A Manilha e o Libambo
7. Os lançados
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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Os lançados
Em 1445, um certo João Fernandes, escudeiro do Infante D. Henrique, resolveu, de m oto-próprio, desem barcar no Rio do Ouro, para reunir inform ação sobre
aquela e outras terras. 1 Ficou ali sete m eses, a viver com os azenegues, a acom panhá-los, vestido de alquicé, deserto adentro, a erguer tendas, a beber água salobra e leite de cam ela e a com er sem entes, lagartos e gafanhotos torrados ao sol. Mas não foi nem se sentiu m altratado. Tanto que subiu à caravela
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de Antão Gonçalves, que o recolheu, “bem pensado e gordo”.
João Fernandes talvez não tenha sido o prim eiro português a descer em chão africano, para recolher inform ações ou para tentar estabelecer pontos de aguada e refresco. O que é certo é que foram m uitos, após ele, os que as caravelas deixaram , por algum tem po ou para sem pre, nas praias da África, da Ásia e da Am érica. Alguns ficavam por dever; outros, para cum prir pena de degredo; este, por crim e a bordo ou rebeldia; aquele, na esperança de encontrar riquezas, por espírito de aventura, para fugir a um destino que antecipava pior, ou para tirar de cim a de si, por ser j udeu, um a pele de cristão-novo que o afligia ou incom odava. Não faltou tam pouco quem fosse j ogado em terra pelos naufrágios.
A m aior parte m orria no prazo de alguns m eses, vitim ada pela m alária, a febre am arela ou as diarreias. As enferm idades m atavam não apenas os que eram deixados na costa da África ou nela se lançavam — daí o nom e, lançados, que tom ariam —, m as tam bém os m arinheiros dos barcos que se achegavam ao continente, os funcionários e soldados que guarneciam os fortes e outros que cum priam m issões oficiais. Os relatos dos séculos XV a XIX estão cheios dessas m ortes. Mas, para m ostrar quão perigoso era andar por aquelas terras da Senegâm bia, dos Rios da Guiné, da Costa do Ouro e da que viria a ser cham ada Costa dos Escravos, cito um só caso: o que nos conta João de Barros, no capítulo
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XI do Livro III da sua Prim eira Década. Tendo o rei D. João II decidido enviar um a em baixada ao m ansa do Mali, subiram o Gâm bia oito portugueses, à frente dos quais iam Rodrigo Rabelo, Pero Reinel e João Colaço. Dos oito, só escapou com vida Pero Reinel, “por ser hom em costum ado andar naquelas partes; e os m ais faleceram de doença”.
Os poucos que sobreviviam aos prim eiros dois ou três anos criavam certas resistências às m oléstias tropicais. Acostum avam -se à terra. Aprendiam a defender-se. Em bora não soubessem com o as sezões eram transm itidas, tinham por insalubres as áreas alagadas ou pantanosas e evitavam , quando podiam (e não só por incôm odos), os m osquitos. Deviam de certo m odo intuir que lhes m altratavam a saúde. Do contrário, não diria, do rio Gâm bia, André Álvares d’Alm ada que era “algum tanto enferm o, por causa de ser todo coberto de arvoredo m uito alto, de m aneira que lhe im pede ser lavado dos ventos, e assim
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tem m uitos m osquitos e m elgas”.
Havia os que desciam no continente j á parcialm ente im unizados ou com resistências adquiridas: os nascidos, criados ou com vários anos de m oradia no arquipélago de Cabo Verde. Em bora o im paludism o, a febre am arela e as disenterias afligissem os seus habitantes, a incidência dessas m azelas era, nas ilhas, abrandada — se é que posso usar a palavra — pelo clim a quase desértico. Talvez porque sobrevivessem em m aior núm ero e por m ais tem po, os cabo-verdianos com eçaram a predom inar entre os funcionários da Coroa com encargos no continente e entre os aventureiros que ali tentavam a fortuna.
As ilhas de Cabo Verde com eçaram a ser povoadas em 1462. Com portugueses e com africanos trazidos, com o escravos, da África. Os textos do Quinhentos não referem habitantes nas ilhas, quando chegaram as caravelas. Sobre a de Santiago, Diogo Gom es é categórico: “Nenhum indício de hom em
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vim os ali.” Estavam vazias de gente. Assim tam bém pareceu a Cadam osto, se é
que este realm ente lá esteve e na de Boa Vista.6 Os seus m arinheiros, que teriam descido em terra, lá só encontraram um a grande quantidade de pom bos, “os quais se deixavam apanhar à m ão, não sabendo que coisa fosse o hom em ”. Se Cadam osto, com o asseveram alguns, não descobriu o arquipélago, pôs, contudo, no seu texto o que se considerava, na época, por provado e certo: que as ilhas
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eram desabitadas.
A tese de que, antes do desem barque dos europeus, j á viviam africanos em Santiago, parece ter surgido no fim do século XVIII. Um autor anônim o, por volta de 1784, escreveu que a ilha fora povoada por um rei j alofo e seus acom panhantes. Estes, para fugir de sublevados, em barcaram num a alm adia,
que os ventos de um a tem pestade levaram para lá. 8 Pouco depois desse texto, um brasileiro, o naturalista João da Silva Feij ó, que o m inistro Martinho de Melo e Castro m andara, em 1783, fazer trabalhos de investigação científica no arquipélago, reiterou a teoria. Logo no início de seu ensaio sobre Cabo Verde,
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publicado pela prim eira vez num j ornal do Rio de Janeiro, Feij ó afirm a que na ilha de Santiago viviam , antes dos portugueses, negros j alofos, que para ali haviam passado, fugindo à perseguição dos felupes “e lançados pelas brisas e
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correntes para oeste”. Essas im prováveis viagens de canoas, e ainda m ais à
deriva, por 500km de m ar forte foram encam padas por Antônio Pusich11 (que se
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apropriou de quase todo o texto de Feij ó) e por J. Carlos de Chelm icki e
Francisco Adolfo de Varnhagen.13 De onde as tirou Feij ó? Do texto setecentista sem assinatura? De sua im aginação? De outros escritos, um pouco m ais antigos e que não chegaram até nós? Ou as ouviu, com o o autor anônim o, da gente da terra?
Dizem os cabo-verdianos que a pátria deles é, no m eio do Atlântico, um prolongam ento do deserto do Saara. Seria m enos árida no século XV, antes dos estragos que à sua vegetação, j á paupérrim a, fizeram as cabras e os hom ens que para lá foram levados. Em algum as das dez ilhas e nos ilhotes, não há água, ou
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esta é escassa e salobra, com o se apressou em anotar Valentim Fernandes. (Ver o m apa “Arquipélago de Cabo Verde”.) Mesm o as m ais dotadas — as de Santiago, Santo Antão e Brava — apenas possuem uns poucos ribeiros ou riachinhos, que ressecam , finda a curta estação das chuvas. Estas são irregulares e violentas. E anos há em que são raras ou sim plesm ente não caem — os anos das grandes secas. Com o se não bastasse, em quase todos os j aneiros e fevereiros, sopram de além -m ar as ardentes lestadas — o harm atã com a poeira
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do Saara — e crestam o pasto e destroem as plantações.
Não m ostrava o arquipélago m aior atrativo ao povoam ento, exceto o de ficar defronte à Guiné e poder ser utilizado com o base para o com ércio com o continente, livre dos constrangim entos dos reis africanos. Ali, nos portos da ilha de Santiago, podiam parar, tranquila e dem oradam ente, os navios, para beber água, abastecer-se de víveres e arm azenar carga. As ilhas eram salubres ou, pelo m enos, o foram , até que os prim eiros povoadores, brancos e negros, livres e escravos, chegaram com suas doenças. Em Valentim Fernandes, atribui-se aos
africanos o terem trazido para o arquipélago as m azelas de suas terras.16 Trouxeram -nas involuntariam ente, com certeza, m as a principal responsabilidade pela m alária, por exem plo, deve ter cabido aos navios portugueses, em cuj o boj o e m astreação teriam vindo os m osquitos infectados.
Não tardou m uito e com eçou-se a explorar a urzela, abundante no arquipélago, e o sangue de drago, e a experim entar os solos, nos quais se cultivaram arroz, figos, uvas e m elões. E tam bém algodão. Na ilha de Santiago. E depois, na do Fogo. Soltaram -se cabras, vacas e cavalos — os cavalos que, m ais tarde, seriam trocados, na terra firm e, por escravos. Excetuados o sangue de drago e a urzela, que seguiam para a Europa, as dem ais atividades estavam a serviço do com ércio com a Guiné. O arquipélago tornar-se-ia, prim eiro, um a grande feitoria, m ais segura do que as de Arguim e São Jorge da Mina, e, com a chegada dos europeus à Am érica, num a im portante escala transatlântica. Ali, os espanhóis iriam buscar escravos para seus estabelecim entos nas Antilhas e no continente am ericano. E ali passariam a parar navios que ligavam Portugal ao Brasil.
Excetuados os cristãos-novos, aflitos por escaparem dos controles e vexam es da Igrej a católica e dos poderes públicos, não m ais que um ou outro indivíduo, de sangue aventureiro, se abalançaria a sair de sua terra, a em barcar num a caravela e a descer num a ilha árida em pleno Mar-Oceano, para nela plantar couves ou vinhedos e criar gado ou aves de capoeira. Saía-se da pátria a fim de m udar, e para m elhor, de vida. E, se possível, enriquecer. E enriquecer, para m uitos, significava achar ouro, pilhar ouro ou com erciar com ouro. O ouro que havia nas costas da África.
O governo português não dem orou quatro anos para com preender isso e para estim ar o valor estratégico e com ercial do arquipélago. Já em 12 de j unho de 1466, tornou pública um a carta régia, na qual, com o obj etivo de estim ular o povoam ento da ilha de Santiago, concedia aos seus m oradores autorização para
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com erciarem na Costa da Guiné. Dessa graça excluía-se a venda de arm as e
ferram entas e de navios e seus aparelhos. Era, sem dúvida, um grande privilégio, pois sendo os negócios nos litorais da África de exclusividade régia, só podia ali
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atuar quem estivesse m unido de licença. Não se confunda, porém , a livre autorização com m onopólio. Navios de outras origens podiam traficar na costa africana, sem serem im pedidos ou apresados pelas caravelas portuguesas, desde que detentores de autorização da Corte ou daquele a quem esta havia vendido a
concessão.19
A iniciativa teve êxito. Em bora ficassem fora dela as duas m elhores áreas do com ércio do ouro, Arguim e Serra Leoa — a Serra Leoa de onde saía pouco ouro, m as de finíssim a qualidade —, sem pre era possível obter-se o desej ado m etal no rio Gâm bia. Além disso, em toda a região dos Rios da Guiné em barcavam -se escravos — os escravos essenciais ao povoam ento do arquipélago e ao seu com ércio. Por escravos trocavam -se, no porto da Ribeira Grande, na ilha de Santiago, os bens vindos da Europa (alim entos, bebidas, ferram entas e tecidos) para o abastecim ento de seus m oradores. Lá, transbordavam as m ercadorias com que se com pravam cativos na costa da África. E estes lá descansavam , antes de em preender as longas viagens para Portugal ou para as Índias de Castela. Pelos tratados entre os dois reinos ibéricos, os castelhanos não podiam resgatar diretam ente escravos nos litorais africanos, m as não estavam im pedidos de adquiri-los em Santiago — e o fizeram em grande núm ero.
O com ércio com a Guiné povoou Santiago. De europeus e de africanos. Aqueles, fossem de “sangue lim po” ou cristãos-novos, chegavam quase sem pre sem as m ulheres. E destas, as poucas que desceram desacom panhadas dos navios, ou eram órfãs, ou enj eitadas, ou vinham cum prir castigo de degredo. Não se pense que as degredadas seriam sem pre, aos olhos de hoj e, m ulheres-de-m á-vida ou crim inosas; a pena correspondia frequentem ente a delitos que tem os dificuldade em aceitar com o tais. Vej a-se o caso de Inês Pires, para o qual creio que vale a pena abrir este parêntese.
(Inês Pires tinha, em 1480, 14 anos de idade, e seus pais a casaram , “por palavras de presente, com o m anda a Santa Igrej a de Rom a”, com João Marinho, escudeiro do Infante D. Fernando. Não chegou ela a m orar com o m arido, porque este, tendo-se envolvido num crim e, foi preso e deportado por cinco anos. O pai e a m ãe levaram -na, prim eiro, para o arquipélago de Cabo Verde e, depois, para a ilha da Madeira. Ali souberam que João Marinho tinha perecido na Costa da Mina e, não tendo m ais notícias dele, casaram -na de novo, desta vez com Afonso Ram alho. Tendo este m orrido poucos anos depois, voltaram a casá-la com Martim Anes, que se dizia criado de D. Pedro, duque de Bragança. Nisso, reapareceu em Portugal o prim eiro m arido, que estava vivo. Sabedor de que sua esposa vivia na Madeira, para lá foi, onde a encontrou na com panhia de Martim Anes. Não hesitou: recorreu à Justiça, que m andou prender o casal e degredá-lo para Cabo Verde. Havendo Inês Pires dirigido súplica ao rei D. João II, este a inocentou de concubinagem e repetida bigam ia, com a condição de que ela e
João Marinho passassem a viver j untos.20)
Da África trouxeram -se para Cabo Verde não som ente hom ens, m as tam bém m ulheres, com as quais se am asiaram os portugueses. Essas uniões foram tão com uns que, antes de findar o século, os m estiços j á se destacavam na paisagem da ilha de Santiago. Cem anos m ais tarde, eles seriam de tal form a visíveis, que alarm ariam a Coroa. Esta reagiu e, por alvará de 1610, determ inou que fossem em barcadas “para Cabo Verde as m ulheres que se costum avam degredar para o Brasil”, a fim de que, no arquipélago, se extinguisse, “quanto possível, a raça de
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m ulatos”, de cuj a fidelidade se duvidava.
No últim o terço do século XV, o núm ero e a idade desses m estiços não seriam ainda de despertar receios no Reino, m as este j á se dava conta de que os habitantes de Santiago estavam rapidam ente desenvolvendo interesses m ercantis próprios, que não se coadunavam com os da Coroa. Os privilégios concedidos pela carta régia de 12 de j unho de 1466 haviam em purrado um a boa quantidade de gente para a ilha e, m enos de seis anos depois, j á não m ais pareciam necessários a Lisboa. O que cum pria, doravante, era im pedir que os m oradores de Santiago, que detinham as vantagens da proxim idade e da segurança de arm azenam ento, se apoderassem do com ércio com o continente africano e prej udicassem a Coroa e aqueles a quem ela o havia arrendado. O golpe inicial contra eles foi dado em 8 de fevereiro de 1472. Num a declaração interpretadora e lim itativa da carta de 1466, o rei Afonso V deixou claro, prim eiro, que essa só se aplicava “àquelas partes que eram sabidas e descobertas (...) ao tem po em que o dito privilégio” fora concedido, ficando dele excluído não só Arguim e a Serra Leoa, m as tam bém a Mina e as áreas da Guiné arrendadas a Fernão Lopes; segundo, que os navios para aquele tráfico só podiam ser arm ados na ilha de Santiago e dela sair; terceiro, que só era lícito levar para escam bo no continente o que se produzisse no arquipélago (ou sej a, algodão e cavalos); e quarto, que os barcos provenientes da Guiné só podiam descarregar naquela
ilha. 22
Nesse texto, há um a passagem que parece anunciar o que viria m ais tarde. Nela, diz el-rei que só outorgou o privilégio, a fim de que os m oradores das ilhas de Cabo Verde pudessem adquirir no continente “escravos, escravas, m achos e
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fêm eas para seus serviços e ser azo para sua m elhor vivenda e boa povoação”. A conclusão a tirar só podia ser um a: os cativos que se resgatassem nos Rios da Guiné destinavam -se ao uso no arquipélago e não deviam dali ser exportados. Mas, apesar disso, os negócios de escravos continuaram a ser praticados na ilha, com portugueses e castelhanos. Os m oradores iam buscá-los no Senegal, na Casam ansa, no Gâm bia, no rio de São Dom ingos (ou Cacheu), na ria ou canal do rio Grande (ou Geba) e onde pudessem ancorar sem dar na vista, e depois de os trazerem para Ribeira Grande, os enviavam para a península Ibérica ou para as ilhas atlânticas.
Só 40 anos m ais tarde, a Coroa portuguesa reclam aria o controle direto desse com ércio. Em 24 de outubro de 1512, um alvará determ inava que os escravos oriundos dos tratos da Guiné não poderiam descer senão em Lisboa. Assim , quer os destinados aos trabalhos nas ilhas, quer aqueles que se recolhiam para as Am éricas, teriam de passar prim eiro por Portugal. O desalento e a revolta do povo de Santiago diante desse alvará tom aram form a num a petição que
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conhecem os. Se aplicado, resultaria na ruína da ilha, e tudo o que nela se tinha
feito seria posto a perder. Argum entava-se: nela não se produziam nem pão, nem vinho, nem azeite, nem ferram entas, nem pano de vestir. Tudo lhes traziam os m ercadores de Lisboa, Setúbal, Algarve, Castela, ilhas da Madeira, Açores e Canárias. E eram pagos em escravos, o único bem que queriam , pois para o algodão não tinham m ercado e — não o dizem , m as poderiam ter dito — a urzela e o sangue de drago não chegavam a grande m onta. Vigente o alvará, os habitantes do arquipélago veriam aum entar de form a exorbitante o preço de todos os produtos de que tinham necessidade para sobreviver, e tam bém o dos cativos para consum o próprio, um a vez que, sendo os escravos “m ercadoria perigosa, porque m orrem m uito”, as probabilidades de prej uízos aum entariam com o alongar da viagem da Guiné para Lisboa e de Lisboa para Santiago. Negociar com escravos tornava-se não só m ais arriscado, m as tam bém m ais custoso, pois se m ultiplicavam as despesas com seu transporte, alim entação e vestuário.
Não sabem os com que rigor o alvará foi aplicado. O que, sim , sabem os é que, dois anos m ais tarde, se deu m ais um aperto no torniquete. Vedou-se que se levassem para as ilhas de Cabo Verde, ainda que em trânsito, não só as m ercadorias cuj a venda estava proibida nos litorais africanos (com o ferro, arm as e ferram entas), m as tam bém aqueles produtos que na Costa encontravam pronto m ercado, com o os cauris, as conchas pardas e outros búzios, as especiarias e m anufaturas da Índia, as m anilhas de latão e estanho, as alaquecas, os alam béis, os brocadilhos de Flandres, as capas de Chaul, os panos verm elhos e am arelos, os cam isolões de seda ou de cores e feições apreciadas pelos
negros. 25 Tratava-se evidentem ente de m ais um a tentativa para pôr cobro ao que Portugal tinha por contrabando. Pois os de Santiago não parece que se tenham j am ais lim itado a ter por m oeda de troca apenas algodão e cavalos. Os barcos que vinham ao porto da Ribeira Grande apanhar escravos, lá deixavam m uito daquilo que agora se interditava, com am eaça de grandes castigos. Esses produtos transform avam -se em escravos — e em ouro, couros, gom a, cera, alm íscar, âm bar, índigo e m arfim — nos litorais e nos rios da África. E não apenas no espaço que se estendia do Senegal à Serra Leoa, m as onde quer que pudessem chegar com certa segurança os pequenos veleiros e as canoas dos agentes dos m ercadores da ilha e de seus sócios, parentes, am igos ou, no caso dos cristãos-novos, correligionários em buçados, que se haviam lançado entre os africanos, para, à m aneira de regatões, buscar as oportunidades de com ércio onde estas se encontrassem .
Os que, conform e as circunstâncias, desciam às praias do continente de m ãos abanando, com um sim ples am arrado com alguns artigos trazidos às escondidas, ou com caixas de bens para o escam bo, buscavam , antes de m ais nada, entender-se com a gente da terra. Naquela parte da África — com o, de resto, na m aioria das culturas, em todo o m undo — recebia-se bem o forasteiro. A hospitalidade generosa era a praxe na Guiné, e nisto não destoavam nem m esm o os sanhudos bij agós. Qualquer que fosse o tam anho da povoação, nela sem pre havia um bairro ou, quando m enos, um cantinho reservado aos estrangeiros. Em certos lugares, procurava-se integrar o recém -vindo na com unidade, com o cliente ou protegido de um a pessoa ou de um a linhagem . E em outros — e até em sociedades gerontocráticas, em que os velhos se reservavam a m aioria das m ulheres e geriam parcim oniosam ente os casam entos dos hom ens m ais j ovens, quando não lhes negavam pelo m aior prazo possível o acesso form al ao outro sexo —, ligava-se o adventício a um a esposa. Esta era, geralm ente, a um só tem po, dona de casa, agricultora e com erciante.
O com ércio a retalho, nos m ercados da Senegâm bia e dos Rios da Guiné, bem com o em quase toda a África, era dom inado pelas m ulheres. Com o as grandes feiras m udavam diariam ente de lugar, a cum prir um circuito sem anal de vilarej o em vilarej o, as vendedoras, j á antes do am anhecer, saíam estrada afora, de um a para outra aldeia, com as m erces à cabeça. Argu-tas, experientes e bem -inform adas, elas sabiam o que m elhor se colocava em cada praça e o que ali se adquiria com dem anda certa em outros lugares. Aqui vendiam pim enta e com pravam o inham e que iam oferecer m ais adiante. E lá adquiriam o pano branco, que levavam a tingir, para trocá-lo, depois, por peixe seco noutro m ercado. Arrem atavam em grosso e revendiam em pequenino. Jogavam com os preços, aproveitando-se m uitas vezes de diferenças m ínim as. E não ignoravam as variações de valor que sofriam o ouro, o sal, o escravo, o m arfim , a noz-de-cola e os tecidos m agrebinos, nos tratos com os diulas.
A m obilidade da m ercadora reduzia-se na época das chuvas. Era ela, adem ais, durante parte da vida, tolhida pelas obrigações da m aternidade. Num e noutro caso, ficava im pedida de frequentar os m ercados distantes e obrigada a exercer o com ércio com a aj uda das outras esposas do m arido, das filhas crescidas e das am igas de quem se tornava sócia. Se era a prim eira m ulher de um hom em , a “m ulher grande”, podia controlar as outras (até certos lim ites) e
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pô-las a seu serviço. Mas volvia aos m ercados, com ainda m aior disposição,
quando enviuvava ou se tornava avó — pois das avós se esperava que não tivessem m ais filhos e, em certos grupos, que cessassem de ter contatos sexuais.
Na m aior parte dos casos, a m ulher se m udava, ao casar-se, para o vilarej o e a m orada do m arido. Era com a fam ília dele que passava a conviver quotidianam ente. Mantinha, porém , vivas as relações com o seu povoado, com a sua linhagem . Nas sociedades m atrilineares, ainda que virilocais (com o a m aioria das dos Rios da Guiné), os filhos pertenciam à estirpe da m ãe e não à do pai. Por isso, m al entrados na adolescência, tinham de ser entregues ao irm ão m ais velho da m ãe e passavam a viver longe dela, na aldeia da qual ela saíra, quando do m atrim ônio. Era, aliás, com um que, viúva ou divorciada, a m ulher retornasse à casa de sua infância. Ainda que esta ficasse longe e pertencesse a um a outra nação e a um outro idiom a, a m ulher quase nunca dela se desprendia. E, se boa com erciante, aproveitava esses vínculos para estender até ali a sua atividade.
Por dom inarem os m ercados rurais de alim entos, as m ulheres se beneficiariam da expansão da dem anda resultante de terem as caravelas vivificado econom icam ente as regiões costeiras. Não apenas tinham de trazer, m uitas vezes de longe, m ais m ilhete, m ais arroz, m ais inham es, m ais azeite de dendê, m ais pim enta, m ais legum es, m ais frutas, m ais aves, m ais caça e m ais cabritos, para atender à procura de com unidades que cresciam em núm eros e em exigências, m as tam bém para abastecer os navios dos europeus, sobretudo os negreiros, e os depósitos de escravos. E puseram um a cunha no com ércio transatlântico, ao exportar alim entos para os m ercados de Cabo Verde. Ao estender a área de captação de com estíveis, as m ulheres foram , além disso, desvendando o que ainda não conheciam dos segredos do com ércio a distância e se fazendo íntim as das técnicas de m ercadej o dos bens que m ais lucro davam — o sal, a cola, a cera de abelha, o anil e outras tinturas, o algodão, os panos, os utensílios de cobre, o latão, o ferro e o estanho, as conchas, as contas, o coral, as
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peles e os couros. Foram tam bém consolidando e aprofundando as relações
que m antinham nas feiras com os uângaras: a estes velhos clientes, a que vendiam com idas feitas ou víveres crus, com eçaram a fornecer tam bém alguns dos produtos que m ovim entavam o com ércio a distância.
Ao desposarem as africanas, os portugueses lançados na costa passaram a ter nelas as m elhores m estras e as m elhores sócias. Por m eio delas, estabeleceram vínculos com as estruturas de m ando locais. E, algum as vezes, com o próprio núcleo do poder, pois, entre certos povos m atrilineares do litoral, com o os banhuns, os bij agós e os pepéis, perm itia-se que m ulheres de linhagens aristocráticas se unissem em m atrim ônio aos europeus. Na ria do rio Grande, os habilíssim os m ercadores que eram os chefes beafadas chegavam a prom over
casam entos de suas m ulheres com os lançados.28 Era um a form a de m elhor j ungi-los a seus interesses e de controlar os m ovim entos e o com ércio do estrangeiro. Em contrapartida, o português ganhava status e m aior segurança, abrindo-se para ele um espaço m ais am plo de m ercadej o.
Graças às novas esposas, os portugueses fam iliarizaram -se com os costum es da terra e passaram a viver sem ofendê-los. Tornaram -se fluentes na língua local e capazes tam bém de entender os falares dos povos vizinhos, ou porque pronto se fizeram polígam os, ou porque sua com panheira, nos raros casos em que era a única, dom inava m ais de um idiom a (com o sucede em geral com os africanos). Com as m ulheres, os portugueses aprenderam as regras locais de com pra, distribuição, venda e regateio. Descobriram com o com petir com os m ercadores m andingas, ou aliar-se a eles, na recepção dos produtos que interessavam às caravelas e às naus. E as m ulheres pronto se convenceram de que tam bém m uito tinham o que aprender com os m aridos brancos (e, m ais tarde, m ulatos), no negociar com os europeus. Foram -se, no andar do tem po, aportuguesando, enquanto os m aridos se africanizavam . E, se estes m orriam ou deixavam a África, procuravam , em boa parte dos casos, m anter funcionando, em benefício delas e dos filhos, as estruturas m ercantis que com eles haviam criado. Quase nunca regressavam aos m odos de vida de que tinham saído. Continuavam a ser Donas. E com eçaram , lenta e habilm ente, a construir para elas e sua descendência m estiça um espaço próprio, distinto do tradicional em que se haviam educado, um am biente cultural entre africano e europeu, antecipador e sem ente do que viria a ser o m undo das nharas ou nhanhas, das senoras do rio Gâm bia e das signares do Senegal — todas, palavras derivadas de “senhora”.
O processo de africanização seria m ais rápido e radical naqueles brancos que haviam , à revelia das autoridades portuguesas, escapado dos navios ou das ilhas, para reassum ir sua identidade, para m udar de vida ou negociar por conta própria, do que nos funcionários da Coroa, nos agentes dos seus contratadores ou nos que, em bora particulares, se instalavam na Costa com autorização real. Pois o Estado português arrogava-se a faculdade de conceder perm issão a seus súditos para se estabelecerem por conta própria na Senegâm bia e nos Rios da Guiné, pelo prazo m áxim o de dois anos. Muitos dos que recebiam essa espécie de autorização tem porária deixavam -se, no entanto, lá ficar por longos anos, ignorando as
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disposições reais e descuidados de um controle quase inexistente. Com eçavam
suas carreiras na Costa rigorosam ente dentro da lei, m as em seguida se equiparavam aos que nela clandestinam ente se lançaram .
No início, os lançados, em sua m aioria, não rom peram os contatos com seus patrícios — e devem até ter zelado por m antê-los —, tem perando assim a tendência a ceder aos costum es que os rodeavam . À m edida, porém , que se acentuaram as proibições, os constrangim entos e as perseguições do Estado português, eles foram sendo expelidos da área de autoridade deste e se pondo cada vez m ais sob a proteção e a soberania dos reis africanos.
Aos reis e aristocratas (os j agras dos Rios da Guiné) os lançados deviam a perm issão para instalar-se em terra, e bastava um a palavra deles para terem de ir-se em bora. Eram os j agras, entre os pepéis, banhuns, beafadas e bij agós, os senhores da terra e detinham o poder de redistribuí-la para o uso das diferentes linhagens da com unidade. Em m uitos lugares, os chefes não cediam aos portugueses m ais do que o pedaço de terra indispensável para que nele erguessem casa e depósito. Negavam -lhes solo que pudessem roçar, a fim de
m antê-los dependentes na obtenção de com ida.30 Os chefes controlavam até m esm o os frutos do m ato, que só podiam ser colhidos quando por eles autorizado. Além disso e de m uito m ais, reservavam para si próprios o com ércio de vários
bens, inclusive o de escravos. 31 Sem a boa vontade deles, não tinha futuro a aventura dos lançados. E estes aprenderam cedo não só com o abrigar-se sob a proteção desses todo-poderosos, m as tam bém com o se tornar a eles necessários.
Em m uitos casos, ao se associarem intim am ente aos africanos, os lançados não só m udaram a m aneira de com er, de vestir-se e de m orar, m as adotaram as divindades da terra — sacrificar aos deuses sem pre foi a prim eira m arca da cidadania —, e se deixaram escarificar, e se subm eteram aos rituais sagrados. Talvez por isso tenham recebido, além de “lançado”, um outro nom e: o de “tangom au”, “tangom ano” ou “tangom ão”, palavra de origem incerta, m as que se aplicava, na Serra Leoa do século XVI, a certa linhagem de sacerdotes e
curandeiros.32
Por algum breve tem po, os lançados serviram , voluntária ou involuntariam ente, disso sabendo ou sem o saber, aos interesses com erciais da Coroa portuguesa. E, por longo tem po, perm aneceram vinculados aos m oradores das ilhas de Cabo Verde, com o peças essenciais da m áquina de contrabando e de ludíbrio das proibições reinóis. Pois a engrenagem clandestina de com ércio entre o arquipélago e os litorais africanos se tornou m ais com plexa e azeitada pari passu com o acirram ento das interdições do Estado português. Estas iam sendo editadas um a após outra, na vã tentativa de garantir para a Metrópole o exclusivo dos negócios com a África e dela elim inar a presença cabo-verdiana. Assim , em
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1517, num regim ento de D. Manuel I, determ inou-se que a gente de Santiago
só podia resgatar escravos na Costa para o seu serviço — exclusivam ente para o seu serviço e não m ais para reexportá-los. No m esm o diplom a, proibia-se que negros, ainda que forros, pudessem ser capitães de navio na rota entre a ilha e o continente. Para Antônio Carreira, a m edida expressava o receio de que os hom ens de cor virassem lançados, pois a negros e m ulatos livres era m uito m ais
fácil acolher-se ao continente do que aos cristãos brancos.34 Um ano depois, o aperto definitivo: proibia-se pura e sim plesm ente os habitantes do arquipélago de
irem com erciar na Guiné.35 Logo em seguida, com o que reconhecendo as ligações entre as ilhas e os lançados, reiterava-se o interdito e com etia-se aos reis africanos e aos negros entre os quais os tangom ãos viviam que se apropriassem de seus bens e os m atassem ou os entregassem , contra recom pensa, aos capitães dos navios portugueses, j á que esses hom ens brancos “estavam em tanto desserviço de Deus” e do soberano de Portugal, que disto resultava a
“condenação de suas alm as”.36 Àqueles lançados que quisessem regenerar-se, concedia-se o perdão real e o benefício de poderem voltar de im ediato a Portugal, desde que pagassem dez cruzados ao Hospital de Todos os Santos de Lisboa e perdessem em favor da Coroa a m etade de todos os bens que trouxessem com eles.
De que m uitos regressaram , há indícios claros. Não só foram num erosas as
contribuições de dez cruzados pagas ao Hospital de Todos os Santos,37 com o as m ultas im postas aos retornados constituíram um a fonte de rendim entos passível
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de ser arrendada pela Coroa. A m aioria, porém , preferiu ficar na África. Os
j udeus e cristãos-novos, por estarem ao abrigo de perseguições. Os outros, porque enriqueciam no com ércio ou porque tinham construído um a vida nova na terra de sua escolha. Haviam com eçado a desligar-se do convívio com os portugueses, fossem feitores ou funcionários da Coroa, agentes dos contratadores ou autoridades da ilha de Santiago ou de Cacheu, e se vinculavam cada vez m ais aos africanos e aos seus interesses. Quanto a estes, não tom aram conhecim ento do que lhes havia incum bido o m onarca português e não saíram por aí a m atar e a perseguir lançados. Nenhum dos reis da Senegâm bia, dos Rios da Guiné e da Costa do Ouro se considerava vassalo do soberano português. Este era, para eles, apenas m ais um rei, dos m uitos que havia neste m undo. Pelo que sabiam de seus barcos e das arm as que possuía, m uito estim ariam em o ter por aliado, sobretudo porque vivia longe, m as reagiriam com risadas, se alguém lhes viesse dizer que o rei de Portugal se apregoava “Senhor da Guiné”, pois ali não tinha nem poder nem obediência. Muitos, sobretudo m ais adentro do continente, nos sertões, nem sequer sabiam que existisse. Com o aquele Muham ed ibn Musugu, que João de
Barros dizia ser rei de Songo. Conta-nos o cronista39 que D. João II lhe m andou um a em baixada. Muham ed ouviu com pasm o o recado e reagiu com um a ponta de descrente ironia: nem ele nem seus num erosos antepassados tinham j am ais ouvido falar num rei de Portugal e só conheciam quatro soberanos poderosos: o
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do Iêm en, o de Bagdá, o do Cairo e o do Tacrur (que seria o do Mali).
Tam pouco parece que a gente do arquipélago de Cabo Verde se haj a suj eitado à vontade de D. Manuel, o Venturoso. Continuaram a aparelhar barcos para o tráfico com o continente. E a nele se em brenhar, com o lançados. Só assim se explica haver a Coroa, em 13 de j aneiro de 1520, enum erado, em instruções a um novo feitor de Santiago, as condições em que se podia dar o com ércio com o continente africano. Do papel consta esta cláusula: a fim de evitar-se que os hom ens brancos que m ercadej avam na Guiné lá ficassem com o tangom ãos, todas as pessoas, inclusive os pilotos, deveriam doravante, para poder em barcar, fazer um depósito prévio de determ inada im portância em dinheiro, calculada de
acordo com a sua categoria, para que se vissem obrigadas a retornar.41
Sobre os tangom ãos sabem os, aliás, m uito pouco: os nom es de alguns, no século XVI, e de outros m ais, no XVII, quando j á podiam trabalhar a descoberto, bem com o os sítios onde viviam e traficavam . Não m ais do que isso, a não ser, deste ou daquele, um ou dois traços breves, que não dão para com por um esboço de biografia ou de retrato.
De um certo Pero Moniz, dizem -nos, por exem plo, que fora, na prim eira m etade do Quinhentos, para a ilha de Santiago, com o corregedor da Coroa.
Constava que era cristão-novo, e disso e de várias tratantadas o acusavam .42 Teve a m á sorte de agredir na rua um m ercador. Não tendo com o livrar-se de ser cham ado pela Justiça, escapou, na com panhia do escravo, Mateus, para a Costa da África, deixando para trás fam ília e bens. Na Guiné, ter-se-ia j untado a um a
com unidade de portugueses rej udaizados.43
Não seria esta a única ao longo do litoral e a acom panhar os rios. Sendo-lhes vedado, desde 1496, praticar a fé m osaica nos dom ínios do rei de Portugal, m uitos j udeus, sob a roupagem de conversos cristãos, foram para as ilhas de Cabo Verde e de São Tom é, de onde alguns passaram para o continente. Outros escapuliram dos navios em que serviam ou viaj avam e puseram -se sob a proteção de reis africanos. Foram , em seguida, com pondo redes entre os vários agrupam entos de lançados j udeus — a Inquisição lisboeta desvendou, num a visita a Luanda, em 1596 e 1597, estarem intim am ente conectados os cristãos-novos instalados no reino do Congo com aqueles que viviam com os dem bos e no