A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 26 de 30

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A Manilha e o Libambo

24. A África Atlântica, ao sul do equador

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A África Atlântica, ao sul do equador

 

N o Congo, após derrotarem D. Antônio I, em 1665, os portugueses não assum iram as responsabilidades da vitória. Voltaram para Luanda com os tesouros e a cabeça do rei, em vez de seguir para São Salvador, a fim de tom ar o poder ou nele colocar um títere. Deixaram o reino vencido ao deus-dará. Possivelm ente porque não tinham forças para agir de outro m odo. Tanto assim que, nas décadas seguintes, a política de Luanda em relação ao Congo se restringirá à introm issão em algum as das disputas que se sucederiam , ferozes, entre os príncipes congos pelo barrete real. O enredo será tem pestuoso e sangrento, com assassinatos, levantes, m udanças de partido, traições e guerras civis.

Duas facções disputavam o trono, m as dentro delas podia haver, e geralm ente havia, m ais de um pretendente, a conspirar, a organizar-se para as disputas sucessórias e até a procurar apressá-las pelo assassinato. Todos, com o descendentes de Antino Uene, reclam avam a legitim idade, sej a pela linha m atrilinear tradicional, sej a pela linha da prim ogenitura patrilinear adotada pelos portugueses, sej a, em alguns casos, pelas duas linhas. E não faltaram m om entos em que se dividiram em partidos um ou m ais dos três clãs reais que aspiravam a colocar na cabeça de um dos seus o m pu do m anicongo: o Quim panzo Afonso (Kim panzu Afonso, Mpanzu Afonso ou Mpangu Afonso), que ansiava por recuperar o poder de que tinha sido afastado por Álvaro VI e Garcia II; o Quim ulaza (Kim ulaza ou Nlaza), ao qual esses dois últim os reis pertenciam ; e o Quincanga (Kinkanga ou Kanga), praticam ente destruído durante o reinado de

Garcia II.1 Serão num erosos os anos em que dois ou m ais príncipes, cada qual bem plantado num a parte do reino, se tinham , ao m esm o tem po, por m anicongo. Em bora cada um deles aspirasse a ser entronizado com os ritos sagrados em São Salvador, nenhum m orou perm anentem ente, a não ser no início, na antiga capital. Todos foram instalar-se em áreas onde se sentiam protegidos pelos correligionários ou pela natureza: o m anicongo Quim panzo, obrigado a sair de Banza Congo ou São Salvador, assentou-se na m ontanha sagrada de Quibango (Kibangu ou Kim pangu); e o Quim ulaza pôs sua capital em Lem ba, no Bulá (ou Mbula), na área da atual Matadi, sobre o rio Zaire, a m eio de um a im portante rota m ercantil vili.

O conde ou m ani de Sônio, em bora se considerasse independente, não deixou j am ais de interessar-se pela política interna do Congo e de nela ser um fazedor de reis. Junto com a notícia da m orte de Antônio I em Am buíla, recebeu um a outra: a de que D. Álvaro Tuny Monza havia sido entronizado em Banza Congo. Desconform e com essa escolha, o m ani-sônio Estêvão da Silva logo o elim inou. Um outro príncipe que se alçara a m anicongo, D. Afonso Afonso, m al teve tem po de experim entar o poder, pois foi envenenado. E um terceiro, o m arquês de Pem ba, D. Pedro, tam pouco foi aceito por D. Estêvão, que, em m eados ou fins de 1669, o venceu, ao atacar São Salvador. Um novo m arquês de Pem ba, D. Rafael, não dem orou em proclam ar-se m anicongo e, para resistir à oposição dos Silvas, requereu o apoio de Luanda, com prom etendo-se, em troca, a dar aos portugueses o que não lhe pertencia: o Sônio, com o porto de Pinda.

O j ovem governador de Angola, D. Francisco de Távora, apodado pelos seus de “o m enino prudente”, não o foi nesse m om ento, ao seguir os conselhos do Senado da Câm ara, do clero e dos grandes da cidade. Mandou contra o m ani-sônio um exército com cerca de 500 soldados, além de num erosa guerra preta. De um duro com bate às m argens do rio M’Bridge ou Mbrij e, os sônios saíram derrotados, deixando no cam po o corpo de D. Estêvão da Silva, e nas m ãos dos adversários, cerca de dois m il guerreiros. Para os portugueses, contudo, a vitória pronto se voltaria em desastre. Quando, eufóricos com a pilhagem e com a perspectiva de novos butins, m archavam para o norte, foram acom etidos, nas redondezas de Chitom bo, por um irm ão de D. Estêvão, D. Pedro da Silva, que havia reagrupado as tropas fugitivas e a elas adicionado novos contingentes. Tam anha foi a violência do ataque, que os portugueses se desordenaram e entraram em pânico, para o que contribuiu o terem os dois m ilhares de prisioneiros capturados no encontro anterior desatado e rom pido as am arras e entrado na batalha ao lado dos seus. Do que sobrou do exército de Luanda, um a parte considerável encontrou a m orte no rio, por afogam ento, ou às suas

m argens, nas m ãos dos perseguidores. 2

D. Pedro da Silva faleceria pouco depois, de ferim entos sofridos em Chitom bo. Já D. Rafael, que com suas tropas tam bém participou da batalha, sobreviveu à derrota e continuou a agir com o rei do Congo. A com petir com Álvaro VIII, entronizado pelo m ani-sônio, e com Garcia III, em Quibango, e com Pedro III, que, em Bulá, era considerado pelos seus o verdadeiro m anicongo. Os exércitos de cada um desses m anicongos enfrentavam -se de vez em quando e tam bém com os dos m uissilongos, m uxilongos ou m ussorongos, com o eram conhecidos os de Sônio.

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No fim do século, o Congo continuaria fragm entado. Com m ais de um m anicongo. D. João II, irm ão de Pedro III, m andava em Bulá. D. Ma-nuel I, sucessor de Garcia III, teve a corte em Quibango, até ser dali corrido pelos irm ãos Pedro e Álvaro Afonso Água Rosada Nusam u a Mvem ba. Refugiou-se, então, em Sônio, onde continuou rei no exílio, com o apoio dos Silvas. Já o segundo dos irm ãos Água Rosada, após expulsar D. Manuel de Quibango, proclam ou-se m anicongo e, com o nom e de Álvaro X, ali pôs a sua capital. Com o se não bastassem esses três reis a com petir entre si, os chefes das grandes províncias atuavam com o se elas fossem estados independentes e eles, verdadeiros soberanos, pois, ainda que os m anis de Bem ba, Bata, Pangu ou Sunde se considerassem vassalos nom inais do rei do Congo, não reconheciam essa condição em nenhum dos que a arrogavam . Tudo se com plicava ainda m ais por causa de duas velhas senhoras que haviam recortado am plas áreas de poder pessoal, por cim a das divisões políticas tradicionais, e tinham forte ascendência sobre os respectivos clãs: Dona Suzana de Nóbrega e Dona Ana Afonso de Leão Mani Mulaza.

Dona Suzana era Quim panzo, irm ã de um m anicongo, m ulher de um outro e m ãe de três m ais. Tinha sua corte em Luvota, no sul da costa atlântica de Sônio, de onde, com o apoio dos Silvas, favorecia D. Manuel e, após o assassinato deste, aquele que o m atou, Pedro Constantino da Silva Kibenga.

Dona Ana, vestida com hábito capuchinho — recebera licença especial para

isso4 —, politicava de form a m uito m ais sinuosa: ora apoiava este pretendente da canda Quim ulaza, ora aquele, e, quando parecia cam inhar num a direção, era para fazer o percurso inverso. Durante algum tem po, essa rainha, que fora irm ã de Garcia II e m ulher de Afonso III, pôs sob seu controle pessoal, a partir de Nkondo, um a extensa área ao sul da confluência dos rios Mbidizi e Lukunga, m as sua influência estendia-se, por m eio de parentes que dela recebiam orientação, a Oem bo, Pem ba e Bam ba. Quando D. Manuel invadiu Nkondo, em 1691, Dona Ana fugiu com os seus para Quibango, onde D. Álvaro X não só lhe concedeu refúgio, m as a instalou na aldeia de Gando a Suka, no vale do Mbidizi, ao norte de sua antiga corte. De lá, ela e um sobrinho, Pedro Vale das Lágrim as, duque de Bam ba, continuaram a luta contra D. Manuel. E de lá, após a m orte de Álvaro X, em 1695, e a subida ao poder em Quibango do irm ão deste, D. Pedro IV, concebeu o proj eto de reunificação do Congo. Para isso convocou, contando com o apoio dos capuchinhos, um congresso em Gando a Suka, do qual não excluiu sequer inim igos com o Pedro Kibenga e seu irm ão Aleixo, agora senhores de Nkondo e das terras que no passado lhe tinham pertencido. Convidou, claro está, D. Pedro IV, porém para que este prestasse obediência a quem decidira favorecer com o m anicongo: D. João II de Bulá, um Quim ulaza com o ela.

D. João foi sagrado nas ruínas de São Salvador. Pouco tem po depois, em Lem ba, para onde havia regressado, recebeu a notícia de que tropas de Dona Ana haviam atacado Pem ba e Bam ba e dado m orte a Aleixo. A retom ada das hostilidades tam bém chegou, em Quibango, aos ouvidos de Pedro IV, que resolveu tom ar o cam inho de São Salvador e ali fazer-se igualm ente entronizar. Mal findou a cerim ônia, teve, contudo, de abandonar o que restava da cidade, diante da am eaça de ataque pelo exército de João II. Logo em seguida, o exército de Dona Ana reconquistava Nkondo e obrigava Pedro Kibenga a asilar-se, prim eiro, em Bulá e, depois, em Quibango. De seus antigos dom ínios, a velha rainha continuou a sua política expansionista, ao m esm o tem po em que pregava a reconciliação. Tentou aproxim ar-se do novo m anisônio, D. Antônio III, de quem logrou que retirasse o apoio a Dona Suzana de Nóbrega. Mas não obteve m ais do que isso de quem desconfiava de suas verdadeiras intenções. E o século term inou sem a reunificação do reino, com o poder político conflituosam ente dividido entre dois m anicongos, duas grandes chefes de clã e um considerável núm ero de senhores locais, cada qual com seu exército. (Ver o m apa “A expansão de Luanda”.)

Para alim entar essa m ultiplicidade de centros de poder em perm anente pé de guerra, não parou de crescer a carga de im postos sobre o cam pesinato e a escravização dos próprios congueses das facções opostas, a fim de, com sua venda, se obterem arm as de fogo, pólvora e os bens suntuários com que se com pravam fidelidade e obediência. As requisições, sem pre em aum ento, de tributos, corveias e serviços m ilitares, som adas aos riscos de escravização — ao m enor deslize se podia ser condenado a ser vendido em cativeiro —, espalharam o descontentam ento e geraram um am biente de generalizada opressão e rebeldia. O grosso dos escravos que saíam das costas do Congo provinha dos

territórios do antigo reino,5 das guerras entre os m anicongos e da dom a de sucessivas revoltas rurais. Mas não só os congueses escravizavam congueses. Com a fragm entação política e o consequente enfraquecim ento do reino, este se tornou, de preador de seus vizinhos, em vítim a deles.

O Sônio, com seu porto de Pinda, era, desde m uito, o principal beneficiário do com ércio com os europeus. Mas tinha por com petidores, ao norte da em bocadura do Zaire, os reinos vilis de Angoio, Cacongo e Loango, este últim o exercendo um a espécie de suserania sobre os outros dois. O prim eiro recebia os navios europeus no em barcadouro de Cabinda; o segundo, em Malem bo; e Loango, na baía do m esm o nom e. Para esses e outros pontos da costa afluíam as caravanas da rede m ercantil vili, que se espalhava interior adentro.

A partir da quinta década do século XVII, não só os portugueses e luso-brasileiros, m as tam bém os holandeses, franceses e ingleses intensificaram a procura de cativos naquela parte do litoral, para as suas possessões nas Am éricas, a oferecer em paga, além de artigos de ferro, num a área que deles carecia, arm as de fogo e pólvora, que os vilis iam vender ao grande m acoco e aos reis de Matam ba e do Caçanj e. Os holandeses continuavam bons fregueses para o m arfim , m as este passara a escassear e tinha de ser buscado cada vez m ais longe. Pelos escravos que traziam as presas à cabeça e para os quais não havia m uitas vezes em prego na viagem de retorno, os brancos ofereciam um preço cada vez m elhor, que passara a com pensar, e m uito, o cobre e os libongos ou panos de ráfia que aqueles podiam ser postos a produzir. Os vilis, que se tinham abstido, até havia pouco, de vender gente aos europeus, não dem oraram em entrar vigorosam ente no m ercado. Senhores de um a extensa e eficiente rede m ercantil, eles se transform aram rapidam ente em grandes exportadores de escravos. Iam apanhá-los no m ais fundo dos sertões. Ao norte do rio Zaire. E tam bém ao sul, com petindo com os portugueses de Luanda. O m aloango ou rei de Loango enriqueceu com o tráfico. E o m esm o sucedeu com os reis de Cacongo e Angoio, que dom inavam os excelentes portos de Malem bo e Cabinda

e não tardaram em rom per a vassalagem que os ligava a Loango.6 Do reino de Angoio, escreveu Cadornega, por volta de 1680, que dispunha de um a grande quantidade de canoas de guerra m uito velozes, cada qual com seus arqueiros e

espingardeiros.7

Em Loango, Malem bo, Cabinda e Sônio, os europeus adquiriam os cativos j unto ao litoral. Eram os africanos que os traziam do interior. Já em Luanda, a situação era diferente: os portugueses tinham , na m aioria das vezes, de ir buscá-los no fundo do sertão, na lonj ura dos reinos de Matam ba e Caçanj e, que se haviam tornado grandes em pórios de escravaria.

No Matam ba, após a m orte de Dona Bárbara, m andava Jinga Am ona. Não se apagara, no entanto, o partido de João Guterres Angola Canini, que, com o apoio dos portugueses, se levantou em arm as e o fez rei. Tendo João Guterres falecido logo depois, o seu partido elegeu um príncipe andongo, D. Luís. Este sofreu, j untam ente com o punhado de portugueses que o apoiava, um a derrota tão hum ilhante nas m ãos de Jinga Am ona, que, ao retirar-se em fuga, foi m orto por sua própria gente. Sucedeu-lhe um filho de João Guterres, Francisco. Hom em valente e decidido, Francisco não esperou ser atacado por Jinga Am ona e o foi surpreender em seu quilom bo. Vencido, o viúvo de Dona Bárbara acoitou-se, por

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algum tem po, num a igrej a, de onde saiu, preso, para ser executado. Isto passou-

se por volta de 1673.9

Francisco Angola Canini não se transform ou num títere dos portugueses. Tinha am bições próprias, entre as quais, provavelm ente, a do controle do com ércio da região. Para isso, tinha de desbancar o reino do Caçanj e, que havia assum ido o papel de hífen entre os portugueses do Estado de Angola e a Lunda, rica em m arfim , panos e possivelm ente tam bém escravos. Em 1680, ao se abrir um a disputa sucessória no Caçanj e, Francisco Canini, na com panhia de um dos pretendentes, atacou e destruiu a capital do reino. Os portugueses, tem erosos de que Canini com andasse um levantam ento geral dos am bundos, resolveram intervir, m as foram derrotados, com grandes baixas, em Katole. Só três anos m ais tarde, quando o poder em Matam ba j á voltara às m ãos de um a rainha, portugueses lograriam a paz com aquele reino, que prom eteu respeitar a independência e a integridade de Caçanj e e não com erciar com nenhum outro

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país europeu que não Portugal.

Um outro rei, m ais de um a década antes, aspirara a colocar-se com o interm ediário entre, de um lado, Matam ba e Caçanj e, e, de outro, os m ercadores de Luanda: o filho daquele Angola Ari que fora D. Filipe, o rei do Dongo, para os lusitanos. João Angola Ari, de seu forte em Pungo Andongo, com eçou a inquietar os portugueses, ao procurar apossar-se das rotas com erciais que levavam ao Cuango. Após várias adm oestações, que não encontraram o ouvido do rei, o governo de Luanda resolveu, em 1671, dar-lhe guerra. Com reforços vindos da Bahia e do Rio de Janeiro, um grande exército, com posto por 300 portugueses, alguns deles a cavalo, m ilhares de arqueiros africanos e vários canhões, tom ou, depois de prolongado sítio, Pungo Andongo. D. João refugiou-se no Libolo, m as o

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soba local o entregou aos portugueses, que o m ataram .

O butim foi enorm e, “o m ais rendoso” daquele tem po, com preendendo um a

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“im ensidade de prisioneiros”. Em bora houvesse quem argum entasse que todos

os súditos de Angola Ari passavam a ser propriedade do rei de Portugal e, portanto, seus escravos, o governador de Luanda, Francisco de Távora, entendeu o contrário: que os hom ens livres, livres deviam perm anecer, e m andou exortá-los a que regressassem às suas libatas. Alguns fidalgos, cuj a presença em Angola era considerada nociva, foram m andados para a Bahia, não com o escravos, m as com o proscritos políticos. Um a dezena deles, parentes chegados de Angola Ari, teve um outro destino: Lisboa. Lá, só deram trabalhos e despesas, ficando ociosos e a receber paga em Peniche, em vez de serem colocados, com o previsto, a servir em conventos. Chegou-se a pensar em enviar esses príncipes para o Maranhão, que não tinha ligações m arítim as diretas com Luanda, a fim de serem incorporados ao exército, com o soldados a soldo. Esse destino, que para eles não

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se cum priu, foi possivelm ente o dos dem ais, j á que essa era um a das m aneiras

que tinham os portugueses de absorver aqueles que, exilados, não lhes convinha, por precaução política, escravizar.

Ao conter a ganância dos soldados e dos colonos que haviam participado da cam panha contra o Angola Ari, a Coroa e o governador m anifestavam preocupação com o esvaziam ento populacional do Dongo. Um século e m eio de tráfico j á m ostrava os seus estragos. Desde o início do Seiscentos, podia-se afiançar ser Luanda o m ais im portante porto atlântico de em barque de escravos, em grande parte retirados do Cuanza. A cidade crescera, antes, durante e depois da ocupação holandesa. Há quem calcule que chegara, em 1680, a 40 m il

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habitantes. Um as quatro dezenas de brancos, vindos de Portugal ou do Brasil, e

alguns outros europeus. Os que não eram adm inistradores nem m ilitares com perm anência tem porária casavam -se ou se am asiavam com africanas, vinculando-se, por m eio delas, à gente da terra e até m esm o à sua m ais forte aristocracia. Daí o grande núm ero de m ulatos, que se iam escurecendo de geração em geração. Havia, com o era de esperar-se, m uitos negros aportuguesados. E um as poucas negras e m ulatas ricas ou bem -postas na vida, que continuavam os negócios dos brancos de quem eram viúvas ou filhas.

A cidade j á se dividia em duas partes: a alta e a baixa. Na alta, ficavam o governo e a Igrej a. Na baixa, o com ércio. Entre os casarões assobradados,

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espalhavam -se as cubatas, m as j á havia ruas calçadas. O capitão Antônio de

Oliveira Cadornega dem ora-se, durante 29 páginas da sua História geral das

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guerras angolanas, a fazer-lhe o elogio e a descrever seus quatro fortes de

pedra e cal, suas duas fortalezas e as linhas de “trincheiras, cortinas, traveses e baluartes”, com vários fortins, não só ao longo do litoral, para conter os ataques de europeus, m as tam bém nos fundos da cidade, a fim de resguardá-la das acom etidas africanas, e seus quatro conventos — o dos j esuítas, com o seu colégio, o dos franciscanos, o dos capuchinhos e o dos carm elitas —, e m ais dez igrej as e cinco erm idas, e a Santa Casa de Misericórdia, que atendia a uns 400 pacientes por ano, e o Palácio do Governo, e as casas dos com erciantes, e as quintas de arrabalde, e as cacim bas de água potável, e as “feiras, a que cham am quitandas, quotidianas de pescado, frutas e verdura que deleitam a vida hum ana” e onde tam bém se vendiam os gêneros vindos de Portugal.

Luanda vivia do escravo. Não só Lisboa desestim ulara certas produções locais — a da aguardente de cana, por exem plo, porque, inicialm ente, poderia concorrer com a bagaceira e os vinhos m etropolitanos, e depois, com a j eribita brasileira, ou a de equinos, com m edo de que os am bundos aprendessem a criá-los e a usá-los m ilitarm ente —, com o os colonos não pareciam interessados em investir em engenhos de açúcar ou em plantações de algodão, quando viam a

riqueza a descer dos sertões de libam bo, forquilha ou corda ao pescoço. 17 Na falta de ouro e prata — e, apesar das repetidas decepções, não desesperavam de encontrar esses m inérios —, o negro bastava. Nos barracões da cidade, era raro não haver o núm ero suficiente de cativos para carregar um navio sem m aior dem ora, ainda que as em barcações viessem aum entando de tam anho e fossem cada vez m ais frequentes.

A expansão da dem anda por m ão de obra forçada no Brasil e no resto das Am éricas fazia a prosperidade de Luanda. A de Benguela só viria no século seguinte. Por enquanto, aquele porto era ainda um vilarej o esquálido, de onde saíam alguns sertanej os, para, após atravessar o deserto ou o sem ideserto, ir com erciar com os ovim bundos do planalto e dele descer alguns poucos escravos, que geralm ente se iam vender em Luanda.

Em Luanda e toda a enorm e área a que ela servia de porto atlântico, repetia-se, em sua essência am arga, o enredo de Canem e Bornu: o escravo era o artigo de exportação por excelência, e sua preia e m ercadej o, a m ola da econom ia. Isto, não só em Luanda e nos presídios lusitanos, m as tam bém nos reinos negros. Dantes, os cativos eram um subproduto das guerras políticas, um ganho que se acrescentava ao da vitória m ilitar. Prisioneiros de guerra, o custo da captura era praticam ente nenhum . Quem os tinha por butim , apressava-se em passá-los adiante, até porque era arriscado m anter ao lado um inim igo vivo. Podia vendê-los barato, pois lhe vieram de graça. Caro saía, para quem os com prava para revenda, conduzi-los até o m ercado ou um porto no Atlântico, ainda que o ônus pudesse ser reduzido, se utilizados com o carregadores de m arfim e de outros produtos do interior. Custava tam bém caro o m antê-los arm azenados. A m enos, com o ocorria em São Tom é, que fossem postos a trabalhar, enquanto esperavam o em barque. Ou com o faziam , m uito m ais ao norte, os diulas, que os punham a fiar, a tecer e a cuidar dos roçados, sem pressa de vendê-los, quando os preços

eram baixos.18

Para atender à procura de Luanda, os pom beiros tinham de ir buscar cativos cada vez m ais longe. No fim do século XVII, j á tinham de viaj ar durante três

m eses para o interior, se queriam obter bons escravos.19 E podiam ficar ausentes por m uitos m eses e até m ais de um ano. Brancos, m ulatos ou negros, fossem com erciantes por conta própria ou, com o era m ais com um , filhos, genros, funcionários ou escravos de confiança de m ercadores instalados nas cidades da costa, esses pom beiros recebiam um grande volum e de bens para com ele ir transacionar no fundo dos sertões. E lá iam terra adentro, acom panhados por um a fieira de carregadores, cada qual com seu fardo à cabeça. Aqui, faziam negócio direto. Ali, consignavam a um agente um a certa quantidade de bens, para que este ou seus prepostos fossem com prar escravos ou m arfim onde pudessem . Acolá, entregavam a um rei, a um régulo ou a um chefe vários cortes de tecidos, coifas de búzios, enfiados de contas e pipas de aguardente, contra a entrega futura de cativos. Um a rede de créditos estendia-se desde as praias de Luanda, ou m elhor, desde quem financiava o arm ador do navio negreiro, até o centro do continente. Não era com um o calote. Mas, às vezes, o pom beiro tinha de ficar à espera, acam pado por m uito tem po, antes que um agente voltasse de sua viagem ou um soba cum prisse com a obrigação contraída. Alguns pom beiros j am ais voltavam a Luanda — m orriam de enferm idades, em ataques de salteadores ou em revoltas dos escravos, ou decidiam estabelecer-se para sem pre nos sertões, onde se africanizavam , ou fugiam para outras bandas, com a carga que lhes fora confiada. Os desertores eram , contudo, exceções. Até os escravos m andados pelos senhores a m ercadej ar no interior costum avam regressar, pois se tinham tornado cúm plices de ofício altam ente lucrativo.

Nos cam inhos que costum avam percorrer, os pom beiros tinham os seus pousos. Na ida, iam deixando com os associados, os escravos que com pravam pelo cam inho, para que cuidassem deles. Na volta, recolhiam -nos, grupo após grupo, e, em longas fieiras, uns ligados aos outros por corda ou libam bo, os m ais fortes levando à cabeça um cesto de m antim entos, ou um a pipa de água, ou um a presa de elefante, ou um fardo com os produtos necessários para pagar os direitos de passagem , os conduziam até o litoral. Lá, os desgraçados ficavam , à espera do em barque, presos em grandes barracões ou, o que era m ais com um , dentro de am plas paliçadas, com parte da área sob um a cobertura de palha.

A m ortalidade durante o dem orado percurso, com suas paradas, desde o interior até a costa, devia ser grande — de cansaço, de m aus tratos, de doenças de que j á sofriam ou que contraíam pelo cam inho. Os m ais fracos, que atrasavam a m archa, eram m ortos. Bem assim os que se rebelavam . As perdas aum entavam o preço dos dem ais, um preço em cuj a form ação a m aior parcela cabia ao custo do transporte do interior para o litoral. De quanto m ais longe viessem os escravos, m ais elevadas tendiam a ser as m ortes, m ais altas as despesas com alim entação, com vigilância e com pagam entos de taxas de passagem .

O preço era puxado ainda m ais para cim a, quando a dem anda estim ulava os sequestros, as gázuas e até m esm o as guerras com o fim precípuo de produzir escravos, pois, nesses casos, a captura tinha um custo. Entre os africanos, para os quais a riqueza se m edia pelo núm ero de dependentes, contabilizavam -se as baixas em com bates para arrebanhar gente. O m esm o não se devia passar com os portugueses, que, em suas razias, perdiam sobretudo soldados negros. Creio que até as perdas de brancos, quando não tinham patente, dinheiro ou nom e, não se incluíam nos custos das cam panhas preadoras, do m esm o m odo que não se consideravam , nos dispêndios para recolher escravos nas costas da África e levá-los para as Am éricas, as m ortes de m aruj os, que podiam chegar perto da m etade da tripulação, em algum as viagens de navios negreiros, m as tão som ente as dos escravos, um a vez que só estes tinham valor econôm ico.

Luanda preocupava-se tanto com o aum ento do preço dos escravos, que procurava m anter nas cortes dos reis aliados um capitão, acom panhado por m eia dúzia ou um a dezena de soldados, entre cuj as funções a m ais im portante era a de zelar, m uitas vezes sem êxito, para que a com petição entre os pom beiros não forçasse para cim a os preços e estes se m antivessem no nível previam ente negociado com o soberano ou os seus funcionários. Assim se passava nas cortes de Matam ba e de Caçanj e, dois estados cuj a riqueza e poder se assentavam na produção e com ercialização de escravaria. Não só os cativos eram trazidos de longe aos seus m ercados, com o iam buscá-los pelas arm as. A leste do Cuango.

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Entre os pendes, os leles e outros povos sem estruturas estatais centralizadas e

incapazes de oferecer a m esm a resistência que os cubas21 ou os lundas.

Cubas — este era o nom e que os lubas davam aos seus vizinhos do norte, a um conglom erado de grupos hum anos, com diferentes falares, costum es e organizações sociais, que, na m etade do século XVII, j á form avam um estado na

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área entre o rio Cassai, o baixo Lulua e o baixo Sankuru. Essa gente aplicava a si própria um a palavra que significava “o povo do rei”. E com razão, pois a figura do rei, ou ny im , era o elem ento que aglutinava os vários grupos cubas aos

quetes, 23 coofas, m beengil e cwa. Viviam eles num a região privilegiada, com preendendo três distintos ecossistem as, pois a floresta equatorial prevalecente é interrom pida por vários — quatro ou cinco — grandes abertos de savana e cortada pelos largos rios com suas galerias. Os rios são piscosos e perm item um a am pla m obilidade às canoas, favorecendo o com ércio. A caça era abundante e variada, cada zona com sua fauna própria: porcos-do-m ato, m acacos e elefantes na floresta, hipopótam os nos rios, antílopes na savana. Há depósitos de boa argila para a cerâm ica e não falta ferro. Nas terras da floresta, após a coivara, plantavam -se bananeiras, inham es e feij ões; nas savanas, sorgo e talvez m ilhetes; na linha entre as duas paisagens, possivelm ente dendê e ráfia.

No início do Seiscentos, um grupo cuba, o bushoong ou buxongo, im pôs-se sobre os dem ais. A sua principal cidade experim entara um crescim ento populacional m uito superior ao das outras, acom panhado por um a expansão extrem am ente diversificada das atividades econôm icas. Não só tornou-se um grande m ercado de produtos agrícolas, m as tam bém um im portante centro m anufatureiro: nela trabalhavam -se com requinte a m adeira, os m etais e o barro, teciam -se panos de ráfia de alta qualidade, ainda que inferiores aos dos leles (os veludos de palha dos europeus), extraía-se sal de plantas com alto conteúdo salino e secava-se o peixe. A prosperidade econôm ica e o grande núm ero de gente que podia ter acesso às arm as perm itiram aos buxongos ascender a um a posição de m ando, que construíram sem desm anchar as estruturas de poder j á existentes e sem retirar o com ando local dos chefes dos dem ais grupos, que continuaram a usar suas insígnias — entre os cubas, o bastão, a pena de águia e a pele de leopardo.

Esse processo de estabelecim ento do reino, im pério ou federação cuba está vinculado nas tradições a um herói civilizador, Shy aam , que, filho de um a escrava (isto é, um estrangeiro), teria viaj ado para o ocidente, de onde regressou com um a série de inovações, entre as quais o m ilho, o tabaco, a m andioca, o azeite e o vinho-de-palm a, os panos de ráfia, os ritos de iniciação dos j ovens e a grande cidade com o centro burocrático. Quer fosse um caçador, um pescador ou um com erciante — e as tradições perm item ligá-lo a essas três atividades —, Shy aam seria sobretudo um grande m ago, dotado de enorm e força sobrenatural, que lhe abriu cam inho para tornar-se rei dos buxongos. Seria, porém , sobretudo com seus dois sucessores, o guerreiro Mboong a Leeng e Mbo Mboosh — que esteve no poder tanto tem po (40 anos) que parecia im ortal —, que o rei buxongo am pliaria o seu dom ínio. Não só os diversos grupos cubas m as tam bém outros povos passaram , então, a gravitar em torno de quem , tendo com eçado possivelm ente com o um prim us inter pares, se tornou um a espécie de rei dos reis ou im perador.

De Shy aam diz-se que era estéril, m as que nobilitava todos os filhos que os outros hom ens fizessem com suas m ulheres. Daí derivaria o princípio de que, fosse quem fosse o pai, todos os rebentos das esposas reais — e, a partir de Mboong a Leeng, cada clã buxongo tinha de fornecer-lhe um a — eram considerados filhos do rei. Já o m arido de um a m ulher da m atrilinhagem real tinha de ser rigorosam ente m onógam o. Ela, contudo, podia ter quantos am antes quisesse e seus filhos seriam sem pre considerados com o do m arido oficial. A sucessão real dava-se entre irm ãos m aternos, independentem ente de quem fosse o pai natural. Se o rei não tivesse irm ão m aterno, a linha de sucessão passava aos filhos de sua irm ã m ais velha.

A Mboong a Leeng as tradições atribuem o ter proibido aos habitantes da capital que se dedicassem a atividades agrícolas, depois que um ataque cwa encontrara a cidade sem defensores, porque os seus residentes estavam nos arredores, a cuidar de suas lavouras. A partir de então, a capital passou a ser abastecida não só pelo tributo dos grupos subordinados, m as tam bém por um anel de aldeias agrícolas que o rei povoou de cativos de guerra.

Os cubas não vendiam escravos a não ser esporadicam ente. Mas os com pravam , sem pre que possível, para aum entar o núm ero de gente sobre a qual o ny im fundava o poder, um a vez que, entre os cubas, os filhos de escravos nasciam sem pre livres e os seus netos se incorporavam plenam ente à sociedade. Aos escravos cabiam as tarefas m ais pesadas e repetitivas e sem distinção de sexo. A um escravo hom em podia-se, por exem plo, ordenar que atuasse com o m ulher e fosse sem ear o cam po e recolher lenha ou água, o que era um a hum ilhação a acrescentar-se aos m aus tratos. O seu dono não tinha, contudo, sobre ele o poder de m orte. E o escravo, se tivesse a sorte de gozar da confiança de seu am o e de com erciar em seu nom e, podia am ealhar o suficiente para com prar sua liberdade e até escravos para si próprio. Livre, sobre ele continuava a pesar a condição de ex-escravo, nódoa que só apagava nos seus netos.

Quanto aos lundas do im pério do m uata ianvo (m uata j am bo, m wata y am vo

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ou m waant y aav naweej ), esses forneciam cativos aos m ercados caçanj es e

m atam bas. Na sua expansão para oeste, leste e sudeste, a partir de um núcleo que com preendia todo o território entre o vale do Kalany, o alto Cassai e as nascentes do Lulua, os lundas faziam num erosos prisioneiros de guerra, hom ens e m ulheres que colocavam a servir em suas casas, nas roças da aristocracia ou em aldeias agrícolas ao redor da m ussum ba, o enorm e palácio real. Não deixavam , entretanto, de vender para longe os cativos que não tinham condições de absorver. Muitos ficaram com o escravos no Caçanj e e na Matam ba, m as um bom núm ero dessa gente do centro da África tom ou o cam inho dos portos do Atlântico.

Teria sido por volta de 1650 que se abriu a rota com ercial entre Caçanj e e a

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capital do reino da Lunda ou Runde. É possível que, j á antes, houvesse algum as trocas entre aquelas duas partes, m as o com ércio na am pla região em que se

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situavam o reino lunda e os pequenos estados lubas, com o Canioque, Bena

Calundue e Quiconj a, se efetuava quase todo no eixo norte-sul, 27 ao longo dos rios Cassai, Lulua, Sankuru, Lom ani, Lualaba, Luapula e seus afluentes. Do norte, chegavam , por exem plo, ráfia e óleo-de-palm a; do sul, saíam cobre e sal. Outros seriam os produtos que alim entariam as trocas entre leste e oeste: na direção da m ussum ba seguiriam os tecidos asiáticos e europeus, as arm as de fogo, a cachaça e o tabaco brasileiros, acom panhados pelo cultivo da m andioca e talvez do m ilho. De volta, viriam principalm ente o cobre e os escravos.