A Manilha e o Libambo
5. As caravelas na Senegâmbia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
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As caravelas na Senegâm bia
Ao avistar a prim eira caravela, os que viviam ao sul do que viria a ser Arguim — ponto tido pelos portugueses com o “os confins que dividem a Barbaria do país dos
negros”1 — talvez a tivessem confundido com um a baleia, qual ocorreria m ais tarde aos habitantes do Congo. Ou com um peixe — um peixe enorm e — ou “algum a ave que corria assim , andando por aquele m ar”, conform e escreveu, no penúltim o quartel do século XV, Gom es Eanes da Zurara, na sua Crônica dos
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feitos da Guiné. Quem olhasse da praia um a caravela, bem podia tê-la, com efeito, por um grande pássaro pousado no oceano, as duas velas latinas a sim ularem asas.
De perto, os forasteiros não diferiam m uito dos árabes e dos berberes azenegues do Saara: o m esm o cabelo liso e longo, o m esm o nariz com prido, os m esm os lábios estreitos e um a pele ainda m ais desbotada. Quase tão desbotada quanto a dos albinos. A sua cor m ais se assem elhava à dos espíritos, que são brancos, do que à de gente viva. E pareciam tam bém não ter dedos nos pés, pois a form a das botas e dos sapatos insinuavam neles a falta de artelhos. E com o cheiravam m al os que desciam dos escaleres para a praia! O branco fedia a defunto — e fede a carne podre até hoj e. Naquela época, quando só raram ente se banhavam — e quase nunca nos barcos —, o m au odor dos portugueses devia ser acentuado pelas roupas pesadas, que, nos m arinheiros e soldados, não se trocavam desde o início da viagem . As condições higiênicas nos navios eram m ais do que precárias: os seus cascos tresandavam a urina, fezes, inhaca, ratos m ortos e com ida estragada, e seus tripulantes vinham cheios de pulgas e piolhos.
Os negros que viviam nos litorais do extrem o sudoeste da atual Mauritânia e nas m argens do rio Senegal sabiam de cor as agressões dos cam eleiros do deserto, que lhes arrebatavam crianças, rapazes e, sobretudo, m ulheres. Não deixaram , porém , de assom brar-se com a sem -razão dos ataques que lhes passara a m over aquela gente vinda do m ar. E não som ente a eles, m as tam bém , e antes, aos m ouros do deserto que findava na praia. Os seus ouvidos talvez j á se estivessem acostum ando aos rum ores de que os estrangeiros haviam capturado e conduzido para dentro de suas em barcações pastores pacíficos de cabras e cam elos e, durante a noite ou ao despontar da m adrugada, agredido aldeias e levado em bora os escapados à m orte. Têm pernas rápidas as m ás notícias, e essas eram terríveis.
As terras ao sul de Arguim não eram dom ínio exclusivo dos negros. Estes ali ladeavam os azenegues, em convívio ora pacífico, ora conflituoso, o que explica ter o grande curso d’água a que os portugueses cham aram inicialm ente Nilo — na crença de que fosse um braço ocidental do rio do Egito — tom ado depois o nom e de Çanaga, Çanágua, Saiaga, Sanagá ou Senegal, derivado de Zanaga, Asnaga ou Sanhaj a, que eram outras denom inações dos berberes azenegues.
De um m ar que se tinha por despovoado — ou, em certos pontos da costa, com o a fronteira entre o m undo dos vivos e o dos m ortos — chegavam inim igos im previstos, de cuj a violência eles próprios deixaram am plo registro. A Crônica de Zurara transform a em feitos de honra e coragem — e até lhes em presta bandeira de cruzada — um a série de viagens cuj o m otor parece ter sido a preia de escravos e nas quais as m aiores façanhas eram a caça a gente desprevenida ou fracam ente arm ada. É bem verdade que se considerava, na época, obra piedosa o filhar infiéis para escravos, pois na servidão se converteriam à fé verdadeira, e com o “perfeitam ente honrado” o roubo pelas arm as. Quem disso
tiver dúvida siga o conselho de Vitorino Magalhães Godinho 3 e leia a Crônica do Condestabre ou a Crônica de Dom Pedro de Menezes.
É certo que se desej ava, de início, sequestrar alguns dos habitantes das novas terras, para os ter sobretudo com o sinais delas, de valor sem elhante, em bora m aior, ao das rosas-de-santa-m aria que Gil Eanes levou do cabo Boj ador para o
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Infante D. Henrique. Supunha-se que esses cativos não abrigassem som ente inform ações sobre seus pagos, m as que soubessem tam bém das terras do Preste João, que o paulatino encurvam ento da Costa da Guiné, à m edida que prosseguiam as viagens das caravelas, parecia pôr tão perto. Chegou-se a crer, aliás, que o litoral guineense continuava a arredondar na direção do Egito e da Arábia, o que tornava m ais curto o cam inho para os dom ínios do Preste, as Índias e Catai. Dos prisioneiros esperavam -se tam bém , e com m aior razão, conselhos sobre o acesso às especiarias africanas e ao ouro sudanês, que dera fam a aos reinos de Gana e Mali e do qual os portugueses, com a conquista de Ceuta em 1415, tinham tido certeza, se é que de certeza precisavam . Ceuta era im portante porto do ouro transaariano, m as dela — e foi im ensa a decepção portuguesa — com eçaram a afastar-se as cáfilas, tão logo caiu na posse dos cristãos.
A busca de inform antes confundiu-se, desde as prim eiras viagens, com a cobiça por escravos, fossem m oslins ou pagãos, berberes, canários ou guinéus. O escravo era o bem m ais valioso ao alcance dos navegadores, enquanto não se descobriam os cam inhos para o m etal am arelo. As outras m ercadorias que logravam levar para os barcos, tinham -se com o de m enor preço: gom as, couros de cabra, peles e óleo de leão-m arinho. Era pelos escravos que se esperava no porto algarvio de Lagos — a festa pela chegada das caravelas atingia o auge com a repartição do butim hum ano — e era pelos escravos que os portugueses desciam nas praias africanas. Avistada a presa, estivesse sozinha ou em grupo, havia que deitar as unhas nela e não largá-la, custasse o que custasse.
A história correu a aldeia e ganhou os m ercados. Passara-se próxim o ao delta do Nder — o Senegal dos portugueses. Estava um m orador, encurvado, a cortar m adeira, quando alguém saltou sobre ele e se prendeu com as m ãos aos seus cabelos. O m orador endireitou-se com força. E o serzinho pequeno, m agricela e fedorento, que, pela cor e as feições angulosas, bem podia ser um abantesm a, ficou dele dependurado, os pés longe do chão, a gritar o que podia. Não lhe desgrudava os dedos da gaforinha, apesar dos safanões, dos socos e das m ordidas. Acudiram aos berros cinco outros daqueles estrangeiros, cobertos de panos que lhes apertavam os corpos. Quando agarraram o lenhador pelos braços e pescoço, o serzinho pálido soltou-lhe o cabelo. Livre da dor, o hom em sacudiu os dem ais para os lados e se pôs a correr para dentro do m ato. Pouco depois, saiu, aflito, em busca dos filhos, um m ocinho e um a garota de oito anos. Não os encontrou na cubata onde os deixara. E m al dela recolhera um a arm a, viu, com angústia e fúria, que passeava pela praia, levando na m ão o que parecia um a lança, um outro igual aos atacantes. Arrem eteu contra ele, rasgando-lhe o rosto. E atracaram -se. Estavam nisso, a rolar no chão, quando um com panheiro surgiu de entre as árvores, para aj udar o lenhador. O inesperado reforço perm itiu que os dois nativos fugissem para o m ato, antes que os alcançasse um novo grupo de
estranhos.5 Em lugar seguro, o lenhador deu-se ao desespero, pela falta do rapazola e da m enina, im aginando que tivessem sido capturados pelos desconhecidos. Os dois j á tinham , de fato, sido recolhidos à caravela de Vicente Dias, que acom panhava, com m ais quatro, a de Lançarote. O ano era o de 1445.
O episódio foi m otivo de galhofa nos m ercados, entre aqueles que nada tinham com os desaparecidos, do m esm o m odo que fizera rir os portugueses,
quando os atacantes se recolheram ao navio. 6 Passavam de boca em boca histórias sem elhantes de assaltos a aldeias, de investidas contra pescadores ao longo do litoral, a com eçar por aquela, tam bém de 1445, em que Dinis Fernandes, a quem se deve o nom e do cabo Verde, capturou os quatro negros que foram os prim eiros tom ados em suas próprias terras (em vez de adquiridos aos
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m ouros) a chegar a Portugal.
Não só em razão desses relatos, m as tam bém do espanto que causavam os navios portugueses, m al um deles se avistava, os que viviam j unto à costa, para evitar que os estranhos pusessem pé em terra, tom avam as arm as e se punham a rem ar contra ele. Continham para isso o m edo que lhes devia causar o tam anho das caravelas, de altura e boj o desm esurado para os seus olhos, ainda que elas
não devessem exceder então os 14m de quilha. 8 Com o consequência, os portugueses viram -se repetidas vezes, ao sul do rio Senegal, obrigados à defensiva e com eçaram a contar as suas baixas. Logo de início, as de Nuno Tristão e seus 19 cam aradas, atacados, em 1446, na em bocadura de um rio que tem sido posto, desde o cronista João de Barros, em diferentes pontos da costa: no
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estuário Sine-Salum -Jum bas-Banj ala, na foz do Gâm bia, na do Geba ou
Grande11 ou, ainda m ais abaixo no m apa, na em bocadura do atual Nuno ou
Nuñez. 12 Se o ataque se verificou nos dois prim eiros lugares, os responsáveis pelas flechas envenenadas que m ataram Nuno Tristão e seus com panheiros poderiam ter sido os m andingas do nium im ansa — com o, aliás, afirm ou Diogo Gom es, ao narrar suas recordações de navegador a Martin Behaim (ou Martinho
da Boêm ia),13 e se harm oniza com o que nos disse André Álvares d’Alm ada
sobre a eficácia da peçonha com que esses m andingas untavam suas flechas.14
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Ou, então, os niom incas, os habilíssim os canoeiros, que falam serere, vivem nas ilhas do estuário do Sine-Salum e controlavam o com ércio ao longo da
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cham ada Petite Côte. Se as m ortes, contudo, se deram defronte ao rio Grande
(nom e que por m uito tem po os portugueses deram à ria do Geba) ou ao Nuno, os arqueiros podem ter sido beafadas ou bagas. O que sabem os com quase certeza é que não vieram do arquipélago existente na boca do Geba e que tom ou o nom e
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da gente que o habitava, os bij agós. Prim eiro, por duvidar-se de que estes
usassem flechas ervadas capazes de dar pronta m orte — utilizavam com o ponta
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e peçonha “a espinha de um pescado cham ado Bagre”, que podia abrir chagas
e provocar outros estragos, porém não envenenam ento fulm inante — e, segundo, porque Zurara coloca os agressores em alm adias com pouco m ais de m eia dúzia de pessoas, e as dos bij agós eram quase do com prim ento das caravelas
portuguesas — tal com o as viu Alviste Ca’ da Mosto (ou Cadam osto)20 —, podendo em algum as delas caber trinta pessoas.
Grandes barcos, escavados num só tronco de árvore, não eram incom uns ao longo do Atlântico. Em Valentim Fernandes, são eles m encionados no Senegal,
entre os felupes 21 da Casam ansa e entre a gente da Serra Leoa, com capacidade
para 60, 80 e até cem pessoas. 22 Duarte Pacheco Pereira os viu entre os ij ós, na parte oriental do delta do Níger: subiam e desciam o rio, levando hom ens, vacas,
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cabras e carneiros. Essas canoas enorm es, com até 25m de com prim ento, não
se construíam , na m aior parte dos casos, para as águas do m ar aberto, m as, sim ,
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para rios e lagoas. Destinadas em geral ao com ércio, podiam ser em pregadas
na guerra, em bora, em situações de conflito, se preferissem alm adias m enores,
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por serem m ais estáveis e de m ais fácil m anobra. Com pridas, estreitas e de bordas geralm ente baixas, essas em barcações, fossem grandes ou pequenas, corriam quase afundadas n’água, os seus ocupantes de pernas para fora, a banhá-las no rio ou no m ar. Quando queriam im prim ir-lhes velocidade, os rem eiros
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punham -se de pé. E velocíssim os — o superlativo é de Cadam osto — esses
barcos sabiam ser, para espanto dos europeus, que não com preendiam com o se lograva pôr força e rapidez de ritm o em rem os que não se prendiam com toletes ao corpo do barco.
A dançar sobre as ondas, as alm adias não eram alvos fáceis para as bom bardas e os besteiros portugueses. Todavia isso não lhes dava, nas refregas, um a vantagem decisiva. Sendo altas as caravelas e relativam ente curto o alcance dos arcos, as em barcações dos negros, para lançar flechas contra os conveses portugueses, eram obrigadas a um a aproxim ação que as transform ava em m ira m enos difícil. Por seu lado, ainda que construídas para navegar em águas pouco profundas, não podiam as caravelas acercar-se da costa, num a zona com o a que se estende ao sul do cabo Verde, em que é longo o espraiam ento do fundo do m ar, com num erosos baixios e parcéis a grandes distâncias da terra. No seu em penho em reconhecer o litoral, os portugueses viam -se obrigados a descer das caravelas para batéis que, lerdos, os punham ao alcance das flechas envenenadas dos africanos.
Conheço-as de perto. Tive, em Lagos, na Nigéria, um vigia baixinho e m usculoso, que fazia sua ronda com um pequeno arco e um a alj ava de flechas. Zom bava dos tuaregues em buçados, que guardavam com seus sabres a m inha casa, e daqueles que usavam na cintura arm a de fogo. Dizia não ser difícil escapar-se de tiro ou catanada. Raram ente tinha cura, porém , um só arranhão de um a de suas flechas — e ele, quase a gritar-m e: “Don’t touch it, m aster!”, afastou com um gesto brusco o dedo com que eu quis experim entar, certo dia, o gum e da ponta de ferro. Provavelm ente a ervava, com o de uso em boa parte da África Ocidental, num a m istura cuj o ingrediente básico é o Strophantus hispidus,
capaz de causar a m orte depois de dez a trinta m inutos de entrado no sangue.27 Ao m enor ferim ento, lá se ia o soldado ou o m arinheiro, às vezes antes m esm o de conseguir voltar ao convés de seu navio. Tal com o sucedeu a alguns dos com panheiros de Nuno Tristão.
A caravela lançara âncoras no m ar largo, defronte à foz de um rio. Desej oso
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de explorá-lo — narra Gom es Eanes da Zurara — e de verificar se nele havia
povoações, Nuno m andou baixar dois pequenos batéis. Num em barcaram 12 hom ens; no outro, dez. Seguiam eles, com seu com andante, pela boca do rio, quando foram atacados por 12 alm adias, com uns 70 ou 80 guinéus, “todos negros e com arcos nas m ãos”. Desses arcos com eçaram a m ultiplicar-se as setas sobre os batéis, obrigando à fuga os portugueses, que só a m uito custo conseguiram alcançar o navio, com quatro deles j á m ortos pelo efeito da peçonha que havia nas flechas. Estas os perseguiram a bordo da caravela e, tam anha era “a m ultidão de setas de que eram com batidos”, que não puderam guindar os batéis nem levantar os ferros, tendo de lhes cortar, a uns e outros, as am arras. Dos portugueses que saíram nos botes, só dois se salvaram , por não terem sido atingidos pelas flechas.
Em pouco tem po, o m edo das setas ervadas difundiu-se de um barco a outro. Ganhou os portugueses o receio de entrar nos rios e nas enseadas estreitas. Naquelas costas recortadas e de denso arvoredo, recebiam — com o escreveu
um outro cronista29 — m ais dano dos negros do que lhes faziam , e passaram a tê-los com o adversários m ais difíceis e tem idos do que os m ouros, sobre os quais sem pre levavam vitória. Viram -se os portugueses obrigados a buscar, para guarda e repouso, os pontos desabitados do litoral. Todavia, se queriam conseguir escravos de form a continuada e, m ais ainda, receber ouro ou conhecer os cam inhos que ligavam as praias às m inas auríferas, tinham de trocar a preia pelo com ércio e, para isso, vencendo a cobiça, obedecer à risca a instrução que traziam , desde o início das viagens ao longo da costa da África, de tentar estabelecer relações de confiança com a gente da terra. Forçoso era abafar a ganância de fazer cativos pela surpresa e as arm as. Forçoso era coibir a tentação da rapina.
Doravante, ao chegar a um novo ponto do litoral, a em barcação portuguesa fundeava ao largo. E ali ficava tranquila, com os batéis à sua volta. Com o os da terra, após algum tem po, não sentiam qualquer sinal de hostilidade, punham -se a rem ar, para vê-la de perto. Da caravela ou dos batéis podia chegar, então, entre outros gritos, algum que os africanos entendessem , ou por ser a voz na língua deles, ou em idiom a que não lhes fosse difícil, ainda que incom pletam ente, com preender.
Desde o com eço da expansão atlântica, os portugueses se haviam em penhado em treinar com o intérpretes a m ouros e negros, contando entre estes últim os não só os que haviam capturado em razias, m as tam bém os que obtiveram , por saque ou resgate, nos navios e portos do Mediterrâneo e nos litorais da Mauritânia. Já em 1447, na expedição de Valarte (um dinam arquês a serviço do rei de Portugal, que com andava um navio com tripulantes portugueses), revela-se clara, nos
relatos que dela fizeram Zurara30 31 e João de Barros (este a beber naquele,
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com o confessa explicitam ente ), a im portância do língua para desfazer a
hostilidade e encam inhar as trocas.
Adquiridos ou capturados no Marrocos e na Mauritânia, esses prim eiros turgim ãos (com o se dizia na época) só deviam falar o árabe, algum a ou várias das form as do berbere e, num e noutro caso, do j alofo, do serere, do m andinga ou do fula. Tão logo os portugueses desceram abaixo do Casam ansa, não m ais conseguiram que seus línguas se fizessem entendidos. Por não ter com o se com unicar com a gente do país, Cadam osto, ao chegar ao rio Grande, decidiu
não prosseguir viagem . 33 E com o obj etivo de conseguir novo tipo de intérprete para as terras que teria pela frente, Pedro de Sintra capturou, pouco além do cabo Mesurado (na atual Libéria), um dos três rapazes que se aventuraram , confiantes, a subir à caravela. A esse, j á em Portugal, apresentaram -no a vários outros, sem que um só com preendesse o que dizia. “Finalm ente”, escreve
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Cadam osto, “de um a m ulher negra, escrava de um cidadão de Lisboa, e que tam bém era de terras distantes, foi entendido, não pela sua própria linguagem , m as por um a outra que ele e ela conheciam ”.
Algum a vez, de im previsto, encontrou-se um tradutor num daqueles m oços de bordo, grum etes ou m arinheiros em que se volviam escravos africanos e que raram ente faltaram nos barcos portugueses, desde o século XV. Um deles j á se contava entre os sobreviventes que retornaram a Portugal no navio que fora de
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Nuno Tristão. Com o tem po, esses tripulantes negros, e tam bém m aruj os
m ouros, m alaios e indianos, tornar-se-iam tão com uns nas em barcações portuguesas, que seriam pintados nos biom bos nam ban do fim do Quinhentos, ao lado de outras figuras exóticas para os j aponeses, com o eram os brancos narigudos, de grandes queixos acentuados pelas barbichas afiladas e bom bachas de tufo. Nos biom bos j aponeses, os africanos figuram subindo as enxárcias e no alto dos m astros, abrindo ou recolhendo velas, descendo pelos cabos, balançando-se nas cordas e até m esm o dependurados de cabeça para baixo, a fazer
acrobacias. 36 Em tarefas com o essas, das m ais duras e perigosas nos barcos portugueses, os negros j á seriam em pregados desde m ais de um século; prim eiro, no Atlântico e, depois, no Índico. Ao chegar a um país de seu idiom a, prestavam -se a traço de união entre os que nele viviam e os que vinham no navio.
Isso, naturalm ente, quando as caravelas ancoravam em país para cuj a língua não se trazia intérprete treinado. Em geral, cada navio tinha m ais de um turgim ão negro. Depois de cristianizá-los e de fazê-los fluentes em português, os seus donos os cediam aos navegadores, em troca de um escravo por viagem . Tradutor que
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produzisse quatro cativos para seu proprietário era por este alforriado, com o
que se prem iava um trabalho tido por extrem am ente im portante e não m enos perigoso. Pois o turgim ão era quem prim eiro se dirigia, e algum as vezes sozinho, à gente da terra. Qualquer gesto falso ou m al-entendido, e era um hom em m orto. Com o aquele da tripulação do genovês Antoniotto Usodinare, que viaj ava na com panhia do barco de Cadam osto. Na entrada de um rio entre o Senegal e o Gâm bia, o língua preto foi levado por um batel até quase a m arinha. Desceu antes de chegar ao raso e, na praia, viu-se cercado por africanos. Pouco falou e m enos lhe responderam , pois lhe deram pronta m orte com um as espadas
curtas. 38 (Ver o m apa “A Senegâm bia e a Alta Guiné”.)
Que a paga pelo serviço do intérprete fosse em escravos poderia indicar ser essa a m ercadoria de m aior valor que as caravelas, após m ais de três décadas de viagens (a contar da passagem do cabo Boj ador em 1434), traziam da África. Era tam bém a m ais abundante e de fornecim ento m ais seguro. E continuou a sê-lo, até que os portugueses foram dar, em 1470, às costas da atual Libéria, onde abundava a m alagueta, e, um ano depois, ao que viria a ser o porto aurífero da Mina. Antes disso, aos navegadores — e sobretudo a um veneziano com o Cadam osto, acostum ado à variedade e ao requinte das m ercadorias que desem barcavam em sua cidade natal — o que os africanos lhes levavam nas alm adias parecia quase nada de tão pobre: um pequeno núm ero de dentes de elefante, um bocadinho de ouro, que m al dava para encher o covo da m ão, outro tanto de algália, uns panos de algodão, brancos ou listrados, saídos de tear estreito, um pouco de cera e um cântaro de pim enta, vários tipos de cestos, esteiras e urupem as, m eia dúzia de gam elas de pau, um am arrado de peles, um gato alm iscareiro, alguns filhotes de outros felinos, m uitos m acacos e m uitas aves, com o os 150 papagaios que Cadam osto levou para a Europa e vendeu sem
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Ninguém se espantou quando os hom ens do m ar, logo nos prim eiros encontros, propuseram a troca de um m eninote ali parado por contas de vidro, facas de ferro e tecidos de lã. Foram buscar um outro rapazola que, por ser escravo e não ter nascido na terra, lhes podia ser entregue. E tiveram a transação com o em tudo sem elhante às que se realizavam em seus m ercados.
Dessas prim eiras operações de com pra de escravos pelos portugueses, um a ficou registrada, com data de 1445 — um ano antes, portanto, da m orte de Nuno Tristão. Num sítio que, por sinal, tom ou o nom e de cabo do Resgate, Antão Gonçalves e João Fernandes obtiveram dos m ouros nove pretos contra variada
m ercadoria.40
Que os forasteiros, desde o início, m anifestassem m ais interesse pelos cativos do que por outros bens, pareceu não só aos m ouros, m as tam bém aos chefes negros, um sinal de que lidavam com gente de tino, ainda que sem traquej o social e bons m odos, e com hábeis com erciantes, que sabiam o valor das coisas, pois o escravo, para o j alofo, era a riqueza sobre duas pernas e aum entava o poder de quem dele era dono. Mesm o entre os régulos e chefes que podiam dispor de escravos em núm ero suficiente para atender à dem anda dos navegadores — o Budom el, nom e que dá Cadam osto ao bor, bur ou dam el do Caior, ofereceu-lhe, por exem plo, cem escravos em troca de cavalos com seus
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arreios e algum as outras coisas —, havia, entretanto, quem tivesse dúvidas
sobre o destino dos em barcados à força nos barcos enorm es. Levavam -nos seguram ente para donde tinham vindo. Para além das águas que iam deixando de ser o fim do m undo e se fazendo na im itação de um rio. Mas, na outra m argem , em vez de com os cativos acrescentarem a dependência fam iliar e o núm ero dos que trabalhavam nas suas lavouras, quiçá os estrangeiros os devorassem .
O antropófago é sem pre o outro, o vizinho inim igo, o adversário distante, o estranho que se descobre no desconhecido ou dele chega. Não é de espantar-se, por isso, que sobre os europeus que traficavam no Atlântico se tenha estendido, por quatro séculos, a suspeita de que procuravam cativos para lhes com er a carne — com o gritaram para Cadam osto, de suas alm adias, os guerreiros que o
enfrentaram na foz do Gâm bia42 —, para transform á-los em azeite de cozinha
— com o j á registrava, no início do século XVII, o j esuíta Alonso de Sandoval 43 — ou reduzir os seus ossos a pólvora e fazer com seu sangue tinta verm elha — tal com o declararam , pela m esm a época, escravos de Cartagena de Índias a São
Pedro Claver. 44 As crenças no europeu canibal e no uso que faria do sangue dos negros para tingir roupas (ou preparar o vinho tinto) persistiram em m uitas partes, até pelo m enos o fim do século XIX, pois Gustav Nachtigal as anotou
entre os pagãos que entupiam o acam pam ento do rei de Bagirm i. 45 Não só entre Segu e o Gâm bia, nos últim os anos do Setecentos, com o testem unhou Mungo
Park,46 m as tam bém no Bunioro, seis décadas depois, com o aprendeu John
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Hanning Speke, tinha-se o inglês por antropófago.
As suposições dos africanos sobre o em prego que aos escravos dariam os portugueses não im pediam as vendas. Afinal, o escravo não era m ais gente nem estava vivo de verdade. Ao preferir ser aprisionado a ser abatido, escolhera a m orte sim bólica e a desonra. Recolho das lem branças de um inglês na Libéria esta quase historieta, que bem ilustra o que quero dizer. Um guerreiro m andinga, do alto de seu cavalo, grita para o adversário a pé: “Pare, e será um escravo! Ou
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corra, e será um cadáver!” Ele o punha, na realidade, diante de um a eleição
entre dois tipos de m orte.
Ao não ter sido abatido durante ou após a guerra, a razia, a condenação penal ou a disputa política, o escravizado perdera tudo o que cabe ao hom em e o envolve. Morrera sim bólica e socialm ente, ao ser poupado. E talvez de m odo ainda m ais com pleto do que se rasgado pela lança ou degolado, pois, além de não m ais pertencer a um grupo social, deixara de ter antepassados e descendentes, cortando-se, assim , a sua dim ensão de eternidade. Com o, após seu falecim ento, não tinha quem o lem brasse e por ele fizesse os sacrifícios devidos, a sua própria alm a — isto se acreditava em boa parte da África — pronto se extinguiria.
Porque havia perdido a condição hum ana, ainda que fosse valorizado com o riqueza exatam ente porque continuava a com portar-se e a trabalhar com o m ulher ou hom em , não havia escrúpulo em vendê-lo. A com pra e venda de escravos não era então um a atividade invulgar ao sul do rio Senegal. Os reis j alofos j á forneciam escravos ao Magrebe, antes da chegada dos portugueses. Pelo m enos é o que se depreende de Cadam osto, quando diz, de um daqueles soberanos, que não só utilizava escravos para trabalhar as terras dele, m as tam bém os trocava por cavalos e outras m ercadorias com os azenegues,
senhores das rotas caravaneiras do Saara. 49 Da lança surge o cativo, m as é o com ércio — repito — que faz o escravo. Atrás do soldado com seu laço, corre sem pre, esbaforido, o m ercador. Isto, quando num rei não se confundem os dois. Com o viria a suceder, e talvez j á sucedesse, entre os j alofos.
Os j alofos viviam ao sul do rio Senegal. Form avam um im pério que se estendia, ao longo da costa, até a foz do Gâm bia e era constituído pelo reino do Jalofo propriam ente dito e por províncias ou reinos vassalos, que tinham sido independentes e voltariam a sê-lo: Ualo, Caior, Baol e Sine. No últim o, a população era predom inantem ente serere. Na m etade do século XV, quando
receberam os prim eiros visitantes portugueses, o braque50 ou rei de Ualo, o
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dam el de Caior, o bur ou bor de Sine e o tenhe de Baol estavam subordinados a
um rei dos reis, o burba de Jalofo, ou grão-j alofo, cuj a capital se situava a uns 300km do litoral. Talvez j á então fosse frouxa a vassalagem que os dem ais reis prestavam ao burba. Pagavam -lhe tributos, prestavam -lhe hom enagem , m as agiam politicam ente — supõe-se — com m uita liberdade.
As estruturas sociais j alofas e sereres eram altam ente hierarquizadas.52 No topo, ficavam as fam ílias reais. Logo abaixo, as linhagens aristocratas. Em seguida, os hom ens livres, que form avam o cam pesinato. Depois, ou, m elhor, ao lado, as castas profissionais. E, no chão, a escravaria. Só dentre algum as pouquíssim as fam ílias de príncipes podiam ser escolhidos os reis. A nobreza não real, m ais num erosa, com preendia vários tipos de chefes e os cham ados “grandes hom ens livres”, para distingui-los do hom em livre com um , que geralm ente trabalhava o cam po. E, com o entre num erosos outros povos (os
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m andingas, os tucolores, os senufos, os dogons, os fulas, os tuaregues, os
bam baras,56 57 os songais, os m ossis e os bobôs, por exem plo), boa parte das atividades profissionais confinava-se e se herdava dentro de fam ílias endogâm icas, num sistem a sem elhante ao de castas.
Os ferreiros (cuj as m ulheres são, em m uitas partes, ceram istas), os j oalheiros, os curtidores, os alfaiates, os carpinteiros, os pescadores, os tecelões, os m úsicos, os griots (historiadores e j ograis) — a lista das ocupações castadas varia de grupo para grupo, m as os poetas e os ferreiros figuram em todas — perm aneciam com o fora da sociedade, indispensáveis, tem idos e desprezados. Os j alofos lhes cham avam nhenhos ou nienios. Não podiam casar nem ter relações sexuais fora de seu grupo. Aqui, era-lhes proibido com er na com panhia de um hom em livre ou até entrar na sua casa. Ali, não podiam beber a água do m esm o poço que os dem ais. Acolá, m oravam em bairros ou vilarej os separados. Talvez tivessem de ser m antidos apartados por causa do poder que detinham : um poder sobrenatural, que se fazia evidente ao transform arem o solo laterítico em instrum entos de ferro, ao fazerem obj etos com as árvores que abrigavam os espíritos, ao m udarem as form as do m undo e até das pessoas, um a vez que, entre vários povos, eram os ferreiros os que circuncidavam os m eninos, e suas m ulheres oleiras as que cortavam o clitóris das m eninas. Consideravam -se os seus ofícios perigosos — perigosos dem ais para o hom em com um , que deles devia m anter-se afastado. Por esta razão, o tipo de trabalho que fazia um nhenho estava vedado a quem não pertencesse à casta apropriada. Mas talvez o isolam ento social fosse tam bém a m aneira encontrada pelas aristocracias guerreiras para neutralizar a força política que tinham em potência os que, aos olhos dos dem ais, dom inavam o fogo, a m adeira ou a palavra. Em vez de um ferreiro-rei, tinham um ferreiro fora da sociedade, recluído em sua casta. Além disso, im pediam que a especialização dos ofícios m anuais se tornasse
socialm ente m ais im portante do que as labutas agrícolas.58
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André Álvares d’Alm ada, Francisco Lem os Coelho, Valentim
Fernandes61 e os dem ais portugueses tom aram os castados por j udeus, porque os viam segregados. E de tal m odo os j alofos, sereres e m andingas os tinham fora da sociedade, que os hom ens de casta não podiam pegar em arm as, ser m ortos nas guerras, nem , tam pouco, escravizados. De certa form a, poetas, m úsicos e artesãos conspurcavam o m undo. Por isso, os j alofos não enterravam os griots —
prática que persistiu até quase os nossos dias. 62 A fim de evitar que poluíssem o solo, m etiam -nos em árvores ocas, ou, não havendo oco nas árvores, nelas os dependuravam , conform e nos diz, lá do fim do século XVI, André Álvares d’Alm ada, e repete, cem anos depois, Francisco de Lem os Coelho, acrescentando que as árvores que serviam de sepulcro aos bardos se cham avam cabaceiras. Ainda que m antidos à parte pelo resto da com unidade, que os tinha por diferentes e, na m aioria dos casos (m as nem sem pre), com o inferiores, m uitos artesãos enriqueciam , e alguns m enestréis, depositários da história do reino e das fam ílias reais, podiam exercer papéis políticos de relevo, com o o de porta-voz do soberano e seu representante, até m esm o nas relações com outros estados.
Entre os escravos, distinguiam -se os nascidos na casa do senhor dos recém -capturados ou adquiridos. E tanto o escravizado, ou j am say or, quanto o escravo de nascim ento, ou j am j uundu, diferençavam -se do escravo do rei, o tiedo, que, desde seu ingresso na com unidade, tinha destino próprio. Não se passava, a não ser raram ente, de escravo com um para o serviço do palácio, nem se fazia tam pouco o percurso às avessas.
Ao escravizado com um faltava qualquer am paro. Podia ser vendido com o sim ples m ercadoria. E m altratado. E m orto. À m edida, entretanto, que se passavam os anos, geralm ente m elhorava o tratam ento que recebia, e se ia integrando, ainda que de m odo im perfeito, na fam ília do senhor. Sua situação não chegava, porém , a ser sem elhante à do j am j uundu, que não podia ser vendido, a não ser em caso de delito grave. Um e outro viviam e trabalhavam na casa do am o, no seu com pound (o espaço cercado com o conj unto de habitações do chefe da fam ília, suas m ulheres, filhos, noras, netos e dem ais dependentes) ou em vilarej os agrícolas, sob o com ando de um feitor. Seria em aldeotas com o essas que serviriam os escravos que, segundo Cadam osto, sem eavam e colhiam para o burba, assim com o aqueles doados às m ulheres do rei, a fim de que
pudessem elas sustentar-se com o proveito que retiravam de suas glebas.63 Mesm o nessas viletas, a vida podia ser dura, se for verdade, com o anota Valentim Fernandes, que, de cada sete dias, o escravo com um labutava seis para
o senhor, tendo de m anter-se com apenas o trabalho de um .64
Já o tiedo era treinado nas tarefas de m anej o do estado ou nas artes das arm as. Os reis nele se apoiavam para neutralizar a força da aristocracia e das linhagens. Era, por isso, um escravo que se vestia de senhor: gozava das vantagens da proxim idade e até do exercício do poder — e m uitas vezes dele abusava. O que não se sabe é se j á havia, nos séculos XV e XVI, tiedos entre os
j alofos,65 pois os cronistas e viaj antes deles não falam . É possível, se não provável, que j á houvesse. Pois anotam os a presença, no Mali, do soldado-escravo e do escravo adm inistrador, desde o Trezentos. Desde o regresso de m ansa Musa de sua peregrinação a Meca. Teria ele trazido na bagagem essa prática, com um nos estados m uçulm anos. Com o o Tacrur com eçou a islam izar-se no século XI, não é de afastar-se que a houvesse tam bém adotado. Se assim tiver sido, seria difícil que o im pério j alofo, ao estabelecer-se, no século XII,
XIII66 67 ou XIV, não im itasse os dois vizinhos. Sobretudo se ele, com o j á se
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disse, se tiver fortalecido às expensas de Tacrur.
O burba, o braque, o dam el, o bur e o tenhe diziam -se m oslins. Boa parte da aristocracia, tam bém . Mas a m assa de hom ens livres perm anecia fiel às crenças antigas, sacrificando aos antepassados e cum prindo os ritos propiciatórios das
chuvas e da fertilidade. 69 Havia até quem se opusesse de frente ao islam ism o, com o os sacerdotes tradicionais, os griots e, m ais tarde, os tiedos. O m anter-se no poder exigia, por isso, desses reis m aom etanos que participassem de cerim ônias pagãs e procurassem equilibrar-se entre as exigências de seus correligionários e as de seus súditos anim istas. Pois, ao que tudo indica, a realeza j alofa não tinha origem nem se fundava no Islam e. Era m ais antiga, anterior à conversão. Com o tantos outros chefes africanos, tinham -se eles por seres sagrados, responsáveis pela felicidade da grei. E o ritual com que ascendiam ao poder nada guardava de m uçulm ano: um banho solene, durante o qual, em Ualo, o braque devia apanhar
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um peixe vivo com a m ão direita.
Essas práticas deviam desgostar os hom ens pios. Com o os ulem ás e m arabus, alguns deles árabes ou berberes, que viviam e pregavam nas cortes e nos vilarej os. Vários eram som ente clérigos, votados ao estudo, ao ensino, à cura dos
doentes e à oração. Seria esse o ideal dos diacanquês, 71 um a elite islâm ica de Diakha, em Macina, aparentada aos soninquês ou saracolés e aos m andingas, que se expandiu pela Senegâm bia, fundando com unidades ao longo das rotas de
com ércio.72 Os diacanquês opunham -se à guerra (e até m esm o à guerra santa) e tinham escravos que lhes faziam todos os trabalhos, a fim de que se pudessem dedicar às práticas piedosas, às atividades intelectuais e às andanças
m issionárias.73 Muitos, porém , desses hom ens de fé — provavelm ente a m aioria — m ercadej avam .
O islam ism o expandiu-se pelo Sael e pela savana graças, em boa parte, ao com ércio. Atravessou o Saara com as caravanas. Instalou-se onde quer que m ercadores m ouros, soninquês ou m andingas erguessem o m enor dos entrepostos. O Alcorão vinha j unto com as barras de sal, os fardos de tecidos, as fieiras de contas, as cordas de cauris, os obj etos de cobre, os cestos de tâm aras e as arm as. Ia-se, depois, paulatinam ente insinuando na vizinhança, graças ao prestígio de que gozavam as pequenas com unidades de forasteiros que, nas urbes e aldeias, erguiam suas casas e depósitos em bairros a eles reservados, ou ao longo dos cam inhos e onde estes se cruzavam , e nos pontos em que em bicavam as alm adias e as canoas, e onde houvesse o que com prar ou fosse possível vender.
Am paravam -se uns aos outros, os que viaj avam constantem ente e os que m oravam j unto aos m ercados. Com partilhavam a condição de com erciantes exilados, pertenciam em geral a um a só gente, exprim iam -se na m esm a língua e, sobretudo, seguiam um a religião que os singularizava no m eio em que tinham passado a viver. A gente local, devota de divindades ligadas a um pedaço de terra, a um a fonte, a um a gruta ou a um a árvore, via-os, com surpresa, quer fossem m arabus, sim ples com erciantes ou j untassem na m esm a pessoa o m ercador e o clérigo, carregar em suas andanças o seu deus dentro deles, e passava a considerá-los com o detentores de algum poder especial, cuj as rezas fortes se com plem entavam com o dom de fazer talism ãs eficazes. Com o os grigris, uns saquinhos de couro, contendo um papel com um trecho do Alcorão, os quais, pendurados ao pescoço ou costurados à roupa, protegiam contra a feitiçaria e as arm as inim igas. Ou com o um as tabuinhas, nas quais escreviam palavras divinas e depois lavavam , para dar de beber essa água a quem desej ava um a graça. Mas, além de oferecer esse tipo de am uleto, eles ainda rezavam para chover — a lei islâm ica consagra esse tipo de prece —, previam o futuro — o que é regulado pela doutrina — e adm inistravam m ezinhas aos enferm os.
Os m ercadores soninquês e m andingas estabeleceram várias redes de interm ediação com ercial que se estendia do Atlântico ao lago Chade, das praias e das florestas às estepes ressequidas do Sael, subindo e descendo o Senegal, o Níger, o Gâm bia e o Volta, e passando, por seus afluentes, de um a bacia à outra. Conform e a geografia e ao longo da história, tom aram distintos nom es, m as
costum am aparecer nos livros com o uângaras ou diulas,74 nom es genéricos que se davam aos m ercadores m uçulm anos de língua m andê (na parte leste da África Ocidental, uângara; na oeste, diula). (Ver o m apa “O Noroeste da África”.) No sentido estrito, uângara era aquele soninquê que, j á no século XII, era identificado com o itinerante e ligado ao im pério de Gana, e que, depois, sob o Mali e sob Songai, expandiu sua área de atuação desde o alto Níger até a Hauçalândia e às florestas acãs. Pouco a pouco, m uitos foram abandonando o soninquê e adotando um dialeto m andinga, o diula, que acabou a eles se aplicando e assum indo o significado de m ercador. O principal centro m ercantil dos diulas era Jené, assim com o se tinha Dia com o a m etrópole com ercial dos diacanquês. No Níger Médio, esses com erciantes pertenciam a um outro grupo étnico e eram conhecidos com o m arcas. Cham avam -se iarses entre os m ossis e
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dagom bas, e se expressavam no idiom a de seus hospedeiros, o m ore.
Com o quer que se denom inassem , esses com erciantes m uçulm anos recebiam , nas praias do deserto, os bens trazidos pelas cáfilas. Repartiam entre si as m ercadorias e as levavam para onde houvesse com pradores, nas suas próprias costas ou nas dos seus escravos, em canoas, no dorso de cam elos, no lom bo de burros e bois ou à cabeça de um a fieira de carregadores. E as iam distribuindo pelos entrepostos, ao longo dos cam inhos. Os encarregados desses depósitos escolhiam , então, a boa hora de colocá-las no m ercado. E de com prar os produtos locais, que iam fazer o percurso inverso, até os caravançarais à beira do Saara. Os entrepostos funcionavam tam bém com o hospedarias, casas de câm bio e centro de produção artesanal e agrícola. Neles, os com erciantes m ais ricos m antinham escravos a cultivar a terra e m anufaturavam têxteis, roupas bordadas, artigos de couro e de m etal.
No Códice Valentim Fernandes relata-se que o sal em barras do deserto era descarregado dos cam elos em Tom buctu e passava para alm adias, que subiam o rio até Jené. Ali, era trocado por ouro e levado à cabeça de escravos para a região das m inas. Quebrado em pedaços, que se faziam m enores de interm ediário em interm ediário, o sal era distribuído pela savana e chegava à
floresta.77 Em Valentim Fernandes, não há dúvida de que, a partir de Jené, todas as transações eram controladas pelos uângaras. Talvez aos seus inform antes tenha escapado que j á em Tom buctu o com ércio m udava de m ãos e passava dos árabes e berberes para os m andês. Eram estes que adquiriam o ouro em Bam buk, Buré, Lobi e no país acã. E a cola nas m atas do sul da atual Guiné-Conacri e da Serra Leoa. E o sorgo e o m ilhete com que abasteciam os nôm ades cam eleiros. E a pedra-um e de Bilm a. E os tecidos m arroquinos. E o cobre de Takedda e do Magrebe. E os bastões de ferro, as contas, as peles e os couros. Com pravam em grosso e distribuíam a varej o. Mascateando de aldeia em aldeia e percorrendo, incansáveis, as feiras dos arredores, com pravam em pequenino e j untavam as quantidades e os volum es para a venda a distância. “E se fiavam uns dos outros”, com o está no com pilador quinhentista, “sem conhecim entos nem escrituras, e sem testem unhas.” Form avam um a rede tão forte e resistente, que, se o devedor m orresse — e continuo a louvar-m e em Valentim Fernandes —, o seu filho ou herdeiro não deixaria de pagar a dívida.
Estam os diante de um com plexo sistem a de trocas assentado no crédito e na confiança. Que dava solidez, nesta m argem do deserto, ao com ércio transaariano. Mas este últim o não passaria, da perspectiva de quem habitava ao sul do deserto, de um a parcela de algo m uito m aior e m uito m ais antigo. Há sinais de que, antes que surgisse, com o cam elo, o tráfico entre as duas praias do Saara, j á se levava sal e peixe seco da costa atlântica para o Níger, j á se trocavam produtos agrícolas entre a savana e a floresta, j á se intercam biavam , na linha do Sael, bois por m ilhete. A arqueologia encontrou vestígios claros de que, desde o século III a.C., em Jené-Jeno, às m argens do Níger, se m andava buscar ferro de longe e se exportavam , não só para o deserto próxim o, m as tam bém rio abaixo e rio acim a, peixe seco, óleo de peixe, arroz, sorgo e m ilhos m iúdos, além de m anufaturas de barro, couro, palha, m adeira, algodão, ouro e
cobre. 78
Os caravaneiros azenegues e árabes beneficiaram -se dessa am pla rede de trocas a distância, que encontraram ao atravessar o Saara. E contribuíram , sem dúvida, para expandi-la, ao alterar os hábitos de consum o das elites, que se tornaram cada vez m ais dependentes, até m esm o para exercer o j ogo do poder, de bens conspícuos com o as lãs, os cetins e as sedas, as contas de vidro italianas, os cauris e as conchas raras, os obj etos de cobre e os arreios elaborados, e de instrum entos de guerra com o as espadas, os capacetes de m etal, as cotas de m alha e os cavalos. Para obtê-los e servir aos clientes poderosos, com pensava aos uângaras ir cada vez m ais longe e m ultiplicar, nesse espaço que incessantem ente se am pliava, os pontos de com pra dos produtos com boa dem anda na África do Norte. Pontos que, sendo de com pra, eram tam bém de venda.