A Manilha e o Libambo
2. Nas terras do Islame
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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Nas terras do Islam e
Em 632 m orria Maom é. Nas décadas seguintes, os árabes, por ele unificados, abalaram Bizâncio e conquistaram o Iraque, a Síria, a Palestina, a Pérsia, a Arm ênia, a Ásia Menor, o Egito e os litorais da África do Norte até a Tunísia. Antes de findar o século, eles acrescentariam o Afeganistão a seus dom ínios, cam inhariam para a Índia e se fariam senhores de quase todo o norte da África.
Um historiador m ilitar, para quem essas conquistas só se com param , em extensão e rapidez, às de Alexandre Magno, relem bra que os árabes não trouxeram para os cam pos de batalha novas arm as nem novas táticas, m as transform aram inteiram ente o m odo de fazer a guerra, ao m over os exércitos
com o entusiasm o e a força de um a ideia. 1 Maom é era um m ercador, m as j á fora um guerreiro. E a fé que pregara era m ilitante e se afirm ava tanto pela palavra quanto pelas arm as.
Penso que o Alcorão é claro: im punha-se dar com bate e vencer quem não se convertesse, quem não aceitasse haver um só Deus, que tinha Maom é por seu
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profeta. O j ihad ou guerra santa, destinado a am pliar os territórios sob a lei divina e o governo dos fiéis, era um a das obrigações do crente. Nas batalhas, ganhavam -se o paraíso e os bens da terra.
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Ao ím pio, cum pria bater-lhe na nuca até chaciná-lo. Se caísse vivo nas m ãos do devoto, havia que apertar com força as cordas que o am arravam , em bora, term inada a cam panha, pudesse vir a receber o favor da liberdade ou ser obj eto
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de resgate. Nas prim eiras décadas do Islam e, o m ais provável é que ficasse em paz, de todo subordinado aos conquistadores árabes e a trabalhar em seus cam pos e em suas vilas para sustentar o que aspirava a ser um a casta m ilitar dirigente, à qual estava vedada a posse e o trabalho da terra e qualquer outro ofício que não o
das arm as.5 Muitos dos aprisionados nas batalhas foram , no entanto, escravizados. E esta viria a ser a regra, m uito m ais tarde, na África. Pois não figura nas respostas de Al-Maghili, o grande j urista do fim do século XV, ao ásquia (ou rei) Muham ed, de Songai (ou Sonrai), ser dever do m uçulm ano fervoroso “fazer a guerra santa contra os infiéis, m atar-lhes os hom ens,
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escravizar-lhes as m ulheres e as crianças e tirar-lhes todas as riquezas”?
O Alcorão não j ustifica nem condena a escravidão. Tem -na com o natural. Se dela fala em algum as passagens, é para recom endar, com o obra pia, reparadora
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ou expiatória, a m anum issão dos escravos, preceituar que devem ser tratados
com bondade8 e estabelecer regras de com portam ento entre os escravos e entre
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eles e seus senhores. Em outros textos que obrigam o fiel — com o a suna ou prática do Profeta, seus atos e palavras conform e incorporados nos hadiths ou tradições, as sentenças dos prim eiros califas e a xariá (shari’a) ou direito islâm ico —, preceitua-se que o senhor abrigue, vista e alim ente de form a correta o escravo e o poupe de trabalhos excessivos. Maom é, ele próprio dono de escravos, teria advertido: “Se gostas de um escravo, m antém -no em tua posse; se não, vende-o. Mas não causes sofrim ento a um a criatura de Deus. Assim com o o Todo-Poderoso dispôs que fosses dono do escravo, poderia ter feito deste o teu
senhor.”10
Para o islam e, a condição norm al do hom em é a liberdade. Foi a partir desse princípio que as várias escolas j urídicas m uçulm anas, fossem sunitas, xiitas ou
carij itas, com puseram as doutrinas, leis e j urisprudências sobre a escravidão.11 Nenhum a pessoa livre podia ser escravizada por crim e, dívida ou indigência. Não era lícito, com o na Grécia ou em Rom a, fazer escrava, por exem plo, a criança abandonada. Escravo era quem nascia nessa condição ou era a ela reduzido em guerra santa. Ou, ainda, quem era im portado de terras de infiéis. Pois o m undo divide-se em m etades inconciliáveis: de um lado, a com unidade dos crentes (um m a), a casa da paz, da subm issão e da obediência (o Dar al-Islam ), e, do outro, a casa da infidelidade e da guerra (o Dar al-Harb). Quem pertence a esta só pode estar naquela com o dhim m a ou “protegido”, se zoroastriano, j udeu ou cristão (os dois últim os, “povos do Livro” e adeptos de um a religião revelada, ainda que im perfeita), ou com o escravo, caso idólatra ou pagão.
Só com o escravo — e, por isso, o ato de escravizar era um ato pio, quase obrigação do hom em de verdadeira fé — podia endereçar-se à salvação aquele que não se converteu ao prim eiro cham ado. O j ihad contribuía, assim , para purificar o m undo, elim inando fisicam ente o infiel, ou lhe arrancando, pela escravização, a existência legal e m oral. A essência hum ana do escravizado não lhe seria devolvida senão com a alforria, para o que era indispensável que antes se houvesse convertido. Pois só o m aom etano — e tam bém , para a m aioria dos
sunitas, o dhim m a — podia ser m anum isso. 12
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Era com o se a escravidão — isto li em John Ralph Willis — extinguisse a
culpa do ím pio. Com o se, por m eio dela, se expiasse o sangue derram ado no j ihad pelos fiéis. Com o se o dono fosse credor do escravo e este devesse àquele a própria vida, pois devia ter sido m orto, um a vez que não se convertera no devido tem po. Escravo, tornava-se um a espécie de diy a (ou reparação a ser paga por um ofensor à parte ofendida), um a diy a destinada a com pensar as vidas que o Islam e perdeu durante a guerra santa. Ainda assim , devia ser o escravo tratado com com paixão e boa vontade, porque o estado servil lhe estava, de certo m odo, desde sem pre predestinado. E, em bora fosse ele definido com o absoluta
propriedade do dono, a xariá dava ênfase à sua capacidade hum ana. 14
O islam e m elhorou, sem dúvida, o estado do escravo na Arábia, onde sem pre fora tido com o um bem sem ovente, com o gado, recebendo do dono — repito o
que j á se disse15 — a m esm a proteção que um cam elo. Com o quase sem pre sucede, havia, no entanto, grande diferença entre a prática e a pregação em nom e do Profeta. Essa diferença alargou-se à m edida que os árabes foram acum ulando êxitos em sua em presa de conquista, se convencendo de que eram o povo eleito, se enriquecendo com o butim e o tributo, se urbanizando e, concom itantem ente, arabizando as populações subm etidas. Não cessou de aum entar entre eles o núm ero de escravos e escravas. Para concubinas, cantoras e m úsicas. Para o cuidado dos j ardins e das hortas. Para o trato dos cavalos e dos cam elos. Para trabalharem o barro, as fibras, o couro, os m etais e a m adeira. Para as m inas. Para os serviços dom ésticos de um a aristocracia em form ação, que abandonava as tendas e os acam pam entos m ilitares e construía alcáceres, palacetes e m ansões, enquanto aum entava o tam anho de seus serralhos. Para acom panhar os senhores nas batalhas e, m ais tarde, com bater com o soldados.
À dem anda de m ão de obra cativa, as guerras santas deram , de início, resposta. Das tribos berberes da África do Norte, por exem plo, arrancaram -se, às centenas, escravos e m ais escravos, sobretudo m ulheres j ovens, tão requisitadas pelos haréns, e m eninos e rapazolas para serem treinados para o exército e servirem de ghulam , ou paj em , e, com o tal, se endereçarem às vezes
às práticas da pederastia. 16 Com o, porém , a expansão árabe deu-se, em seu prim eiro século, sobretudo às expensas de Bizâncio e da Pérsia, e, portanto, sobre territórios habitados por povos de convicção cristã, m osaica ou zoroastriana, o núm ero de escravos obtidos quase nunca correspondia às expectativas do califa e dos que m andavam em seu nom e. Com a estabilização das fronteiras entre o Dar al-Islam e o Dar al-Harb — j á na m etade do século VIII elas se situavam na Espanha e na Índia —, a tendência era dim inuir o núm ero de pessoas reduzidas diretam ente pelas arm as. E os islam itas passaram a abastecer-se de escravos oriundos de terras ainda m ais distantes, de terras de idólatras que se podiam licitam ente com prar, porque, pertencendo ao Dar al-Harb, contra eles cabia
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fazer-se a guerra santa. Eram , por isso, escravos em potencial.
Havia, aliás, um tipo de escravo que os m oslins tinham forçosam ente de receber por com pra ou tributo: o eunuco, indispensável à adm inistração do harém . Com o Maom é condenara o fabrico de eunucos, m as não o seu uso e
posse, pois ele próprio fora dono de um capado,18 não restava ao m uçulm ano senão obtê-los fora dos territórios do Islam e. Tal qual em Rom a, onde a castração
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era proibida e os eunucos tinham de ser adquiridos além dos lindes do im pério. A fim de atender à dem anda, desenvolveram -se centros produtores de castrados na periferia do m undo m uçulm ano. Em m osteiros cristãos. Nos Bálcãs. Em Praga. Em Verdun. No m ar Cáspio. Na Arm ênia. Na Núbia. Na Etiópia. No Darfur. Em Bagirm i. Em Nupe.
As cidades árabes acolhiam escravos de toda parte, até m esm o da Índia, da China e do sudeste da Ásia. O grosso vinha, no entanto, da Europa, das estepes asiáticas e da África.
Era antiquíssim o o com ércio de negros, sobretudo de m ulheres etíopes, apreciadíssim as concubinas, com a península Arábica. Os escravos m ais com uns, os abexins e os som alis, atravessavam o m ar Verm elho. É possível que os outros passassem pelo Egito, trazidos da Núbia, do Darfur, do Cordofã e do Fezzan, e até m esm o que uns poucos em barcassem nas praias do Índico, nos dhows e outros barcos árabes. Em determ inados m om entos históricos, os escravos negros seriam num erosos. Em outros, de se contarem pelas m ãos.
Não sabem os qual a situação na Arábia da época de Maom é, m as provavelm ente os negros eram , entre os escravos, m inoria. Pelo m enos é isso o
que se deduz da lista de escravos e libertos do Profeta e de seus cam aradas.20 Um a lista com alguns nom es ilustres. Com o o de Bilal ibn Rabah, o prim eiro alm uadem a cham ar os fiéis à oração. Bilal, de origem abissínia, nasceu escravo. Escravo tam bém e tam bém etíope foi Abu Bakre, alforriado pelo próprio
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Profeta.
Com a ocupação do Egito e do norte da África, m ultiplicaram -se os escravos pretos. Em pouco tem po, os árabes e seus correligionários organizaram e desenvolveram o com ércio a distância de negros, dando-lhe um a dim ensão que j am ais tivera. Partiram para isso dos pequenos m ercados j á existentes no Egito e no Magrebe, de rotas m ilenárias, com o as da Núbia, ou de itinerários que datavam dos prim eiros séculos de nossa era, de quando a adoção do cam elo perm itiu aos berberes que atravessassem regularm ente o Saara e fossem pilhar as estepes e as savanas ao sul do deserto e ali prear negros, para pô-los nos oásis, a cultivar cereais e tâm aras, e talvez para vendê-los na África do Norte. Talvez — e uso o advérbio, porque há quem j ulgue que só após a conquista árabe, ou, m elhor, entre o fim do século VII e a m etade do VIII, os berberes recém -convertidos ao islam ism o vincularam com ercialm ente o norte da África ao Sudão e passaram a traficar em cativos negros, transform ando-se de escravizados em escravizadores. Para quem assim pensa, escravos provenientes do sul do Saara só teriam com eçado a aparecer em núm eros expressivos nos
m ercados norte-africanos no fim do século VII. 22
Em 641, m al se rem atara a ocupação do Egito, a cavalaria árabe atacou, sem
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êxito, o reino cristão núbio da Macúria. Dez anos depois, os árabes voltaram à
carga e sitiaram Dongola, a capital m acurra. Talvez porque da luta não tivesse saído um vencedor claro, firm ou-se um tratado entre o Egito m uçulm ano e o
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reino núbio, o fam oso baqt, vigente durante cerca de 600 anos. Por esse
acordo, os núbios forneceriam anualm ente 360 escravos ao im am e dos m oslins e 40 ao governador (ou wali) de Assuã. Em troca, receberiam trigo, cevada, vinhos
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e tecidos, além de duas éguas de grande raça.
O enredo repetiu-se m ais adiante. Tão pronto se instalaram na Tripolitânia, os árabes, que certam ente não ignoravam que os garam antes forneciam escravos à costa, avançaram com seus exércitos para o sul. Em 669 (ou dois anos antes), após vencer Garam a, Uqba ibn Nafi im pôs à sua gente um tributo de 360
cativos,26 que não sabem os se seriam berberes ou negros. E outros tantos a Wadan, ao Fezzan e a Kawar, se acreditarm os na veracidade do que escreveu, no
século IX, Ibn Abd al-Hakam .27 Nessas partes, com o na Núbia, o principal interesse dos conquistadores parece ter sido o de obter regularm ente escravos. Mas, num e noutro caso, não se pode descartar que procurassem sobretudo ouro.
Desde a m etade do século XVI a.C., explorava-se ouro nas proxim idades de dois uédis (ou rios, geralm ente secos, do deserto), o Alaqui e seu afluente, o Cabagba, na Núbia. E talvez entre os séculos III e V de nossa era, os berberes j á fossem buscar ao sul do Saara o m etal am arelo. Assenhoreando-se do deserto, graças ao cam elo, eles estabeleceram várias rotas entre, de um lado, o Marrocos, a Argélia, a Tunísia, a Líbia e o Egito e, do outro, o rio Senegal, o sul
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da Mauritânia, a curva do Níger e o lago Chade.
A principal m ercadoria que trocavam por ouro era o sal. O sal encontrado em estado sólido em vários pontos do deserto. Talvez nos m esm os lugares que m ais tarde se tornariam produtores fam osos: Idj il, Taoudeni, Tagaza. Para cortá-lo em blocos e transportá-lo para o dorso dos drom edários, suspeita-se que se em pregassem , desde o início, escravos. Escravos preados no Sael e na savana ou adquiridos tam bém com sal. Se m uitos deles ficavam nas m inas e nos oásis do Saara, outros continuavam a cam inhar ao lado dos cam elos até os m ercados do norte da África.
Têm -se o ouro e o sal com o os responsáveis, a partir talvez do século IV, pela
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consolidação do reino de Gana. Adiciono um terceiro elem ento: o escravo.
Tanto os saracolês, que criaram Gana, quanto m uitos dos grupos que estiveram na base dos num erosos reinos e cidades-estado da savana sudanesa e dos im périos do Mali e de Songai, organizaram -se m ilitarm ente para defender-se dos nôm ades do deserto, que atacavam suas aldeias, saqueando-lhes os celeiros, roubando-lhes o gado e lhes arrancando as m ulheres e as crianças. Quando se sentiram fortes nas arm as, os sudaneses passaram a em preender razias contra os vizinhos m ais débeis e a oferecê-los com o escravos aos antigos agressores, j á conciliados pelas vantagens do com ércio.
Os árabes logo souberam da existência de Gana. Tanto que Gana aparece com o “o país do ouro” nos escritos de um autor da segunda m etade do século
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VIII, Al-Fazari. Deve ter sido à sua procura que Habib ibn Abi Ubaida al-Fihri,
neto de Uqba ibn Nafi, com andou, em 736, um a expedição ao Suz, no sul do Marrocos, e ao país dos negros. Conta Ibn Abd al-Hakam que ele regressou
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coberto de ouro e com um butim em que havia escravos. Seu filho, Abd al-Rahm an, m arcaria, para uso dos árabes, por volta de 745, um a pista caravaneira que ligava o Suz à outra praia do deserto, recuperando poços antigos e furando
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cacim bas novas.
Essa história nos diz m ais do que literalm ente nos conta. Ela nos diz que o século VIII ainda não havia chegado ao m eio e j á os árabes procuravam controlar e m elhorar os cam inhos que levavam ao Bilad al-Sudan, o “País dos Negros” e do ouro, a fim de vinculá-lo ao enorm e m ercado que, tendo por núcleo a Arábia, o Egito e o Crescente Fértil, se estendia da Espanha ao Sind, e se enlaçava com Bizâncio, a Europa Ocidental, a Índia hinduísta e budista, o sudeste da Ásia, a China e os litorais africanos do Índico. Nesse im enso espaço, circulavam , de um a ponta à outra, a seda e as porcelanas chinesas, o estanho espanhol, os algodões da Índia, o incenso do Iêm en, os brocados da Pérsia, o trigo do Egito, os cavalos da Arábia, e o azeite, e as pim entas, e as tâm aras, e os tapetes, e o cobre, e o anil, e o vidro, e o coral, e os perfum es, e as louças, e as plum as de avestruz, e a prata, e o ouro, e o m arfim , e os escravos.
De pastores nôm ades e com erciantes urbanos, Maom é fizera a aristocracia rica e poderosa de um grande im pério. É bem verdade que os árabes, a partir do final do século VIII, tiveram de partilhar cada vez m ais as posições de elite, prim eiro, com os persas e, depois, com as dem ais nações que se islam izavam . É certo tam bém que a unidade religiosa e política legada por Maom é e m antida pelos quatro prim eiros califas se foi danificando, ao longo do tem po. Divergências sobre a condução espiritual e tem poral do Islam e tom aram form a no sunism o, no xiism o, no carij ism o. Modos distintos de interpretar as suas leis separaram os hanafitas dos ham balitas, e estes dos m aliquitas e dos xafitas. Proliferaram centros autônom os de poder, que apenas prestavam vassalagem nom inal e sim bólica ao califa (ou sucessor de Maom é), e o próprio califado dividiu-se, no século X, em três: o abássida, o om íada e o fatím ida. Essas cisões e desavenças não afetavam , contudo, a inteireza básica do islam ism o. Qualquer que fosse a natureza das dissensões, o Alcorão era sem pre o m esm o, e as m esm as as cinco principais obrigações do crente. O haj j , ou peregrinação a Meca, fortalecia esse sentim ento de intensa com unhão num a só fé. Em todo o m undo m uçulm ano, teceram -se hábitos com uns de vida, gostos com partilhados, m odos de pensar sem elhantes. De um extrem o ao outro de sua am pla geografia, liam -se os m esm os livros, discutiam -se as m esm as ideias filosóficas e científicas e predom inavam , com pequenas variantes, os m esm os estilos de arquitetura, artes decorativas, m úsica e poesia. Para um m aom etano de então, o m undo civilizado estendia-se da Espanha à Índia islam ita, passando pelo Magrebe, o Egito, a Arábia, o Iraque e a Pérsia. Respeitavam -se a China, Bizâncio e a Índia hinduísta e budista, ainda que suas culturas fossem m ancas, por apartadas da verdade. O resto — os grupos hum anos que viviam ao norte, com o francos, germ anos e eslavos, ou ao sul, com o os negros da África — pertencia à barbárie, sem cultura, arte, ciência e discernim ento.
Que tenham ido ao Suz e ao Fezzan, m ostra-nos que os árabes não ignoravam que dali saíam dois cam inhos que levavam à outra praia do Saara — cam inhos cuj a im portância o passar dos séculos só confirm aria. Não lograram , contudo, os árabes controlar o com ércio transaariano. Continuou ele em grande parte nas m ãos dos berberes — islam izados, é bem verdade, e, em últim a análise, a serviço do ecúm eno m uçulm ano.
Na sua conversão, a m aioria dos norte-africanos preferiu, à ortodoxia sunita ou ao xiism o, as convicções e as práticas dos carij itas, tanto em sua versão sufrita, m ais radical, quanto na ibadita, m ais acom odadora. Os carij itas sustentavam a absoluta igualdade entre os m aom etanos e o direito de qualquer devoto a ser eleito im am e, o chefe suprem o da com unidade dos fiéis. Advogavam , por isso, com o um dever, a rej eição de um califado ilegítim o, com o o abássida.
Os prim eiros pregadores dessa heterodoxia vieram provavelm ente do Iraque e do Irã e trouxeram com eles não só as suas interpretações teológicas, m orais e políticas do islam e, m as tam bém copiosos capitais e um a longa prática do com ércio a distância, um a experiência que transm itiram a seus conversos berberes, fossem citadinos ou nôm ades do deserto. Os sufritas, fundadores, ao
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que consta, em 757, de Sij ilm essa, no Tafilelte, predom inariam no Marrocos.
Os ibaditas, na Tripolitânia, Tunísia e Argélia, onde estabeleceram um sultanato em Tahert e se im puseram em Trem ecém (ou Tlem cen). Aqueles dom inariam os cam inhos no Saara Ocidental. Os ibaditas, as rotas que passavam pelo Fezzan e pelo Kawar.
Os itinerários no deserto traçavam -se em função dos pontos de água e da resistência dos cam elos. Estes são capazes de ficar sem beber de dez a 15 dias e
podem m archar, com um a carga de 120 a 150kg, uns 30 a 45km por j ornada.34 Um cam inho com um m ínim o de segurança deveria ter, por isso, ao m enos um a cacim ba a cada 200 e poucos quilôm etros. Convinha adem ais que os poços se am iudassem nos trechos a serem percorridos na últim a sem ana da travessia, quando os hom ens estariam m ais fatigados e fartos da água choca que traziam nos odres.
Alguns desses itinerários talvez fossem anteriores à islam ização dos berberes. Fariam parte, assim , dos prim eiros episódios daquilo a que j á se cham ou “a
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revolução do cam elo” e que fez do Saara um m ar interior. Outros
desenvolveram -se no avançar dos séculos, substituindo rotas m ais antigas caídas em desuso. E outros, ainda, só bem m ais tarde foram , por assim dizer, descobertos.
Um dos roteiros m enos rigorosos, porque abrandado na m aior parte de seu traj eto pela proxim idade do oceano, saía dos oásis do sul do Marro-cos, acom panhava em arco o litoral africano até o cabo Branco, dali infletindo, num a curva para o oriente, até o Sael, onde se dividia em vários cam inhos — para o Tacrur, para Audagoste e Gana, para Sila e para Gaô, no cotovelo do rio Níger. Com poços distantes entre si dois ou três dias de viagem , percorrê-lo dem orava de m ês e m eio a dois m eses, no caso de não ser a caravana m uito grande nem levar dem asiada carga.
Mais antigo do que esse talvez fosse o roteiro que partia da Tripolitânia e atravessava o Fezzan, de onde um de seus ram os se dirigia, pelo Adrar dos Iforas, para Gaô, e o outro, pelo Air, até a Hauçalândia ou, num esgalhar para sudeste, até o lago Chade.
De Tlem cen ou de Tahert, ia-se por Wargla até Tadm ekka e dali a Gaô. E um outro cam inho com eçava na Tunísia, cortava Gadam és, chegava ao Gate e ali se dividia: um a senda levava ao Canem e outra a Gaô. Do Gate e do Fezzan podia-se atingir Siuá (ou Siwa), no noroeste do Egito.
Havia outro m odo de alcançar-se o Egito, a partir do Adrar m auritano: seguir para Gaô, depois para o Air e o Tibesti e, em seguida, para os oásis de Kharga e Dakhla. Quando Ibn Hawkal escreveu o seu tratado de geografia, na segunda m etade do século X, esse roteiro j á tinha sido abandonado, por causa das
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tem pestades de areia. (Ver o m apa “Rotas caravaneiras”.)
Na época de Ibn Hawkal, um a rota m uito frequentada seria recente: a que saía de Tahert ou de Sij ilm essa, passava por Tam dult, cruzava o Dara (ou Draá), ganhava o Adrar m auritano, seguia para Audagoste e dali, j á no Sael, para o Tacrur ou para Gana. Mais novo ainda e talvez m ais im portante era o cam inho quase em linha reta de Sij ilm essa a Audagoste, às portas de Gana, atravessando um a vasta área de com pleto deserto.
Outros havia, igualm ente difíceis, a passar j unto às bases de enorm es dunas de areia ou a percorrer extensíssim os trechos de pedra. Em certas partes do deserto, podia-se ter de suportar quatro, cinco, seis ou até m esm o 14 j ornadas sem um ponto de água. E não se estava j am ais livre de ser surpreendido por um a tem pestade de areia. Em com pensação, podia-se chegar a um oásis. Ou ter o alívio de alguns espinheiros, de um a estepe rala e de algum as acácias no leito de um uédi. Ou, ainda, com m uita sorte, presenciar a chuva e ver, por alguns dias, das areias surgir um a pastagem .
Partia-se alta m adrugada. E cam inhava-se, enquanto o sol e o calor da terra o perm itissem . Ao tornar-se o ar insuportável, descarregavam -se os cam elos, abriam -se as tendas e se repousava, até o anúncio do crepúsculo. Voltava-se a carregar os anim ais — um a trabalheira! — e retom ava-se a m archa até o
escurecer. Era assim que se viaj ava no deserto.37
Desde o princípio, as cáfilas seriam em preendim entos coletivos, nos quais tom ariam parte num erosos m ercadores. Eram organizadas com cuidado e postas sob um a chefia enérgica e conhecedora do deserto. Aj ustada a data de partida, reuniam -se os anim ais e a carga. O núm ero de cam elos era enorm e: m uitas centenas e até m ilhares, não causando surpresa caravanas com m ais de cinco m il drom edários. Provavelm ente, j á então — refiro-m e aos m eados do século IX — levavam -se do norte da África para as savanas sudanesas cavalos, espadas, tecidos, cobre, contas de vidro e pedra, conchas, perfum es, coral de Ceuta e outros artigos suntuários. Além de dois produtos do deserto, o sal — peça básica desse com ércio — e as tâm aras. As caravanas procuravam parar, para abastecer-se da m ercadoria para a qual havia procura sem pre certa, j unto às m inas de sal-gem a. Em Trarza, na rota que acom panhava a costa atlântica. Em Idj il. Em Taoudeni. Em Tagaza. Em Aulil. Era essa provavelm ente a norm a, sem pre que as cáfilas não partissem desses lugares e de portos m ercantis em cuj as proxim idades tam bém havia sal, ainda que em m enor volum e, com o Tuate e Sij ilm essa.
Antes da partida, encharcavam -se os estôm agos dos drom edários. Boa parte (talvez um terço) da capacidade de carga dos anim ais ficava por conta dos odres de água, dos sacos e am arrados de alim entos e do m aterial necessário para arm ar as tendas e acender as fogueiras — o que, som ado à lentidão com que avançava e aos perigos que corria, fazia da caravana, com o j á se disse e
com provou, um m eio bastante ineficiente de transporte. 38 Aos cam elos de carga
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e de sela — nestes e em cavalos finos m ontavam os m ercadores ricos — havia
que acrescentar as cam elas que forneciam leite e m archavam sem fardo, com um pequeno peso ou um viaj ante às costas, os equinos de raça berbere que se iam vender do outro lado do deserto, algum as m ulas, alguns j um entos e os drom edários esbeltos e velozes dos nôm ades em buçados e senhores dos segredos do deserto, pagos para guiar e proteger as caravanas, e im prescindíveis ao êxito da viagem . Pois bastava um engano de rota — e nada m arcava os cam inhos, a não ser as estrelas — para o extravio transform ar-se em m orte. Tinha, além disso, a caravana de m archar perm anentem ente em arm as, sem pre sob o risco de ser atacada por nôm ades, se não lhes com prasse proteção e direito de passagem . Algum as tribos berberes controlavam os pontos de paragem , aguada e repouso, e tam bém vendiam aos caravaneiros cam elos, para substituir os abatidos ou m ortos no percurso.
Era toda um a cidade que cam inhava. A acordar ao som das trom betas e a m archar m uitas vezes ao rufar dos tam bores. Podia-se, no decurso da j ornada, interrom pê-la ou não, para as preces coletivas, na direção de Meca. E em todos os m om entos, ninguém ignorava o que lhe cabia fazer. Alguns m orriam durante o traj eto. Outros detinham -se a com erciar num ponto de paragem e ali ficavam à espera da caravana de volta. Cada vez que arribavam a um a cidade ou a um oásis, era um a festa — para a gente da terra e para os caravaneiros.
Chegada a cáfila ao Sael, espalhavam -se pelo pasto os drom edários. Os condutores berberes e alguns m ercadores arm avam tendas ao lado da cidade ou da aldeia sudanesa. Outros abrigavam -se nas cabanas de barro e palha da gente da terra, que cedo aprendeu a servir às caravanas e a lucrar com elas. Nesses portos saelianos cobravam -se tributos, prestavam -se serviços de carga e recarga de anim ais, construíam -se colm ados para a guarda de m ercadorias, arm azenavam -se escravos e cereais para exportação, consertavam -se cabrestos, selas e odres, com prava-se e vendia-se. Não deixava de prosperar um a só das atividades ligadas ao recebim ento, à hospedagem e à partida das caravanas. Além disso, cada porto do Sael e da savana transform ava-se num a grande feira para os povos da vizinhança e até m esm o de terras distantes. Deles saíam , à cabeça das m ulheres e tam bém no lom bo de bois e j um entos, o sal, o cobre e os outros produtos que se iam trocar, m ais ao sul, pelo ouro de Bam buk, Buré, Geba e outros sítios m ineiros, pelas gom as, pelo sorgo, pelos m ilhetes, pelo âm bar, pelo alm íscar, pelas peles e pelo m arfim . E de tudo isso se carregavam , de torna-viagem , as caravanas, além , cada vez m ais, de escravos. Pois a dem anda por eles aum entara.
Na m etade do século IX, os cativos hom ens, fossem m eninos, rapazolas ou adultos, com eçaram a ter m ercado certo no Magrebe. Não m ais se destinavam apenas às labutas agrícolas, aos serviços de carrego, aos trabalhos nas m inas e à abertura de poços e canais de irrigação; passaram a ser incorporados em núm ero crescente aos exércitos. Com o rom pim ento da unidade política do m undo m uçulm ano, a m uitos dos novos detentores regionais de poder faltava o apoio da m aioria dos governados, que não os reconhecia com o legítim os para conduzir os crentes. Um em ir sunita que exercesse o m ando sobre um a população xiita tinha, por isso, de escorar-se em tropas que lhe fossem pessoalm ente fiéis e que não tivessem m aiores ligações com a gente da terra. Ninguém m elhor que o escravo para com pô-las.
Na Ifríquia (a atual Tunísia, acrescida de um a porção do nordeste da Argélia e outra do noroeste da Líbia), im pusera-se, no início do século IX, a dinastia dos Aglábidas. Sunitas, os seus sucessivos em ires, em bora protestassem fidelidade ao califa abássida, construíram um verdadeiro sultanato. Sem a sustentação dos súditos, que eram predom inantem ente carij itas, e descrente da fidelidade dos m ilitares árabes, com cuj a disciplina não podia tam pouco contar, o prim eiro desses em ires, Ibrahim ibn al-Aghlab, form ou um a guarda pessoal com escravos adquiridos ainda j ovens e enquadrados num regim ento ghulam , do qual saíam os
seus hom ens de confiança. Há quem j ulgue que seriam negros 40 — todos ou, ao m enos, boa parte deles. E há quem isso ponha em dúvida e sustente que eram sakalibas, ou europeus, provavelm ente eslavos. Para quem assim pensa, só no últim o quartel do século, o tetraneto de Ibrahim ibn al-Aghlab, Ibrahim II, se
apoiaria em corpos de tropas de escravos indubitavelm ente pretos.41
Tanto o califa em Bagdá com o um outro contem porâneo de Ibrahim II, Ahm ed ibn Tulun, o wali ou governador do Egito, contavam com regim entos de infantaria com postos por escravos negros. Eram tão num erosos esses soldados,
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que som avam , por ocasião da m orte de Ahm ed, 45 m il. Muitos foram
adquiridos na Núbia. Mas talvez um grande núm ero viesse do Sudão Central,
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passando pelos m ercados de Zawila, no Fezzan.
Por essa época, Al-Yacube,44 referindo-se ao com ércio de escravos no Fezzan, escrevia que os berberes os traziam do Sudão, onde eram vendidos pelos reis, sem pretexto de guerra. Quem sabe se não tinha em vista a região do lago Chade, origem do grosso da m ercadoria hum ana vendida no Fezzan? Quase cem
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anos m ais tarde, Al-Muhallabi descreveria o soberano dos zagauas, aos quais
alguns atribuem a fundação do reino de Canem , com o um chefe divino e diria que sua autoridade sobre os súditos era tão grande, que podia fazer escravo quem dentre eles quisesse. O que esses textos poderiam indicar é que os nôm ades do deserto e os m oradores dos oásis tinham deixado de ter no ataque de surpresa às populações negras a principal fonte de cativos. Transferiram o ônus de produzir escravos à aristocracia guerreira sudanesa.
Ao redor do lago Chade, não havia ouro nem m arfim em quantidade
expressiva. Se o reino de Canem , 46 que ali tom ava corpo, exportava para o norte da África alm íscar, pedra-um e, peles, ceras e plum as de avestruz, bem com o sal e natrão para as terras que lhe ficavam ao sul, tinha no escravo a principal m ercadoria. Seus eunucos conseguiam alto preço. E suas m ulheres eram fam osas, no m undo m uçulm ano, pela doçura e pela beleza. Os escravos não serviam , entretanto, apenas com o artigo de exportação. A m aior parte dos
capturados ficava em Canem . 47 Era com eles que se pagavam os tributos e se alcançavam aliados. Num a região pouco povoada, com o a que se estende a leste do lago Chade, a escravaria era indispensável à m ontagem dos exércitos, ao cuidado dos cavalos, cam elos, cabras e bois, ao am anho da terra e aos trabalhos m ais hum ildes.
Em bora o escravo, sobretudo o vendido para longe, pudesse ser um infrator social, um inim igo interno do rei (ou m aí) ou parte do tributo pago pelas populações vassalas, era quase sem pre fruto do sequestro, da em boscada, do ataque de surpresa a pequenos vilarej os e da guerra. Tanto para adquirir trabalhadores e soldados, quanto para lograr m ercadoria de troca, dependiam os nobres de Canem da violência arm ada. E ali, com o em outras partes da África e do m undo, a guerra tornou-se um m odo de produção.
A sede de cativos favoreceu a expansão de Canem para o sul. Regularm ente, as suas tropas atacavam os povoados agrícolas. Os m ais próxim os tiveram seus habitantes incorporados à população do reino. Outros, m ais apartados, acom odaram -se à vassalagem , a fim de se proteger das gázuas. E produziam escravos, para não serem escravizados. Contra os que m oravam ainda m ais longe, m uitas vezes a centenas de quilôm etros do centro de poder de Canem , é que se desatava a atividade predatória da sua cavalaria.
A dependência do escravo tornou ferozes as relações de Canem com os vizinhos. Suas tropas tinham de ser engrossadas por escravos, e a renovação de suas cavalariças — base do poder do rei e dos aristocratas — processava-se conform e o núm ero de cativos que fosse capaz de trocar por equinos no Egito e no norte da África. Com pravam -se cavalos para produzir m ais escravos, e uns e outros atravessavam o deserto.
Por volta de 850, Zawila, no Fezzan, tornou-se a capital de um a dinastia berbere ibadita, a Banu Khittab, um a fam ília de m ercadores que fizera fortuna com as caravanas do Sudão e, portanto, com o tráfico negreiro. Zawila aprovisionava-se sobretudo no Canem e obtinha tam anhos lucros nesse com ércio, que cunhava m oeda de ouro puro.
Pelo Fezzan transitavam escravos para todos os quadrantes do m undo m uçulm ano. Vindos do Sudão, m uitos seriam certam ente vendidos ao Iraque, o centro do poder abássida. Do m ercado de escravos de Sam arra (cidade que substituiu por algum tem po Bagdá com o residência do califa), ficou um a descrição em Al-Yacube: um vasto quadrilátero cortado por vielas, nas quais se
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alinhavam casas térreas com m uitos côm odos e loj as. Por ele deve ter passado
boa parte dos negros destinados à região de Baçorá (ou Basra), onde, nos séculos VII, VIII e IX, por várias vezes se ergueram em arm as os escravos zanj es.
A palavra árabe zanj aplica-se, no sentido estrito, aos nativos da África Índica, da Som ália a Moçam bique. Desde m uito (pelo m enos, desde o início de nossa era) eram eles em barcados, em pequenos núm eros, nas costas do Índico e levados para a Arábia e para a Pérsia. O volum e do tráfico deve ter aum entado no século VI, depois que os sassânidas se apoderaram do Iêm en e do estreito de Bab-el-Mandeb. Cem anos depois, ao conquistar a Pérsia, os árabes herdaram e am pliaram esse com ércio.
Em pregavam -se escravos, na hinterlândia de Baçorá, para drenar os pântanos salinos, cobertos de vegetação alta, e transform á-los em terras agricultáveis. Num a área particularm ente insalubre, o trabalho devia ser duro, repetitivo e penoso, envolvendo grupos num erosos de escravos, que viviam em condições
m iseráveis, tratados com o gado. 49 Com o a m aioria dos proprietários dessas
grandes extensões de terra era absenteísta, 50 som avam quase nada os cuidados com a escravaria — e, de resto, tam bém com os cam poneses livres que ali trabalhavam e cuj a situação em pouco era m elhor que a dos escravos. Não se sabe com precisão o que uns e outros nelas plantavam , após recuperar as terras alagadas. Provavelm ente arroz, cevada, sorgo, m ilhetes, cebola, m elões. E provavelm ente aquela gram ínea que, vinda da Índia, por toda a parte se vinculou
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à escravidão: a cana, pois, desde pelo m enos o fim do século VII, escravos
negros a cultivavam e dela tiravam açúcar ali bem perto, a leste do baixo Tigre,
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na planície do Khuzistan, na Pérsia ocidental.
Labutavam na Baixa Mesopotâm ia dezenas e dezenas de m ilhares de escravos. Mal-abrigados, m alvestidos e m al-alim entados, a dieta restringindo-se
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a punhados de farinha, sem olina e tâm aras. Al-Tabari m enciona grupos de 500
a cinco m il cativos a trabalharem nas terras de Batiha e coloca l5 m il nos cam pos
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de Al-Ahwaz. Tam anha concentração de escravaria não se vira antes na história. Se boa parte dela provinha da África Índica, da Etiópia, da Núbia e da Som ália, outra provavelm ente percorrera os cam inhos do Saara.
Em bora por zanj se entendesse um banto da África Oriental, o term o passou a
ter sentido m ais am plo e depreciativo. 55 A im precisão e a vaguidade com que os geógrafos árabes desenhavam a África e nela punham os grupos hum anos fez com que a palavra se deslocasse para oeste e se confundisse e am algam asse
com “zagaua” e “Songai”.56 Tanto era assim , que Al-Masudi, escrevendo no
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século X, incluiu os zanj es entre os povos do Sudão. Zanj e tornou-se sinônim o
de negro, viesse donde viesse.
Qualquer que fosse a com posição da m assa escrava que penava nas proxim idades de Baçorá, as péssim as condições em que era m antida — em com pleta discordância com os preceitos do Islam e — estim ulavam a revolta e abriam os ouvidos às pregações m ilenaristas.
Data de 689 (ou 690) a prim eira rebelião de escravos zanj es na Baixa Mesopotâm ia. Foi um m ovim ento de reduzida im portância, facilm ente debelado pelas tropas do califa. Uns cinco anos depois, a revolta se reacenderia com m ais força, os insurgentes só sendo dom inados após várias batalhas. Já em 749 (ou 750), seriam necessários quatro m il soldados para dobrar um a nova rebelião, desta feita em Mossul, no norte da Mesopotâm ia. Cerca de um lustro m ais tarde, em 765, um a outra insurreição foi ainda m ais violenta. Mas a grande guerra dos zanj es só se verificaria um século m ais tarde, a partir de 869. E estendeu-se por
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quase 15 anos. Essa guerra dos zanj es foi m ais que um levantam ento de
escravos. Foi um a fitna, um a guerra civil entre m oslins, um a revolução antiabássida, tendo por m eta substituir a cabeça do Islam e, pôr no com ando dos fiéis um novo califa.
Tudo com eçou com um certo Ali ibn Muham ed, um árabe que se dizia descendente direto de Fátim a, a filha de Maom é, e de seu genro, Ali. Não consta, contudo, que ele se tivesse com o um xiita e talvez tam pouco fosse um carij ita,
com o querem alguns.59 Poeta e professor, pôs-se a pregar contra o século e contra os Abássidas, que qualificava de usurpadores. Tentou prim eiro catequizar os beduínos para a sua doutrina. Diante do m alogro, voltou-se para os zanj es da Baixa Mesopotâm ia. Afiou-lhes as m ágoas e os ressentim entos, prom eteu-lhes virar o m undo às avessas e advogou a decapitação dos senhores, por sistem aticam ente violarem as regras do islam e que regiam a escravatura. Os escravos o seguiram com violento entusiasm o. E suas tropas incharam -se de cam poneses pobres, beduínos irrequietos, deserdados de toda a sorte e soldados negros que abandonavam os exércitos do califa.
Durante dez anos, os zanj es acum ularam vitórias. De seus refúgios no m eio dos pântanos cobertos de caniços, eles saíam para fustigar as tropas, as cidades e os portos da Baixa Mesopotâm ia e do sul da Pérsia. Em 871, tom aram e saquearam Baçorá, queim ando os navios ali fundeados, m atando m ilhares de árabes e reduzindo à escravidão as m ulheres e as crianças. Tendo ocupado, além de Baçorá, os portos de Ubulla e Abadan, os revoltosos cortaram o acesso de Bagdá e Sam arra ao m ar. E desorganizaram por m uito tem po o com ércio m arítim o naquela parte do golfo Pérsico. Os m ercadores estabelecidos nos portos, ou conheceram a m orte nas m ãos dos insurretos, ou foram obrigados a
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fugir. E os que fugiram não retornaram .
Por volta de 879, m udou a fortuna da guerra. As tropas zanj es, que, de início,
som avam uns 50 m il hom ens 61 e deviam superar em núm ero e entusiasm o as de seus adversários, foram obrigadas a passar à defensiva, quando se viram inferiorizadas em volum e de soldados e em abundância e qualidade de arm as. Esconderam -se nos caniçais dos pântanos. Recorreram às táticas de guerrilha. Resistiram com o puderam . Mas foram perdendo, um após outro, os seus redutos. Em 883, após um cerco de três anos, rendeu-se a capital rebelde, Mukhtara. E a cabeça de Ali ibn Muham ed, espetada num pau, desfilou por Bagdá.
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David Brion Davis adverte-nos contra a tentação rom ântica de fazer dessa guerra dos zanj es um m ovim ento igualitário, libertário ou antiescravagista. Os zanj es sublevaram -se contra seus senhores, é certo, m as, ao fazê-lo, buscavam acim a de tudo endireitar o governo do Dar al-Islam , devolvê-lo à pureza dos quatro prim eiros califas, colocar de novo à sua frente um hom em de Deus que era tam bém descendente do Profeta. Com o os xiitas e com o os carij itas. Ao aderir à guerra santa, deixaram de ser escravos, m as, caso vitoriosos, não aboliriam a escravatura. Mostraram isso claram ente, ao fazer e ter escravos. Num a sociedade quase sem m áquinas e com um a experiência m ultissecular e solidificada de trabalho forçado, só raríssim as pessoas seriam , aliás, capazes de im aginar um m undo sem escravidão. Esta era tida com o um fato natural, com o parte da ordem do m undo tal com o concebida por Deus. O que os rebeldes queriam era m udar de estado, deixar de ser escravos ou reduzir suas m isérias. Bons islam itas, reclam avam o com portam ento que o próprio Deus consignara no Alcorão com o devido aos escravos e sobre o qual Maom é deixara tantas palavras em seus hadiths. Essa m udança de m odo de proceder não m ais se aplicaria a eles, que tinham passado, graças à força das arm as, para o grupo dos senhores, m as aos escravos que certam ente viriam a possuir e que lhes prom etera, em sua
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pregação, Ibn Muham ed.
Finda a guerra, m ortos ou reescravizados os revoltosos, restou o traum a. Nas terras m uçulm anas, o negro da África Oriental ficou com fam a de insubm isso, rebelde e traiçoeiro. Sua im portação, por algum tem po, foi restringida e controlada. Em contrapartida, cresceu consideravelm ente o núm ero de cativos
da outra m argem do Saara. A tal ponto que Al-Istakhri64 afirm ava, nas prim eiras décadas do século X, que provinham do Sudão os escravos negros vendidos nos países islâm icos, acrescentando que a m aioria passava pelos m ercados de Zawila, no Fezzan.
Ao com eçar aquele século, alterou-se novam ente o m apa político do Magrebe. Surgiu ali, a contrapor-se ao om íada de Córdova e ao abássida de Bagdá, um novo califa, Ubay d Allah, outro descendente de Fátim a e Ali e tido com o o esperado Mahdi, o Messias que livraria o m undo dos opressores e do pecado. Em pouco tem po, esse im am e xiita derrotou os Aglábidas, destruiu o sultanato de Tahert e outros pequenos estados ibaditas e conquistou os redutos sufritas, entre os quais Sij ilm essa. Não conseguiu, porém , im por-se aos berberes zanatas, de confissão ibadita, que dom inavam a franj a estepária ao norte do deserto e controlavam os portos de partida das caravanas para Gaô e o lago Chade. A preocupação de Ubay d Allah e da dinastia a que deu origem , os Fatím idas, parecia concentrar-se na rota que ia de Sij ilm essa a Audagoste e dali a Gana — no itinerário do ouro, do m etal am arelo de que dependia a consecução
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de seu proj eto de dom ínio universal do Islam e.
Os Fatím idas tam bém tiveram tropas negras na África do Norte. Mas apoiaram -se sobretudo em contingentes eslavos. Era entre eles que recrutavam seus soldados de m aior confiança. E, se adquiriam escravos no Sudão e nos Bálcãs, capturavam -nos tam bém em grandes núm eros, durante as agressões de sua aguerrida e poderosa m arinha contra as cidades costeiras da Itália e da Catalunha. Só m ais tarde, depois que o califa Al-Muizz li-Din Allah abandonou a Ifríquia, para instalar, em 973, o governo no Egito, foi que os Fatím idas im itaram os Aglábidas. Para proteger-se de súditos m aj oritaria-m ente sunitas, fizeram do abd sudan, o escravo negro, e do m am eluk, o ex-escravo das estepes asiáticas, os seus soldados de elite, os seus com batentes de confiança e m em bros de sua guarda pessoal.
O preposto que Al-Muizz deixou a reger o Magrebe, o azenegue Bulukkin ibn Ziri — iniciador de um a nova dinastia, a prim eira de origem berbere, a Ziríada —, não deixaria igualm ente de procurar apoio em tropas de escravos negros, a fim de proteger-se da excessiva influência e da volubilidade das cabildas berberes e m elhor poder m ediar suas constantes disputas. Esse escravo negro, eles o iriam buscar sobretudo no Fezzan.
O com ércio de escravos trouxe a prosperidade a Zawila, Tadm ekka, Ankalas e Bilm a (no Kawar). Mais rica ainda, graças ao constante ir e vir das caravanas,
tornou-se Sij ilm essa, conform e o testem unho de Ibn Hawkal,66 que a visitou em 951 ou 52. Suas trocas eram , no entanto, sobretudo com Gana, Sila e o Tacrur. E, sem desprezar o escravo, giravam em torno do ouro.
Escreve Ibn Hawkal, sem surpresa, que vivia e com erciava em Sij ilm essa gente de Baçorá, Kufa e Bagdá. Carij itas, sem dúvida. Não só ali, com o em outros entrepostos das duas m argens do deserto, estabeleceram -se, em busca do alto lucro que davam o ouro e o escravo, m ercadores das m ais diversas origens e convicções — ibaditas, sobretudo, m as tam bém j udeus, sufritas, sunitas e xiitas, berberes, egípcios, andaluzes, árabes e persas, pessoas vindas desde as fronteiras da Espanha até os lim ites da Índia m uçulm ana e do Iêm en. Muitos deles instalaram -se, por conta própria ou com o agentes de outros, nos portos sudaneses. Algum as fam ílias dividiram -se, para m elhor controlar as duas pontas do tráfico: um a parte ficava nas cidades do sul do Magrebe, abastecendo e form ando as cáfilas destinadas ao Sudão; a outra, no Sael e na savana sudanesa, adquiria o ouro e os escravos e organizava as fieiras de drom edários que seguiam para o norte. Os que se estabeleceram por conta própria ao sul do deserto eram , em sua m aioria, negociantes com pouco capital ou representando firm as do tipo fam iliar. Gente que procurava seguir um aforism a atribuído ao profeta Maom é: “Assim com o o piche é o rem édio para a sarna dos cam elos, o Sudão é o rem édio para a
pobreza dos hom ens.”67 De que buscavam enriquecer rapidam ente, a partir de fundos lim itados, e não inspiravam grande confiança entre seus parceiros, há o forte indício de que não se encontrou um a só letra de crédito aplicável a um desses m ercadores do outro lado do Saara, em bora fossem corriqueiras na sua
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m argem setentrional, em Sij ilm essa ou Gadam és.
Esses com erciantes não se assentaram som ente nos nós caravaneiros do sul do deserto, com o Audagoste e Tadm ekka. Fixaram -se tam bém nas cidades do Sudão. Tanto era assim , que Al-Bakri — e o confirm am outros autores m uçulm anos —, ao descrever Sila, Gaô e a capital de Gana, ressalta que cada um a delas se dividia em duas partes, em praticam ente duas cidades. Num a viviam os naturais da terra, com seu rei; na outra, os islam itas — isto é, os
negociantes estrangeiros.69
No deserto, eram senhores os nôm ades berberes. Com a parte inferior do rosto coberta por um véu — o litham dos árabes —, os azenegues ou sanhaj as controlavam , do alto dos cam elos, os cam inhos das cáfilas, os oásis e os poços da parte ocidental do Saara. Cobravam dos caravaneiros direitos de passagem , proteção, descanso e aguada, bem com o os serviços que lhes prestavam com o guias e guardas. E com erciavam com eles, pois eram donos das m inas de Tagaza e Aulil e de outros depósitos de sal-gem a. Com o se isso não bastasse, passaram , a partir da segunda m etade do século IX, a reger Audagoste, um a das principais portas do com ércio com o Sudão. Cem anos m ais tarde, em bora sob um soberano azenegue, boa parcela da população da cidade provinha de um a faixa que corresponderia atualm ente à Argélia oriental, à Tunísia e ao oeste da Líbia, e nela se contavam pessoas de várias regiões do m undo islâm ico. Al-Bakri, de quem recolhem os a inform ação, a enfeita e hum aniza com esta nota: um a exím ia cozinheira negra, especialista em doces e guloseim as — e dessas