeques de Melinde e Moçam bique. O últim o, após a reação negativa inicial, não tardou em convencer-se de que os portugueses podiam ser bons aliados contra as pretensões de hegem onia de Quíloa e de Mom baça, e a eles se j untou. Em 1507, os portugueses, que se tinham tornado senhores de fato da ilha de Moçam bique, ali construíram um forte e um hospital, para receber os que se enferm assem na viagem para as Índias.

Não falta quem pense24 que os portugueses cedo com preenderam que a Azânia pouco lhes tinha que ofertar, fora o ouro de Sofala e do Monom otapa. Para os desse parecer, os portos da Contracosta eram im portantes, não tanto pelo com ércio, m as sobretudo com o base de reabastecim ento e repouso para os navios que dem andavam a Índia e o Oriente. Era em função da carreira das Índias que eles se faziam necessários e, por isso, desde o princípio, os entrepostos portugueses na região se subordinaram a Goa. Mas há tam bém quem j ulgue de outra form a e destaque o interesse que os lusitanos não cessaram de dem onstrar

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pelo com ércio com a região, pelo ouro, pelo m arfim , pelo âm bar, pelo copal e

pela fibra de coco (para fazer cordas), produtos que trocavam por contaria e algodões trazidos do golfo de Cam baia, do Guzerate e da costa do Malabar. Se os estabelecim entos portugueses na Azânia eram adm inistrados pelo Estado da Índia, houve na área, a provar a im portância que lhe era dada, dois capitães-m ores: o do m ar de Melinde, que posteriorm ente m udou a sua sede dessa cidade para Mom baça, encarregado da costa ao norte do cabo Delgado; e o de Sofala, que depois se instalou na ilha de Moçam bique, com j urisdição daquele cabo para o sul. Am bos dispunham de pequenas forças m ilitares em terra e nas águas. (Ver o m apa “A Costa do Índico e Madagáscar”.)

Os portugueses certam ente não desprezavam o com ércio com a Contracosta. Tinham -no, contudo, com o subsidiário das transações com a Índia. Não por falta de interesse, que este foi, em certo m om ento, grande, m as porque não contavam com gente nem tinham fôlego para dom iná-lo. O próprio volum e de suas operações no Índico era relativam ente pequeno: em alguns anos não m andaram m ais de m eia dúzia de navios cruzarem aquele oceano. Tentaram controlar o com ércio que nele se fazia — e m alograram . Não tenho dúvida, porém , de que conseguiram causar sérios danos à rede m ercantil m uçulm ana. Sem com isso, diga-se logo, alcançarem grandes lucros.

Não parece que os portugueses tenham procurado fixar-se na costa ao norte do cabo Delgado. Na m aior parte do tem po, pretendiam subm eter as cidades para delas receber tributo. Construíram , é certo, um forte em Quíloa, logo após o ataque de Francisco d’Alm eida, em 1505, m as com o obj etivo de proteger a navegação e o com ércio. O forte só ficou ocupado por sete anos, pois os portugueses se viram constrangidos a concentrar-se nos seus estabelecim entos nas ilhas de Melinde e Moçam bique. E em Sofala, claro, onde tam bém ergueram um a fortaleza. Ali, tal qual em Quíloa, a m alária lhes causou grandes baixas. Mas em Sofala vendia-se ouro, e não havia agruras que corrigissem a am bição por aquele m etal, que estava em todas as horas da aventura lusitana. Por causa dele, os portugueses entraram pela hinterlândia de Sofala e, m ais ao norte, Zam beze acim a.

Não só degredados e desertores em brenhavam -se sertão adentro. Tam bém alguns dos m arinheiros e soldados que desciam , enferm os, dos navios, para recuperar-se na ilha de Moçam bique, não voltavam a em barcar. Preferiam arriscar a sorte em terras africanas. Até que am ealhassem o suficiente para trabalhar por conta própria, com erciavam em nom e de terceiros, entre os quais podia incluir-se o capitão do forte. Prim eiro, nas feiras próxim as, e depois, nos m ercados m ais distantes. Casavam -se nas fam ílias de régulos e de altos dignitários locais, a quem davam frequentem ente assistência m ilitar. Graças a esses vínculos, ganhavam o direito ao livre trânsito. Africanizavam -se, com o tinha ocorrido com os lançados da Guiné. E serviam de ponte entre os intrusos e os nativos. Acostum ados com pouco desde a infância, nas vilas de pescadores e nas aldeotas agrícolas de Portugal, contentavam -se, de início, em aqui recolher alguns gram as de ouro; ali, outros; acolá, um pouco m ais. Nesta enseada, chegava algum a gente com presas de elefante, e eles as com pravam . E seguiam para outra. Nessa aldeia, viviam à africana, com suas m ulheres e filhos m ulatos. Naquela, tam bém . E em am bas, tinham por vizinhos m ussam bazes suaílis, de quem repetiam a aventura.

Com a ocupação lusitana de Sofala, Quíloa perdeu o controle sobre aquele m ercado, no qual as caravelas com eçaram a desem barcar artigos indianos, enquanto que os feitores portugueses estabeleciam suas próprias redes de com ercialização, estim ulando os m ercadores a continuarem a trazer para a

cidade o ouro que adquiriam nas feiras do interior. 26 Mas os quiloanos reagiram e procuraram im pedir, ao favorecer novas rotas de escoam ento, que o com ércio do ouro caísse inteiram ente nas m ãos europeias. Tanto eles quanto m areantes de Mom baça e Melinde passaram a privilegiar Angoche e Quelim ane, cidades a partir das quais era m ais fácil, subindo o Zam beze, o Luenha (Ruenha ou Rweny a) e o Mazoé, o acesso ao planalto de onde vinha o ouro.

Já se cham ou a atenção para o fato de coincidirem no tem po a am pliação do com ércio a partir de Angoche e a consolidação do reino do Monom otapa

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(Mutapa, Benom otapa, Munhum utapa ou Muenem utapa) no Dande e no

Mocaranga (ou Mucaranga). A expansão para o norte e para leste dos xonas

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carangas certam ente ocasionou o aum ento da atividade m ineradora na parte setentrional do atual Zim babué, pois para os recém -chegados não apresentavam segredos a busca e o m ercadej o do ouro. Foram eles se im pondo sobre as diferentes populações que ali viviam — com o os tauaras ou tavaras, a m ontante de Tete, e os tongas, que deviam ocupar, além de todo o curso do Luenha, um a extensa área entre, ao norte, o Zam beze, e ao sul, o rio Pongué — e anexando as suas chefias a estados aristocráticos. É então que se tornam visíveis os reinos de Barué, Manica e Teve (ou Uteve). Bem com o alguns pequenos estados tongas, que não se renderam aos carangas e se fortaleceram na resistência, com o o do sam ungazi.

Pode ter sido o conhecim ento de que os xonas carangas estavam expandindo a exploração do ouro no Dande e no Mocaranga o que fez com que dissidentes da casa real de Quíloa, poucas décadas antes da chegada de Vasco da Gam a à Contracosta, tenham decidido instalar-se em Quelim ane e nas ilhas de

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Moçam bique e Angoche, onde j á havia antigos m oradores m uçulm anos. É

possível tam bém que o m onom otapa tenha procurado expandir-se para o norte, até as m argens do Zam beze, e para leste, até onde as suas tropas, acostum adas a um planalto de clim a am eno, puderam aguentar as terras baixas, quentes e infestadas de tsé-tsé, porque queria controlar as transações de cobre, sal e ouro que se faziam ao longo do rio. E é tam bém possível que Angoche só se tenha apoderado, em detrim ento de Sofala, da m aior parte do fluxo do ouro produzido no norte do atual Zim babué, porque o m onom otapa lhe garantia a segurança dos

cam inhos e do com ércio.30

Na luta para sobreviver, Quíloa, sem abandonar o ouro, voltou-se com toda a

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firm eza para o negócio do m arfim . Seus m ercadores em brenharam -se pela

ny ika, em busca das presas de elefante. O cronista Diogo do Couto, escrevendo no últim o quartel do século XVI, chegou a acreditar piam ente que eles pudessem

ter chegado até o litoral de Angola,32 o que seria, aliás, de poder crer-se, quando se considerava que a distância a separar a costa índica da atlântica era tida, então, com o m enos da m etade da lonj ura real.

De que os suaílis tiveram algum êxito na resistência à com petição portuguesa, faria prova o não ter a feitoria de Sofala dado à Coroa lusitana os resultados com que esta sonhava, sem que se esqueça o tam anho desm esurado do sonho. Já em 1513, o feitor régio em Sofala queixava-se de que, durante oito m eses, apenas pudera adquirir entre 6.500 e sete m il m iticais (entre cerca de 28 e 30kg) de ouro. Seis anos m ais tarde, um outro feitor quase nada conseguira com prar nem

vender,33 atribuindo o m alogro a guerras no interior — talvez o prolongam ento

dos conflitos entre o m onom otapa e os changam iras34 e as tentativas de controle do acesso aos sertões por Niam unda ou Inham unda, o rei de Teve, que m andava nas terras a sudoeste de Sofala. Com o se não bastasse, quase todo o ouro

oferecido à feitoria portuguesa provinha de m ãos m uçulm anas. 35

O próprio vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, escrevia, em 25 de outubro de 1514, em carta ao soberano português, que “esse resgate e proveito de Sofala vai um pouco devagar, que o cabedal e o ganho todo é dos m oradores da fortaleza”, e que lhe custava crer ter “o trato de Sofala (...) de andar sem pre tão igual, que nunca m ais cresça nem m ingue que aquilo que basta para pagar os ordenados da gente” que ali servia. De Goa, ele tinha perfeita noção do que se passava: m uito do com ércio do ouro se ia por Angoche. E explica que as m ercadorias trazidas do golfo de Cam baia pelos grandes navios m ouros passavam , em Melinde, Mom baça, Brava, Pate, Lam u e Mogadixo, para barcos pequenos, que desciam a costa e entravam em Angoche e num rio m ais próxim o

a Sofala. De lá, os suaílis as levavam para o interior.36

Para rem ediar o problem a, os portugueses recorreram prim eiro à solução m ilitar. Em 1511, atacaram Angoche, incendiaram todos os barcos ali ancorados

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e aprisionaram o seu xeque. Meses depois, receberam o troco. Tendo um navio

português encalhado nas proxim idades, os angochanos capturaram -lhe o capitão

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e exigiram por ele a devolução do xeque.

As ações portuguesas não atem orizaram , portanto, os de Angoche. Adem ais, aquela área do litoral, cheia de bancos de areia, parcéis, arrecifes de coral, enseadas e esteiros escondidos por m angues fechados, protegia os zam bucos, os pangaios, os luzios (ou dhows m enores que os pangaios) e as alm adias suaílis dos ataques dos piratas lusitanos. Porque por piratas os tinham , enquanto que estes, arrogando-se o direito de cobrar taxas sobre o uso de um m ar que consideravam português, incrim inavam de contrabandistas os que não faziam m ais do que continuar a exercer um com ércio de que eram parte havia séculos.

Não tardou, e outra solução ocorreu aos portugueses: cortar os acessos de Angoche a Mocaranga e ir recolher o m etal am arelo na boca das m inas do Monom otapa. Dessas m inas, traziam -lhes notícias exageradas os patrícios que andavam a infiltrar-se pelo interior e que ganhariam o nom e de “sertanej os”. A um desses, um degredado que fora carpinteiro de naus e chegara à costa na frota de Vasco da Gam a ou na de Pedro Álvares Cabral, o capitão de Sofala incum biu

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de sair em busca das terras de onde vinha o ouro. Cham ava-se Antônio Fernandes.

Sabem os de suas viagens por um a carta que o alcaide-m or de Sofala, Gaspar

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Veloso, escreveu a el-rei de Portugal, em 1515 ou 1516, por ditado do próprio

Antônio Fernandes, que devia ser analfabeto. 41 Acom panhado de carregadores nativos, que levavam à cabeça os fardos de tecidos e os am arrados de contas e de outros bens com que presentearia os régulos que encontrasse pelo cam inho, ele percorreu duas ou m ais vezes, entre 1511 e 1515, a grande região entre os rios Save, Lúndi e Zam beze, atravessando possivelm ente Teve, Manica, os territórios tongas, Barué, Mocaranga e Butua (Abutua ou Tórua). Anotou onde se m inerava o ouro, a quebrar a rocha ou a batear os rios, e os m ercados onde se vendia, e inventariou os reinos em que esteve ou sobre os quais recolheu inform ações. Do m onom otapa, contou que construía em Em bire um a fortaleza de pedra solta, sem argam assa — e esta é a notícia m ais recente que se conhece

do fabrico de um zim babué de pedra, 42 pois a corte do grande rei se instalaria doravante dentro de grandes aringas circulares form adas por troncos de árvores, e seus palácios se ergueriam com barro socado. Antônio Fernandes contou-nos tam bém que o m onom otapa estava em guerra com alguns reis, entre os quais o de Butua. Após esclarecer que nos dom ínios do m onom otapa ficava “a fonte de ouro” de toda aquela terra, recom endou que se erguesse um a feitoria num ilhéu no m eio de um rio que ia sair ao m ar a 16 léguas da barra de Sofala, para o resgate de ouro e de m arfim .

Por conta própria, vários portugueses adentraram os sertões em busca de fortuna, na prim eira m etade do século XVI. De uns poucos, guardam os os nom es, com o os de Baltasar Gram acho, Jerônim o Martins, Antônio Caiado, “m uito am igo e fam iliar” do m onom otapa, e Gom es Coelho, que tam bém falava

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a língua da terra e tinha o afeto do rei. De outros, perderam -se os nom es, m as

recordam -se um a ou duas aventuras, com o a daquele que aj udou os cham ados

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m ongas ou m ongazes a invadir Lupata. Da m aioria, quase nada sabem os,

exceto que seriam cinco os que residiam em Inham bane45 e uns dez ou 15 os

que viviam em Sena em 1560,46 e outros tantos os que o padre Francisco de Monclaro encontrou, em 1570, na corte do m onom otapa, enquanto que, em

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Quelim ane, deu apenas com dois, am bos casados.

Esses sertanej os m antinham periódicos contatos com o litoral. E para lá levavam as notícias do interior, que alguns deles esquadrinhavam , cheios de curiosidade e esperanças de riquezas, a descer e a subir o Zam beze e seus afluentes. Só assim se explica que João de Barros, no Livro X da Prim eira Década da Ásia, publicado em 1553, j á m encionasse seis dos tributários do grande rio — Panham es, Luanguoa, Arruia, Manj ovo, Inadire e Ruenia — esclarecendo “que todos regam a terra de Benom otapa”, e “a m aior parte deles

levam m uito ouro, que nasce nela”. 48 Ao olhar-se um m apa m oderno, cada um

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desses rios pode ser identificado. O Panham e continua a ser assim cham ado; o

Luanguoa é o Luangua; o Arruy a é o Ruia ou Luia; o Manj ovo é o Mazoé; o Inandire é o Inhadire; e o Ruenia é o Luenha.

Quase todos os portugueses andavam pelos sertões no afã de enricar, m as não faltavam uns poucos m issionários. Desses, ficou fam oso o j esuíta Gonçalo da Silveira. Após deixar dois de seus com panheiros em Inham bane, a fim de ali fundar um a m issão, ele seguiu com cinco ou seis patrícios para o Monom otapa. Talvez alim entasse grandes expectativas em relação aos carangas, pois estes, com o os dem ais xonas, eram m onoteístas — adoravam um único deus, que, entre alguns povos, tinha o nom e de Muari —, ainda que venerassem os antepassados, sobretudo os antigos reis, m as de um j eito que, se sem elhante ao culto que os católicos prestavam aos seus santos, dele se apartava porque centrado na crença e na prática da possessão pelos espíritos. Aj udado por Antônio Caiado, que lhe serviu de intérprete, o j esuíta teria convertido o j ovem rei Negom o Mupunzagutu e o batizado, j untam ente com sua m ãe e um bom núm ero de nobres. Mas depois o aborreceu, ou por causa — com o afirm avam os

portugueses 50 — de intrigas dos num erosos m ercadores m uçulm anos que viviam na corte, os quais teriam convencido o m onarca de que o sacerdote era um perigoso feiticeiro e a ponta de lança de um a invasão por parte do rei de Teve ou dos próprios portugueses, ou — penso eu — porque o padre Gonçalo, no seu zelo religioso, ofendera os costum es carangas. Quem sabe se não desrespeitou o culto dos um ondoros, os ritos devidos aos antepassados reais? Eram com uns nos m issionários gestos indignados diante da fé dos outros: um cam arada de Gonçalo, o padre André Fernandes, que ficara em Inham bane, não só desm anchou alguns

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sacrifícios que se faziam na presença do rei, m as os calcou com os pés. Apesar da insistência dos textos portugueses nas intrigas m oslins, vê-se por eles que os nangas ou sacerdotes tradicionais tiveram o seu papel no destino do padre Silveira. Este, com sua pregação, estava danando as bases religiosas do Estado caranga e retirando do m onom otapa as suas funções rituais, com o a de com unicar-se por m eio de m édiuns com os espíritos dos reis que o precederam , especialm ente os dos fundadores do Estado. Não é de estranhar-se, assim , que se tenham unido contra o j esuíta os grandes chefes, os m édiuns um ondoros e os dem ais sacerdotes. O m onom otapa, após consultas com a m ãe e outros conselheiros, m andou estrangular o padre Gonçalo e lançar o seu corpo num a lagoa ou rio próxim o.

A m orte do j esuíta foi um dos pretextos para um a expedição m ilitar contra

Negom o Mupunzagutu. 52 Im punha-se assegurar a proteção da atividade m issionária. Mas o principal m otivo era a conquista das m inas de ouro.

Com andou a expedição Francisco Barreto, um soldado experiente e um adm inistrador que j á havia dado provas de com petência à frente da praça de Azam or, na África do Norte, e com o vice-rei do Estado da Índia. Barreto chegou a Moçam bique, em 1570, com todos os poderes que lhe dera o rei D.

Sebastião.53 Trazia um exército de m il hom ens, form ado em boa parte por veteranos das guerras no Marrocos, um exército no qual, para usar as palavras de Diogo do Couto, “entravam m ais de trinta fidalgos e m ais de duzentos criados de

El-Rei e toda a m ais gente m ui lim pa e nobre”.54 Um exército de elite, portanto, ao qual não faltavam canhões nem cavalaria. Com ele, em novem bro do ano seguinte, após efetuar ataques a Pate e a outros pontos da costa e de gastar os

seus hom ens num a espera de ano e m eio, Barreto em brenhou-se no sertão. 55

Para atingir o Monom otapa, os portugueses podiam , saindo de Sofala, viaj ar a m aior parte do tem po pelo planalto de clim a am eno de Teve e Manica. Preferiram , porém , subir o rio Cuam a ou Zam beze, de terras baixas tom adas de m osquitos, e iniciar as operações a partir de Sena. Não o fizeram por desaviso, afoiteza ou precipitação, m as após dem orado debate, durante o qual tanto Barreto quanto vários de seus auxiliares im ediatos defenderam a ideia de prim eiro conquistar as m inas auríferas de Manica. Foram , no entanto, vencidos pelos j esuítas que integravam a expedição (entre os quais aquele que se tornaria o seu cronista, o padre Francisco de Monclaro), com o argum ento de que não se podia transgredir a ordem real, e esta havia sido a de chegar-se o m ais depressa

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possível ao Monom otapa e pelo Zam beze. A decisão adotada era, aliás,

consentânea com a política que os portugueses pareciam seguir desde o princípio: a de controlar o curso inferior do grande rio, pois era por ele que o ouro e tam bém o m arfim da Manica, do Mocaranga e do Butua desciam para as m ãos dos m ouros.

Já em 1513, os portugueses haviam tentado abrir cam inho pelo Zam beze, m as suaílis e bantos trucidaram os tripulantes da caravela. Em 1518, voltaram à carga: Sancho de Tovar pretendeu instalar um a feitoria na m argem do rio, a 66km da foz, porém o navio que levava os m ateriais para a construção naufragou durante um a tem pestade. Treze anos m ais tarde, o capitão de Sofala, Francisco Pegado, estabelecia um entreposto em Sena, a cerca de 260km do litoral, e, em data que não se conhece, em Tete, ainda m ais para dentro, a cerca de 515km do m ar. Nisso im itaram os com erciantes m uçulm anos, que nesses dois portos fluviais, ou em sua im ediata proxim idade, se haviam aloj ado, desde havia m uito, para recolher o ouro que lhes era trazido, em dim inutas quantidades, do interior: em Sena desaguava o de Manica; para Tete afluía o de Monom otapa e de

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Butua. Ao term inar o Quinhentos, em cada um desses dois lugares viviam entre 40 e 50 portugueses, acom panhados por algum as centenas de africanos,

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m uitos deles convertidos ao cristianism o. Boa parte do com ércio que ali se

realizava ia despej ar-se perto do braço m ais setentrional do delta do Zam beze, em Quelim ane, onde os portugueses criaram um a feitoria em 1544.

Os obj etivos da expedição de Francisco Barreto eram não só dom ar o m onom otapa e chegar às suas m inas, m as tam bém controlar o tráfego no rio e deixá-lo livre para o com ércio português. Para lim pá-lo das taxas e dos constrangim entos que reis, régulos e chefes im punham aos m ercadores lusitanos, bastava — assim pensavam os portugueses — que o m onom otapa isso ordenasse. Tinham -no com o todo-poderoso. Ignoravam que ele não era o m onarca de um estado unitário nem um im perador à europeia, m as o ápice de um sistem a de senhorios e obediências. O seu m ando direto talvez se circunscrevesse à área lim itada aproxim adam ente pelos rios Zam beze, Luenha, Mazoé, Huam be e Dande e pela cordilheira de Unvucué. Dois terços desse espaço correspondem a terras baixas do vale do Zam beze; o resto, a um planalto de solos férteis, sobre os quais não rareia a chuva, de clim a fresco e até m esm o frio. Era nesse planalto, o Mocaranga, que ficava o coração do reino. Fora da área sobre a qual o m onom otapa exercia a plenitude do poder, e possivelm ente até m esm o em suas bordas, havia povos que lhe prestavam obediência, lhe pagavam tributo ou apenas lhe deviam hom enagem . A natureza dessa vassalagem , que podia ser rígida, m uito esgarçada ou apenas verbal, variava conform e a riqueza, o prestígio e a capacidade de ação m ilitar de cada m onom otapa. As fronteiras do que se poderia cham ar im propriam ente de um im pério m oviam -se constantem ente. Assim , se os reinos de Barué, Manica, Teve e Danda foram , durante algum tem po, tributários do Monom otapa e suas dinastias apregoavam nele ter origem , na m aior parte de suas histórias foram dele independentes ou com ele estiveram

em guerra. 59

As tropas de Barreto chegaram a Sena “luzidias e apercebidas”.60 Logo em seguida, porém , um a quantidade de hom ens com eçou a enferm ar e a falecer de febres e diarreias. Os cavalos e os bois finavam -se todos os dias. Os anim ais seriam vítim as da doença do sono, da falta de sal e do pasto onde se soltavam ,

pois na área são abundantes as ervas tóxicas. 61 Quanto aos hom ens, penso que foram atacados, em Sena, pelo cólera-m orbo. O padre Monclaro, na sua

“Relação”, diz que Francisco Barreto m orreu de um m ordexim 62 — e m ordexim , em bora pudesse aplicar-se a diarreias em geral, era a palavra com que se designava o cólera na Índia, de onde teria sido levado para a África pelos banianes ou pelos próprios portugueses. A água, péssim a, barrenta e turva, que bebiam em Sena, estava possivelm ente contam inada. Além disso, pareciam não ter fim , à beira-rio, os m osquitos e as m oscas, entre as quais a tsé-tsé. Mas os padres j esuítas puseram a culpa das m ortes nos m uçulm anos que lá m ercadej avam e viviam . Acusados de pôr veneno nas cacim bas e nos pastos, sobre eles se desatou a raiva portuguesa. Barreto m andou capturar todos os m ouros, que foram m ortos “com estranhas invenções” — repito as palavras do padre Monclaro —, uns em palados, outros despedaçados na boca das bom bardas, “outros abertos pelas costas com m achados”, “outros entregues aos soldados que

se desenfadavam neles às arcabuzadas”. 63 Foi grande o lucro da m atança: fora os panos, a contaria e as peças de ferro e cobre, a soldadesca arrancou dos depósitos dos islam itas m uito ouro, do qual lhe coube a m aior parte, ficando a

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Coroa com 15 m il m iticais (cerca de 64kg), m ais do dobro, portanto, do que o

feitor régio de Sofala conseguira adquirir em oito m eses, em 1513. De um só

Continuar: parte 2 de 2