A Manilha e o Libambo
18. Na Zambézia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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Na Zam bézia
Não encontro sinais de que o escravo tenha sido um item de grande im portância nas exportações portuguesas da África Índica, até a m etade do século XVII. Nem tam pouco no com ércio a distância de árabes e arabizados, nos cem anos anteriores à chegada de Vasco da Gam a. Os m oslins adquiriam m uitos escravos nas enseadas da Etiópia e da Som ália, m as não parece que o fizessem em núm ero considerável nos portos do que hoj e cham am os Quênia, Tanzânia e
Moçam bique. 1 Enquanto os escravos etíopes gozavam de boa procura nos países árabes, aqueles que se conheciam por zanj es foram , durante m uito tem po, refugados. As grandes rebeliões dos séculos VII, VIII e IX, na Baixa Mesopotâm ia, deram ao banto da África Oriental a fam a de insubm isso, rebelde e traiçoeiro. Não creio, porém , que essa m á reputação ainda tivesse força, 400 ou 500 anos m ais tarde, para sustar ou conter o tráfico. O m ais provável é que saísse caro levar um escravo de Mom baça ou Quíloa até a Arábia, o Egito, a Pérsia ou a Índia. Por m aior que fosse o dhow, havia que tom ar nele um grande espaço com os tonéis de água e as provisões necessárias à sobrevivência, durante a dem orada travessia, de m eia centena de m ulheres, rapazes e crianças. Não devia ser, assim , um negócio de prim eira, sobretudo quando escravos de luxo, com o os etíopes, estavam disponíveis bem m ais perto. Para os portugueses, os custos e os riscos do transporte seriam ainda m aiores. Duas ou três dúzias de cativos podiam ser rem etidas para Goa, m as era tem erário m andar um a vintena para a Mina, a Madeira ou Lisboa. O perigo de m orte seria enorm e, e os cuidados e gastos em tão longa viagem podiam não encontrar com pensação nos preços, em bora altos, que esses escravos alcançariam nos m ercados.
Releio o que escrevi e peço a m im m esm o e ao leitor cautela. Não quero dizer que os portugueses não tirassem escravos dos litorais ao sul da Som ália, nem que não os exportassem Quíloa, Mom baça e Melinde. Entre o século XVI e o fim do Setecentos, calcula-se que da costa ao sul de Brava saíram , em m édia, Índico afora um pouco m enos de dois m il escravos anualm ente, contra 3.500 em barcados nos portos africanos do m ar Verm elho e do golfo de Áden e outros três m il, provenientes da Etiópia e da atual República do Sudão, que por terra
seguiam para o Egito.2 Dois m ilhares de pessoas representava um a enorm e quantidade de sofrim ento e m ais do dobro de m ortos, entre a captura e o porto. Ainda que fosse m ais lucrativo levar para a Arábia e para a Índia cativos da Etiópia e da Som ália, sem pre se podia arriscar negócios com os obtidos m ais ao sul. Se os dois zam bucos, repletos de escravos negros, que os portugueses viram
num a enseada de Cam baia, em 1521, pertenciam a gente de Brava, 3 não se saberá j am ais de onde arrancaram a carga.
Talvez tivessem por destino portos fora da África aqueles dois bergantins apresados pelos portugueses de Quíloa, em 1506, com 180 escravos a bordo,
além de ouro, prata, m arfim , algum âm bar e m uito sorgo e arroz.4 Não é de excluir-se, no entanto, que levassem a carga hum ana para outra enseada da costa. Pois devia ser habitual o com ércio de escravos, não só entre os portos da
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Azânia e entre eles, as Com ores e Madagáscar, m as, por terra e pelos rios, entre o litoral e o interior.
Os cativos vindos do alto sertão eram em pregados nas próprias cidades da costa. Nas labutas dom ésticas e do porto. Nas roças e plantações dos arredores. Com o soldados. Com o soldados e carregadores, nas expedições m ilitares e nas viagens de negócios ao interior. Pois sabem os que esses escravos existiam , entre suaílis e portugueses, ainda que só apareçam num a linha ou duas dos textos da época. Talvez porque fizessem parte norm al da paisagem e ninguém cuidasse em falar deles. Num a página, por exem plo, diz-se que eram m uitos, quando do feroz saque de D. Francisco d’Alm eida a Quíloa, em 1505, e que trabalhavam nas
roças da ilha, cobertos apenas por um pano que lhes ia da cintura aos j oelhos. 6 Noutra, conta-se que a escrava do feitor português de Sofala, João Velho, fora
defenestrada do alto de um a torre. Cham ava-se Vitória, era branca,7 e por este m otivo, e por causa da violência que nela sofreu o seu am o, teve o seu nom e preservado. Aqui, m enciona-se que 500 escravos foram arrancados, durante o m assacre, em 1572, ao m ais rico dos m ercadores suaílis de Sena. Ali, que na m esm a cidade, poucos anos antes, o padre Gonçalo da Silveira batizara os
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escravos dos portugueses. E acolá, que, durante as grandes secas da penúltim a década do século XVI, tam anha era a fom e, que os cafres se entregavam com o
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escravos em troca de com ida e vendiam os filhos por um alqueire de m apira.
No início do Quinhentos, seriam poucos os escravos nos estabelecim entos litorâneos portugueses. Tem os disso indicações claras. Durante os 24 m eses que se escoaram de j aneiro de 1505 até o fim do ano seguinte, por exem plo, o feitor
de Sofala só prestou contas de 26 peças, das quais não soube definir o valor.10 Um de seus sucessores declarou, em 1509, ter recebido, durante oito m eses e
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dois dias, apenas 17 escravos. E um outro, em 1514, um a dúzia de peças.
Além disso, várias relações de despesas com m antim entos da fortaleza de Sofala m ostram que nela só havia, de j unho de 1510 a m aio de 1511, entre 12 e 13 escravos do rei, quatro deles a trabalhar na sua construção, e que, entre j unho de
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1511 e setem bro de 1512, eles se reduziram a dez e, depois, a nove e a sete. Em 1516, tendo m orrido o feitor da fortaleza, o seu substituto só recebeu quatro
indivíduos.14 Se o núm ero de escravos fosse grande, não se j ustificaria o cuidado que tom ou, em 1505, o capitão-m or de Sofala, Pero de Anhaia, ao determ inar por escrito que “um escravo m acho negro de idade de vinte anos”, com prado,
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repito, com prado pelo alm oxarife, ficasse a seu serviço. Ou o do feitor
Cristóvão Salem a em dar baixa no inventário do forte, em 15 de agosto de 1518
seguinte, de um escravo de nom e Duarte, que dele fugira.16 Tam pouco teria razão de ser um item dos Regim entos de Sofala, de 1530, no qual se diz que, “sendo necessário alguns escravos para serviço da casa, o (...) feitor resgatará aqueles que vir que cum prem segundo a necessidade que disso houver, de
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m aneira que à m íngua deles não deixe a dita casa de ser bem servida”.
Os núm eros acim a referem -se aos escravos de propriedade real. Devia haver m ais nas m ãos dos particulares. Dentro e fora da área m urada. Mas não seriam , na prim eira m etade do século XVI, num erosos. Pelo m enos é nessa direção que nos enviam os docum entos. Um exem plo: na descrição dos estragos causados por um grande vendaval em Sofala, em 1516, o capitão português com unica a el-rei que haviam m orrido cinco escravas (duas da Coroa e três do feitor) e um
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escravo de um j ovem fidalgo. Na m esm a época, devia ser pequeno o núm ero
de escravos que labutavam dentro das fortificações lusitanas da ilha de Moçam bique, pois, se ali serviam com o intérpretes e serventes do hospital e dos depósitos de m ercadorias, contratavam -se pessoas livres para rem ar barcos,
serrar m adeira, fazer carvão e carregar fardos.19 Tam bém em Sofala se pagavam por tarefa os negros que levavam m adeira para o forte e telhas e
m arfim para dentro dos barcos. 20
Cada um desses estabelecim entos possuía, onde os solos fossem propícios, roças cultivadas por escravos. Na m aior parte dos casos, no continente, defronte à ilha onde ficava o em pório. Já era assim entre os m uçulm anos, e os portugueses com eles aprenderam . Prim eiro, no litoral. Depois, ao longo das rotas para o interior. Pois sabem os que os m ercadores suaílis se faziam acom panhar, em seus entrepostos no sertão, por num erosa escravaria, que lhes
servia de guarda, m ascateava em seu nom e e cuidava de suas roças.21
Havia tam bém escravos entre os xonas, m as não constituíam , ao que parece, parcela predom inante da força de trabalho. Não consta, por exem plo, que o m onom otapa e os chefes carangas tivessem então m uitos escravos a labutar em suas terras. Era um regim e de corveia (zunde, em xona) o que alim entava de braços os plantios do rei e dos notáveis. Todos os súditos e dependentes que viviam nas proxim idades tinham de lhes dedicar alguns dias por m ês, e os cabeças de fam ília certam ente se faziam acom panhar não só de suas m ulheres, filhas, filhos, noras e genros, m as tam bém de seus escravos, quando os possuíam .
Era distinta a situação entre os tongas. Tendo sido deslocados das terras altas pelos carangas, eles perderam , nas áreas baixas e infestadas de tsé-tsé, o uso do gado bovino com o reserva e acum ulação de riqueza e poder. O fortalecim ento dos régulos ou m am bos, dos chefes de aldeias e de constelações de aldeias e dos cabeças de linhagem , dependia da quantidade de braços que pudessem pôr na lavouras ou, em últim a análise, do núm ero de suas m ulheres. Não eram , por isso, incom uns entre eles as razias para capturá-las. E a prom essa de que lhes pertenceriam as m oças e as m eninas dos adversários vencidos viria a ser o principal incentivo para que se engaj assem nas forças portuguesas. Entre os tongas, os m ercadores encontravam um bom m ercado para cativas, cuj o único lim ite era a capacidade de pagá-las.
Tam bém os m araves usavam os escravos para aum entar os seus núm eros. E, por isso, podiam cobrar aos grupos que subm etiam ou avassalavam tributos em
escravos. 22 Com o sucedia com tantos outros povos na África. Não leio, contudo, que, no século XVI e início do XVII, eles, os carangas, os suaílis ou os portugueses prom ovessem razias com o fim precípuo de obter escravos. Certam ente cativavam os vencidos cuj as cabeças não cortassem . Faziam cativos e os vendiam — disto não há dúvida —, m as em pequeno núm ero.
Tem os indícios de que eram poucos, nos estabelecim entos portugueses do litoral, os negócios de escravos. São escassas as referências a esse tipo de transação nos textos da época e não envolvem m ais que um , dois ou três indivíduos. Assim , em setem bro de 1517, o feitor de Sofala anotou ter adquirido
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um cativo de nom e Manuel a um m ouro da cidade, Mafam ede Ay ge, e, num
docum ento de 1540, há m enção a dois outros negócios de com pra e venda,
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am bos de um só escravo. Isso não quer dizer que o m ercadej o não tom asse, em certos m om entos, m aior vulto. E que não aguçasse a cupidez de alguns, que
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furtavam m eninotes, para vendê-los aos m ouros ou aos portugueses. Aqui e ali
encontram os alusões à redução ao cativeiro, após expedições punitivas, de m uitas
pessoas, sobretudo m ulheres. 26 E leio que o rei de Portugal proibia, em Sofala, a qualquer outro súdito que não o seu feitor o exercício do com ércio, m encionando
expressam ente o de escravos.27 Ao iniciar-se o século XVII, no entanto, ainda deviam ser de pouca m onta as transações envolvendo escravos nos entrepostos lusitanos do litoral, e m enor ainda o tráfico para fora da Azânia. Mesm o assim , em 1608, o soberano português, após m encionar ter havido um indesej ável aum ento do núm ero de escravos negros em Goa, vedava que fossem eles m andados de Moçam bique para a Índia, por serem “boçais e atrevidos”. Que os
pusessem a rem ar nas galés — ordenava,28 e a ordem só faz sentido se não se contassem , para em barque, em cada feitoria, por m uitas dezenas.
Não sendo grande a dem anda nos portos africanos do Índico, distribuíam -se pelo interior os cativos produzidos pelas guerras que lá se sucediam . E para eles havia nos enclaves portugueses um bom m ercado. O grosso, porém , dissolvia-se na cham ada escravidão dom éstica e ia aum entar a força de trabalho das linhagens africanas.
Não se fazia então a guerra pelo escravo, insisto. Este resultava de encontros arm ados que tinham origem política. Na am pla área banhada pelo Zam beze e seus afluentes (a que os portugueses por m uito tem po cham aram Rios de Sena e, depois, se tornou conhecida com o Zam bézia), a segunda m etade do século XVI e a prim eira do XVII assistiram aos expansionism os conflitantes dos carangas e dos m araves; à crescente resistência de outros povos a esses avanços; a várias tentativas, algum as das quais bem -sucedidas, de rom pim ento de vassalagens e de secessão nos cham ados im périos; à continuação do conflito entre os m onom otapas e os changam iras; às disputas arm adas entre distintos líderes m araves; à introm issão portuguesa; e, naturalm ente, a repetidas lutas sucessórias dentro das várias estruturas de poder.
Nas m onarquias xonas carangas do Monom otapa, Barué e Teve, regia o sistem a de sucessão colateral. Morto o soberano, sucedia-lhe o irm ão, e a este, um outro irm ão, até chegar-se ao últim o; o direito, então, recaía sobre o prim eiro filho do prim eiro m onarca, e depois, ao do segundo, e assim por diante. Com o cada rei tinha m uitas m ulheres e nem sem pre se lograva estabelecer a prioridade nos nascim entos — várias esposas podiam parir na m esm a época —, os conflitos de precedência eram com uns, e cada príncipe procurava m ontar, desde cedo, o seu partido. Além de m ultiplicar as linhas de descendência das quais podia sair o m onom otapa, o sistem a tendia a ter com o candidatos ao poder pessoas j á velhas, nem sem pre com forças para sustentar pelas arm as as suas pretensões. E era pelas arm as, e não pelas regras, que os pleitos sucessórios acabavam por decidir-se.
Em m uitas dessas disputas im iscuíam -se os estados vizinhos, o que contribuía para enredá-las. Elas, porém , se com plicaram ainda m ais, com a crescente ingerência portuguesa e com a difusão de suas técnicas de guerra.
Não tenho dúvidas de que as arm as de fogo davam , nos com bates, vantagem aos que as possuíam e sabiam usar. Não que os tornassem invencíveis, nem que
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lhes concedesse um a superioridade esm agadora. Perm itiam , no entanto, que
forças pequenas se opusessem a grandes m assas hum anas, com o se viu nas batalhas de Francisco Barreto contra os m ongazes. Nas fissuras das tranqueiras e no alto das m uralhas de terra, as arm as de fogo tornavam essas fortificações quase inexpugnáveis. E constituíam , no m eio de um grande exército m unido de arcos, azagaias, lanças e porretes, um núcleo de ataque poderoso, com o se provaria nas cam panhas m ilitares do m onom otapa Gatsi Rusere (Gatse Lucere, Gace Lucere ou Gasse Lucere). Não só ele m as os seus adversários e os dem ais líderes da região cedo com preenderam quão im portante era contar com o apoio de artilheiros e arcabuzeiros. Tudo fizeram por isso, com a consequência, talvez por eles inesperada, de que acabaram por se tornar reféns dos portugueses.
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Esse Gatsi Rusere sucedera ao m onom otapa Negom o, entre 1586 e 1589. Não sabem os se a passagem foi pacífica, porém o m ais provável é que tenha sido conflituosa e que os ressentim entos dela resultantes estej am na base das
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guerras dom ésticas que atorm entaram o seu reinado. Há quem as atribua, entretanto, ao com portam ento im pulsivo e atrabiliário do novo m onom otapa, cuj as decisões im pensadas convidavam ao desastre. E não falta quem j ulgue que
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isso se deveu a ser ele um desequilibrado m ental ou um adicto à m aconha.
O que consta é que Gatsi Rusere alienou o apoio da m aior parte da nobreza caranga, ao m andar executar, num ataque de raiva, um tio seu, que era a segunda pessoa m ais poderosa do reino, o ningom oxa (nengom acha ou negom ascha), logo após haver este vencido os m araves de Capam po. Malgrado a vitória, Gatsi ficara furioso por não ter o ningom oxa perseguido e aprisionado Capam po. É possível, porém , que haj a usado esse pretexto para livrar-se de quem tinha com o com petidor ou para desforrar-se de quem não se havia
em penhado em seu favor na disputa sucessória.34
Os grandes do reino não aceitaram a m orte do ningom oxa. Um de seus parentes, Chiraram uro, levantou-se com os tavaras (ou tauaras) do baixo Mazoé. Sentindo-se acossado pelas tropas do m onom otapa, a que se agregaram os portugueses de Massapa, Chiraram uro refugiou-se j unto a um chefe que considerava am igo e foi por ele assassinado. Mas a revolta não se apagou. Assum iu o seu com ando um “pastor de vacas” de Chiraram uro, cham ado Matuzianhe (Matuzevianhe, Matuziany e ou Matuzviany e). Devia ser um chefe im portante, pois tinha o controle do gado real, e pertencia à linhagem nobre do ningom oxa. Em pouco tem po, ele controlava praticam ente as terras do planalto.
Acuado, Gatsi Rusere recorreu aos portugueses. Estes, a princípio, relutaram em apoiá-lo, sobretudo porque Matuzianhe lhes fez sentir que lhes respeitaria a neutralidade. Só depois que o m onom otapa am eaçou atacá-los e expulsá-los, foi que decidiram sair em seu socorro. Para a m udança de posição deve tam bém ter pesado a am bição de Diogo Sim ões Madeira. Esse líder dos com erciantes de Tete tornara-se um a m escla de conquistador europeu e chefe africano, um senhor da guerra, com um grande núm ero de soldados escravos dentro de sua tranqueira e enorm e prestígio entre os tongas da vizinhança. Com seus colegas portugueses e seus guerreiros africanos, ele contribuiu, no correr de 1607, para um a série de vitórias de Gatsi Rusere sobre Matuzianhe. Com o recom pensa, o m onom otapa concedeu-lhe a posse das m inas de ouro, prata e cobre que se encontrassem em suas terras, dádiva que Madeira im ediatam ente transferiu para Felipe II de Portugal e III de Espanha. Além disso, o m onom otapa entregou a Madeira dois de seus filhos, a fim de que fossem educados com o católicos.
A situação m ostrava-se favorável a Gatsi Rusere, quando este tom ou um a nova decisão irrefletida. Em bora estivesse ainda m uito distante de um a vitória sobre Matuzianhe, Gatsi resolveu atacar o estado de Barué e, no cam inho, m atou o sam ungazi tonga. Os tongas de Sam ungazi aliaram -se, então, ao m acom be ou rei de Barué e infligiram ao m onom otapa pesadas derrotas. Matuzianhe aproveitou a ocasião para voltar à ofensiva, acabando por obrigar Gatsi a refugiar-se em Chidim a.
Em j unho de 1609, Madeira saiu em aj uda de Gatsi, com 70 canhões e dois m il africanos. Batalha após batalha, o m onom otapa foi recuperando o Mocaranga. A cada vitória, voltavam a oferecer-lhe vassalagem chefes que antes haviam aderido a Matuzianhe. Até que chegou a vez de o líder rebelde procurar abrigo nas m ontanhas, enquanto Gatsi retom ava a sua antiga capital. De seu refúgio em Matarira, Matuzianhe tentou recuperá-la e só não o conseguiu graças à intervenção dos soldados de Madeira. A partir desse m om ento, Matuzianhe perdeu a força. Obrigado a fugir para Chizinga, foi m orto à traição, por ordem do m onom otapa.
Gatsi Rusere ganhara a guerra, m as ficara com os portugueses dentro de casa. Ainda não findara a luta, e ele j á contava com dez espingardeiros estrangeiros com o sua guarda pessoal. Pouco depois, cancelaria a proibição, até então aplicada de form a estrita, de que os lusitanos entrassem arm ados em seus
dom ínios. 35 E, em seguida, concedeu-lhes a suserania sobre os arredores de Tete e de Sena: a Madeira fez chefe de Inhabanzo (ou Ny am banzou) e entregou Marango a outros portugueses. (Ver o m apa “Da Zam bézia ao Lim popo”.)
Até a sua m orte, no fim de 1623 ou com eço do ano seguinte, Gatsi Rusere procurou im pedir novos avanços dos europeus e recuperar o que antes cedera. Para isso, aproveitou-se das discórdias entre os portugueses de Sena, Tete, Massapa e dem ais feiras, das diferenças de interesses entre, de um lado, os sertanej os, com seus exércitos pessoais de africanos, e, de outro, as autoridades da ilha de Moçam bique e seus prepostos na Zam bézia, dos choques entre a am bição de Madeira e a dos outros aventureiros, e da fixação lusitana pelas m inas de prata de Chicoa ou Chicova. Gatsi Rusere e os seus j am ais negaram a existência dessas m inas e as usaram para conter num a área m arginal do que cham avam im pério a energia dos conquistadores.
Durante a parte final de seu reinado, o m onom otapa não desistiu de cobrar a curva (ou kuruva), o im posto em tecidos que lhe devia, cada ano, o capitão-m or de Moçam bique. Era o pagam ento desse im posto o que assegurava aos portugueses a livre passagem pelos territórios do m onom otapa, bem com o o exercício do com ércio. Diante da teim a dos capitães-m ores de Moçam bique em recusar-se a pagá-lo, Gatsi Rusere m ais de um a vez decretou contra eles a em pata (ou m upeto), ou sej a, o confisco dos bens dos que se encontravam em
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suas terras. Na corte, procurou restaurar o antigo protocolo, que exigia que os
estranhos, descalços e sem chapéu, se deitassem de bruços e se fossem arrastando até o rei, a bater palm as. Aos portugueses, passou a exigir, quando
m enos, que com parecessem sem sapatos e se acocorassem diante dele.37 Em Diogo Sim ões Madeira, seu antigo aliado, passou a ver um contrário e, em duas ocasiões, em 1615 e 1616, deu-lhe com bate arm ado. Da segunda vez, Gatsi aproveitou-se das intrigas entre os lusitanos, aguçada pela chegada de um j uiz, enviado pela Coroa para investigar a questão das m inas de prata. O m agistrado logo se indispôs com os sertanej os e, tornando-se inim igo de Madeira, contra ele pediu a ação m ilitar do m onom otapa. Gatsi obrigou o ex-parceiro a abandonar Chicoa e a refugiar-se nos dom ínios que lhe dera em Inhabanzo. Mas dali tam bém o expulsou, retom ando assim as aldeias ao redor de Tete, que pôs sob chefes carangas.
Os portugueses não desistiam , contudo, das m inas de prata. Tam pouco o m onarca ibérico. Este não se m ostrava propenso a ouvir os conselhos da prudência. Com o aqueles, longos e bem fundam entados, que recebeu de Lisboa,
em 1614, em favor do com ércio e contra a conquista.38 No docum ento, além de m ostrar-se o quão difícil seria aum entar, sem investim entos vultosíssim os, a quantidade de ouro que saía do planalto, argum entava-se que as m inas de prata de Chicoa eram um a fantasia ou um em buste. Se houvesse prata naquelas terras, a prata apareceria, com o o ouro e o m arfim , nas feiras do interior e nos portos do litoral, o que j am ais sucedera. Ao contrário, eram os negros do sertão os que adquiriam as m oedas e correntes de prata trazidas pelos árabes, indianos e europeus àqueles m ercados. A corte preferia acreditar nos relatos vindos da Zam bézia ou da ilha de Moçam bique, nos quais se reafirm ava a certeza das m inas de prata e se garantia ser o Mocaranga a Orfir dos antigos, dela se
retirando pedaços de ouro do tam anho do braço de um hom em . 39
Continuou-se atrás do Potosí africano. Em 1618, um a nova expedição, sob o com ando de Nuno Álvares Pereira, seguia para Chicoa. Ao chegar a Tete, Nuno Álvares endereçou um a em baixada ao m onom otapa, com presentes e a prom essa de pagar-lhe a curva. Gatsi Rusere assentiu na ida da expedição a Chicoa, desde que dela se excluíssem os guerreiros m araves e vários portugueses, entre os quais Sim ões Madeira. Nuno Álvares cum priu com as exigências, m as não foi m ais feliz do que seus predecessores. Não encontrou prata em Chicoa e foi castigado pela m alária e pela hostilidade da gente da
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terra.
A sucessão de Gatsi Rusere foi tum ultuada. Quatro de seus 70 filhos
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apresentaram -se com o candidatos a m onom otapa. E até m esm o os m araves intervieram na disputa.
No prim eiro terço do século XVII, agudizaram -se os conflitos entre os vários centros de poder m araves. Surgira entre eles um novo grande chefe, Muzura. É possível que fosse ele um calonga e procurasse conter as am bições do lundu. Mas há quem pense que ele teria sido, na realidade, o fundador do Estado Calonga e o prim eiro dos chefes deste nom e. Nesse caso, a história tradicional que fazia do calonga o fundador dos reinos m araves e o m ais antigo de todos os soberanos (com suserania real ou ritual sobre os dem ais) seria um a construção ideológica posterior, para j ustificar a suprem acia que, no correr do século, passariam a ter
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esses reis. Um a terceira hipótese é a de que Muzura não seria o prim eiro nem
um dos vários calongas, m as, sim , o criador de um novo Estado m arave.43 Segundo o depoim ento de um contem porâneo, o padre j esuíta Antônio Gom es, Muzura teria com eçado a vida com o capataz de um estabelecim ento português ao sul do Zam beze. Hom em de grande inteligência, energia e vontade, ele atravessou o rio e, na outra banda, graças a seus feitos com o caçador, atraiu um grande núm ero de seguidores, com os quais form ou um exército pessoal, que lhe
perm itiu conquistar vários m icroestados e uni-los num grande reino. 44
Com o quer que tenha sido, j á em 1608 os portugueses recrutavam quatro m il guerreiros de Muzura, para auxiliá-los na luta contra Matuzianhe. E nos anos seguintes, aj udariam Muzura nas lutas contra o lundu e a estabelecer o seu predom ínio sobre os m araves ocidentais.
Os portugueses não buscavam apoio apenas entre a gente de Muzura, m as tam bém entre os guerreiros do lundu e de Undi, um novo Estado m arave, cuj a capital, Mano, ficava do outro lado do Zam beze, frente a Tete. Assim foi, por exem plo, em 1614. Ao que parece, os lusitanos coincidiam com os carangas na determ inação de im pedir que os m araves ocupassem a m enor porção que fosse da m argem direita do rio, m as estavam dispostos a correr o risco de tê-los com o m ercenários em suas tropas. Já Muzura não cedia soldados apenas para obter cortes de tecido e contaria. Ele tinha am bições em relação ao Mocaranga. Tanto assim , que, por volta de 1620, fortem ente instalado ao norte do Zam beze, passou a intervir na m argem sul e a envolver-se na política xona.
Quando da sucessão de Gatsi Rusere, Muzura aliou-se a Chom be, um chefe dos arredores de Chicoa, que havia adquirido um arsenal de arm as de fogo
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superior, segundo Antônio Bocarro, ao de um a feitoria portuguesa. Com a
aj uda de Chom be, Muzura atacou Sena, Tete e o que pôde de territórios carongas,
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m as foi obrigado a retornar à outra banda do rio. O m alogro não o fez desistir.
Em 1628, ele novam ente invadiria, sem êxito, as terras ao sul do Zam beze, e um ano depois novam ente se im iscuiria nas lutas internas dos carangas.
Da disputa pela sucessão de Gatsi Rusere saíra vitorioso um de seus filhos, Inham bo Capararidze (Ny am bu Kapararidze, Caprasine ou Kapransine). Os portugueses, sobretudo os padres dom inicanos, a ele se opuseram desde o início e procuraram fazer rei a um daqueles dois de seus irm ãos que haviam sido entregues a Diogo Sim ões Madeira, recebido no batism o os nom es de Daniel e Filipe e educados com o cristãos em Goa. Vencidos, os portugueses pareceram conform ar-se. Mas tardaram em enviar — só o fizeram em 1628 — um em baixador ao zim baué de Capararidze, para pagar-lhe a curva. Ou porque não esquecera que os brancos lhe haviam sido antagônicos, ou porque ressentira o atraso na prestação do tributo, ou porque o em issário, Jerônim o de Barros,
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com eteu algum deslize de protocolo, Capararidze deu ordem para que fosse executado. E, em seguida, decretou um a em pata, durante a qual foram m ortos vários portugueses, com seus dependentes, servidores e agregados.
Refugiados em suas fortificações, os portugueses prepararam a desforra. Foram reunindo os descontentes com o encam inham ento dado à sucessão de Gatsi Rusere, e com praram aliados com m uitos tecidos, não só entre os tongas, que ressentiam o dom ínio caranga, m as tam bém entre os m araves. Em dezem bro de 1628 e m aio do ano seguinte, os insurretos bateram as tropas de Capararidze e fizeram m onom otapa a Mavura, um irm ão de Gatsi Rusere. O escolhido, que tivera a habilidade de cultivar os m issionários dom inicanos (quase
todos de origem goesa48), tinha bons títulos para reinar. O historiador zim babuense S.I.G. Mudenge chega a sustentar que era ele, com o irm ão de Gatsi, o sucessor legítim o, esbulhado de seu direito com a escolha de
Capararidze.49 Muitos nobres carangas não hesitaram , por isso, em apoiá-lo.
Com a ascensão de Mavura, não term inou o conflito. A guerra civil prolongar-
se-ia por m uitos anos, até a m orte de Mavura, em consequência de um tiro,50 em 1652. Durante toda a contenda, Mavura viu-se obrigado a apoiar-se cada vez m ais nos portugueses, com o que foi alienando os grandes e pequenos chefes carangas.
Já em 1629, Mavura concluía com os lusitanos um acordo em que se tornava form alm ente vassalo do rei de Portugal. Doravante, os portugueses estavam livres para transitar pelos territórios carangas, passavam a ter acesso irrestrito às suas m inas e podiam apresentar-se ante o m onom otapa arm ados, calçados e de chapéu, os em baixadores tendo direito a cadeira, e os dem ais, a sentar-se sobre um a m achira. Aos padres católicos não se punham im pedim entos para pregar onde quisessem . Quanto aos m uçulm anos que ainda viviam na terra, deviam ser expulsos ou m ortos, e seus bens confiscados. Outras disposições cerceavam os poderes do m onom otapa: os portugueses deixavam de estar suj eitos às leis da terra, devendo ser j ulgados pelo “capitão das portas do reino”; este não m ais se subordinava ao m onom otapa, via-se tão som ente com o um funcionário da Coroa portuguesa e, deixando Massapa, passava a residir no zim baué, onde devia ser sem pre ouvido nos assuntos de guerra e paz; os portugueses deixavam de pagar a curva; e ao m onom otapa cabia entregar anualm ente ao capitão de Moçam bique
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três pastas (cerca de 1,28kg ) de ouro, guardando, porém , alguns im postos sobre
o com ércio. 52 Com o se não bastasse, o m onom otapa fez várias doações de terra aos portugueses, com o m ando sobre as aldeias e a gente que nelas viviam . Na ocasião os sertanej os recuperaram os territórios que tinham voltado aos chefes carangas, com a vitória de Gatsi Rusere sobre Diogo Sim ões Madeira, em 1616.
A cessão de terras para uso de forasteiros era prática antiga. Os chefes tinham interesse em que os com erciantes se instalassem entre eles. Por isso, reservavam -lhes para m oradas áreas especiais em seus vilarej os e lhes confiavam glebas para plantio. Àqueles que prestavam serviços im portantes ao chefe, ao régulo ou ao m onom otapa, as doações podiam ser de grandes trechos de terra e nelas estar incluída a vassalagem de seus m oradores.
Desde o início, os portugueses foram recom pensados pela aj uda m ilitar com verdadeiros latifúndios. Em bora devessem ao rei africano a terra recebida, procuraram , portugueses que eram , obter de seu soberano europeu, a partir de não sabem os precisam ente quando, a confirm ação da dádiva e um docum ento que lhes assegurasse o dom ínio ou a posse pela lei lusitana. Na segunda m etade do século XVI, portugueses instalados com o m ercadores nas Querim bas, j á requeriam à Coroa que lhes conferisse os títulos legais sobre aquelas pequeninas
ilhas, produtoras de excelentes panos de algodão.53 Alexandre Lobato inform a-
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nos de que a prim eira doação na Zam bézia em nom e de el-rei seria de 1590, m as talvez a prim eira carta de aforam ento, concedida ao convento de S.
Dom ingos, só date de 1609.55 As ordens religiosas dos j esuítas e dos dom inicanos tornaram -se, aliás, senhoras de grandes extensões de terra na Zam bézia e delas eram supostas retirar os recursos para subsidiar a evangelização.
Aos sertanej os da Zam bézia podia aplicar-se, adaptada, aquela classificação
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de Capistrano de Abreu para os prim eiros colonizadores do Brasil. Havia os
que se africanizavam inteiram ente; e, dentre eles, os m ais felizes cortavam e penteavam os cabelos à m aneira xona, repartindo-os e os am arrando em tufos ou pirocós, com o se fossem vários chifres, os braços cheios de argolas, as peles de felinos a descerem dos om bros e a se arrastarem no chão. Outros resguardavam -se de qualquer influência da terra, cuj a gente desprezavam , e nela procuravam viver com o se continuassem em Portugal. Mas a m aioria ficava entre os dois m undos, m aleável, transigente e conciliadora, a m ultiplicar-se nas fam ílias m ulatas. (Cairia, aliás, no vazio a proibição, constante do acordo de 1529, de que portugueses e m ulatos se instalassem perm anentem ente no Monom otapa, ali possuíssem terras e se casassem com m ulheres carangas e tongas.) Para esses que se m estiçavam culturalm ente, m ais ainda do que para outros tipos de sertanej os, a garantia dos dois senhores, o rei europeu e o rei africano, era razão de tranquilidade. Se o m onom otapa dispunha da terra, o m onarca lusitano dela se considerava dono por disposição papal, descobrim ento e conquista.
Para os portugueses, não havia dúvida sobre esse direito, até porque o m onom otapa transferira por duas vezes o senhorio sobre os seus territórios para a Coroa lusitana: em 1607, quando Gatsi Rusere doou a Sim ões Madeira as m inas que se encontrassem em seus dom ínios, dádiva que o aventureiro passara, com o de seu dever, a Felipe II de Portugal e III de Espanha; e em 1629, ao fazer-se Mavura vassalo do rei ibérico. Já o m onom otapa talvez visse as coisas de outra ótica. Não saberem os j am ais se ele realm ente pretendeu colocar-se sob a suserania de um longínquo e quase abstrato m onarca português, de quem , aliás, pouco sabia, ou se apenas prestava hom enagem a um bom aliado ou lhe penhorava a am izade. Das negociações então realizadas só tem os as versões portuguesas. Processavam -se elas entre pessoas com um conhecim ento im perfeito ou da língua xixona ou do idiom a português, ou por m eio de intérpretes propensos, na m aioria das vezes, a agradar aos dois lados e a traduzir as palavras de um com aquelas que o outro esperava.
Os títulos em itidos pela Coroa portuguesa eram contratos de enfiteuse por três vidas, com o habitual desde as Ordenações Afonsinas. Após a m orte do terceiro titular, ou sej a, do segundo herdeiro, as terras voltavam à Coroa, que podia, porém , renovar na m esm a fam ília o aforam ento. Um a ordenação régia de 14 de fevereiro de 1626, para ser aplicada no Estado da Índia e, consequentem ente, nas capitanias de Moçam bique, Sofala e Rios de Sena, estabelecia que o em prazam ento, a partir da segunda vida, devia caber à filha do enfiteuta, desde que se casasse com português nascido no Reino e que tivesse prestado serviços à Coroa. Caso não houvesse filha, a terra podia passar para herdeiro do sexo m asculino, sem pre que tam bém tivesse servido por alguns anos a el-rei. Não havia, assim , com o destaca José Capela, obrigatoriedade de dar-se a herança
pela via fem inina, nem as prim eiras nom eações foram só de m ulheres, 57 até m esm o porque algum as destas tiveram por endereço a Com panhia de Jesus e a ordem dom inicana. Com o tem po, porém , tornou-se habitual, no caso dos aforam entos que não eram eclesiásticos, a transferência de m ulher em m ulher, ainda que o com ando das terras pudesse ser exercido pelos m aridos, o que, no início, nem sem pre foi o caso e, m ais tarde, se tornaria exceção.
O propósito do texto legal era evidentem ente colonizar os cham ados Rios de Sena por portugueses de origem europeia, tendo por isca um casam ento rico. Procurou-se aplicar à região, sobretudo a partir do vice-reinado do conde de
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Alvor (de 1678 a 1686), o que dera certo no Estado da Índia, com as cham adas
m ercês nupciais, que consistiam em dar lugares de escrivão, feitor ou capitão de fortaleza, ou conceder tenças, privilégios com erciais ou outras vantagens lucrativas àquele que se casasse com viúva ou órfã de um servidor com o qual a Coroa se j ulgava m oralm ente obrigada. Em Baçaim e Dam ão, a m ercê dotal
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tom ou a form a de aforam ento em três vidas de um a ou m ais aldeias.
Ao longo do Zam beze, esses aforam entos passaram a ser conhecidos, no século XVIII, com o “prazos da Coroa”, e os seus detentores, com o “prazeiros” ou “prazeiras”. As últim as, quando recebiam a m ercê direta-m ente do rei português ou de seu representante, eram em geral europeias — um a ou outra podia ser luso-indiana — e até de estirpe nobre. Mas j á as que herdavam a segunda vida eram m uitas vezes filhas de portugueses com africanas — m ulatas, portanto. O m estiçam ento foi-se acentuando de geração em geração, pois, por falta de candidatos europeus, essas prazeiras, “donas” ou “sinharas” se foram casando com portugueses da Índia, com goeses e outros indianos e com os rebentos m ulatos dos sertanej os reinóis. Muitas delas im itavam os hom ens e tinham vários parceiros sexuais africanos, sendo tam bém responsáveis pelo
constante aum ento do que viria a ser a elite m ulata ou m uzunga.60
O senhorio dos prazos não dem orou, portanto, em africanizar-se no sangue. Sendo um a instituição europeia — com a qual se consolidou, no século XVII, a presença portuguesa na m argem sul do Zam beze, a j usante de Chicoa —, ela foi, desde o início, tam bém africana. Aforam ento para os europeus, era um m ogano para os xonas e os tongas. Quem o detinha, sendo um súdito ou súdita do rei de Portugal e devendo pôr-se com suas arm as às ordens do seu representante nos Rios de Sena, na ilha de Moçam bique ou em Sofala, tinha tam bém a obrigação, em caso de guerra, de acudir ao rei, régulo ou chefe africano que lhe cedera as terras. Cum pria, africanam ente, com os ritos religiosos locais, ao assum i-las. Com o de obrigação para quem se tornava um grande chefe. Pois, se para os portugueses era um enfiteuta, para os africanos tornara-se o titular de um a chefia. E com o tal devia e iria com portar-se.
Os prazeiros m antinham roças para seu sustento e de seus dependentes e agregados, m as o uso do geral das terras continuava em m ãos africanas. Estas as trabalhavam para proveito próprio, e a divisão dos lotes entre as fam ílias podia continuar — e, no início, ao que parece, assim era — a ser determ inado pelos m am bos (os régulos), pelos fum os ou encosses (os chefes de um grupo de aldeias) e pelos sam uchas ou m ueneuom uchas (m onom uchas ou os chefes de aldeia), os quais continuavam a recolher os tributos de seus súdi-tos, guardando a parte que lhes cabia e transferindo o resto ao senhor do prazo. As taxas e im postos, que podiam ser pagos em espécie (em m ilhete, galinhas, sal, m adeiras, m el, peixe e carne-seca, panos, cestos, cerâm ica, utensílios de ferro, obj etos de cobre, ouro em pó e m arfim ) e, sobretudo, o tributo anual, m aprere, chipua, m issongo ou m ussuco, form avam parte im portante da renda de um m ogano ou prazo, ainda que o seu titular se m ostrasse habitualm ente m ais interessado na exploração dos veios auríferos, na caça ao elefante e ao hipopótam o e no com ércio de seus dentes. Dentro de seus dom ínios — e quanto m aior a extensão das terras e o volum e de gente sob seu governo, m aior o prestígio e o poder —, o prazeiro não se diferençava m uito de um aristocrata caranga a governar tongas ou de um nobre m arave a m andar em cheuas. Alguns exerciam a j ustiça, enquanto que outros a deixavam a cargo dos chefes africanos, podendo, porém , reservar-se a últim a instância nas causas m ais delicadas, e todos tinham direito a serviços pessoais, com o o de ser acom panhado na guerra. Era, aliás, de norm a que contassem com um corpo de soldados, os chicundas (ou achicunda, form a plural de chicunda), que podiam ser escravos ou m ercenários. Neste últim o caso, geralm ente m araves, m uito tem idos por sua reputação de canibais.
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Eis o que caracterizava um prazo: um senhor europeu, goês, luso-indiano ou
m ulato, ou — e esta viria a ser a regra — um a senhora casada com um europeu, goês, luso-indiano ou m ulato, exercia sobre determ inado território e os seus habitantes os privilégios e as prerrogativas que dantes eram apanágio de um chefe africano; esse senhorio, de início, era concedido ao prim eiro prazeiro pelo m onom otapa, pelo quiteve ou outro grande rei, ou dele era tom ado a cano de espingarda; quem o recebia procurava obter do soberano português um título que lhe confirm asse em enfiteuse a posse das terras, m as não era infrequente que deixasse de solicitar essa confirm ação, e nem por isso perdia o controle do território doado pelo rei nativo; os lim ites da doação eram , teoricam ente, o do conj unto de aldeias e terras adj acentes que form avam um a unidade adm inistrativa do reino africano; o novo senhor devia ser reconhecido com o tal pelos fum os e sam uchas, pois, caso contrário, não tinha com o ocupar as terras ou as via serem abandonadas pelos habitantes, sem os quais elas eram de pouco ou nenhum valor; dentro do prazo, continuavam a viver, portanto, livres e da m aneira tradicional, os que dele historicam ente tinham posse, em bora fossem , contraditoriam ente, cham ados “colonos” pelos portugueses; ali tam bém se instalava num erosa escravaria, de origem distinta à da gente da terra, e vinculada diretam ente ao prazeiro, em bora houvesse tam bém escravos que pertenciam aos africanos.
Eram poucos — diga-se logo — os portugueses que chegavam a senhores de terras e de hom ens. Um a grande proporção dos que desem barcavam na África Índica finava-se em pouco tem po, de im paludism o ou de outras enferm idades. Alguns m orriam em com bate. Outros desm oralizavam -se no álcool ou gastavam -se no m ascatear pelo sertão, sem j am ais conseguir um bom pecúlio.
Quando, em 1612, o m onarca ibérico outorgou a Sim ões Madeira o título de um a grande extensão de terra que lhe havia concedido Gatsi Rusere, im pôs-lhe duas condições: a de ficar suj eito ao capitão-m or de Moçam bique ou ao general da conquista dos Rios de Sena, e a de ter sobre ela a j urisdição que determ inasse
o m onom otapa.62 Vinte anos depois, a situação era outra, e a Coroa portuguesa m ostrava-se na Zam bézia com ares de soberana. O m onom otapa deixara de ser tratado com o um grande rei independente, com o um im perador a quem se enviavam em baixadores e que se cum ulava de dádivas. Passara a ser visto com o um cliente e um bárbaro, de quem se esperava tributo e a quem se davam ordens. Os sertanej os, de seus chuam bos e à frente de exércitos particulares, desafiavam os chefes locais ou os arrastavam à vassalagem , am pliavam os seus dom ínios sem autorização do m onom otapa, faziam a guerra uns contra os outros e contra a gente da terra, saqueavam e escravizavam .
A aristocracia caranga não podia deixar de reagir contra essa situação, nem de indignar-se diante do que tinha por subserviência de Mavura. Não só este se curvava diante dos intrusos, m as fizera-se batizar e abandonara a religião tradicional. Ora, era sobre esta que repousava a legitim idade do m onom otapa. Dele esperava-se que ouvisse e consultasse, por m eio de m édiuns, os grandes reis m ortos, e cham asse a chuva, e prom ovesse a fertilidade do solo, do gado e das m ulheres. Muito daquela parcela da nobreza que o apoiara passou a tê-lo por apóstata, e dele se separou, j untando-se, tão logo lhe foi possível, a Capararidze, que, para m uitos carangas, era o verdadeiro m onom otapa.
De seu refúgio, possivelm ente entre os m araves, na m argem esquerda do Zam beze, Capararidze organizou cuidadosam ente um a grande ação m ilitar contra Mavura e os portugueses. Em 1631, os m araves, sob o com ando de um filho de Muzura, atacaram Quelim ane, sem , contudo, ocupá-la, enquanto que os carangas de Capararidze obrigavam os portugueses que não conseguiram surpreender e m atar a se protegerem dentro de suas tranqueiras em Tete, Sena e nas feiras de Massapa, Dam barare e Luanze (ou Ruhange). A guerra estendeu-se a Manica, onde m uitos sertanej os foram trucidados.
Crê-se que os m uçulm anos, que estavam a ser expulsos por Mavura, aliaram -se quase todos a Capararidze. Mas não o dotaram das arm as de fogo, para enfrentar os europeus. Apesar disso, os exércitos de Capararidze castigaram as tropas de Mavura com um a dram ática derrota, na qual essas perderam cerca de 6.400 hom ens, dentre os quais entre 300 e 400 portugueses. Um historiador j á escreveu que, em term o de baixas, esse foi o m aior desastre m ilitar que os
lusitanos tiveram na África Oriental. 63
Em 1632, Diogo de Sousa Meneses assum iu a capitania de Moçam bique, trazendo consigo da Índia 200 m osqueteiros. Sua prim eira iniciativa foi a de livrar Quelim ane do assédio do filho de Muzura. Depois, seguiu com dois m il hom ens para Manica, onde derrotou o chicanga e o substituiu por um títere. Dali, apressou-se para o Mocaranga, reunindo no cam inho m ercenários m araves, chefes tongas ansiosos por se livrarem dos carangas, além de reforços que saíam das tranqueiras dos sertanej os. Com punham esses reforços não só os portugueses e seus filhos m ulatos, m as tam bém os vassalos negros e os soldados-escravos — soldados-escravos que não sofriam , ao que parece, constrangim entos m aiores do que os experim entados pelos guerreiros livres. Foi assim que ele pôde fazer
frente a Capararidze com 300 arcabuzeiros e 12 m il africanos. 64
Na batalha que se seguiu, as tropas de Capararidze foram desbaratadas, m as os vencedores não o conseguiram capturar. Em bora Mazura fosse devolvido a seu zim baué e passasse a ser reconhecido na m aior parte do reino com o o verdadeiro m onom otapa, não deixou de ser atorm entado, até o seu falecim ento, pela am eaça do rival. Não pôde, por isso, em m om ento algum , afrouxar a sua dependência dos portugueses. E estes o vigiavam de perto, pois 30 deles form avam a sua guarda pessoal, cuj a função não era apenas, evidentem ente, a de protegê-lo dos inim igos.
A partir dessa época e por cerca de 50 anos, os portugueses tornaram -se os árbitros das disputas políticas na região. Ao sul do Zam beze, aum entaram em núm ero e em tam anho as terras e as populações controladas pelos sertanej os. Ao norte, im puseram -se os m araves, que não m ais se arriscaram a desafiar a pax lusitana e a cruzar o rio.
Durante a segunda m etade do século XVII, dom inaram a região logo acim a do Zam beze, desde as terras a oeste do lago Maláui até o litoral, três grandes reinos controlados por aristocracias m araves: o Undi, o Lundu e o Calonga. No prim eiro, as populações vassalas eram cheuas; no segundo, m anganj as; e em
todos três, lom ués 65 e m acuas. No ápice, com o um a espécie de rei dos reis, ficava, j á se disse, o calonga, cuj a suprem acia sobre o undi e o lundu era, contudo, m ais form al e ritual do que de verdade. Tam bém o undi e o lundu pouco m andavam em boa parte dos grandes territórios sobre os quais pretendiam exercer a soberania. Cada um desses reis tinha sob si vários régulos e, quanto m ais afastados estes vivessem do calonga, do lundu e do undi, m aior era o grau de autonom ia de que desfrutavam . O chefe da aldeia pagava tributo a seu régulo, e o régulo ao seu rei, e o rei ao calonga. Mas cada qual deixava de fazê-lo, tão logo sentia que o poder do superior se esgarçava ou definhava. Era a am eaça perm anente de intervenção arm ada o que assegurava a débil coesão dessa estrutura política. Tendia ela, aliás, a fragm entar-se, à m edida que se expandia sobre outros povos, de cada unidade derivando novos pequenos estados.
Além dos reinos m araves, form aram -se ou se consolidaram na área outros estados, em boa parte com o reação dos autóctones aos estrangeiros. Ainda que os m araves procurassem incorporar as chefias, os sacerdotes e os ritos religiosos dos locais às suas estruturas de poder, esses arranj os só prevaleceram onde a força os im pôs. Vários grupos j am ais aceitaram a suserania m arave e preferiram deslocar-se para o oriente, onde alguns se uniram sob novos líderes ou sob antigos chefes que se fizeram reis. Entre os m acuas, por exem plo, surgiu, na segunda m etade do Quinhentos, no litoral em frente à ilha de Moçam bique, o reino de Maurusa. Esse novo estado com eçou por hostilizar os portugueses, m as depois procurou, ao que parece sem grande êxito, interm ediar o com ércio de m arfim entre o sertão e o litoral.