A Manilha e o Libambo
Prefácio
Num a das m ais agudas denúncias das m isérias do escravism o, o conto “Pai contra m ãe”, Machado de Assis escreveu o seguinte: “A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, com o terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia tam bém a m áscara de folha de Flandres.” Ninguém precisaria lem brar a Machado de Assis que a escravidão não só levou consigo ofícios e aparelhos, m as tam bém m uitas das palavras que a eles se referiam . Assim , m anilha, que passou a aplicar-se sobretudo a outros obj etos. Assim , libam bo, que caiu em desuso.
Manilha é um bracelete de m etal, geralm ente de cobre ou latão, cuj a circunferência não se fecha inteiram ente, com o se fosse um “C”. Usava-se com o adorno nos braços ou nos tornozelos e sobretudo, talvez j á antes da chegada dos portugueses aos litorais africanos, com o m oeda. Variaria m uito de tam anho, peso e grossura: em alguns casos tornou-se tão pequena, que não servia de pulseira sequer para um a criança, sendo, contudo, suficientem ente grande para não ser confundida com um anel.
Já por libam bo se tinha a cadeia de ferro com que se j ungia um a fila de escravos pelo pescoço. Não era raro que o colar e a corrente de m etal fossem substituídos por m eios m ais antigos e m ais baratos, e em m uitas caravanas de cativos o que se via eram a corda, a tira de couro e a forquilha. Punha-se nesta, de frente, o pescoço de um aflito e se fechava a bifurcação com um pedaço de pau m uito bem am arrado. Num outro infeliz, a forqueta ia apoiar-se na nuca, fechando-se depois na goela. Am arravam -se os cabos das forquilhas, de m odo que os dois escravos não podiam separar-se, e cada dupla era ligada a duas outras por cordas que lhes am arravam as m ãos. Esse era um outro tipo de libam bo.
Não são, com certeza, essas duas palavras, m anilha e libam bo, as que m elhor evocam a África, nos séculos XVI e XVII. Eu as trouxe, contudo, para o título deste livro, porque o período em que se desenvolvem os enredos que nele conto está m arcado pelo surgim ento e a expansão do tráfico transatlântico de escravos — o tráfico que povoou o Brasil e pôs a África em nossas veias — e porque, no tecer destas páginas, a palavra “escravidão” serviu de lançadeira. Alguém observará que quase nunca lhe j untei adj etivos, porque penso que o nom e j á traz em si, ainda não cicatrizados, os lanhos da iniquidade, da violência, da hum ilhação e do sadism o. A palavra carrega tam bém a história dolorosíssim a de vários m ilênios, durante os quais, em quase todos os cantos do m undo, o m ais cruel e desum anizador sistem a de recrutar e controlar trabalho predom inou sobre todos os dem ais. Tão am pla foi sua vigência no espaço e no tem po, que hoj e todos, na Europa, na Ásia, na África e nas Am éricas, fora de grupos com o os pigm eus ou os bosquím anos, som os descendentes de escravos e de senhores e m ercadores de escravos.
Toda história tem o seu lado de som bra e o seu lado de sol. Neste livro, j ulgo que m e descuidei da parte clara, dos dias felizes e das horas criativas da vida africana. Censuro-m e por não m e ter dem orado na descrição dos inum eráveis estilos de arquitetura, escultura, cerâm ica, pintura e tecelagem , que m udam às vezes à distância de m enos de um dia de cam inho e tornam o continente africano riquíssim o de form as e texturas. Deixei de enum erar os variadíssim os tipos de tam bor, os m odos de neles percutir e a rica polirritm ia que sustentam . E de m encionar a sonoridade e a beleza de outros instrum entos de m úsica: dos olifantes, das flautas, das sanzas, das m arim bas, dos aguês, dos pangos, das harpas e das liras. Tam pouco referi a riqueza da literatura oral, das histórias que passam de geração em geração e dos racontos que cada qual inventa, e dos poem as que podem ser apenas um epigram a, ou um a exclam ação de louvor com não m ais de um a ou duas m etáforas, ou estender-se num ritm o lento e épico. Se disse que beirava o infinito a variedade de form as que tom avam as pequeninas peças de latão com que os acãs pesavam o ouro, não cuidei das caixinhas m etálicas nas quais o punham , nem tam pouco das outras, feitas, aqui, ali e m ais adiante, de couro, palha, barro, m adeira, cabaça, m arfim e osso: trabalhadas com tem po, cuidado e im aginação, serviam para guardar de tudo. Em diferentes paisagens, as m ãos se esm eravam no fabrico de bancos nos quais o hom em com um se sentava ou recostava com o se fosse um rei, e de bastões de recado, e de facas e m achadinhas rituais, e de escudos de couro, vim e e m adeira, e de braceletes e pentes de m arfim , e até m esm o de colheres, cuj as conchas em tudo sem elhantes sustentam cabos com form as que custam a repetir-se não só de um povo para outro, m as m uitas vezes dentro da m esm a aldeia.
Disto, da enorm e diversidade de m aneiras de fazer, pensar e viver, que torna a África várias Áfricas, creio que dei boa notícia. No seu dia a dia, um abexim pode ser tão diferente de um ij exá, e este de um pende, e um pende de um m andinga, e um m andinga de um soto, quanto um alem ão de um andaluz e um húngaro de um escocês. É bem verdade que há certos gestos, com portam entos, sím bolos, crenças e valores que são com uns a grandes áreas do continente ou a todo ele. É possível que este povo tenha aprendido com aquele a ter no gonguê ou no agogô o instrum ento com o qual se anuncia a presença do rei, e que venham do Egito islâm ico os grandes guarda-sóis que, em boa parte da África subsaariana, giram sobre as cabeças dos que se têm por grandes. Mas, se a história de Lat Sukaabe guarda parecença com a do Sundiata e a de outros reis fundadores, se tantos em blem as de poder e fé são sem elhantes e se até m esm o certas instituições políticas se repisam a grande distância, não há esquecer que as m ãos hum anas, por toda parte, repetem as m esm as form as essenciais para responder aos desafios das m esm as necessidades, com o m ostram os pouquíssim os contornos que pode ter a m oringa. Li, faz m uitos anos, j á não sei se em Hegel, que não passariam de trinta e poucos os enredos que nos cabe viver: o de Ulisses, o de Penélope, o de Fedra, o de Argan, o do Quixote, o de Sancho Pança, e assim por diante. Não seriam m ais num erosos os entrechos de que se fazem as histórias dos povos. A riqueza da existência não se deveria apenas à m escla dessas intrigas, m as tam bém às diferenças de alm a e de m om ento, e por isso Capitu e Bentinho não copiam nem negam Desdêm ona e Otelo. Tam pouco a história de Songai reproduz ou contradiz a do Mali ou a de Rom a, ainda que as três se desenhem com os traços do im pério.
Isso dito, não se espere deste livro m ais do que ele pretendeu ser: um esboço de história da África subsaariana, entre 1500 e 1700, com ênfase na escravidão e no com ércio de escravos. Com o A enxada e a lança, a que dá sequência, traz o que aprendi nos outros, e é o resultado de um dem orado diálogo com alguns autores de m eu tem po, m as sobretudo com aqueles que estavam vivos nos séculos XVI e XVII e anotaram , de bordo dos navios ou na solidão das feitorias e das cubatas de m issionários, o que viam , ouviam dizer, im aginavam e sentiam , ou reproduziram , m ais tarde, as lem branças do que viram , lhes contaram , im aginaram e sentiram . Ainda quando pre-conceituosos, e preconceituosos todos eram — e, aceitem os, som os —, e excessivam ente crédulos ou excessivam ente cépticos, ou ainda quando transbordavam de m á vontade ou j ulgavam com excessivo rigor hábitos que m om entaneam ente esqueciam serem tam bém com uns em sua terra natal — com o o francês que se indignava por se ver obrigado a dar um presente, ou dash, ao representante do rei num ancoradouro africano, sem se lem brar de que, em seu país, nada, naquela época, se resolvia sem a equivalente douceur ou o indispensável pot-de-vin —, os relatos que nos deixaram são preciosos, porque sabiam ver e tinham aprendido com seus m estres-escolas a registrar com frases e com traços o que viam . Não deixo de espantar-m e com a precisão de linguagem com que descrevem obj etos que conheço e paisagens onde estive, nem de fascinar-m e, ao pôr a atenção do olhar nas gravuras com que se m ultiplicaram os seus desenhos.
Ficarei feliz se o leitor encontrar este livro claro e útil. E ser-lhe-ei grato, se ele chegar à sua últim a frase com um núm ero suficiente de dúvidas, perguntas e discordâncias, capaz de anim á-lo a em brenhar-se pela história da África, ou sej a, pelo passado do Brasil que nela ficou. Enquanto isso, peço-lhe que tenha paciência para este parágrafo final, em que quase repito o que pus no prefácio à prim eira edição de A enxada e a lança. Aqui o leitor não encontrará grafado Nzinga, m as Jinga, que é com o, desde m enino, escrevo o nom e dessa rainha que, há séculos, habita o im aginário brasileiro. Assim com o punha em m eus cadernos escolares Napoleão e não Napoleón, era Jinga quem desafiava, nos m eus escritos e no terreno baldio próxim o à m inha casa em Fortaleza, o rei do Congo. Do Congo e não do Kongo. Não vej o por que grafar, nas form as em que aparecem em inglês, francês, suaíli ou iorubano, as palavras que, desde m uito, foram incorporadas ao nosso idiom a, ou nele têm trânsito. Quim bundo escreve-se Kibundu em quim bundo, m as não em português. E, há séculos, dizem os e grafam os zim babué ou zim baué, quando nos referim os aos am uralhados de pedra que deram o nom e ao novo país, não existindo razão para que lhe m udem os o acento. Não escrevo Deutsch, Österreich, Firenze, Français, Marseille e Polska, m as, sim , alem ão, Áustria, Florença, francês, Marselha e Polônia; por isso m e recuso a grafar Mbundu, Peul, Kaabu, Yoruba, Oy o e Kilwa, e fico com am bundo, fula ou fulo, Gabu, iorubá ou ioruba, Oió e Quíloa, palavras com antigo e am plo uso em português.
Rio de Janeiro, em 20 de m aio de 2001.